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14 Novembro 2019 11:39:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Com o tempo, os desencantos e os obstáculos - talvez de difícil transposição - vamos deixando de nos reconhecer. A felicidade fácil abre espaço para algo mais importante: a sobriedade profissional.  

As vontades, quem sabe sonhos, quem sabe desejos fugazes - mas sempre emanações do íntimo - ficam trancafiadas para que possamos vestir a roupagem social: uma peça da engrenagem do sistema. Vivacidade, entusiasmo: contenha-os, é preciso cálculo e frieza.

Ser parte da engrenagem tem lá suas vantagens. Se sentir aceito e integrado são apenas algumas delas, e para obter todos os privilégios só precisamos relegar o próprio reconhecimento.

Para que gire o sistema os bonecos marchantes não podem errar o passo.

No dia em que não mais nos reconhecermos, pode ser que não haja recordação do início do distanciamento da própria essência.

Como quase tudo na vida, também esse afastamento começará aos poucos: paramos de rir alto (porque precisamos ser comedidos), deixamos de visitar nossos amigos (porque não há tempo), destruímos nossa casa na árvore, refúgio metafórico de nossos medos (porque tudo precisa ser contado, dissecado e exposto: nada pode ser guardado - muito menos nós mesmos).

Quebramos nossos brinquedos, ateamos fogo às disparidades, colocando-as na conta de atos pueris, quando muitas vezes são, na verdade, a nossa parte incompreendida.

Surge então uma grande construção: o eu social, que se originou da maior desconstrução: o eu real.

Mas no dia em que não mais nos reconhecermos, tudo isso se tornará teoria, material para estudo e ponderação. Só que, nesse dia, estaremos tão longe, mas tão longe de nós mesmos, que um hipotético retorno será utopia.

É regra: seres desgarrados das raízes primais são vulneráveis de resgate pelo sistema.

Grande jogo.


07 Novembro 2019 10:22:00


(Foto: Divulgação) /

São nos sussurros terminantes do dia que a vida, por vezes, me pede uma carta. Minha vida querendo que a avalie; pois ela me testa incansavelmente.

Procrastinei. Procrastinei. Quis ser difícil com ela: justo contrapeso. Hoje, contudo, os sabiás fizeram coro e os galhos dos ipês, num balanço malemolente, sorriram: atenda a vida. Atenda a vida.

Escrevo, pois. Mais pelo suave clamor dos sabiás e pelo brando canto dos ipês do que por sentir que é coerente o merecimento da Trajetória.

Querida (?) Trajetória

Você está errando ou a errada sou eu? Ou estamos em descompasso? Talvez estejamos as duas certas, mas em tempos diferentes. Afinal, tem mesmo algo de errado ou eu estou enlouquecendo? A louca é você, quem sabe?

Bem, jogo essas perguntas ao éter, como sempre fiz, sem ter quem as responda, muito menos você que, no entanto, se achou no direito de me pedir uma avaliação sobre o seu proceder. Percebe a incongruência?

Vê, desde já, a injustiça?

Continuo, entretanto; não por você, já disse.

Você é incompreensível. Se fosse uma equação, seria daquelas que se enche um caderno para deslindar e se chega a "X". Então se retorna ao início, com outro foco: agora é só encontrar o valor de "X". Só. Tão simples.

Por que você não diz, então?

Não diz. Mas quer respostas minhas.

Trajetória, você não é tão amada como os moribundos querem fazer acreditar. Te acho bem irônica, para falar a verdade. Ponto a seu favor é que a sua ironia é refinada. Fica-se boquiaberto com você. Quando se diz "nunca", você vai lá e mostra que o nunca não existe. E quando se diz "sempre", você vai lá e prova que o sempre também não existe.

O que mais você quer saber?

Espere, não diga. Não vou te ouvir, assim como você não me ouve. Ponto para mim.

Muito se fala em livre-arbítrio, mas, no fundo, quem decide tudo é você: sozinha. Não pede a minha opinião. Se pede, é para fazer o contrário. Já que é assim, vai conduzindo tudo aí, que eu carrego como puder.

