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Entre exatidão e confusão

15 Março 2018 09:22:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

A trigonometria é o ramo da Matemática que, além de estudar a relação entre os lados e os ângulos do triângulo também tem uma missão fundamental: estabelecer o elemento desconhecido com base nos já conhecidos.  

Avaliando a exatidão da matéria constato que o elemento desconhecido seja o principal problema a ser solucionado, tanto na Matemática quanto na vida. Só que, ao contrário dos resultados peremptórios da ciência, na vida nem sempre encontramos elementos conhecidos. Por vezes, na vida temos a clara impressão de que tudo é desconhecido, de que não temos X para somar a X e chegar a alguma conclusão.

Se dois X somados levam à solução, na vida dois X somados levam à confusão. Fator conhecido: nascemos e morremos. Fatores desconhecidos: tudo entre esse meio tempo. Ao passo que na Matemática um triângulo é composto de três lados, na vida três problemas podem engendrar mil consequências. Se na Matemática uma raiz quadrada é o número que, multiplicado por ele mesmo, revele o resultado pretendido, na vida uma confusão multiplicada por ela mesma origina ansiedade a qual, presumo, seja bem mais complicada que a raiz quadrada de qualquer número.

Com condescendência observo crianças endoidecidas, na suave ilusão de que a maior celeuma de suas vidas será a Matemática, no alegre engano de que decorar a tabuada é tarefa árdua, no desespero abençoado de que o Teorema de Pitágoras vai ser o responsável por fulminar-lhe os corações.

Queria eu voltar àqueles tempos, crer em angústias miúdas, me debater em águas incapazes de afogar. Queria eu quebrar a cabeça para encontrar o real valor de X e quanto será Y elevado à centésima potência. Queria eu voltar a acreditar que a tabela do 7 vai me matar e que, se ela não o fizer, a do 8 o fará, com sucesso. Queria eu praticar um milhão de vezes a fórmula de Bhaskara e todas as outras, desde que, em troca, a vida aceitasse ser um pouquinho mais branda, um tantinho menos cruel. Queria eu ter o coração arrasado por fórmulas e não por decepções.

A Matemática pode até parecer difícil, mas com justa dedicação todos conseguimos atingir a nota mínima para passar de ano. Na vida nada se garante. Na vida, mesmo muita dedicação pode ser inócua. Na vida, o fato de termos que descobrir os elementos desconhecidos com base no também desconhecido por vezes estrangula nossas emoções e acinzenta a razão, porque, na vida, ao contrário da Matemática, não temos uma calculadora para nos salvar.


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