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OPINIÃO

Fronteiras

28 Fevereiro 2019 11:32:00


(Foto: Divulgação) 

Conversa amena, assuntos aleatórios, doces trivialidades: sorrisos, alegria, superficialidade. Temas demasiadamente pessoais, questões mal resolvidas, melindres: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Elogios (sinceros ou insinceros), raso cotidiano, regozijo (sincero ou insincero), contemporaneidade exacerbada: sorrisos, alegria, superficialidade. Críticas, aprofundamento de aflições, circunspecção, minuciosos relatórios do passado: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Erigimos fronteiras em nosso interior; frágeis fronteiras, embora o exército que treinemos esteja sempre pronto para nos defender. Esse exército - composto dos sentimentos mais duros e letais - veste a farda da disciplina e ostenta o patriotismo da nação em que se constitui cada um de nós. 

São esses sentimentos duros e letais - amor-próprio, orgulho, senso de justiça, anseio por liberdade, por realização -, que nos enrijecem e convocam os nossos exércitos, acionam as armaduras e impedem, rigorosamente, que outras pessoas (invasores) violem a fronteira que estabelecemos. 

Enquanto as investigações alheias sondarem o orvalho da grama de nossos campos pessoais haverá sorrisos, alegria, superficialidade. Natural, são nossos amigos, companheiros, não querem invadir território, medir forças. 

Caso as sondagens extrapolem secretas fronteiras, busquem estudar fraquezas, rachaduras, intentem estabelecer as suas regras na nossa nação - e, por conseguinte, dominar nossas mentalidades -, convocaremos o exército, quando então despontará o enrijecimento, maxilares de trincarão, armaduras serão ativadas e o inimigo compreenderá: o terreno está minado.  

Para nós, o alerta: são adversários da sanidade da nação, antagonistas, vieram para colonizar nossas emoções. 

Capacitamos o exército, escolhemos o melhor armamento, adquirimos munição. Passamos a vida protegendo nossas fronteiras. Ataques virão, é certo. Batalhas, guerras, conflitos, sangue, sentimentos vazados pelas feridas, calosos traumas renascidos, tudo pela audaciosa truculência da invasão da fronteira. 

Posso discordar da maioria das doutrinações que separam os homens entre amigos e inimigos, companheiros e adversários, bons e maus, mas endosso o pensamento de Nietzsche quando nele transparece a necessidade do enrijecimento e da dureza, em variadas fases e situações da vida. 

A benevolência degenerada consiste em permissão de rompimento da fronteira. A benevolência, quando erroneamente interpretada, nos transforma em carpetes para pés aproveitadores; e aí qualquer exército se arma e vai à luta. 


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