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Artificialidades propositais

01 Fevereiro 2018 08:56:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


Estranho como as situações mais triviais patenteiam verdades profundas. A vida tem das suas artificialidades propositais, diria um amigo.

Conjeturando acerca das artificialidades propositais, perlustrava a geladeira e o armário com o intento de descobrir algo que pudesse às sacolas de lixo se juntar. Na minha artificial e profunda busca, encontrei: uma caixinha de chá. Vazia. Uma caixa de leite. Vazia. Um pacote de suco. Vazio. Aliando as findadas uniformidades à lembrança de um prato quebrado, imaginei todos aqueles nadas berrando para mim que tudo acaba: o perecível e o pretensamente durável. O visível e o invisível. Assim, quero crer que se a alegria falece, a tristeza também decida um dia pegar o rumo da adversária, nem que seja só por inveja.

Tudo foi se amontoando. Quietudes se transformando em lixo. Fins transmutados. Vozes que faliram. O cheio consumido. O nada comprovado. Imortais senhas do jamais desvendado. A felicidade, egoísta, guardando só para ela seu segredo. A agonia, gregária, jubilosa por ser privilégio universal.

Não sei se vocês também filosofam enquanto procuram por inutilidades para jogar fora. Se filosofam, vão entender o quanto uma fruta azeda me deprimiu. Sim, porque as frutas, assim como as pessoas, azedam quando são sistematicamente deixadas de lado.

Impossível contar (que bom que não tentamos) quantas vezes nos sentimos a caixa vazia, o pacote oco, a figuração do menoscabo virando refugo, o entulho microscópico se misturando a outros melancólicos rejeitos, a fruta que com amargura se permite apodrecer. Quando nos damos conta de que variados setores de convivência - sob o pretexto cínico de nos desbravar - nos sugaram, cada um a seu modo, um a um se fartaram, até que nos secaram, furtaram a nossa fé e, no final, deixaram um vácuo para (não) contar história.

Talvez não fosse por esta estrada nublada que o amigo quisesse que meus pensamentos trafegassem; mas hoje, e Deus permita que seja apenas hoje, tudo (inclusive as vitimadas artificialidades propositais) me levam a isso.

Perdão.

Assinado: Uma Caixa Vazia.


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