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Feito crianças

29 Novembro 2017 23:08:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Me intriga a expressão "chorou feito criança". Como se adultos não chorassem. Como se o privilégio da lástima vertida fosse apenas dos pequenos. O dito me inquieta porque talvez só as crianças possam livremente ter - ou admitir ter - sentimentos ou reações exacerbadas.

Crianças choram, geralmente, ao receberem um não dos pais. Os adultos derramam suas censuráveis lágrimas ao sofrerem com os repetidos nãos da vida. Alguns nãos proferidos pela vida cabem realmente só a ela, não há nada que possamos fazer - são irremediáveis, são a imponência, a prepotência, o poder misterioso que se agiganta e permanece, independente de nossa vontade.

Porém, outros tantos nãos já foram enfáticos sins que nós, por nossa negligência, omissão e descaso em relação aos sentimentos dos outros transformamos em amargos, intragáveis e indissociáveis nãos. Amargos pelas consequências: nem só as ações geram efeitos - as omissões também. Intragáveis pela culpa. Indissociáveis pelo arrependimento. Mas será mesmo que se pudéssemos retroceder no tempo faríamos de outra forma?

Nós mexemos, remodelamos e modificamos um belo sim, até deformá-lo. Até transformá-lo em indelével não. Então, feito crianças, culpamos outrem pela nossa palermice. Neste caso, imputamos culpa à vida, essa testa-de-ferro que nada tem com nossas reticências, nada tem com nossa preguiça de conquistar o que desejamos, nada tem com nossa incapacidade de sermos humildes.

Feito crianças, só admitimos que maltratamos o brinquedo depois que o vemos quebrado (e, por vezes, somos tão orgulhosos que nem assim admitimos). Adultos, esfacelamos sentimentos e depois lamentamos, porque permitimos que escorressem por entre nossos frouxos dedos algo valioso.

Há ainda os que se equiparam ainda mais às crianças e, de fato, encaram a todos como brinquedos, a tudo como brincadeira e nem lamentam tanto assim pela culpa: talvez esses nem consciência tenham, só vontade de brincar.

Para tentar entender o insucesso da causa (a omissão) e ensaiar uma tática para a compreensão do resultado (as lágrimas), conversei com um economista e um matemático. Um pouco de exatidão é como canja de galinha - não faz mal a ninguém. O entendido em economia me garantiu que mão aberta demais é sinônimo de falência. Me disse ainda que, embora sua profissão não esteja ligada ao lirismo, tem absoluta confiança de que as emoções guardam similaridade com essa comparação.

 O matemático foi lógico: "ajamos como adultos, enquanto é tempo. Para depois não chorarmos feito crianças".

Mas é claro que, para investigar profundamente o tema, precisei da literatura. Recorri ao infalível Rubem Alves, que certa vez questionou: "De que vale um homem ganhar o mundo todo se, para ganhá-lo, deixa a sua vida no presente escorrer por entre os dedos?".

Pensei a respeito enquanto assisti, reflexiva e solitária, ao pôr do sol.


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