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Avô de ninguém

21 Dezembro 2017 08:46:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Naquele momento ele não era o avô de ninguém. Tampouco o marido. Não era pai biológico ou filho, sequer tinha a liberdade de vestir outra cor, que não o vermelho. De barba falsa e tão branca e inocente quanto flocos de neve, um gorro meio torto sobre a cabeça idosa, ali estava o Papai Noel. Forçando a voz para parecer mais grave que o normal, o velhinho entretinha as crianças com balas e pirulitos, sorrisos e sonhos, canções e presentes.

Vi um carrinho de plástico, de formato simples, ser retirado da sacola que o personagem trazia sobre os ombros e entregue, com um sorriso, ao garoto miúdo que entrou no parque de diversões e foi postar-se à frente da cadeira enfeitada, na qual se acomodara o protagonista do Natal.

O menino observou atentamente as botas de lona preta que calçavam os pés de Noel. Em seguida, fitou com curiosidade o cinturão, também negro, que envolvia o estufado ventre. Mas foi no instante em que seus olhos se encontraram com os do ancião que disse com petulância:

- O que você faz?

Noel piscou, surpreso. Não respondeu. Em vez disso, deve ter se perguntado o mesmo que eu: onde estariam os pais do rapazinho?

- O que você faz? - tornou a inquirir o menino, a audácia pontuando cada palavra.

Condescendente, o personagem respondeu:

- Eu... dou presentes, distribuo doces. Aconselho crianças travessas... -a última frase veio acompanhada pelo dedo em riste de Noel, que o balançou diante do rosto cético do moleque.

- Eu quero saber o que faz de útil.

Foi um choque. Um ultraje. As crianças que esperavam na fila para tirar fotos com o velhinho começaram a choramingar: ele está ofendendo o Papai Noel? Não vai ganhar presente de Natal, vai, mãe? Os adultos investigaram, com os olhos, o paradeiro dos pais descuidados daquele garoto. Alguns velhos, que levavam os netos, sufocaram o riso, sendo calados por tapas discretos provenientes das mãos de suas esposas de cabelos azulados. Até as folhas das árvores que rodeavam o recanto do bom velhinho pareceram estacar. Paralisadas, mesmo diante do vento insistente.

- O que disse, meu filho?

- Não sou seu filho - respondeu o menino, de pronto. - Não sou nada seu. Quero saber o que faz de útil.

- Diga o presente que quer. Se for um bom menino, poderá recebê-lo.

A evasiva irritou a criança.

- Quero que pare de usar essas botas. E também esse coldre.

Pude notar que a taxatividade demonstrada na voz infantil assustou a muitos, enquanto outros sussurraram, impressionados. Várias crianças choraram com ímpeto, sendo levadas dali no colo dos pais.

- Isso não é um coldre. Não guardo nenhuma arma aqui. É apenas um cinto que mantém a barriga do Papai Noel sob controle.

- Enquanto você tenta manter a sua barriga falsa sob controle, a polícia utiliza o coldre como suporte para armas que silenciam bandidos. Usa botas para não fazer barulho em uma batida, ou para alcançar os locais de difícil acesso. Tenta manter o crime sob controle.

Silêncio. Policiais que vigiavam o parque cochicharam entre si: futuro policial. Enérgico o suficiente, poderia ser delegado. Incrível. Brilhante.

- Usaram essas botas para entrar no barraco da favela em que eu morava e a arma do coldre para exterminar o traficante que feria o meu pai - os olhos do garoto encheram-se de lágrimas amarguradas. - Meu pai está no hospital, tentando se recuperar das facadas. Minha mãe eu não conheço, dizem que fugiu dias depois do meu nascimento.

Num repente, a compreensão atingiu e sensibilizou a todos, como se um volumoso cobertor de mágoas apequenasse ainda mais o menino.

O Papai Noel fungou, tentando conter a própria emoção. Então disse, comovido:

- Não pretendo me equiparar aos homens corajosos que salvaram você e a sua família. Quero, tão somente, trazer um pouco de alegria aos Natais. A minha arma é o amor, e se ele não salva, pode curar, sabe?

Agora o pranto era unânime e silencioso, inclusive o do bom velhinho que, fixando os olhos aflitos do pequeno, prosseguiu, em tom suave:

- O mundo é cruel. Aprendeu isso muito cedo. Quantos anos você tem? - o rapazinho, numa primeira manifestação infantil, mostrou sete dedos e baixou os olhos, quando então uma lágrima solitária escorreu-lhe pelo rosto. - Quer ser policial?

- Quero salvar a vida das pessoas de bem - a sentença saiu embargada, mas convicta.

- Vai conseguir - garantiu Noel.

Um jovem policial se aproximou e agachou-se, até ficar próximo à altura do garoto, que encarou-o maravilhado.

- Isso é um coldre, não é? - questionou o infante, apontando para a tira preta de couro pouco abaixo da cintura do militar.

- É.

Quando um brilho de reconhecimento iluminou o rosto infantil, o menino enxugou as lágrimas com vigor:

- Você!

O líder da operação que invadira a favela na semana anterior fez o tradicional gesto de reverência, com a lateral da mão tocando a têmpora e asseverou:

- Às suas ordens!

O garoto abraçou o policial; em seguida, estendeu o outro braço para enlaçar o Papai Noel.

Em segundos, crianças correram e se juntaram ao abraço. Outras, como uma mola, pularam do colo dos pais e fizeram o mesmo. Pais e mães contemplaram a cena e choraram, riram, sentiram-se felizes, e tristes, indignados com as desigualdades sociais, e contentes com a ousadia do moleque, angustiados por seus traumas, e aliviados pelo início da libertação deles.

Mais tarde fiquei sabendo que o Papai Noel era um delegado aposentado. E acredito que naquele momento, assim como eu, ele também compreendeu a verdadeira essência do Natal: a cura da alma.


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