Amor é coisa complicada: não basta a gente escolher, precisa da anuência da outra parte. Contudo, às vezes, embora ambos se escolham, vem você, doce e meiga, e coloca uma distância, uma incerteza, uma doença, uma morte para nos separar.

E ainda diz que sou eu que defino você?

Não mesmo. Você, Trajetória, é apartado ente, reside fora de mim. Você sentencia, eu só acato, porque não tenho outra opção. Ponto para o determinismo.

Profissão é outro assunto complexo: de novo, os dois precisam se escolher. Se a gente gosta da profissão, mas a profissão não gosta da gente, estamos danados. É aí que entra você, bela Trajetória, fazendo com que a profissão crie exigências que somos incapazes de cumprir, solicite uso de roupa sóbria, quando queremos vestir jeans rasgado e camiseta larga, sopre colegas insuportáveis na nossa direção.

Tudo TUA CULPA, Trajetória.

Então não venha me dizer que sou eu que defino você!



31 Outubro 2019 12:45:00


(Foto: Divulgação) 

Cinco da manhã, mostra o relógio sobre o criado-mudo. Regina se levanta da cama, silenciosa, para não acordar o marido. Sem sucesso.

- Já vai levantar? Que horas são?

- Cinco.

 - Precisa se sacrificar por esse fracasso que eu sou. - O marido senta na cama e liga o abajur.

 - Você está doente, Carlos. Depressão não é fracasso: é doença.

- Enquanto você se mata de trabalhar na casa daquela vaca, eu vou ao terapeuta. Fica lindo.

Ela troca o pijama por uma calça de malha e, enquanto procura por uma camiseta no guarda-roupa, responde:

- Primeiro: minha patroa não é vaca. Segundo: eu não me mato de trabalhar. Limpo, lavo e passo e é natural, nosso sustento vem disso. Terceiro: você precisa ir ao terapeuta e isso não é vergonha nenhuma.

 - Você tenta amenizar o fracasso ambulante que eu sou, tenta...

Regina solta um gemido de dor ao vestir a camiseta. O marido percebe as olheiras dela.

 - Peraí... Você dormiu? A Maluzinha estava com febre, você...

 - A Maluzinha está bem, agora.

- ... passou a noite acordada, sentada ao lado da cama dela. A hérnia berrou agora. E eu aqui, inutilizado.

- Já estou atrasada... - Calça os sapatos. - Maria Luiza está ótima, eu estou ótima e você também vai ficar. -Senta ao lado de Carlos e afaga seus cabelos:

- Tudo vai ficar bem.

Ele balança a cabeça, choroso, desacreditando das palavras da mulher; dando-lhe, porém, um beijo nas mãos.

***

Dentro do ônibus lotado, pelas janelas se nota que o dia começa a nascer. Regina conta moedas, entrega ao cobrador. Anda pelo corredor. Vislumbrando um único banco vazio, ao fundo, caminha até ele, senta. Leva uma das mãos às costas, contorce o rosto; diz, de si para si:

- Maldita hérnia.

Seu celular toca. Ela atende.

- Fala, Maluzinha... Ele está chorando, de novo? Aquele calmante que o médico receitou, você já... Tá bom, isso, fez certo. Agora ele vai ficar tranquilo, filha. Não, não fale assim, logo volto. E a tua febre... Como assim, voltou?

Suspira, aperta os olhos, continua a falar:

- O efeito do remédio deve ter passado. Toma outra dose, igual à de ontem... Sei, sei que está preocupada com o teu pai, mas ele vai ficar bom... Não duvide, filha... Não, não faz assim, ele vai melhorar, precisamos ter paciência... Minha filha, sem esperanças? Não, não chore, hei! Você nasceu de mim, é guerreira. Tão lógico como os exercícios de Matemática que te ajudei a fazer ontem... Eu estou tinindo, ótima.

Mas as olheiras roxas sob os olhos dela bradam a verdade. Uma silenciosa lágrima cai.

Desliga o celular e diz para si mesma:

- Estou ótima.

