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21 Março 2019 11:02:00


(Foto: Divulgação) /

Tenho a estranha e irrefutável impressão de que somente me projetando no futuro poderei compreender questões que atualmente me afligem.

Sendo assim...

Caminho por uma trilha arborizada. Túnica branca, cabelos brancos. Tenho 90 anos. Olho para trás. Apenas olho, pois algo me diz que não posso voltar. O caminho atrás de mim é longo. À frente, curto. Bem curto. 

Tenho 90 anos e não posso voltar. 

Estou tonta. Desorientada. É que eu dormi e estava jovem para fazer o que queria. E hoje acordei me sentindo velha demais para lutar com o ardor necessário. 

Enquanto caminho, pés descalços, percebo que as aflições alimentadas por décadas pararam de doer. Afinal, cheguei a encruzilhadas na vida em que tive que escolher quem sobreviveria: elas ou eu. 

Querendo viver em plenitude, procurei seguir o basilar preceito: amai-vos e instrui-vos. Me instruí. Observei que o maior desafio e, ao mesmo tempo, a mais sublime missão do ser humano na Terra consiste em combater a ignorância. Se amei? 

No chão, vejo meia dúzia de amores; que hoje, só hoje, noto que não se fizeram merecedores de ser chamados assim... Se ainda resta algum em mim? Não vou contar, embora... Não vou contar. 

O que sei - e sei sem qualquer dúvida - é que a solidão me ensinou mais do que os falsos amores e as multidões. 

Grama úmida. Dia frio. Me encolho. Vou deixando para trás, bem para trás, as ilusões em forma de amor. Só então reflito que a minha vida toda foi um imenso quebra-cabeça. Ouvi dizer que existem quebra-cabeças com mais de 40 mil peças. Então a vida é um quebra-cabeça de 80 mil peças. 

A vantagem do brinquedo é que há um desenho (na tampa da caixa) da figura a ser montada. Pode-se seguir a ilustração. Tem-se uma direção. A vida, nem isso. Vamos construindo às cegas, no chute, no palpite. 

Quando estamos perto de terminar de montar, descobrimos: a peça central - aquela que tínhamos certeza de que estava no lugar adequado, na verdade não está. 

Se fosse só isso, tudo bem, o problema é que, diante disso, precisamos desmontar tudo e recomeçar. Pois todas as outras peças, seguindo a estrada do equívoco, também estão no lugar errado. 

Deve ser por esse motivo que, quando a aparência de correção se mostra impecável, algo no nosso íntimo acusa que não é. Sabemos, no íntimo sabemos: não é. Falta uma peça, só não se tem ideia de onde. 

Me debati. Hoje, analisando essas centenárias árvores, essas árvores maiores e mais belas do que eu, entendo o quanto me debati. Relembro como o meu espírito se engalfinhou consigo, com seus próprios medos, complexos e desajustes. 

Seguindo a trilha, sempre acompanhada pelas árvores e pela sinfonia dos pássaros, entendo que a natureza é muito maior do que as frivolidades humanas. Maior e, portanto, mais majestosa. Imergindo em sua majestade, nos libertamos dos nossos problemas mesquinhos. 

Porque a vida, 

A vida mesmo, 

A vida é muito mais. 


14 Março 2019 13:31:00


(Divulgação) /

No sonho, eu era uma super-heroína. Uma super-heroína vestida de mulher-maravilha, porém, com os cabelos exuberantemente loiros. Olhos azul-escuros, corpo espetacular. De meu, apenas a altura. 

Essa super-heroína (no caso, eu), se chamava Madona e detinha uma chave. A chave era procurada pelo governo e ninguém no sonho teve a gentileza de me explicar por quê. 

Sei que a heroína corria de lá pra cá, de estado a estado, de fogo cruzado a fogo cruzado, escondendo a indigitada chave.  

Seria de um cofre, muitíssimo bem trancado, que armazenava a honestidade de grande parte dos políticos e, se alguém o abrisse, a honestidade, ágil, voltaria a habitá-los? Por isso o pavor do sumiço da chave? 

Para resguardá-la, a heroína foi conduzida a bizarras aventuras. Numa delas, invisível, dentro de um banco, precisava analisar os cheques. De novo, não teve uma abençoada voz etérea que me explicasse (ou melhor, à heroína) qual o propósito dessa espionagem. Suborno é em dinheiro vivo... desvios? Como ninguém explicou, não serei eu a cogitar; afinal, fui jogada no sonho para defender a chave, não o motivo. 

Depois, a heroína saiu do banco e foi direto para uma floresta, não se sabe como, se sabe apenas o porquê: para proteger a bendita chave. Agora, como eu disse, qual a razão, não se sabe, também. 

Na floresta, a heroína esqueceu que era Madona e se tornou Tarzan. Do nada, se dependurou em um cipó e, em segundos, estava do outro lado. Então, precisou cortar o cipó. Utilizou as unhas (Madona tinha superpoderes nelas). E essas minhas longas unhas que, enquanto mulher comum servem para quase nada, além da estética, serviram à super-heroína para cortar o cipó (que, àquela altura, era uma corda que a amarrava, também do nada). 

De repente, como em todo sonho de ação, chegou a hora do disfarce. A super-heroína virou uma menina de 17 anos. Surpresa das surpresas, era eu aos 17 anos! Não mais a mulher fascinante, mas essa criatura desajeitada que vos escreve todas as quintas-feiras, quase 10 anos mais jovem. 

Aportei na minha antiga casa, onde estavam dando uma festa (e isso é hora?). Além dos convidados, 3 militares. Eu, de casaco preto (no bolso, a chave), cabelos emaranhados. Da heroína preservava somente os olhos azuis (os quais evitei cruzar com os dos policiais).  

O Brasil do meu sonho tinha mais militares do que civis. Eram muitos, espalhados por toda a nação, pois nem sabiam onde a heroína (para eles, vilã) iria aparecer. Além do mais, não faziam ideia, óbvio, de que ela estaria tão disfarçada. 

Apesar da camuflagem, o risco de permanecer ali era imenso. Percebi que precisava me retirar. Discretamente, mostrei a chave à minha mãe. O Brasil todo sabia do desaparecimento. Ela entendeu, de imediato. Falou aos policiais que eu estava saindo para ir à escola (eu tinha 17 anos, lembrem). Eles acreditaram (era sonho, lembrem). Saí. Meu pai, sarcástico, ainda gritou para que eu fosse bem e voltasse logo. Minha mãe devia ter contado a verdade a ele, mas o danado sempre gostou de uma ceninha. 

No caminho, uma professora, dirigindo um Uno branco, me encontrou. Ofereceu carona. Levava duas crianças, no banco de trás. Aceitei o oferecimento. O trajeto até o próximo esconderijo seria longo e, até lá, corria o risco de ser revistada. Já tinha empregado o superpoder da invisibilidade uma vez, não poderia usá-lo novamente (droga de super-heroína). 

Ao entrar no carro, li nos olhos da professora que ela sabia sobre a chave. Aqueles olhos azuis crivados de superpoderes notaram, num instante. 

Ocorreu que, naquele momento, um dos policiais que estava na minha casa, sondando a festa, apareceu de moto, logo atrás de nós. Me viu (malditos vidros claros). Eu havia dito que iria sozinha para a escola. Achou suspeito, lógico. Nos seguiu. Pra ajudar, o Uno acusou a falta iminente de combustível. Paramos num posto. 

Tirei a chave do bolso. Pensei em entregá-la à professora, que tinha menos chances de passar por inspeção. Quando a estendi, contudo...

O que aconteceu, leitor? 

1- A chave caiu no chão e tivemos que procurá-la, sabendo que o policial estava a segundos de distância de nós? 

2- Uma das crianças gritou? 

