Curitibanos,
35anos barrra.png
35anos barrra.png
  

APRENDEMOS

07 Junho 2018 09:42:00


(Foto: Divulgação) /


Natural e curativo lembrarmos do que nos fez feliz. Angustiante e poderoso recordarmos das feridas, principalmente quando ainda sangravam. Devemos nos demorar nas reminiscências dos sucessos? Precisamos lamentar a cicatriz?  

Faço muito dos dois, errada ou não. Admito, contudo, que me estendo mais nos horrores da alma, nos pavores do espírito e nos traumas da mente; talvez na intenção de evitá-los no futuro. Meu rosto tem uma trilha invisível das lágrimas que jamais secaram, dos terrores que retornaram, das perspectivas que estiolaram.

Querendo viver, nos equivocamos. Querendo vencer, nos agoniamos. Querendo saber, nos alienamos. Mas, sobretudo, muito além da vontade ou iniciativa, aprendemos. Aprender é remédio aplicado indistintamente. Injeção dolorida e obrigatória. A morte não é a única certeza da vida, ao lado dessa verdade, temos a de que aprenderemos.

Aprendemos que expectativas, quando não se cumprem, estrangulam algo dentro de nós. Por outro lado, ceticismos são incapazes de impulsionar.

Aprendemos que "Pra sempre" é o desfecho ideal para contos de fada e também o engano mais dilacerante para crédulos corações.

Aprendemos que uma dor imensa sempre pode ser superada por outra que julgamos insuportável, até que conhecemos outras monstruosas, e outras tantas corrosivas, e sobrevivemos a todas.

Aprendemos que idade é um número insignificante, que o distintivo da maturidade está nas atitudes.

Aprendemos que o caminho que nos parecia perfeito ontem pode não se descortinar assim amanhã. E que isso não é, necessariamente, volubilidade nossa, mas pode ser indício de crescimento.

Aprendemos que pessoas vão passar brevemente por nossas vidas com intensidade superior àquelas com quem convivemos por anos.

Aprendemos que mudar, mudar constantemente, nem sempre quer dizer que não somos firmes aos nossos propósitos. Pode até mesmo ser humildade, humildade de reconhecer que o que nos deixa tristes é fardo muito denso para carregar até o fim da vida.

Aprendemos que os "diferentes" e as "minorias", muitas vezes, são pessoas infinitamente melhores do que nós, porque modeladas pelo sofrimento de se sentirem sozinhas, porque ensinadas pela mão de fogo do isolamento.

Aprendemos que estar inseridos em nosso universo, naquilo que traz brilho ao semblante e entusiasmo à voz é privilégio que deposita alguma esperança em nossos fatigados espíritos.

Aprendemos que nada que achate nossa personalidade e nos faça sentir máquinas de sofrer é construtivo. Que nada que prometa exclusivamente bens materiais é confiável.

Aprendemos que entre bondade e burrice existe a distância de um milhão de quilômetros e que entre ser humilde e se humilhar a lonjura é ainda maior.

Aprendemos que há, sim, diferença entre sinceridade e dizer tudo o que pensa. E que nem tudo precisa ser partilhado. Temos nossos tesouros inacessíveis aos outros e nem por isso somos desonestos.

Aprendemos, finalmente, que não morremos somente quando param nossos órgãos. Morremos também (muito mais tragicamente) quando a nossa vida deixa de fazer sentido.


JORNAL "A SEMANA"
Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida
89520-000  -  Curitibanos/SC  -  (49) 3245-1711