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NAS MALHAS DO COTIDIANO

É ela quem escreve

20 Setembro 2018 08:59:00


(Foto: Divulgação) 

"A saudade escreveu e eu translado". A frase foi dita por um dos personagens do livro "Clara dos Anjos", do escritor Lima Barreto. Esse personagem atribuiu a autoria da frase a Camões, mas suspeito que a verdade nela contida pertença à humanidade. 

Há dias em que a saudade chega de mansinho e sussurra no ouvido da gente. É ela quem dita, a gente só transfere para o papel o que a razão suprema da melancolia quer proclamar. Há outros em que ela, feito megera selvagem, já vem de dentro, de dentro do peito, bem lá do fundo, rasgando carne e sentimentos, para poder emergir. 

Nos momentos de branda melancolia, de saudade sussurrada, a dor é mais tolerante, embora machuque também: fica batendo a intervalos cruelmente pouco espaçados, atormenta, fere os pensamentos e, quando resolve começar a sair, sobe à garganta; é então que tentamos engolir o nó que ali se forma. Incapazes disso, choramos. O choro é a saudade sangrenta convertida em líquido transparente, que vaza pelos olhos e alaga o rosto. 

Nos dias de saudade selvagem, seu rugido de fera indomesticável ensurdece, não sabemos o que se deforma mais: nossos tímpanos - afrontados pelo som da agonia -, ou nosso coração - esmagado nas mãos ferozes de um sentimento por muito tempo trancado. 

Os olhos, é claro, sofrem nos dois casos. Os olhos sempre sofrem: ora incendiados pelas lágrimas que em vão procuram conter, ora gemendo quando enfim as derramam. 

Naquele que escreve, por se entregar totalmente ao sentimento, tudo se dilacera: corpo, mente e coração. A saudade vem das vísceras e, ao chegar à garganta, é puro fel. O corpo enfraquece, a mente berra e o coração (mal suportando a si mesmo), influencia os dedos, que transladam as palavras dela: da dissimulada murmurante, da megera brutal; transladam para o papel o que a saudade quer. Mais: transferem para o papel o que a saudade ordena, em seu trono que a ninguém é dado insultar. 

Ninguém pode, antes: ninguém nem tente, insultar o trono da saudade. Ela, mesmo sozinha, sem trono e sem nada, é mais poderosa que nós, muito mais poderosa. E a saudade sussurrada, embora discreta e polida, tem tanta supremacia quanto aquela belicosa e animal. A saudade tudo pode; nós, pobres de nós; em face dela, nada podemos. Lutar contra a saudade é tão tolo quanto tentar debelar um furacão. Lutar contra a saudade é o mesmo que pensar que se pode controlar o brilho do sol ou a fúria de um temporal. A saudade é ainda mais independente que o curso da natureza, ainda mais pérfida que os desastres naturais. 

A saudade é soberana. É ela quem escreve. Eu? Miserável de mim: eu apenas translado.   

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