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CALEIDOSCÓPIO

12 Julho 2018 14:05:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Não posso me deter. É olhar para um caleidoscópio e me pergunto se cada minúsculo pedaço colorido fosse uma dor transformada.  

O vermelho um coração esmagado, agora reabilitado.

O azul um olho cego de injustiça, agora esperançado.

O preto um líquido visguento de amargura, agora adoçado.

O amarelo um Brasil mais rico em honestidade, alado.

Girando e girando, iludindo olhares, confundindo retinas, pulsando e ardendo, sofrendo e gemendo, sorrindo e fazendo. Caleidoscópio.

Queria eu que minha vida toda, nossas vidas todas e todas as nossas misérias fossem esse caleidoscópio mágico no qual por vezes me encerro, quando a angústia é demasiada e os fantasmas se contorcem.

Queria eu que o vermelho do sangue martirizado um dia fosse tão brando que cessasse de vazar mágoas e derramasse somente alegrias.

Queria eu que o azul turbulento de um céu eternamente chuvoso se abrisse um tantinho, um pouquinho que fosse, no turquesa dos meus sonhos. Queria, aliás, que o amarelo da lembrança doída se convertesse em felicidade luminosa para me recordar de um tempo em que eu ainda tinha sonhos.

Queria que o preto, ah, o preto! Tão poderoso preto, tão soturno preto, voltasse a simbolizar somente o medo do escuro que eu sentia quando criança e fosse largando pela estrada - estrada marrom das lágrimas apodrecidas -, todo esse embargo que escraviza a garganta, todo esse sangue pisado no meio do peito, todo esse horror da mente que grita.

Queria pedir - contemplando o caleidoscópio e fingindo que pode me conceder desejos - que o branco e o preto se unissem, se juntassem também ao amarelo e ao vermelho, e mesmo ao marrom e ao azul e a todas as raças e credos e cores e traumas e dores, e a todas as alegrias e berros de aflição, e às loucuras várias e ao desamparo amanhecido, e aos corações em chamas; tudo se unisse em um caleidoscópio colorido pelas pinceladas furiosas do ódio, do amor, da tristeza e do terror.

Se unissem, nesse imaginário caleidoscópio construído pela mente atormentada de uma cronista, todos os choros contidos, os clamores trancados, as ofensas agudas, as mágoas incuráveis e o medo. Principalmente o medo se unisse a tudo. O medo de enlouquecer a tudo se unisse e convertesse esse irredutível aperto no peito em milhares de pedacinhos coloridos.

Pedacinhos coloridos de dor transformada.

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