Curitibanos,
logo35.png
a semana-logo.png
redes.jpg

Escritores não dormem

18 Janeiro 2018 00:02:00

Natália Sartor de Moraes


Foto: Divulgação/


Aprecio o silêncio interior; afinal, sempre gostamos do que é raro. A quietude da mente é inusual para mim, mas o silêncio dos sentimentos, esse, sim, é raro, raríssimo.  

A verdade é que não apenas aprecio, não apenas gosto, eu venero o silêncio, sou uma herege confessa no quesito idolatria a esse inelutável deus. Tenho um receio colossal de tudo que possa dele me afastar. E talvez somente o sono traga sossego completo (quando o subconsciente não me desafia através de sonhos e pesadelos).

Foi esse o principal motivo (o temor imbatível dos estrépitos emocionais) por que escrever não se demonstrava um ofício viável.

Explico: desde muito cedo a escrita despertou em mim - ou eu despertei para ela. O fato é que não foi chamado longínquo, vaga intuição; foi arrastamento, as palavras me pegaram à força: era escrever ou escrever. Escrevia, pois. Mas não era assim, uma rotina sã. Aos treze anos, acordava de madrugada para derramar no papel as ideias que efervesciam, isso quando elas me deixavam dormir.

Não quero parecer ingrata, mas já me revoltei, sim. Elas, as ideias, não tinham disciplina, eram crianças mimadas me pedindo atenção a todo o momento. E eu detesto falta de disciplina.

Minha relação com as palavras se tornou de afeição e fúria, insônia e estafa, sensação de estar no meu mundo e de perceber que o meu mundo era louco demais para mim. Se escritores não dormem, não quero ser escritora, pensava, ingênua que era. Hoje sei que não é o escritor que elege o ofício, é o ofício que o elege.

Portanto, Mario Vargas Llosa está com a razão quando afirma que um escritor não escolhe seus temas, são seus temas que o escolhem. Só que a questão toda não é assim tão simples; os temas são mais educados, às vezes pedem licença, mas o ato de saturar-se das letras se impõe: um escritor nunca deixa de escrever; ele pode até, por inúmeros motivos, jamais publicar uma linha de suas produções, jamais mostrar para alguém, jamais admitir que foi raptado pela escrita, mas parar definitivamente de esboçar seus desvarios, não.

Atualmente, sou uma sequestrada feliz. Continuo idolatrando o silêncio interno, mas me conformei com sua raridade a cada dia mais evidente. Já até consigo adiar as viagens emocionais, mas elas não aceitariam dilação indeterminada. Conversamos tão civilizadamente quanto as situações permitem e elas - as viagens - com frequência ainda exigem que eu leve papel e caneta para vivificar as incursões a que dão causa, me poupando quando acham que mereço.

Há meses, parece que meu grau de merecimento vem decrescendo com visibilidade espantosa. Quem sabe seja porque resolvi revelar o segredo de que escritores não dormem.


OculoseCia.gif
ConexaoMaster.gif


 

INFORMAÇÕES E CONTATO

Rua Daniel Moraes, 50, Bairro Nossa Senhora Aparecida - 89520-000 - Curitibanos/SC (49) 3245.1711

Copyright © 2015 A SEMANA EDITORA LTDA. Todos os direitos reservados.