35anos barrra.png
35anos barrra.png
  
NAS MALHAS DO COTIDIANO

Foi Deus

04 Outubro 2018 10:47:00

É irônico como os momentos mais cruéis da vida são também os mais bizarros. Isso deve acontecer porque chega um dia em que percebemos que sofrer reiteradamente, sem trégua, se tornou tão patético que não é mais acreditável; aí se torna risível, de um riso amargo, mas ainda assim, um riso, uma vez que o choro superou todas as cotas que lhe seriam permitidas. 

Há vezes (e essas "vezes" podem não ser tão ocasionais quanto a palavra sugere. Podem ser "vezes" que se estendem por meses, anos, décadas) em que centenas de circunstâncias puxam a corda de um lado e você, sozinho, puxa do outro. E essas circunstâncias, além de serem muitas, são também pesos pesados em matéria de nos derrubar: fracasso, frustração, desilusão, desesperança, aflição, incompreensão, insegurança, medo. Cito apenas algumas, para não me tornar exaustiva, mas, lembrem-se: são centenas, talvez inumeráveis. 

Pois bem, parece triste, a princípio, não parece? Só que, na verdade, vai se tornando riso choroso se deparar com essa realidade, vai se tornando riso choroso para não se transformar em desespero profundo. 

Durante essa luta, você, a princípio, é aguerrido, determinado, está decidido a não soltar a corda, mesmo que suas mãos estejam cortadas, ainda que o sangue tenha lhe encharcado e tudo a seu redor. 

Depois você cai. Liberta a corda sem querer, simplesmente por não ter mais forças. Aí ouve a gargalhada desdenhosa do fracasso; a voz diabólica do medo falando ao seu ouvido "eu disse"; as mãos queimantes da aflição subindo pela sua garganta acima, até apertarem o cérebro. 

Então fica com raiva. Levanta. Dá um salto com um vigor que nem suspeitava que tivesse, e agarra a corda de novo. Esquece que os ferimentos das mãos podem infeccionar; esquece que, quanto mais tempo ficar puxando a corda, mais cicatrizes vão surgir; esquece que vários ligamentos foram rompidos, diante de tanto empenho sem solução. Esquece. Só lembra do desdém dos que puxam do lado de lá. E tem ódio deles. 




Movido por esse ódio, prossegue. E prossegue mais. E passam dias, meses, anos, décadas. Você, sozinho, puxando daqui. Eles, em centenas, puxando de lá. Os pesos pesados contra você: o nada. O nada machucado, ainda por cima. O nada, que já era nada, acabado. 

Agora, depois de tanto tempo, depois de tantas feridas infeccionadas - e curadas não se sabe como e nem por quê -; depois de tanto cair, e levantar por orgulho; e cair de novo, e levantar por ódio; e cair novamente, e levantar não sabendo a razão, pois nenhum sentimento lhe resta; já não ouve a gargalhada desdenhosa do fracasso, a voz diabólica do medo e nem ao menos sente as mãos da aflição sobre você, porque, agora, não se importa mais com nada. Está insensível a tudo. Sabe que a guerra é perdida. E assim o foi desde o início. É então que olha para trás. 

Olha para trás e percebe que, segurando um pedacinho da corda (apenas o pedacinho que você deixou que Ele segurasse) está Deus. E Deus não faz esforço algum. Deus segura a corda com você, sorrindo. Você, pela sua falta de fé, só permitiu que Ele segurasse aquele mísero pedaço de corda.

Somente então você esquece de verdade. Mas não esquece mais de si mesmo. Esquece das centenas de execrações que agarram a corda do lado de lá, porque, eles sim, não são nada se comparados a quem está com você. 

Deus sorri mais uma vez, e você solta a corda. Solta a corda e sabe que vai voltar a puxá-la. Mas não agora. Agora você não aguenta. E, finalmente, admite que não aguenta. Solta a corda e, inesperadamente, é você quem olha com desprezo para o medo, a desesperança, a aflição e seus comparsas.   

Quando você solta, Deus, com um leve puxão, desmonta por inteiro todo o lixo do lado de lá. Tudo desmorona. Virá pó. Cinza. E só.

Você adormece. Adormece pelo sofrimento de tantos anos. Adormece pela exaustão. Mas adormece, sobretudo, pela tranquilidade tão nova de saber que não está sozinho. 

Antes de dormir completamente, contudo, ainda na vigília, escuta um suave murmurar nos seus ouvidos, ouvidos há tão pouco tempo torturados:

"A tua fé te salvou". 

JORNAL "A SEMANA"
Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida
89520-000  -  Curitibanos/SC  -  (49) 3245-1711