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Antes que o café esfrie

24 Janeiro 2019 10:28:00

A crônica é de 2017, porém, resgato-a, hoje, porque a amiga a quem nela me referi é a Fran (Franciele Gasparini). Que bom que conseguimos, de fato, efetivar esse café, que bom que ele não esfriou. Se, diante disso, o leitor me permite dar o meu parecer é que jamais permita que as pessoas especiais vão embora sem que, antes, tenham a certeza do quanto significam para você. E "ir" não consiste apenas na morte. "Ir" representa, sobretudo, a consequência da omissão, da negligência, do descaso. O "tanto faz" conduz almas à morte, amores ao término, sentimentos ao fim. O "tanto faz" leva tudo o que é bonito a morrer em vida. A Fran deixou uma lição suprema: intensidade. Procuro seguir à risca, apesar de ter consciência de que nunca vou chegar ao seu grau de maestria. Resta o consolo de não ter sido rasa para com uma mulher tão intensa. 

(Foto: Divulgação) /

Pus um pouco de café solúvel na xícara, outro tanto de açúcar e despejei água quente. Nada muito elaborado, mas, ainda assim, meu café. Enquanto o vapor saía em ondas, efusivo e aromático, me sentei no sofá e peguei o livro que deixara ali, o amigo leal, o companheiro onipresente, o amor que não negligencia. 

Quando estou lendo, sou dessas que precisam ser despertadas, acordadas com um estalar de dedos ou outro barulho qualquer, retirada da viagem interior que sempre faço ao permitir que meus olhos vaguem pelas páginas e a mente destrinche o enigma, enquanto o espírito, irrequieto, se sente finalmente compreendido e amado em uma linha, uma palavra.

E então o salutar barulho veio: a campainha do apartamento ao lado me arrancou do universo literário em que o homem arrependido se dava conta, tarde demais, da mulher que deixara ir. Tive a vaga impressão de que esquecera alguma coisa. Foram necessários vários segundos para que eu lembrasse: o café!

Havia esfriado. Totalmente. Com um sorriso encabulado, me recordei da amiga a quem prometo um café, qualquer dia desses. Semana passada me disse, com aquele seu jeito espirituoso, tão característico: olha que esse café vai esfriar.  

Ela é uma pessoa agradável de ter por perto, alegre, bondosa e otimista. Mas o fato é que sempre temos, ambas, muitos compromissos, muitas distâncias, muita pressa, muito trabalho. E tudo é muito, tudo é demasiado, tudo é em excesso. E o encontro para o café vai sendo transferido, adiado, prorrogado para um segundo tempo que pode nem chegar.

Na vida, deixamos que o café esfrie quando possuímos um ímpeto nobre, elevado, fulgurante; mas permitimos que se acalme, devagar, bem devagar, porque hoje não dá, de manhã não há tempo, à tarde é corrido, e à noite estamos cansados. No dia seguinte é gelado demais, no outro, fim de semana. Mês que vem é férias, a viagem já estava marcada. 

Deixamos que o café esfrie quando as flores de nossas esperanças estão pequenas, em botão, débeis, só que esquecemos de regá-las porque existem outras coisas para organizar antes, porque passamos por momentos complicados, porque não estamos preparados para viver o que pode ser apenas uma miragem. 

Deixamos que o café esfrie quando abdicamos do essencial e nos entregamos ao transitório. Ao entendermos que a essência é a única que nos preenche, queremos voltar a ela. Muitas vezes o café já está frio, como descobriu o homem arrependido do livro que eu lia antes de notar que o meu café também esfriava no balcão. 

O café frio é a escolha errada, o lamento tardio, as atitudes equivocadas por tanto tempo praticadas. O café frio é o ranço. O café frio pode ser também a consequência de um ato impensado, pode ser a palavra ofensiva, o descaso, a omissão. Nossa negligência é sempre fracasso anunciado, café frio. 

Com um suspiro, programei o micro-ondas para que desse um jeito na minha distração. Procurei remendar a displicência de uma maneira patética: requentando o café. 

Café requentado é ruim de beber, todo mundo sabe. De café requentado até o cheiro é péssimo e o aspecto, que não deveria modificar tanto, nos parece comoventemente sujo, decrépito, um riacho de lama. Ainda assim, tentamos consolar nossa omissão esquentando o bendito líquido negro que tantas vezes nos devolve a nós mesmos. 

Requentamos o café quando buscamos suturar nossa conduta leviana, como se as outras pessoas fossem roupas rasgadas. Requentamos o café quando constatamos que agimos com desleixo e procuramos consertar a situação, como consertaríamos um objeto velho e praticamente inútil. Requentamos o café quando damos justificativas tolas, desculpas infantis para comportamentos ainda mais estúpidos. Os remendos podem até ser de brocado, o conserto, bem-intencionado, a desculpa, cirurgicamente estudada, entretanto continuam todos tendo o gosto desagradável, o cheiro péssimo e o aspecto decrépito daquilo que são de verdade: café requentado. 

Naquele momento, decidi: não ia deixar que o café mais importante esfriasse: liguei para ela. Em poucos minutos, resolvemos. Finalmente vamos sair para tomar um café essa semana. Quente.

Quando o micro-ondas terminou seu trabalho bem-intencionado como um conserto, mas inútil feito um objeto velho eu me dirigi à pia, segurando a caneca já inclinada para me desfazer da água preta e adocicada que insultaria meu paladar. Porque para café requentado só existe um destino: ralo abaixo. 


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