3- O militar bateu no vidro? 

Não, leitor!

Eu dei uma de humana e, humanamente, 

ACORDEI!

Você acha que só você está decepcionado? 

Então imagine eu, que acordei sem superpoderes, com cabelos castanhos comuns, quase 10 anos mais velha do que quando no disfarce, corpo magrelo, olhos, além de marrons e não mais azuis, profundamente míopes.

E eu, leitor, não fiquei decepcionada? 

Fiquei ARRASADA!

Mas, como diante disso tinha muito trabalho a fazer, em vez de lamentar meu detestável regresso, passei uma hora rindo da desgraça e reconstituindo a história para contar a você.  


07 Março 2019 13:52:00


(Foto: Divulgação) /

Aos 18, ter a mente de 30. Aos 30, ter o corpo dos 18. Aos 20, ter a experiência de 40. Aos 40, ter o tempo dos 20. Aos 50, ter a paciência de 80. Aos 80, ter a vivacidade dos 50. 

Antes de ter filhos, viajar com os filhos. Depois de ter filhos, torcer para que eles encontrem amigos que vão viajar com eles. Antes de ter filhos, achar bonitinho um chorinho. Depois de ter filhos, chorar mais do que eles quando choram. Antes de ter filhos, o desejo de passar a maior parte do tempo com a prole. Depois de ter filhos, arranjar toda sorte de atividades extra-lar para os profissionais mirins. 

Solteiro: casar. Casado: voltar a ser solteiro. Divorciado: conhecer alguém. Namorando: conhecer outro alguém. 

Mulher magra: engordar. Mulher gorda: emagrecer. Mulher de cabelos lisos: enrolar. Mulher de cabelos enrolados: alisar. Mulher loira: ficar morena. Mulher morena: ficar loira.

Aventureiro: acomodar. Acomodado: aventurar. Agitado: aquietar. Quieto: agitar. 

Muito trabalho: diminuir o ritmo. Pouco trabalho: aumentar o ritmo. Estressado: Spa, contemplação, natureza. Calmo: adrenalina, badalação, metrópole. Metrópole: interior. Interior: metrópole. 

Pobre: ser rico. Rico: ser milionário. Milionário: ser bilionário. Bilionário: voltar a ser pobre, que era quando as coisas tinham graça. 

Decidido: duvidar. Indeciso: decidir. Filosófico: ser objetivo. Objetivo: ser filosófico.

Quem viaja: descansar. Quem não viaja: conhecer novos lugares. 

Pais de jovens que não param em casa: que eles fiquem em casa. Pais de jovens que ficam em casa: que eles saiam de casa; já que jovens com problemas (qualquer espécie de problemas) os têm por esses dois únicos motivos: ou porque são pouco caseiros (se o fossem mais, tudo se ajeitaria), ou porque são muito caseiros (se o fossem menos, tudo se ajeitaria). 

Jovens com pais diligentes: que não sejam controladores. Jovens com pais negligentes: que lhes deem atenção. Jovens com pais jovens: que não digam que pai e filho parecem irmãos. Jovens com pais velhos: que chamem seus pais de jovens.

Não tem lugar no cemitério: quero ser enterrado! O crematório está saturado de serviço: quero ser cremado!

Porque, no final, é mesmo assim: morremos tendo vivido nas idades erradas; com os corpos errados; inclinações erradas; tempo e espaço errados; ideias erradas; condições social, econômica e familiar erradas.  

Tudo é tão torto. 

Que talvez o que assassine seja sempre

E sempre

A vida-não vivida

Do morto! 

 


 


OPINIÃO
28 Fevereiro 2019 11:32:00


(Foto: Divulgação) 

Conversa amena, assuntos aleatórios, doces trivialidades: sorrisos, alegria, superficialidade. Temas demasiadamente pessoais, questões mal resolvidas, melindres: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Elogios (sinceros ou insinceros), raso cotidiano, regozijo (sincero ou insincero), contemporaneidade exacerbada: sorrisos, alegria, superficialidade. Críticas, aprofundamento de aflições, circunspecção, minuciosos relatórios do passado: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Erigimos fronteiras em nosso interior; frágeis fronteiras, embora o exército que treinemos esteja sempre pronto para nos defender. Esse exército - composto dos sentimentos mais duros e letais - veste a farda da disciplina e ostenta o patriotismo da nação em que se constitui cada um de nós. 

São esses sentimentos duros e letais - amor-próprio, orgulho, senso de justiça, anseio por liberdade, por realização -, que nos enrijecem e convocam os nossos exércitos, acionam as armaduras e impedem, rigorosamente, que outras pessoas (invasores) violem a fronteira que estabelecemos. 

Enquanto as investigações alheias sondarem o orvalho da grama de nossos campos pessoais haverá sorrisos, alegria, superficialidade. Natural, são nossos amigos, companheiros, não querem invadir território, medir forças. 

Caso as sondagens extrapolem secretas fronteiras, busquem estudar fraquezas, rachaduras, intentem estabelecer as suas regras na nossa nação - e, por conseguinte, dominar nossas mentalidades -, convocaremos o exército, quando então despontará o enrijecimento, maxilares de trincarão, armaduras serão ativadas e o inimigo compreenderá: o terreno está minado.  

Para nós, o alerta: são adversários da sanidade da nação, antagonistas, vieram para colonizar nossas emoções. 

Capacitamos o exército, escolhemos o melhor armamento, adquirimos munição. Passamos a vida protegendo nossas fronteiras. Ataques virão, é certo. Batalhas, guerras, conflitos, sangue, sentimentos vazados pelas feridas, calosos traumas renascidos, tudo pela audaciosa truculência da invasão da fronteira. 

Posso discordar da maioria das doutrinações que separam os homens entre amigos e inimigos, companheiros e adversários, bons e maus, mas endosso o pensamento de Nietzsche quando nele transparece a necessidade do enrijecimento e da dureza, em variadas fases e situações da vida. 

A benevolência degenerada consiste em permissão de rompimento da fronteira. A benevolência, quando erroneamente interpretada, nos transforma em carpetes para pés aproveitadores; e aí qualquer exército se arma e vai à luta. 



21 Fevereiro 2019 16:38:00


(Foto: Divulgação) 

Tanta gente! Durante a vida conhecemos tantas pessoas, almas conturbadas; espíritos extraviados; corpos, pela vaidade, desorientados. 

Conhecemos pessoas nobres, de uma nobreza que ultrapassa condição social, de uma nobreza que se purifica nas atitudes, na postura diante das adversidades, na posição assumida. 

Conhecemos, igualmente, pessoas que não assumem uma posição, aquelas que creem que podem fixar residência em cima do muro. 

Ocorre que o indeciso pesa sobre a parede trepidante que constrói sob si, pesa tanto que o muro se parte e o indeciso, esborrachado no chão, fraturado, vai ainda assim procurar outro muro onde possa se refugiar. O indeciso nunca se contenta em cair uma só vez. O indeciso não aprende com uma só queda. 

Conhecemos pessoas fortes, com a sinceridade de todo o seu caráter demonstrada no olhar. Pessoas que nos transpõem com os olhos. Pessoas tão verdadeiras que esquadrinham nossa alma, nossa mente, nossas indefinições e nossos temores, tudo, tudo com a ascendência de sua força. Essas pessoas são naturalmente mágicas, pois conseguem fazer com que não nos sintamos invadidos, mas sejamos gratos. Eternamente gratos por suas escavações emocionais. 

Conhecemos, também, pessoas fracas. Pessoas abaixo da linha da mediocridade. Pessoas que não sabem sustentar a palavra empenhada, a emoção demonstrada e o que é pior: desconhecem a importância de robustecer a própria personalidade, talvez porque não tenham nenhuma. Ou nenhuma digna de ser notabilizada. 

