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A porta, a chave e o tempo

29 Março 2018 08:58:00

Natália Sartor de Moraes



Quando se mora em condomínio o que mais se escuta, em qualquer hora do dia ou da noite, é o barulho de portas sendo abertas e fechadas. Em condomínio fechar a porta significa entrar em casa, descansar, estar a sós para energizar e, no período seguinte, apto para iniciar tudo de novo. Na vida a porta fechada é mais dolorosa. Na vida a porta fechada é o não, a batida na cara, o fim brutal. Na vida a porta fechada é a sensação de lacre eterno.  

Em condomínio a porta aberta é o sair por aí. Às vezes sair com destino determinado, às vezes sem rumo. Mas sempre sair. Deixar por instantes, horas ou dias o aconchego em direção à busca. Na vida porta aberta pode indicar passagem larga (aquela condenada por Cristo), que nos exortava à procura do acesso estreito. Na vida a porta aberta com frequência apregoa facilidades, pseudoliberdade. Porta aberta: o sim presentemente instigante, futuramente decepcionante.

Outra coisa que se ouve muito: o tilintar de chaves. Já até sei, só de ouvir, quais vizinhos usam - e quais não usam - chaveiro. Há dias em que, ficando bem quieta, posso distinguir respirações estressadas e bufos de exaustão. Me sinto satisfeita quando detecto um assobio de felicidade (mas isso é raro).

A chave de cada porta só será capaz de destrancar aquele apartamento, abrirá apenas um universo. Uma chave na vida, liberando uma angústia que seja, automaticamente nos conduz a vários mundos de ouro resguardados pela serenidade. Tivéssemos a sorte de encontrar uma chave para a vida e talvez os bufos de inquietação diminuíssem. Tivéssemos a sorte de achar uma, uma chavezinha, e quem sabe as canções mais alastradas fossem a dos assobios de alegria.

Entretanto, amiúde morremos sem encontrar a chave. Pior: sem nem ao menos buscá-la. Culpa de quem? Do tempo. Coitado do tempo, tudo culpa dele (ou de sua falta). Procurar a chave? Hoje? Não dá tempo! Preciso correr, tenho que me apressar, vou perder a hora. Tempo, seu demônio. Diabo de ponteiros. Esse bandido se transforma - sem ter quem o defenda - no único responsável por nossa insatisfação.

Só que aí chega o dia em que lembranças se queimam, como a igreja de interior que pegou fogo na semana passada. Ciclos se fecham. Memórias enfraquecem. Gente morre. Então nos culpamos. Agora sim, culpamos quem merece: nós mesmos. Porque o tempo, diabo de ponteiros, por fim demonstra que não cometeu crime passível de júri. Nós somos os homicidas dolosos da nossa própria vida.

Pudesse eu escolher, pediria uma porta aberta e estreita, uma fechada à aflição, uma chave da vida em mãos humanas e um minuto de plenitude nos braços do tempo.


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