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NAS MALHAS DO COTIDIANO

Conselho da Clarice

27 Setembro 2018 11:11:00


(Foto: Divulgação)

Quando nada parece fazer sentido, sigo o conselho da Clarice Lispector e improviso um ato gratuito. Ato gratuito é aquele que, além de não custar, não trará (ao menos em uma primeira análise) nenhum benefício ou malefício. A gratuidade é tão absoluta que só improvisamos um ato desses quando sentimos que pouco temos a perder, quando passamos a duvidar de crenças antes irrefutáveis, quando percebemos que o nosso universo particular de certezas é, na verdade, um castelo de areia que desmorona um pouco a cada dia. 

Nos tempos de hoje, a ambição material faz tanto alarde que improvisar um ato gratuito afigura-se loucura, excentricidade; mais grave: capricho. Só que há momentos na vida em que não nos importamos mais com os rótulos que recebemos. Há momentos na vida em que ser apelidado de louco, excêntrico ou caprichoso é o único jeito para não ser nomeado infeliz. 

Antes louco do que infeliz. O problema é que, quase sempre, nos tornamos loucos porque já fomos muito infelizes. Para que não continuemos sendo é que considero válido improvisar o tal ato gratuito.

Assim, em um dia de incontornável tumulto emocional, saí, sem qualquer destino planejado ou itinerário previamente agendado. Simplesmente saí: de chinelos, cabelos assustados, olhando para baixo e chacoalhando as chaves de casa na mão, como se o tilintar pudesse despertar soluções em minha mente, como se o barulho de lar fosse persuadir meu coração a voltar a acreditar no que não acredita mais. 

No caminho encontro uma amiga. No caminho sempre existem amigos. Os amores desmanchados, quando temos sorte, desaparecem. Mas os amigos (que bom) sempre estão por aí. Os amigos são as inesperadas flores em nossas estradas pedregosas e incertas: quando achamos que nada de belo permanece, surge, milagrosamente, um amigo. 

A amiga a quem me refiro passeava com a filha, essa em um carrinho de bebê, vestida de maneira tão encantadora quanto o sol daquele dia; e o mesmo sol, que aos olhos de todos era maravilhoso, aos meus não foi capaz de suscitar grandes sentimentos, dado o meu invariável tempestuoso estado de ânimo.    

A amiga referiu-se, legitimamente orgulhosa, ao rápido crescimento de sua menina e à esperteza dela; falou ainda que planeja outro filho para daqui a três ou quatro anos; anseio que eu, ilhada em minha completa falta de instinto materno, não compreendi. 

Entretanto, contemplando aquela linda criança, fiz uma silenciosa prece para que ela, assim que crescesse um pouco, não cultivasse ilusões (pois o mundo certamente não as satisfaria); ou pensasse que a vida ira ser tão doce quanto o algodão cor-de-rosa que segurava (pois as pessoas certamente a amargariam). Que todas as crianças que hoje são contentes, quando adultos vão sofrer, alguém duvida?

Contudo, depois de caminhar por cinco ou seis minutos ao lado da amiga, ao voltar para minha habitual solidão, pude me rejubilar por, afinal, ter decidido improvisar um ato gratuito. Porque só desse modo fui impulsionada a sair, nem que fosse por instantes, do calabouço de desesperança que há muito me aprisiona e, triunfante, constatar: para algumas pessoas, ainda é possível ser feliz. 


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