Conhecemos pessoas belas, lindas mesmo, transcendendo a beleza avaliada em um primeiro instante. Pessoas inteiras: que conseguem que seus sentimentos, suas palavras e suas atitudes estejam sempre em consonância, um refletido no outro. Pessoas que não são cópias de outras, mas ressonâncias de si em qualquer lugar, situação ou momento.  

Conhecemos (ah, e como conhecemos!) pessoas feias, horríveis de verdade, muito além da feiura facilmente percebida. Pessoas fragmentadas: sentem uma coisa, tentam pulverizar o sentimento, maquinando outra, e agem, ainda, de uma terceira forma. Um pedaço delas em cada parte, uma falsidade em cada canto. Pessoas-boneco, pessoas-fantoche, pessoas (por suas próprias mãos) divididas em milhões de pedaços, cada um agindo de um modo, nenhum deles prestando para o que quer que seja.  

Conhecemos pessoas cuja presença nos ilumina, nos embriaga com os mais deliciosos néctares, pessoas raras, pessoas brilhantes, pessoas que nos assustam (maravilhosamente) com a sua espontaneidade impoluta. Pessoas que rejuvenescem nossas almas por vezes envelhecidas. Pessoas-luz. 

Conhecemos, entretanto, pessoas-sombra, cuja presença nos atemoriza, sobretudo pelo cruel pesadelo de nos tornarmos iguais a elas: pessoas que mentem, que dissimulam, que poluem a própria consciência e o nosso coração com o lixo que entesouram através da obscuridade de suas ações. Pessoas contaminadas que querem nos infectar, pessoas arrasadas que ambicionam nos devastar, pessoas-nada que almejam nos diminuir.    

A vida, pródiga, nos agracia com infindáveis espécies de pessoas. Queira o bom-senso que saibamos identificar as pessoas-muro, para valorizar as pessoas-nobreza. 

Queira a sensibilidade que saibamos detectar as pessoas-fraqueza, para nos deixarmos influenciar pelas pessoas-potência.

 Queiram os nossos olhos espirituais que saibamos visualizar as pessoas-fragmento, para nos envolvermos com as pessoas-plenitude.

Queira a vontade de ser luz que saibamos intuir as pessoas-brilho, para que possamos, assim, e finalmente, lamentar pelas pessoas-escuridão, porém jamais nos transformarmos numa repetição delas.  


14 Fevereiro 2019 11:26:00


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Impossível lembrar o ano exato. E o que são números, quando a profundidade do ensinamento sobrepuja precisões matemáticas? Eu devia ter 5, 8, 15 ou 20 anos, não sei. Talvez 22... ou 23, ou quem sabe foi ano passado, ou esse mesmo. Enquanto o mundo não acaba, de que importa se me refiro às profecias de seu término ou aos seus ciclos e reinícios?

Tudo bem. Façam de conta que foi ontem. Ou hoje. Ou me imaginem adolescente, ou criança. Imaginem da forma que vossos sábios corações solicitarem: estarão no caminho acertado, caso assim procedam. 

Estava eu (hoje, ontem, há dez anos, há vinte) admirando um imenso campo verde. De um lado, árvores: de flores, de frutos, de verdades, de questionamentos, de folhas, de cores, de incógnitas e de respostas. Árvores, enfim: o que vem da terra e se orgulha de suas raízes sempre é símbolo de completude. 

De outro, apenas o campo: limpo, aparentemente virgem, mas nem por isso menos aromatizado de promessas. O homem ao meu lado, assim como eu, contemplava as flores das árvores, antegozava o sabor de seus frutos, pressentia respostas e ouvia o eco imorredouro daquelas incógnitas. 

Pisávamos no solo virgem para poder refletir sobre o fecundo. Éramos intermediários. Eu, criança, intermediária, não se sabe do quê. Eu, adolescente, intermediária, não se sabe do quê. Eu, adulta, intermediária, sabe-se ainda menos do quê. 

O homem, me vendo erguer o olhar para alcançar a copa das árvores, perguntou por que me dava àquele esforço, uma vez que, sob meus pés, havia beleza tão ou mais promissora. Ali, comigo. Ali, em mim. Ali, abraçando-me os pés.

Muda, olhei-o de um jeito desconfiado. À minha calada rabugice, ele sorriu e replicou, pacientemente: "plantei dezenas de árvores, aqui, onde estamos. Vão crescer, vão florescer, vão frutificar, vão inquietar com perguntas tácitas, vão dar respostas letais às frívolas ânsias da humanidade; mas, por enquanto, são apenas sementes. Nem por isso inexistem. Nem por isso esse solo é virgem. Não existe terra virgem. Não existe mente virgem. Existem sementes, invisíveis aos olhos da matéria; na minha crença, porém, são plantas feitas, maduras. Já se desenvolveram. Porque vão".  

Me deu no que matutar. Fiquei mais quieta ainda, mais pensativa ainda. O Pequeno Príncipe, naquele instante, veio soprar aos meus ouvidos que o essencial é invisível para os olhos. Corroborando a universal verdade aprendida pelo menino, o homem, exibindo uma expressão de tranquila sabedoria, desafiou:

"Ainda duvida do poder do invisível?".

Olhei para meus pés: abaixo deles, logo abaixo deles.

O invisível.

O invisível que, porém, se prepara para germinar. 

O esplêndido invisível. 

O agora-invisível. 

O futuro-notável. 

O triunfo que os olhos não podem ver, mas que o espírito adivinha. 

A esperança 

Em sua origem. 

Porque não há 

Terra virgem.    


07 Fevereiro 2019 14:48:00


(Foto: Divulgação) /

São os monólogos interiores que me conduzem ao tema de cada escrito. Quando confusa em relação à hierarquia de importância dos assuntos, recordo a resposta que recebi de um colega ao conversarmos acerca dos meandros da escrita. 

"Sobre o que devo escrever?" Questionei eu. 

Ele: "Depende. O que você quer eternizar?"

Naquele dia, percebi: a escrita busca informar, fazer refletir, desvendar; mas procura, acima de tudo, eternizar. 

Submersa em onda especialmente saudosa, revisei textos antigos e cataloguei os principais temas que venho tentando, inconscientemente, eternizar.

Passados-novos, presentes não-vividos, futuros incendiados por incertezas, anarquia de sentimentos, explosões mentais, mudanças involuntárias, resistências, temores. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

Amizades duradouras, enganos perenes, certezas decepadas, saudades entranhadas, alegrias fugazes, sorrisos vacilantes, abraços da frieza, beijos da amargura. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

No transcurso dos anos, armazenando sentimentos, reescrevendo momentos, revivendo desencantamentos, sustentando crenças e descrenças, reavivando semblantes, assassinando esquecimentos, reativando memórias, lembrei-me de fases, esqueci-me de idades, desconsiderei preconceitos, vivi através das palavras o eco de verdades. Vivi o que a realidade, por tantas vezes, me tirou. 

Plantei flores de palavras, árvores de palavras, colhi frutos de palavras. Pisei na grama orvalhada e acolhedora das palavras. 

Alentei-me por palavras. Dividi-me por palavras. Conquistei paraísos por intermédio das palavras. Descerrei infernos com o escudo das palavras. Eternizei? Eternizei-me? 

Morri-me afogada de palavras. Renasci-me porque as palavras fizeram em mim respiração boca a boca, pensamento a pensamento, orelha a dedos, sentimento a sentimento. Eternizei? Eternizei-me? 

Senti-me em razão das palavras. Pensei-me sob o pálio das palavras. Mediquei-me pela seringa das palavras. Gritei o silêncio das palavras. Chorei palavras: de meus olhos ainda escorre tinta. Eternizei? Eternizei-me? 

