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Aqueles que nos magoam

19 Abril 2018 09:02:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

A mágoa é uma das consequências mais destruidoras de causas atrozes como a humilhação, a rejeição e, a pior de todas: a deliberada indiferença. A mágoa, antes de se tornar um sentimento, é um pensamento, uma ferida na mente, que depois mancha o coração. Porque, sim, a mágoa é uma ferida, uma mancha, uma dor, uma doença.  

Abençoados sejam os que nunca se sentiram magoados com ninguém. Superiores são vocês, espertos. Sagazes, pois se imunizam contra o erro e a ruindade alheia, não permitindo que lhes ofendam. Deixam que quem preparou a poção mortal a tome sozinho. Previnem-se do contágio.

Eu, fraca que sou, aproveito a ocasião para me tornar um pouco mais forte ao admitir uma grande fragilidade: me sinto magoada, sim. Como todos os magoados que se esforçam para melhorar, procuro perdoar. Se consigo? Nem sempre.

Na verdade, penso que aquele que causa sofrimento deva mesmo é se entender com a sua consciência, que é bem mais sábia do que eu; porém, temo que ainda mais intransigente.

Claro que eu acredito no poder do perdão, na supremacia dele e lógico que eu queria, sinceramente, seguir os passos de Cristo e pedir que Deus perdoe aqueles que não sabem o que fazem. O problema é que nem sempre acredito que os que magoam não sabem o que fazem. Então, meu pedido a Deus em relação a eles se torna menos nobre que o de Jesus; ainda assim, não é mau, apenas justo: "Pai, deixe que sua consciência o julgue. E que ela decrete se ele sabia ou não o que estava fazendo".

Não, não sou um primor de bondade. Inclusive, creio que justiça e bondade estejam frequentemente em dissonância. Entre ser boa e ser justa, prefiro a última opção.

Aqueles que nos magoam merecem a nossa isenção. Foram eles que criaram o problema. Eles que resolvam. Talvez esteja lavando as mãos - diferente de Pilatos que, quando o fez, sabia estar condenando um inocente; pois não podemos comparar a maldade de quem fere com a pureza de Jesus - mas certamente não darei os beijinhos falsos de Judas.

A consciência de muitos já está acusando neste momento, eu sei. Alguns até pararam a leitura para coçar a cabeça. Por que você foi fazer aquilo, hein? O que a pessoa te fez para ser tratada daquele jeito? Por que você não pode mais contar com ninguém? Magoou a todos os seus amigos de verdade e eles se afastaram? Ou será que você precisa mesmo ficar sozinho para bater um papo salutar com a megera... a tal da consciência? Ela vai te dar uns puxõezinhos de orelha, se o erro foi pequeno. Se foi mágoa brava, pode ser até que você peça para sumir, mas não esqueça: arrependimento não mata. Vai ter que viver e reparar.

Talvez nem seja apenas por autoconservação que nos distanciemos daqueles que nos magoam, mas para não estar perto para testemunhar o amargor do arrependimento deles.

Porque nós, os magoados bonzinhos, vendo-lhes o sofrimento, iríamos querer apaziguar de alguma forma. Só que ninguém se livra da própria consciência. Então seria inútil.

No final, concedo o perdão. Meu desejo mais profundo é sempre o de conceder o perdão. Infelizmente, não é certo que sentimentos feridos acompanhem palavras de harmonia. Entretanto, àqueles que me magoaram, garanto: não é pela minha espada que serão machucados. Prefiro que minhas mãos continuem limpas (ao contrário do buraco cheio de lixo que vocês têm no lugar do coração). Meu perdão vocês têm. Agora acertem-se com suas consciências.


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