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A morte de uma verdade

30 Agosto 2018 11:33:00


(Foto: Divulgação)/


Muito se discute acerca de o que é a verdade. Assim como todas as expressivas discussões, nunca se chega a uma conclusão. Penso que cada um tenha a sua verdade, construída de acordo com as suas crenças, experiências, medos, expectativas, observações e influência alheia - porque, infelizmente, muitas vezes edificamos as nossas verdades baseados na opinião dos outros. 

Nossos pensamentos, atitudes, projeções e fatos a que damos importância revelam a nossa verdade. E a nossa verdade somente deixa de o ser quando passa a não mais nos servir, não se encaixar aos novos valores e às remodelagens que de tempos em tempos - graças a uma palavra mágica chamada evolução - damos à existência. 

Só que nós, esses seres em constante modificação, não absorvemos os pensamentos remodelados assim, instantaneamente. Novos valores testam a nossa capacidade de resiliência. Novos valores gritam e esperneiam para que sejam fixados dentro de nós, porque novos valores, para nascerem, precisam antes assassinar a verdade antiga, sem o que não conquistarão o espaço deles. 

Quando uma verdade morre, morrem muitas outras, pois para estabelecer uma grande verdade indispensável se torna um amontoado de pequenas. Ao sustentarmos uma verdade, acreditamos automaticamente em tudo que a ela é correlato, já que cada ideia consagrada depende de outras centenas. É a mesma lógica de sustentabilidade que rege o universo interpessoal: necessitamos das pessoas não apenas para sobreviver, mas para algo muito maior: precisamos das pessoas para viver. 

Deve ser por isso que quando as circunstâncias, as mudanças forçadas ou as nossas próprias reflexões nos impulsionam a uma remodelagem interna, temos a sensação de que estamos morrendo e nascendo ao mesmo tempo: um ideal belo, cintilante e promissor nasce e já embrionário é assassino. Assassino do velho conceito. Mas essa é uma morte magnânima, tanto o assassino quanto o assassinado entendem e comungam da necessidade dos ciclos: objetivando o nascimento do novo, imperativa se torna a finitude do velho. 

Para que não existissem os dolorosos e impreteríveis ciclos, só mesmo se nos governasse uma verdade única. Afinal, já houve, em algum tempo - qualquer tempo - uma verdade única? Nunca houve. Embora tenham nos feito acreditar que nós - os rebeldes - desvirtuamos essa imaginária verdade. E se a "desvirtuamos" foi para que tivéssemos a liberdade (essa liberdade tão dura e essencial, tão difícil e doce, tão utópica e real) de arquitetar a nossa profunda, singela e sentida verdade. 

Porque aí, quando essa verdade também morrer, saberemos que somos capazes. Que somos capazes de construir tantas e tantas outras que se adéquem ao que somos, ou ao que estamos no momento. E não que sejamos capachos nas mãos do destino, aceitando a verdade que nos é atribuída pelo mundo. 

Um mundo que nem ao menos sabe quem somos, ou o que sentimos. 

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