Utilizei a pontuação para repensar histórias (vírgulas, muitas vírgulas). Emendei parágrafos em narrativas que acreditei chegadas ao fim. Arranquei páginas; com vigor, risquei frases; adicionei outras (à margem). Escrevi bilhetes; rasurei. 

Permiti, silenciosa e resignadamente, que outras pessoas colocassem pontos finais, que pessoas saíssem de um roteiro no qual sentiam não se encaixar. Que sei eu do filme dos outros? Calo-me, então. De meu, apenas outro ponto final, ao lado. Com mais um, vira reticência. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

Eternizei? Eternizei-me? 

No trajeto da vida, aliás, quem eternizou-se em mim? Em quem me eternizei? Quem foi parágrafo que se apagou por si mesmo, fazendo questão que assim o fosse? 

Quem foi a frase destacada, o enredo inesquecível, a leitura incansável, o contentamento narrativo? 

Quem quis eternizar-se? 

Quem quis partir? 

Quem escreveu ao meu lado? 

Quem, ao contrário, só fez o esforço de rasgar a página?   

Hoje noto que, de fato, meu amigo estava correto. Somente o passar do tempo nos mostra o que é certo. Escrever é eternizar. Nessa ingrata tarefa, acabamos por eternizar quem nunca desejou se eternizar em nós; eternizamos fatos que, sem o gigantismo das palavras, seriam insignificantes; eternizamos amores transformados em ódios; eternizamos ódios que se transformam em amores. 

E depois não tem mais jeito: está tudo lá, eternizado. Finais serenos, eternizados. Finais dolorosos, eternizados. Finais que nunca deveriam ter sido inícios, eternizados. 

Eternizei.

Eternizei-me?  


31 Janeiro 2019 11:44:00


(Divulgação) /

O terceiro estágio de desenvolvimento da borboleta - de crisálida, no interior do casulo - representa um aprisionante imperativo. O corpo da futura borboleta se forma no casulo, portanto, este, apesar de necessária proteção é, concomitantemente, carcereiro temporário. 

A beleza, o frescor, o colorido, a delicadeza; tudo ali: dentro do casulo. Tudo ali: oculto pelo casulo. Tudo ali: preservado pelo casulo. Tudo guardado, meticulosamente mantido, até que esteja preparado para o mundo. Até que esteja seguro para expor sua fantástica unicidade. 

O casulo restringe, o casulo encarcera, o casulo é elemento de impositiva paciência. Entretanto, o casulo também cuida, barra invasores, parasitas. Substancializa armadura, escudo, parede. 

Diante de todas as paradoxais utilidades, o casulo existe para o momento cabal: o seu próprio rompimento. 

Somente com o rompimento nasce a borboleta. Antes disso: preparação. Antes disso: projeção. Antes disso: expectativa. Melodia aguardada, beleza idealizada. 

Na vida, rompemos o casulo quando abandonamos a casca dos padrões - os padrões nos protegem da crítica, mas são os belicosos carcereiros das nossas vontades. 

Rompemos o casulo quando temos a coragem de dizer "não" a tudo o que nos prende à rotina, ao temor da inovação, à covardia que leva a alma à inanição. 

Rompemos o casulo quando deixamos de fazer medrosas deduções e, destemidos, vivemos. Porque a altiva sabedoria de viver o que, de início, parece utopia, é na verdade sublime libertação; é provar para si mesmo que a vida real não precisa se limitar ao que é fácil, razoável, calculado. Que a vida real pode, sim, (e deve) ter o marcante aroma da emoção e o forte senso da verdade de um rompimento de casulo. 

Tenhamos a coragem. 

Acreditemos que o contentamento não é miragem. 

Rompamos os casulos 

Das nossas crisálidas. 

Não nos adaptemos a

Existências

Pálidas. 

 


24 Janeiro 2019 10:28:00

A crônica é de 2017, porém, resgato-a, hoje, porque a amiga a quem nela me referi é a Fran (Franciele Gasparini). Que bom que conseguimos, de fato, efetivar esse café, que bom que ele não esfriou. Se, diante disso, o leitor me permite dar o meu parecer é que jamais permita que as pessoas especiais vão embora sem que, antes, tenham a certeza do quanto significam para você. E "ir" não consiste apenas na morte. "Ir" representa, sobretudo, a consequência da omissão, da negligência, do descaso. O "tanto faz" conduz almas à morte, amores ao término, sentimentos ao fim. O "tanto faz" leva tudo o que é bonito a morrer em vida. A Fran deixou uma lição suprema: intensidade. Procuro seguir à risca, apesar de ter consciência de que nunca vou chegar ao seu grau de maestria. Resta o consolo de não ter sido rasa para com uma mulher tão intensa. 

(Foto: Divulgação) /

Pus um pouco de café solúvel na xícara, outro tanto de açúcar e despejei água quente. Nada muito elaborado, mas, ainda assim, meu café. Enquanto o vapor saía em ondas, efusivo e aromático, me sentei no sofá e peguei o livro que deixara ali, o amigo leal, o companheiro onipresente, o amor que não negligencia. 

Quando estou lendo, sou dessas que precisam ser despertadas, acordadas com um estalar de dedos ou outro barulho qualquer, retirada da viagem interior que sempre faço ao permitir que meus olhos vaguem pelas páginas e a mente destrinche o enigma, enquanto o espírito, irrequieto, se sente finalmente compreendido e amado em uma linha, uma palavra.

E então o salutar barulho veio: a campainha do apartamento ao lado me arrancou do universo literário em que o homem arrependido se dava conta, tarde demais, da mulher que deixara ir. Tive a vaga impressão de que esquecera alguma coisa. Foram necessários vários segundos para que eu lembrasse: o café!

Havia esfriado. Totalmente. Com um sorriso encabulado, me recordei da amiga a quem prometo um café, qualquer dia desses. Semana passada me disse, com aquele seu jeito espirituoso, tão característico: olha que esse café vai esfriar.  

Ela é uma pessoa agradável de ter por perto, alegre, bondosa e otimista. Mas o fato é que sempre temos, ambas, muitos compromissos, muitas distâncias, muita pressa, muito trabalho. E tudo é muito, tudo é demasiado, tudo é em excesso. E o encontro para o café vai sendo transferido, adiado, prorrogado para um segundo tempo que pode nem chegar.

Na vida, deixamos que o café esfrie quando possuímos um ímpeto nobre, elevado, fulgurante; mas permitimos que se acalme, devagar, bem devagar, porque hoje não dá, de manhã não há tempo, à tarde é corrido, e à noite estamos cansados. No dia seguinte é gelado demais, no outro, fim de semana. Mês que vem é férias, a viagem já estava marcada. 

Deixamos que o café esfrie quando as flores de nossas esperanças estão pequenas, em botão, débeis, só que esquecemos de regá-las porque existem outras coisas para organizar antes, porque passamos por momentos complicados, porque não estamos preparados para viver o que pode ser apenas uma miragem. 

Deixamos que o café esfrie quando abdicamos do essencial e nos entregamos ao transitório. Ao entendermos que a essência é a única que nos preenche, queremos voltar a ela. Muitas vezes o café já está frio, como descobriu o homem arrependido do livro que eu lia antes de notar que o meu café também esfriava no balcão. 

O café frio é a escolha errada, o lamento tardio, as atitudes equivocadas por tanto tempo praticadas. O café frio é o ranço. O café frio pode ser também a consequência de um ato impensado, pode ser a palavra ofensiva, o descaso, a omissão. Nossa negligência é sempre fracasso anunciado, café frio. 

Com um suspiro, programei o micro-ondas para que desse um jeito na minha distração. Procurei remendar a displicência de uma maneira patética: requentando o café. 

