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A emoção e suas ferramentas

06 Dezembro 2018 14:04:00


(Foto: Divulgação) /

É sabido que a emoção tem suas ferramentas etéreas: armadura, para evitar novos ferimentos; máscara, para forjar um sorriso quando ele precisa estar lá, e não está; medicamentos para cicatrizar um coração. Contudo, talvez o instrumento mais utilizado pela emoção seja mesmo a faca. Porque uma faca, quando afiada, tem três utilidades: cortar laços, abrir caminhos e receber murros. 

Diante de laços que não conseguimos desfazer, diante de caminhos cerrados, ainda assim podemos usar a faca: esmurrando-a. 

Uma faca da emoção, uma brilhante e bonita faca, terá lâmina sorridente e cabo customizado. Uma faca da emoção nos atrairá a usá-la, de algum modo. Se os dois primeiros forem impossíveis, ainda assim necessitamos do contato com a ferramenta. Como? Através das mãos, é claro.

Fechamos a mão, fechamos bem - apertamos as unhas contra a palma, na vã expectativa de defrontarmos e vencermos algo muito mais poderoso do que nós -, e então partimos. Vamos pra cima da faca. Um murro. Foi de raspão, não doeu. Outro murro: penetrou a superfície, feriu, sangrou. Terceiro: rasgou carne, machucou, ardeu. Quarto: sangra aos borbotões, a faca é valente e não está de brincadeira. Quinto: esse foi violento, indignado (quanto mais torturados, mais nos indignamos) parece ter atravessado a palma. Dói. Como dói. 

Paramos. Admitimos que nada podemos contra a faca. Ela sorri para nós. Seus dentes são agora vermelhos, manchados com nosso inocente sangue. A lâmina brilha, parece lamber o visgo que sobre ela cintila. 

Então é hora de usar a armadura por um tempo; a máscara, logo em seguida; por fim, os medicamentos de cicatrização. Demora para cicatrizar, agora temos muito medo da faca. Entretanto, ela é hipnótica. Ferramenta da emoção, é forte, magnética. Nossa mão, mesmo enfaixada, se sente chamada por ela. 

É lógico que queremos a faca para cortar laços do passado e abrir novos caminhos. É óbvio que o contato da nossa mão, para isso, deveria ser com o cabo e não com a lâmina. Só que a nossa vontade de usar o instrumento mais potente da emoção se torna tão intensa que não sabemos reconhecer a precipitação de nossos propósitos. Assim, vamos usar a faca de qualquer jeito. 

Nossa mão ainda dói. Pior: é a direita. Mas o desejo é maior. Precisamos da faca. Se a vida não nos permite cortar laços, se a mata de nossos caminhos ainda é demasiadamente fechada para ser vencida pela faca; então que se dane a sensatez: vamos de lâmina. E dá-lhe mais uma esmurrada.

O pano branco fica instantaneamente sujo. Dessa vez a angústia da frustração vem logo de primeira: estamos fracos, já fomos muito insultados pela faca. A mão lateja, da faixa escorre dor colorida de vermelho. 

E antes que uma artéria seja definitivamente rompida, voltamos para a armadura, para a máscara e para os medicamentos. Pois eles, embora sejam incapazes de nos fazer felizes, ao menos não oferecem riscos. 

A faca poderia ser a nossa libertação. Mas enquanto for mecanismo de sofrimento, melhor procurar esquecê-la. Esquecê-la antes que as nossas mãos estejam doentes demais para construir o que quer que seja. 


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