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Amigos de caminhada

14 Junho 2018 09:17:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


Tenho conhecidos a quem chamo "amigos de caminhada". Com isso não pretendo ser filosófica ou poética; são pessoas que, por acaso, costumam caminhar nos mesmos horários e pelas mesmas rotas que eu.  

Ontem, percorrendo a rua que com mais alguns quilômetros me conduziria ao fim da cidade, topei com ela.

Vigorosa, evitava olhar para os lados, fixando um ponto invisível para mim, e muito provavelmente para ela também. Séria, tesa, determinada.

Apertei o passo. Vou alcançar. Alcancei. Temos pernas igualmente longas. Determinações igualmente férreas. Me olhou de soslaio: eu que, atrevida, caminhava a centímetros dela, ao lado.

Mesma idade. Mesma estatura. Mesmos olhos.

- Vai para onde? - perguntei, ousada.

- Para onde possa me encontrar - devolveu sem hesitação, me surpreendendo.

- Sabe onde fica esse lugar? - perquiri, tentando sustentar o diálogo insano.

- Não sei. Talvez ele não exista. Mas tento me convencer todos os dias de que existe. Acho que fica no fim do mundo.

Estranho. A voz dela também era muito parecida com a minha. Aparentando ponderação, carregava um quase imperceptível toque de amargura.

Revelei, ofegante - pois ambas mantínhamos um ritmo acelerado, como se não estivéssemos conversando - que, assim como ela, buscava um lugar, só não sabia qual. Contei que meus pés doíam há meses, anos; quem sabe sempre doeram os meus pobres pés, de tanto andar, andar e andar sem direção, torcendo para que a trilha de luz, em algum momento, depois de tanto se esconder, aparecesse à minha frente.

Me falou que os seus estavam machucados, cheios de calos dentro dos tênis gastos. Que andava em círculos, porque não se arriscaria a percorrer ruas desertas. Que sentia medo, terror, de ter que parar e voltar cedo para casa onde - ela sabia - não encontraria a saída. Só retornava quando a exaustão a advertia com ferocidade, porque então iria dormir e não mais pensaria naquilo até o dia seguinte, quando voltaria a caminhar. Disse entender as pessoas que ficam perambulando, falando sozinhas, gritando, fitando o céu, o chão, o nada, tudo na angústia de encontrar. De se encontrarem. Confessou que não estava longe disso. Contou que a cada dia suas caminhadas (a princípio uma desculpa tola para cuidar da saúde) estavam ficando mais extensas, pois enquanto andava conseguia nutrir a ilusão de que encontraria. De que se encontraria. A ilusão - incentivada pela endorfina - de que seus pés em movimento seriam clamores ao éter, pedidos fervorosos de pertencer a algo.

- E se um dia você chegasse ao fim do mundo?

Encolheu os ombros, confusa.

- Se um dia chegasse e descobrisse que a saída não está lá?

Ela pensou por um momento, decerto avaliando pela primeira vez a mirabolante questão. Quando falou seus olhos continuaram perdidos no horizonte - que ela queria acreditar promissor - e a voz definhara, ensopada de apatia.

- Se eu chegasse, e não encontrasse a saída, ao menos teria o que fazer com o que restasse da minha vida: voltar ao início.

Apressou-se a se distanciar de mim, galgou metros rapidamente. Em menos de um minuto não mais a vi. Foi se encontrar. Eu? Eu nunca teria pernas tão longas.


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