Café requentado é ruim de beber, todo mundo sabe. De café requentado até o cheiro é péssimo e o aspecto, que não deveria modificar tanto, nos parece comoventemente sujo, decrépito, um riacho de lama. Ainda assim, tentamos consolar nossa omissão esquentando o bendito líquido negro que tantas vezes nos devolve a nós mesmos. 

Requentamos o café quando buscamos suturar nossa conduta leviana, como se as outras pessoas fossem roupas rasgadas. Requentamos o café quando constatamos que agimos com desleixo e procuramos consertar a situação, como consertaríamos um objeto velho e praticamente inútil. Requentamos o café quando damos justificativas tolas, desculpas infantis para comportamentos ainda mais estúpidos. Os remendos podem até ser de brocado, o conserto, bem-intencionado, a desculpa, cirurgicamente estudada, entretanto continuam todos tendo o gosto desagradável, o cheiro péssimo e o aspecto decrépito daquilo que são de verdade: café requentado. 

Naquele momento, decidi: não ia deixar que o café mais importante esfriasse: liguei para ela. Em poucos minutos, resolvemos. Finalmente vamos sair para tomar um café essa semana. Quente.

Quando o micro-ondas terminou seu trabalho bem-intencionado como um conserto, mas inútil feito um objeto velho eu me dirigi à pia, segurando a caneca já inclinada para me desfazer da água preta e adocicada que insultaria meu paladar. Porque para café requentado só existe um destino: ralo abaixo. 



17 Janeiro 2019 11:22:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Início de ano é tempo de construções. E que saibamos construir momentos vibrantes, intensos, verdadeiros. Que saibamos, além disso, desconstruir passados, sem o que serão impossíveis novas edificações dentro de nós.

Início de ano é tempo de sorrisos novos, para que adentremos o novo ano energizados pela certeza de oportunidades aproveitadas; ou, acaso não vividas por motivos exteriores à nossa vontade, que o sorriso ainda assim traga a marca da serenidade, da consciência imaculada.

Início de ano é tempo de fixar metas, engendrar planos, mas, acima de tudo, de agradecer se esses planos forem vencidos por eventos inesperados, que podem nos tornar muito mais felizes do que anteriores planejamentos.

Início de ano é tempo de descartar roupas velhas; e também ideias velhas. Porque é ainda mais insano continuar a viver uma ideia que não nos serve do que envergar uma roupa pequena. A roupa inadequada aperta o corpo. A ideia ultrapassada encolhe a alma.

Início de ano é tempo de atitudes. E de lucidez emocional para lidar com cada consequência delas advindas.

Início de ano é tempo, até mesmo, de radicalismos, talvez, desde que necessários para fulminar desgastes. Porque o desgaste é o começo de todas as enfermidades: materiais e imateriais. Desgaste é sinônimo de precipício. Pena que, às vezes, precisemos cair nele para perceber.

Início de ano é tempo, principalmente, de compreender que tudo no universo é energia. E que toda a energia emanada reverbera em algum lugar, algum coração, alguma mente. Que a energia supera a sensatez, mesmo porque, não há comparação entre a intensidade das duas.

Início de ano só não é tempo de perder amigos. Aliás, nunca é tempo de perder amigos. Quem sabe seja justamente por isso que, dentro de nós, eles jamais se apaguem, porque a mesma energia que supera a sensatez resiste também à morte.

A energia zomba das inquietações

Tuas.

A energia é tão autêntica quanto almas

Nuas.



10 Janeiro 2019 10:05:00


(Foto: Divulgação)

Tentamos sustentar o ingênuo diagnóstico de que o destino será constrangido a efetivar os nossos projetos. Projetamos o que nos parece melhor, consentâneo aos padrões, o que tem a aparência de tornar nossa vida mais fácil, mais confortável, mais feliz. 

Mas a felicidade, a felicidade mesmo, aquela que nos transforma em seres exultantes, realizados; aquela sensação forte, abrasadora, inestimável: esse sentimento bagunça nosso projeto. Esse sentimento bagunça tudo. 

Aí, vem a dúvida. A incerteza. Seguir o projeto ou seguir a felicidade? Ser honesto consigo ou com as projeções? Deve-se frustrar anteriores pactos emocionais para construir algo que, para que seja pleno, precisa, antes, de desconstruções? 

Projetamos, sonhamos, fantasiamos que seremos felizes de uma maneira, arbitrariamente escolhida. Então vem a felicidade. A felicidade de verdade. A força superior a você. A força que rejeita projetos. A força que basta por si mesma. 

Vem a felicidade, com seu jeito charmoso, envolvente, fatal. Vem a felicidade e ri do projeto. Vem a felicidade e faz baderna. Vem a felicidade e te faz vibrar. Vem a felicidade e finalmente te faz feliz. Vem a felicidade e zomba de frágeis razões. Vem a felicidade e detona o projeto, com um lento sorriso. Vem a felicidade e mostra quem é que tem o poder. 

Muitas vezes, negligenciamos a felicidade para viver o projeto. Procuramos nos convencer de que o que nos fará feliz será o planejado. Pois nunca aceitamos estar errados, queremos acertar sempre, sobre tudo. Mas a felicidade é rebelde, se emancipou dos planos. A felicidade chega e arrebata; acaso tentemos resistir a esse arrebatamento, estaremos lutando contra algo mais poderoso do que nós. 

Até onde vai essa luta? Até onde vale a pena? Até onde a felicidade suporta sistemáticas preterições; preterições em favor de algo muito menor do que ela? Afinal, o projeto sempre, independente de sua importância, de sua envergadura, de sua aparência de correção, sempre, SEMPRE será menor do que a felicidade. 

O projeto não nos completa. O projeto, quando alcançado, se mostra insuficiente, irracionalmente vazio, apesar de bonitinho, decorado com uma fitinha. E quem, ainda assim, se diminui para caber no projeto, sacrificando a felicidade (a felicidade jamais aceitaria rivais), esse macula a consciência e não consegue estabelecer algo verdadeiro dentro do coração, pois age contra seu próprio querer. 

Não é segredo que nada pode ser edificado sobre omissões de verdades e máculas de consciência. É desnecessário que venha a infelicidade e diga. Qualquer um sabe. 

Entretanto, a felicidade é um ente tão grande, tão luminoso, com asas tão potentes que, quando se sente menos relevante que o projeto, simplesmente voa. 

Voa e não volta.    

 


03 Janeiro 2019 11:38:00

Ideia para conversas filosóficas no táxi em 2019 (parte 2):


(Imagem: Divulgação)

- Tudo certo com a senhora? 

- Quem detém os conceitos do que é certo e do que é errado? E embora não aprecie ser chamada de senhora, essa palavra me faz pensar: acho que o mundo foi criado por uma mulher. Um mecanismo tão perfeito só pode ser fruto de uma mente feminina. Senhora, só no céu!

- Minha esposa iria adorar ouvir isso. E ai de mim se discordar. De onde vem? 

- De onde venho importa pouco, não é? Importa é para onde vou. O que nunca sei. 

- Entendo. Mas agora precisa saber. 

- Você entende? Você en-ten-de? Como entende a mim se nem eu sou capaz de me compreender? É um sábio! No entanto, diz que preciso saber. Isso leva a crer que me prende às teias da obrigação. Não gosto de me sentir presa. Nasci para a liberdade. 

- Sim. Só que estou conduzindo-a, necessariamente, a algum lugar, concorda?

- Está me conduzindo! Um sábio, sim, um sábio, reafirmo! Há quanto tempo nem eu a mim mesma conduzo? Ando perdida em pensamentos, atos, omissões. E o senhor, o senhor me conduz! Mas não gosto da expressão "necessariamente", me recorda das necessidades mudas da minha alma que, todavia, nesse momento gritam em meus ouvidos. Não sei se esse "algum lugar" que o senhor mencionou existe. Creio que apenas o nada exista. Por fim, perguntou se concordo: do mundo apenas discordo. Nada a mim se adéqua ou ressoa. 

