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Dos mirabolantes efeitos de se escrever histórias

14 Março 2019 13:31:00


(Divulgação) /

No sonho, eu era uma super-heroína. Uma super-heroína vestida de mulher-maravilha, porém, com os cabelos exuberantemente loiros. Olhos azul-escuros, corpo espetacular. De meu, apenas a altura. 

Essa super-heroína (no caso, eu), se chamava Madona e detinha uma chave. A chave era procurada pelo governo e ninguém no sonho teve a gentileza de me explicar por quê. 

Sei que a heroína corria de lá pra cá, de estado a estado, de fogo cruzado a fogo cruzado, escondendo a indigitada chave.  

Seria de um cofre, muitíssimo bem trancado, que armazenava a honestidade de grande parte dos políticos e, se alguém o abrisse, a honestidade, ágil, voltaria a habitá-los? Por isso o pavor do sumiço da chave? 

Para resguardá-la, a heroína foi conduzida a bizarras aventuras. Numa delas, invisível, dentro de um banco, precisava analisar os cheques. De novo, não teve uma abençoada voz etérea que me explicasse (ou melhor, à heroína) qual o propósito dessa espionagem. Suborno é em dinheiro vivo... desvios? Como ninguém explicou, não serei eu a cogitar; afinal, fui jogada no sonho para defender a chave, não o motivo. 

Depois, a heroína saiu do banco e foi direto para uma floresta, não se sabe como, se sabe apenas o porquê: para proteger a bendita chave. Agora, como eu disse, qual a razão, não se sabe, também. 

Na floresta, a heroína esqueceu que era Madona e se tornou Tarzan. Do nada, se dependurou em um cipó e, em segundos, estava do outro lado. Então, precisou cortar o cipó. Utilizou as unhas (Madona tinha superpoderes nelas). E essas minhas longas unhas que, enquanto mulher comum servem para quase nada, além da estética, serviram à super-heroína para cortar o cipó (que, àquela altura, era uma corda que a amarrava, também do nada). 

De repente, como em todo sonho de ação, chegou a hora do disfarce. A super-heroína virou uma menina de 17 anos. Surpresa das surpresas, era eu aos 17 anos! Não mais a mulher fascinante, mas essa criatura desajeitada que vos escreve todas as quintas-feiras, quase 10 anos mais jovem. 

Aportei na minha antiga casa, onde estavam dando uma festa (e isso é hora?). Além dos convidados, 3 militares. Eu, de casaco preto (no bolso, a chave), cabelos emaranhados. Da heroína preservava somente os olhos azuis (os quais evitei cruzar com os dos policiais).  

O Brasil do meu sonho tinha mais militares do que civis. Eram muitos, espalhados por toda a nação, pois nem sabiam onde a heroína (para eles, vilã) iria aparecer. Além do mais, não faziam ideia, óbvio, de que ela estaria tão disfarçada. 

Apesar da camuflagem, o risco de permanecer ali era imenso. Percebi que precisava me retirar. Discretamente, mostrei a chave à minha mãe. O Brasil todo sabia do desaparecimento. Ela entendeu, de imediato. Falou aos policiais que eu estava saindo para ir à escola (eu tinha 17 anos, lembrem). Eles acreditaram (era sonho, lembrem). Saí. Meu pai, sarcástico, ainda gritou para que eu fosse bem e voltasse logo. Minha mãe devia ter contado a verdade a ele, mas o danado sempre gostou de uma ceninha. 

No caminho, uma professora, dirigindo um Uno branco, me encontrou. Ofereceu carona. Levava duas crianças, no banco de trás. Aceitei o oferecimento. O trajeto até o próximo esconderijo seria longo e, até lá, corria o risco de ser revistada. Já tinha empregado o superpoder da invisibilidade uma vez, não poderia usá-lo novamente (droga de super-heroína). 

Ao entrar no carro, li nos olhos da professora que ela sabia sobre a chave. Aqueles olhos azuis crivados de superpoderes notaram, num instante. 

Ocorreu que, naquele momento, um dos policiais que estava na minha casa, sondando a festa, apareceu de moto, logo atrás de nós. Me viu (malditos vidros claros). Eu havia dito que iria sozinha para a escola. Achou suspeito, lógico. Nos seguiu. Pra ajudar, o Uno acusou a falta iminente de combustível. Paramos num posto. 

Tirei a chave do bolso. Pensei em entregá-la à professora, que tinha menos chances de passar por inspeção. Quando a estendi, contudo...

O que aconteceu, leitor? 

1- A chave caiu no chão e tivemos que procurá-la, sabendo que o policial estava a segundos de distância de nós? 

2- Uma das crianças gritou? 

3- O militar bateu no vidro? 

Não, leitor!

Eu dei uma de humana e, humanamente, 

ACORDEI!

Você acha que só você está decepcionado? 

Então imagine eu, que acordei sem superpoderes, com cabelos castanhos comuns, quase 10 anos mais velha do que quando no disfarce, corpo magrelo, olhos, além de marrons e não mais azuis, profundamente míopes.

E eu, leitor, não fiquei decepcionada? 

Fiquei ARRASADA!

Mas, como diante disso tinha muito trabalho a fazer, em vez de lamentar meu detestável regresso, passei uma hora rindo da desgraça e reconstituindo a história para contar a você.  

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