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É feio chorar

22 Fevereiro 2018 00:06:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Sentença que todo adulto sabe prolatar, dirigindo-a sem remorsos a uma criança prestes a abandonar tal condição: é feio chorar.  

É feio chorar é lema. Slogan impreterível. Chorar incomoda quem está próximo, embora alivie aquele que chora. Mas alguém se importa com a vítima das próprias emoções?

Chorar enquanto pequeno até se tolera, mas depois de uma certa idade? Como assim, adultos têm sentimentos? Adultos têm SENTIMENTOS? É feio chorar se o motivo for esse palavrão.

Chorar por joelhos ralados, queixos cortados, quedas e arranhões, tudo bem, é legítimo. O corpo sente dor, afinal. A alma? Se sente, não deve admitir. Nunca. Entornar nossas recrimináveis lágrimas, sozinhos, já é inconfessável. Desmanchar-se em público, então? Ridículo.

Fato é que desmanchamos, padecemos, desmoronamos. Viramos bicho quando a dor interna é muita: uivamos, rangemos os dentes, gememos, arranhamos e, sim: damos patadas, literalmente.

Ninguém vai achar estranho uma menina explodir a garganta de tanto gritar e se lamentar por não ter ganhado a mais recente versão da Barbie de Natal. Ninguém vai repreender um menino por chegar em casa chutando a porta porque seu time de futebol da escola perdeu. Natural.

Angústia funda, contudo, deve ser ocultada. Para sofrer se encerre no quarto e ligue o som para ninguém ouvir suas lamúrias. Se as lágrimas escoarem em horário impróprio (o que significa: sempre que alguém estiver por perto), minta que estava cortando cebola. Todo mundo vai adorar fingir que acredita nessa desculpa tão antiga quanto o sofrimento. Você mente, eles fingem. E camuflados nos tornamos todos. Ótimo. Melhor que chorar, inclusive.

Represas não devem romper. Os outros são intimidadores diques, impedindo que desastres aconteçam. Porque hoje a catástrofe maior não está atrelada ao (des) governo, nem à (des) ordem, muito menos à (des) educação dos jovens.

O caos, de verdade, transparece nos olhos e umedece o rosto. O caos, de verdade, inicia no espírito suportando tribulações que não devem ser ditas, muito menos vertidas. O caos são as emoções gotejantes. O caos só tem uma característica bonita, se parece com o mar: líquido e salgado.

Sensibilidade, sinônimo de feiura.

Emoção, tão terrível quanto a candura.

Consternação? Mal que não se cura.

Chorar é muito feio. Um horror.

Ainda que seja assim:

Eu quero conviver com gente feia, por favor!


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