- Sabe o bairro, ao menos? Com o nome do bairro, já temos o começo. 

- Se sei o bairro? Só sei que nada sei! Nem o bairro, nem a rua, nem o beco onde se perdeu a minha sanidade. Estou abrasada pela incerteza. Saber, oh, o saber! Diga lá, o senhor: o que sabe? Sabe, de verdade, sobre alguma coisa? Aliás, o que é a verdade? Nas mãos de quem se mantém? Com o bairro já temos o começo? Mas quem é que determina o que é o começo e o que é o fim? O que os separa? 

- Preciso de uma direção!

- Ah, eu também. Eu também. Deus nos guie. Aliás, falando em Deus...

- Olha, pelo amor Dele! Você fica aqui. Vou te deixar nessa livraria que vende livros exclusivamente de Filosofia. Vai adorar. 

- Filosofia? Eu ODEIO Filosofia!






27 Dezembro 2018 15:42:00


(Foto Divulgação) 

Ideia para conversas filosóficas no táxi em 2019:

- Para onde?

- Para um destino que me traga paz e encontro com o meu eu interior. 

- Bairro? 

- Serenidade Perene. 

- Rua? 

- Emanações Puras do Universo. 

- Número? 

- Para se atingir o infinito não há número, nobre taxista. 

- O senhor é daqui mesmo?

- Marte me mandou há alguns anos. Agora sou daqui, sim. 

- Não sente falta de casa? 

- Minha casa é a busca.

- Mas lá em Marte devem sentir saudades do senhor.

- Senhor é o regente do Universo, caro motorista. Eu sou apenas um marciano à procura da minha essência. 

- O marciano não deu atenção ao meu comentário. 

- Ah, sim. Perdão, perdão. Por vezes me perco em minhas famigeradas digressões. Pode ser que sintam ou, pode também ser que não. Nada sei de mim mesmo, que dirá dos outros? 

-Tem filhos?

- Sim, duas filhas: a Ausência de Minha Alma e a Incerteza de meu Coração. 

- Bonitos nomes. Não pensa em meninos?

- Pensar, eu penso. Mas só posso ter filhos com mulheres, então...

- Lá em Marte não se tem filhos pela força do pensamento?

- E perder o melhor de tudo? Não, não. Nem em Marte as leis seriam assim tão rígidas. 

- Sei que dizem que não existem filhos preferidos. Mas sabemos que, por mais leve que seja, sempre há uma preferência. Gosta mais da Ausência ou da Incerteza?

- De nenhuma das duas. Ambas são o grito silencioso de que não posso sustentá-las. Por isso me expulsaram de Marte. 

O taxista freia, com estrondo.

- Estou suportando suas lorotas há quase uma hora. Sabe em quanto está a corrida? 

- Em um valor certamente muito menor do que a sua bondade para com um pobre marciano expatriado. 

Ensandecido, o motorista sai do carro, arranca o marciano do banco de trás, agarra-lhe o colarinho, fuzila seus enormes e vitrificados olhos negros e garante:

- Você vai voltar para Marte. A-GO-RA!

Que passe 2018, que venha 2019, mas que nunca percamos a veia debochativa!

Um excelente final de ano a todos. 



20 Dezembro 2018 09:03:00


(Foto: Divulgação) /

A leitura nos impulsiona a análises profundas. A escrita, à reverberação delas. Não por acaso, nos últimos anos, esperar para ser atendida em um estabelecimento deixou de ser tormento para se tornar perquirição instigante. 

Gosto de imaginar a vida, as dores, as angústias, os triunfos e as inseguranças por trás de cada semblante aparentemente neutro. No interior de cada mente, aparentemente sã. Dentro de cada peito, aparentemente ileso. 

Dia chuvoso. Umidade inquietante. Pessoas nervosas. Uns olham no relógio, outros bufam, os mais discretos apenas batem com o pé. A maioria corre os dedos pela tela do celular. Eu observo. Porque nada melhor, nada mais inspirador, do que observar sem ser observada. 

Em momentos de profusa ansiedade, é quase inacreditável como as pessoas não veem quem está ao lado, não notam expressões alheias. Pior: não enxergam a si mesmas.  

Todos os setores da prefeitura congestionados; todas as cadeiras, ocupadas; todos os espaços saturados de pressa e de questões burocráticas urgentes, que não podem ser aguardadas, mas vão. O que me fez questionar até onde a urgência é mesmo urgência, e até onde estamos interessados em preservar a sanidade dos servidores. Estamos interessados? Até onde a empatia existe? Existe?

Transpirávamos. O calor, misturado ao barulho da chuva, ao constante entra-e-sai, à enxurrada de documentos, ao grunhir do triturador de papel e ao ressoar das senhas nos fazia inflamáveis. Traiçoeiros amálgamas. Como se não bastasse, a pressa, é claro, permeava cada tempo, cada espaço, cada cadeira, cada atendimento, cada coração. A pressa governava. Me concentrei em observar. Me concentrei em observar para não ser mais uma a explodir, como a senhora que, exaltada, discutia com um servidor. 

Reclamava por estar sendo transferida, sistematicamente, de setor para setor, sem resolução alguma. Reclamava da demora. Reclamava da incerteza. Reclamava da burocracia. Reclamava. Era estourada, logo vi. Não apenas naquelas circunstâncias, mas era estressada de natureza. A veia pulsante na têmpora e o enérgico inflar das narinas revelavam um temperamento irritadiço. 

Estaria assim por sofrimentos recentes ou passados e nunca digeridos? Se transformara em máquina devoradora de si mesma por rejeições, mágoas, autocensuras? E aquela vermelhidão assustadora, à beira de um ataque, já fora um dia a brancura angélica do comportamento equilibrado? Quando seu rosto fora manchado com a tinta da ira, derramada pela frustração?

O servidor, por outro lado, tentava debelar o acesso com uma submissão comovente. Ele, sim, embranquecera de todo, tive a impressão, por um instante veloz, de que até mesmo suas pupilas negras embranqueciam. Sua boca branca. Seus cabelos subitamente brancos. Cada fio convertido em representante de velhos cansaços. 

Estaria assim por medos enraizados, fracassos borbulhantes, tristeza emudecedora? 

Quando fora transmutado em labirinto de expatriações das próprias vontades? 

Robô do sistema? Ou refém de temores? 

A mulher sentada a meu lado suspirou. Um suspiro exaurido. Olhou para o relógio e disse estar mofando ali, há mais de quarenta minutos. Completamente insensível ao embate à sua frente, aos sentimentos sulfúricos da senhora irritada e do servidor amedrontado. Estaria assim, petrificada para outras necessidades que não as suas, por já ter sido esquecida demais? Adotara a técnica da surdez a outras vozes por senso de autoconservação? 

E eu? Por que hoje sou essa questionadora infatigável, esse ser humano com dificuldade de chegar a conclusões, mas, ainda assim, sequioso de conhecer? 

Talvez o que nesse Natal precisemos seja olhar com mais compreensão para quem está à nossa frente, ao nosso lado, atrás de nós e saber que, na verdade, ele tem uma razão para ser impulsivo, temeroso, frio, indagador. Um motivo novo, velho, intermediário, não importa. Ele tem um motivo. A nós cabe respeitar. E só jogar a primeira pedra quando ostentarmos a auréola da perfeição.

 


13 Dezembro 2018 11:33:00


(Foto: Divulgação) 

Me disse sofrer de náusea existencial. Falou que sentia a existência como um bolo negro e amargo no estômago, que crescia, que se expandia, dilacerando, gerando ânsia, fazendo subirem evaporações pútridas à garganta.

