ASemana 36 anos.png
ASemana 36 anos.png
  

Aos 90

21 Março 2019 11:02:00


(Foto: Divulgação) /

Tenho a estranha e irrefutável impressão de que somente me projetando no futuro poderei compreender questões que atualmente me afligem.

Sendo assim...

Caminho por uma trilha arborizada. Túnica branca, cabelos brancos. Tenho 90 anos. Olho para trás. Apenas olho, pois algo me diz que não posso voltar. O caminho atrás de mim é longo. À frente, curto. Bem curto. 

Tenho 90 anos e não posso voltar. 

Estou tonta. Desorientada. É que eu dormi e estava jovem para fazer o que queria. E hoje acordei me sentindo velha demais para lutar com o ardor necessário. 

Enquanto caminho, pés descalços, percebo que as aflições alimentadas por décadas pararam de doer. Afinal, cheguei a encruzilhadas na vida em que tive que escolher quem sobreviveria: elas ou eu. 

Querendo viver em plenitude, procurei seguir o basilar preceito: amai-vos e instrui-vos. Me instruí. Observei que o maior desafio e, ao mesmo tempo, a mais sublime missão do ser humano na Terra consiste em combater a ignorância. Se amei? 

No chão, vejo meia dúzia de amores; que hoje, só hoje, noto que não se fizeram merecedores de ser chamados assim... Se ainda resta algum em mim? Não vou contar, embora... Não vou contar. 

O que sei - e sei sem qualquer dúvida - é que a solidão me ensinou mais do que os falsos amores e as multidões. 

Grama úmida. Dia frio. Me encolho. Vou deixando para trás, bem para trás, as ilusões em forma de amor. Só então reflito que a minha vida toda foi um imenso quebra-cabeça. Ouvi dizer que existem quebra-cabeças com mais de 40 mil peças. Então a vida é um quebra-cabeça de 80 mil peças. 

A vantagem do brinquedo é que há um desenho (na tampa da caixa) da figura a ser montada. Pode-se seguir a ilustração. Tem-se uma direção. A vida, nem isso. Vamos construindo às cegas, no chute, no palpite. 

Quando estamos perto de terminar de montar, descobrimos: a peça central - aquela que tínhamos certeza de que estava no lugar adequado, na verdade não está. 

Se fosse só isso, tudo bem, o problema é que, diante disso, precisamos desmontar tudo e recomeçar. Pois todas as outras peças, seguindo a estrada do equívoco, também estão no lugar errado. 

Deve ser por esse motivo que, quando a aparência de correção se mostra impecável, algo no nosso íntimo acusa que não é. Sabemos, no íntimo sabemos: não é. Falta uma peça, só não se tem ideia de onde. 

Me debati. Hoje, analisando essas centenárias árvores, essas árvores maiores e mais belas do que eu, entendo o quanto me debati. Relembro como o meu espírito se engalfinhou consigo, com seus próprios medos, complexos e desajustes. 

Seguindo a trilha, sempre acompanhada pelas árvores e pela sinfonia dos pássaros, entendo que a natureza é muito maior do que as frivolidades humanas. Maior e, portanto, mais majestosa. Imergindo em sua majestade, nos libertamos dos nossos problemas mesquinhos. 

Porque a vida, 

A vida mesmo, 

A vida é muito mais. 

Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711