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FERIMENTOS

05 Julho 2018 08:00:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Ferimentos abertos nos mantêm cautelosos. Ferimentos abertos gemem. Ferimentos abertos sangram, ardem e impedem que outros sejam colocados no mesmo lugar. Enquanto a ferida estiver presente o motivo que a gerou também estará. Quanto mais tempo uma chaga persevera, mais tempo para consolidarmos o propósito de não reincidir em sua causa.  

Nossas fraquezas provocam ferimentos, a dor aumenta o efeito deles; o arrependimento, quanto mais amargo, mais eficaz; o remorso, quanto mais demorado, mais apto a nos transformar em sentinelas permanentes de nossos frágeis calcanhares.

Nem sempre é sábio destoar de axiomas, porém discordo daquele que diz que nos arrependemos mais do que não fizemos do que daquilo que fizemos. Para mim é a muleta dos insensatos; consolo único dos inconsequentes. Novas feridas são gestadas, diariamente, no útero bravio da atitude impensada, fecundado por um troglodita chamado impulso.

Feridas, muitas feridas, daquelas fundas, que machucam carne, expõem nervos e fazem verter o líquido vermelho da irracionalidade dificilmente se rasgam por abstenções. Feridas fundas se rasgam, sim, por ações tomadas no calor dos conceitos generalizados. Esses mesmos conceitos são incapazes da plena cicatrização. A plena cicatrização se efetua através de abstenções.

Abstenções, todavia, não deixam de ser atitudes calmas, estudadas, com minúcia calculadas: a água oxigenada para desinfetar, a pomada para cicatrizar e por fim ele, sempre ele, o curativo para evitar. O curativo em um ferimento é o símbolo máximo da abstenção: permita que o machucado respire, mas não admita que nada mais a ele se junte. Preserve-o.

Preserve-o ou vai demorar a fechar. Preserve-o ou pode infeccionar. Preserve-o ou nenhum cuidado vai bastar.

O curativo de nosso coração é a frieza, uma camada extra de gelo corta irresponsáveis excessos de calor. Julgados por sermos frios, muitas vezes nos sentimos culpados, mas ninguém nem imagina quantos metros de esparadrapo já aplicamos em nossos sangrentos corações. Olhando para nossos sorrisos forjados na necessidade de sobrevivência, ninguém desconfia o quão retalhado está nosso coração, o quanto ainda dói sempre que pulsa mais forte e esmigalha o filete protetor.

Para não ser acusada de contrariar em demasia o senso comum, me salvo a tempo do fogo eterno e levanto as mãos me redimindo, avisando que concordo com aquele ditado de que, quando existe um ferimento aberto, temos que redobrar os cuidados naquele local porque tudo converge para que seja ele o danificado por infortúnios.

No entanto, sendo inócuo colocarmos uma armadura diante do peito, ao menos não nos sintamos culpados por defender aquela camada gelada e salutar dentro de nós. Tudo isso para que, acautelados, não morramos esvaídos antes do tempo.


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