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Ecos do silêncio da natureza

15 Novembro 2018 10:26:00


(Foto: Divulgação)


Tão bonitas e tão acabadas. Murcharam. Findaram. Rápido para mim. No tempo exato da natureza. Aquelas flores rosadas, viçosas, com aparência de bela eternidade se foram. Estão esturricadas agora, nada as fará ressuscitar, é inútil.

Usei todas as técnicas para que continuassem comigo: remover a embalagem do arranjo; água, de tempos em tempos; local apropriado. Cada artimanha teve seu sucesso relativo.

Tirar a embalagem (também rosa, como um sonho de criança) fez com que as flores fossem libertas da asfixia, respirassem fora do catre. Para a planta, respirar livremente é o que, para nós, humanos, significa abrir os braços, sem algemas de qualquer espécie.

Regá-las lhes devolveu a vivacidade que a secura da rotina e o sol cáustico da necessidade de permanência impuseram àquelas flores, semelhantes ao crisântemo, porém ainda perfeitamente inominadas para mim. Só sei que foram companhia por alguns dias. E isso me basta.

Desconfio que esse efeito de regozijo nas plantas represente para o ser humano viver algo novo, impensável, desafiador. Algo que faça com que a seiva da vida flua de maneira mais natural por suas veias, encante o coração e fortaleça as esperanças.

Colocar aqueles retalhos de beleza em local adequado reequilibrou os frágeis organismos das minhas companheiras. Brisa suave, brandos raios de sol, frescor.

As flores, assim, respirando fora do catre, orvalhadas de promessas e vivendo em ambiente ideal - ambiente que satisfizesse seus ancestrais anseios de delicadeza selvagem - finalmente, mesmo depois de quase se entregarem às condições adversas, viveram. E como viveram.

Florescidas silhuetas, folhas mais largas, mais verdes, mais cheias. Pude notar um sorriso em cada miolo? Pude sentir vibrarem as pétalas? Pude aspirar perfume naquelas luminescências que, a princípio, nenhum aroma marcante teriam? Sonhei? Delirei? Não sei. Vivi, ao menos. Seja sonho ou realidade, vivi. Vivi na sintonia das amigas, que trouxeram cor à minha existência desbotada.

Fato é que, agora, nada mais pode ser feito. Permaneceram ao meu lado, enquanto puderam. Enquanto lhes permitiu sua peculiar constituição. Ficaram comigo por um tempo estendido, inclusive. Estendido através dos artifícios que elenquei. Mas agora estão irremediavelmente acabadas. Sua intensidade fluiu; volta ao éter a essência, à terra a matéria. Eu fico. A vida me quer, ainda. Quanto a elas, o prazo de validade é menor: venceram. Ou foram vencidas pelo tempo.

Fico, mas tomo para mim a experiência que tive com elas. Fico, mas refeita pela energia magnética que trouxeram. Fico, mas, agora, cada vez mais, buscando me emancipar dos laços asfixiantes, da aridez da rotina e da mortificante sensação de deslocamento. Fico, procurando me desfazer da revolta do fim e me preenchendo com a gratidão do ensinamento por elas silenciosamente ministrado. 

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