O bolo tinha espinhos na superfície. Espinhos que, a cada respiração, iam rasgando. O gosto metálico de sangue embebendo o palato. 

Apesar de se deparar com o diagnóstico de úlcera, sabia se tratar de náusea existencial.

Tudo isso me contou a jovem mulher que, naquele dia, sentada a meu lado em um banco da pracinha em frente à Matriz, revelou que os belos enfeites natalinos tocavam seus olhos, mas não chegavam ao coração. Porque no coração não havia mais espaço. Estava completamente tomado pela náusea: a náusea que crescia, crescia, irritava a garganta e nunca, nunca, era expelida pela boca. 

Um enjoo que se prolonga e jamais é libertado. 

"Não é na cabeça. Não é no coração. É no estômago! A desolação se concentra no estômago. Fatos mal digeridos, nunca metabolizados. Tivesse eu vomitado, ficado mal, entontecido; mas vomitado esse passado que não quer sair de mim, que se agarrou ao estômago e ali ficou: apertando, doendo, torturando. O passado não quer me libertar. E eu também não consigo me desfazer dele. Tem dias que sobe, sobe, se despedindo; me exasperando de aflição, mas se despedindo. 

Faz isso só para me ludibriar. Não vai embora. É o parasita da minha sonhada felicidade. É um parasita que está sugando as vísceras, consumindo a minha força. Um parasita que encarcera. Lidera. Impedindo que eu me nutra do presente".

Ela gritou, chorou; então enlaçou o ventre e disse que o incêndio emocional tinha feito o bolo avolumar-se. Que agora latejava e irradiava desespero por todo o corpo. Fluindo ácido. O passado, morto, incapaz de ressuscitar, entretanto aferrado ao túmulo, se decompunha dentro dela. Não aceitava findar. E ela não aceitava o seu término. Era uma obsessão recíproca. Um apego irracional. 

No ato de abraçar-se, abraçar-se desamparada e, em seguida, engolir a saliva com sofreguidão, percebi que, apesar da dor, apesar dos grilhões, ela não queria, de fato, soltar a bolha podre de dentro de si. Ela queria mantê-la ali até que, uma delas, finalmente, não suportasse mais e abandonasse a outra. 

Qual das duas: a bolha ou ela, seria a primeira a padecer, admitindo a finitude?


06 Dezembro 2018 14:04:00


(Foto: Divulgação) /

É sabido que a emoção tem suas ferramentas etéreas: armadura, para evitar novos ferimentos; máscara, para forjar um sorriso quando ele precisa estar lá, e não está; medicamentos para cicatrizar um coração. Contudo, talvez o instrumento mais utilizado pela emoção seja mesmo a faca. Porque uma faca, quando afiada, tem três utilidades: cortar laços, abrir caminhos e receber murros. 

Diante de laços que não conseguimos desfazer, diante de caminhos cerrados, ainda assim podemos usar a faca: esmurrando-a. 

Uma faca da emoção, uma brilhante e bonita faca, terá lâmina sorridente e cabo customizado. Uma faca da emoção nos atrairá a usá-la, de algum modo. Se os dois primeiros forem impossíveis, ainda assim necessitamos do contato com a ferramenta. Como? Através das mãos, é claro.

Fechamos a mão, fechamos bem - apertamos as unhas contra a palma, na vã expectativa de defrontarmos e vencermos algo muito mais poderoso do que nós -, e então partimos. Vamos pra cima da faca. Um murro. Foi de raspão, não doeu. Outro murro: penetrou a superfície, feriu, sangrou. Terceiro: rasgou carne, machucou, ardeu. Quarto: sangra aos borbotões, a faca é valente e não está de brincadeira. Quinto: esse foi violento, indignado (quanto mais torturados, mais nos indignamos) parece ter atravessado a palma. Dói. Como dói. 

Paramos. Admitimos que nada podemos contra a faca. Ela sorri para nós. Seus dentes são agora vermelhos, manchados com nosso inocente sangue. A lâmina brilha, parece lamber o visgo que sobre ela cintila. 

Então é hora de usar a armadura por um tempo; a máscara, logo em seguida; por fim, os medicamentos de cicatrização. Demora para cicatrizar, agora temos muito medo da faca. Entretanto, ela é hipnótica. Ferramenta da emoção, é forte, magnética. Nossa mão, mesmo enfaixada, se sente chamada por ela. 

É lógico que queremos a faca para cortar laços do passado e abrir novos caminhos. É óbvio que o contato da nossa mão, para isso, deveria ser com o cabo e não com a lâmina. Só que a nossa vontade de usar o instrumento mais potente da emoção se torna tão intensa que não sabemos reconhecer a precipitação de nossos propósitos. Assim, vamos usar a faca de qualquer jeito. 

Nossa mão ainda dói. Pior: é a direita. Mas o desejo é maior. Precisamos da faca. Se a vida não nos permite cortar laços, se a mata de nossos caminhos ainda é demasiadamente fechada para ser vencida pela faca; então que se dane a sensatez: vamos de lâmina. E dá-lhe mais uma esmurrada.

O pano branco fica instantaneamente sujo. Dessa vez a angústia da frustração vem logo de primeira: estamos fracos, já fomos muito insultados pela faca. A mão lateja, da faixa escorre dor colorida de vermelho. 

E antes que uma artéria seja definitivamente rompida, voltamos para a armadura, para a máscara e para os medicamentos. Pois eles, embora sejam incapazes de nos fazer felizes, ao menos não oferecem riscos. 

A faca poderia ser a nossa libertação. Mas enquanto for mecanismo de sofrimento, melhor procurar esquecê-la. Esquecê-la antes que as nossas mãos estejam doentes demais para construir o que quer que seja. 



NAS MALHAS DO COTIDIANO
29 Novembro 2018 14:14:00


(Foto: Divulgação) /

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui uma rosa fenece; no mesmo instante, lá, outra rosa nasce. 

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui um coração se rompe, no mesmo instante, lá, outro coração se salva.

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui uma batalha estoura, no mesmo instante, lá, a paz é reafirmada. 

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui a tormenta é resistente, embota a alegria, lá, no mesmo instante, a brisa é doce e não há tempo, nem espaço, nem motivação para lamentações. 

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Hoje o vento açoita a face, acompanhado de potentes gotas de chuva fria, arrancando sangue e dor. 

Sangue que mancha o caminho, dor que faz gemerem os sentidos. 

Mas em um dia iluminado, ou numa noite em que as estrelas brilhem como sonhos, o vento, transformado em bálsamo de frescor, vai vedar as fendas da pele, cicatrizar as fundas rachaduras do espírito.

A dor vai cessar.

Vai restar aprendizado no lugar.

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá, mas acontecerá...

Hoje pelos dedos deslizam mágoas; doem as articulações, apertadas pelas garras da angústia; suam as palmas, na lancinante tarefa de converter areia em pérola.

Mas em um dia iluminado, ou numa noite em que as estrelas brilhem como sonhos, dos dedos escorrerão perfumadas felicidades: felicidades livres; por isso, felicidades. 

E se a transpiração descer aos dedos, será porque fluiu serenidade da mente e vida do coração. 

Um dia, não se sabe. 

Uma noite, não se sabe. 

Será que, 

Em nossas almas, 

Tanta esperança

Cabe?

Num trecho de poema, Pablo Neruda afiança:

"Que fácil é quando se conseguiu

a felicidade, que simples

é tudo". 

Porque, em um dia iluminado, ou numa noite em que as estrelas brilhem como sonhos, tudo parecerá simples, sim, Neruda.

Nesse dia, ou nessa noite, tudo estará certo. 

Os esforços, todos, consolidados. Todas as misérias superadas.

Então tudo, tudo vai se encaixar. 

Até lá, penamos.

Até lá, sonhamos.

