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Acreditar

11 Outubro 2018 09:04:00


(Foto: Divulgação)

Não vamos ter da vida o que queremos, mas o que merecemos. Por vezes o que merecemos é melhor do que aquilo que queremos, mas queremos o que queremos e não o que merecemos. Surge então aquele que, para mim, é um dos sentimentos mais desanimadores: a frustração.

Frustração é você querer tanto, mas tanto alguma coisa, querer com uma força tão poderosa que, quando não consegue, desacredita; desacredita e desencanta. Desacredita e desencanta de tudo. A frustração não sabe ser relativa, ela se expande, estende suas garras e vai aniquilando, sem distinção, as nossas esperanças.

A frustração, de início, é uma emoção aguda, de raiva, de ódio, de vingança; depois amaina: vira apatia. Frustração é tempestade: quanto mais severa, menos persiste. Pois o que é intenso sempre se transforma, tudo que é intenso é grande demais para um coração só.

A paixão, por exemplo, quanto mais intensa, mais rápido se transforma, ou vira amor ou acaba. A dor, quando satura até as entranhas, ou mata ou termina. As lágrimas, quando abundantes, ou afogam ou falecem. É por isso que me consola entender: no momento em que o fogo da frustração efetivar seu delirante trabalho de incendiar os mais belos sentimentos, restará a mudança. A frustração, apesar de nos parecer pétrea, é argila dentro de nós. Argila com necessidade de ser modelada.

Eu, péssima escultora que sou; pior: sofrivelmente imatura em questões sentimentais, até hoje nunca soube (e não imagino se saberei) modelar a frustração. 


"A frustração não sabe ser relativa, ela se expande,

estende suas garras e vai aniquilando, sem distinção, as nossas esperanças"


Sinto essa argila crescendo dentro do meu peito, me corroendo e gritando para ser trabalhada. O que faço eu? Paraliso. Tapo os ouvidos para não escutar seus berros. Dou umas batidas no peito (não de coragem, mas de covardia, como uma ordem agressiva para que a frustração pare de me atazanar) e fico apática. Se não aconteceu o que eu queria, sou impaciente e incrédula para esperar e acreditar que vá acontecer o que mereço.

É como disse antes: nós, os frustrados, somos também desacreditados. Somos incrédulos. E penso que nos tornamos assim porque somente neutralizando sentimentos abrasadores sofreremos menos. Se você acredita e não acontece: frustração. Se você não acredita e não acontece: tudo bem. E segue a vida.

O problema da incredulidade, do estoicismo e do controle impecável dos sentimentos é que deixamos de ser humanos. Nos tornamos programados. Não somos mais espontâneos. Ser humano dói. Mas ser máquina é amargo. Ser máquina é o nada mais amargo da humanidade.

A incredulidade pode até evitar que a dor nos penetre, mas impede também o contágio da alegria. Não alimentar expectativas é a única forma de não se frustrar e a maneira mais segura de ser um eterno ninguém para si mesmo.

Precisamos querer, precisamos acreditar, precisamos lutar, precisamos cair, precisamos nos machucar. Tentar de novo, machucar de novo, acreditar, querer. E cair. E querer. E acreditar. Um ciclo de dor e de alegria. Alegria e dor.

Precisamos de ferimentos e glórias para garantir nossa condição humana. E quem sabe assim, algum dia, atingiremos o estágio em que as frustrações representarão menor número, porque aquilo que queremos e aquilo que merecemos serão a mesma coisa.


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