Até lá, a vida

Reinventamos.


23 Novembro 2018 08:46:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Se me fosse dado pedir uma coisa à vida, eu pediria liberdade. Liberdade, para mim, é me sentir desvinculada de obrigações meramente obrigatórias, sem prazer ou sentido. Liberdade é trabalhar no que se ama, viver respirando o que se ama, sentir todos os dias o cheiro da plenitude e não da mecanicidade.  

Liberdade, para mim, é saber que o mundo pode ter seus padrões, não discuto, desde que me permita ter os meus e não me imponha uma uniformidade da qual sou incapaz de fazer parte.

Liberdade, para mim, é aceitar: as coisas mudam, as fases passam, embora se possa reconstruir o que foi bom, desde que se resigne que nunca mais será igual ao que já foi, mas pode ser melhor. E, assim, liberdade, para mim, é dar um novo significado para o passado, viver sem amarras o presente e projetar menos, cada vez menos, para o futuro.

Liberdade, para mim, é dizer - sem medo de parecer ridícula ou piegas -, que ama, que sente saudade, que precisa de colo, que está cansada, carente, infeliz, doente da rotina, envenenada pela indiferença.

Liberdade, para mim, é olhar nos olhos. Olhar nos olhos, entender com os olhos, silenciar, gritar, penetrar, descobrir; tudo, tudo com os olhos. Liberdade, para mim, é permitir que muitas coisas que de outra forma não poderiam ser resolvidas, se resolvam com um olhar.

Liberdade, para mim, é sorrir sem hesitação, mostrar a alma no cintilar do sorriso. Desnudar a alma. Ser livre é desnudar a alma para o outro, sem temor que ele encontre manchas, carências e dores ali. Sem temor de ser rejeitada ou excluída, porque você é você e não pode mudar essa realidade. Então, se o outro não aprovar, que vá procurar outra alma, outros olhos e outro sorriso que a ele se adéquem. Deixe você com os seus, se aceitando como é. Porque se aceitar como é significa a culminância da liberdade.

Liberdade, para mim, é rir o seu riso, andar do seu jeito, vestir o que te permita se sentir confortável, ir a lugares com os quais se identifique, conversar com gente conectada à sua sintonia, que comungue das suas ideias. Liberdade, para mim, é admirar o outro, sim, mas nunca querer ser igual a ele; porque, liberdade, para mim, é ser único e não ser cópia.

Liberdade, para mim, é poder abrir os lábios em um sorriso tolerante quando te criticam por ser diferente, por não seguir a manada, por ter conceitos próprios, edificados na análise e na observação e não no calor das generalizações. Porque liberdade, para mim, é dizer "dane-se" docemente. Dizer "dane-se" com a mesma doçura que você usa para dizer "te amo".

Liberdade, para mim, é mergulhar nas suas vontades sem medo de se afogar. Porque a liberdade, para mim, nunca estará emancipada da responsabilidade.

Liberdade, para mim, é chorar quando sente que necessita, rir sempre que quiser, e amar indistintamente. Porque a liberdade, para mim, tem duas irmãs: a intensidade e a ausência de preconceito.

Por fim, liberdade, para mim, é algo quase impossível de se alcançar nesse mundo. É preciso ter muita raça e determinação para provar instantes de seu sabor. Por isso peço liberdade à vida e não ao mundo.


15 Novembro 2018 10:26:00

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(Foto: Divulgação)


Tão bonitas e tão acabadas. Murcharam. Findaram. Rápido para mim. No tempo exato da natureza. Aquelas flores rosadas, viçosas, com aparência de bela eternidade se foram. Estão esturricadas agora, nada as fará ressuscitar, é inútil.

Usei todas as técnicas para que continuassem comigo: remover a embalagem do arranjo; água, de tempos em tempos; local apropriado. Cada artimanha teve seu sucesso relativo.

Tirar a embalagem (também rosa, como um sonho de criança) fez com que as flores fossem libertas da asfixia, respirassem fora do catre. Para a planta, respirar livremente é o que, para nós, humanos, significa abrir os braços, sem algemas de qualquer espécie.

Regá-las lhes devolveu a vivacidade que a secura da rotina e o sol cáustico da necessidade de permanência impuseram àquelas flores, semelhantes ao crisântemo, porém ainda perfeitamente inominadas para mim. Só sei que foram companhia por alguns dias. E isso me basta.

Desconfio que esse efeito de regozijo nas plantas represente para o ser humano viver algo novo, impensável, desafiador. Algo que faça com que a seiva da vida flua de maneira mais natural por suas veias, encante o coração e fortaleça as esperanças.

Colocar aqueles retalhos de beleza em local adequado reequilibrou os frágeis organismos das minhas companheiras. Brisa suave, brandos raios de sol, frescor.

As flores, assim, respirando fora do catre, orvalhadas de promessas e vivendo em ambiente ideal - ambiente que satisfizesse seus ancestrais anseios de delicadeza selvagem - finalmente, mesmo depois de quase se entregarem às condições adversas, viveram. E como viveram.

Florescidas silhuetas, folhas mais largas, mais verdes, mais cheias. Pude notar um sorriso em cada miolo? Pude sentir vibrarem as pétalas? Pude aspirar perfume naquelas luminescências que, a princípio, nenhum aroma marcante teriam? Sonhei? Delirei? Não sei. Vivi, ao menos. Seja sonho ou realidade, vivi. Vivi na sintonia das amigas, que trouxeram cor à minha existência desbotada.

Fato é que, agora, nada mais pode ser feito. Permaneceram ao meu lado, enquanto puderam. Enquanto lhes permitiu sua peculiar constituição. Ficaram comigo por um tempo estendido, inclusive. Estendido através dos artifícios que elenquei. Mas agora estão irremediavelmente acabadas. Sua intensidade fluiu; volta ao éter a essência, à terra a matéria. Eu fico. A vida me quer, ainda. Quanto a elas, o prazo de validade é menor: venceram. Ou foram vencidas pelo tempo.

Fico, mas tomo para mim a experiência que tive com elas. Fico, mas refeita pela energia magnética que trouxeram. Fico, mas, agora, cada vez mais, buscando me emancipar dos laços asfixiantes, da aridez da rotina e da mortificante sensação de deslocamento. Fico, procurando me desfazer da revolta do fim e me preenchendo com a gratidão do ensinamento por elas silenciosamente ministrado. 


NAS MALHAS DO COTIDIANO
08 Novembro 2018 11:02:00


(Foto: Divulgação) /

Para aprender a sofismar,

A melhor forma é

Pelo mundo perambular.


O mundo te ensina muito,

O mundo te ensina sempre. 

O mundo te ensina a mentir 

E a se enganar

De repente. 


Antes do caráter, 

Sofismar.

Se ainda sobra disposição 

Para ser 

Decente?

Isso é outro assunto 

Que nem sequer deixa 

A pessoa 

Contente. 


Todos sofismamos, em algum momento.

Salvam-se aqueles que, 

Depois disso, 

Sentem dor de pensamento. 


Quem de consciência gorda se arrepende

Ainda tem algum valor 

E futuro crescente. 


Raciocínios capciosos 

Provocam dissabores. 

Mas desde os tempos de Sócrates 

Tinham seguidores.

Do poder adoradores, 

Aprendiam com os sofistas:

Um bando de desarvoradores.


Sofismar hoje é comum. 

Embora honesto sofismador 

Não sobre um. 


Sobre aprender meu avô já dizia:

O mundo te ensina muito,

O mundo te ensina sempre. 

O mundo te ensina a mentir 

E a se enganar

De repente. 


Leitores, este é mais um dos poemas do meu novo livro "Inútil inocência" que agora está sendo vendido também na BANCA CENTRAL, ao lado do supermercado Colorido. 


Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711