***

O ônibus para. O sol aparece no horizonte. Uma mulher muito idosa entra, de bengala. Todos os bancos estão ocupados. Ela olha para os passageiros: uns mexem no celular, outros leem jornal, outros fingem dormir, nenhum lhe cede o lugar. A velha caminha com dificuldade até a última fila. Antes que pare ao lado da poltrona de Regina, porém, esta se levanta e fala:

- A senhora senta aqui.

Trocam sorrisos.

A idosa, ofegante, larga o corpo na poltrona:

- Alma boa a da fia. Caminhei treis quilômetro pra chegá nesse ponto de ônibus, vô buscá o exame do meu fio. O dotô acha que pode sê a doença ruim.

Baixa a cabeça e comprime os lábios.

Regina coloca suas calosas mãos sobre as de veias finas da velha e garante:

- Ele vai ficar bem. Tudo vai ficar bem.



24 Outubro 2019 10:34:00
Autor: Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Não o conheço. Baixo, magro, cabelos claros. Olhos tristes. Desolados. Fisionomia massacrada por um sonho abandonado. É noite. Perambulo pela pracinha em busca de um personagem, de uma dor trancada, de um mistério sofrido: de um sofrimento grande porque dilatado pela culpa. Encontro. Encontro naquele homem. Naquele desconhecido. 

De início, disfarço: quero ter a aparência de uma caminhante qualquer, não a de uma peregrina de desassossegos. Por mais autêntica que procure ser, sinto que, por vezes, necessito mascarar a curiosidade insanável, deixando que as pessoas ajam naturalmente: o que não fariam, caso capturassem a minha ânsia de conhecer os escaninhos mais sombrios de suas personalidades.

Mas ele não se importa. Não se importa e tampouco parece se inquietar com o meu jeito intruso. É atrevido. Fixa meus olhos. Sentado no banco da pracinha, ao erguer o rosto para mim, me paralisa com o olhar. Estaco à sua frente. Acabaram-se as farsas. Agora nossas almas vão dialogar.

Aquelas duas lanças negras e perturbadas que são seus olhos me falam que o sonho abandonado hoje cobra um preço que ele se sente incapaz de quitar. O sonho abandonado pesa sobre os ombros, açoita as costas, fere as emoções.

O sonho, tão recente em sua vida, tão singelo, sorridente, brilhante, já tão querido de seu coração foi abandonado por inseguranças, medos, dúvidas, deduções. O sonho partiu. Como consequência, a alegria dele partiu-se. Ficou a impressão do sonho: a impressão daquilo que desaparece. A aflição de saber que quem soltou foi ele.

Essas duas chamas vivas e atormentadas que são os meus olhos lhe dizem, inclementes lhe dizem, que o que marca o coração é preciosidade a ser afagada, riqueza a ser preservada.

Essas duas chamas vivas lhe dizem ainda que sabem, que entendem muito bem, pois nada insulta mais o olfato do que cheiro de sonho consumido, nada amarga mais o paladar do que beijo que não pode ser revivido, nada afronta mais o tato do que rosto especial que não voltará a ser afagado, nada machuca mais a audição do que o silêncio de uma voz estimada.

Por fim, meus olhos lhe falam, sem compaixão lhe falam, que absolutamente nada pode substituir o calor de chamas vivas sobre lanças negras, a força incomparável de olhares trocados, a vitalidade de sintonias partilhadas.

Se ele soltou, se abriu os dedos e permitiu que um futuro grandioso se esvaísse no meio deles, eu queria, muito, ser bondosa e, pelo menos, lamentar por ele.

Mas não posso.

Neste momento, não lamento por ninguém.

Aprendi que quem abandona um sonho antes mesmo de iniciar a vivê-lo precisa se resignar à colheita. À colheita de um futuro correto, perfeito, mas sem o ardor do sonho, sem os delírios redentores da coragem.

Um futuro correto, perfeito, mas sem a marca de chamas vivas.



17 Outubro 2019 10:35:00
Autor: Por Natália Sartor de Moraes

(Foto: Divulgação) 

Salomé, ao pedir a Antipas a cabeça de João Batista, estava dançando. Recusou tesouros, ouro e terras para efetivar uma estudada vingança que nem era sua, mas de sua mãe, Herodíade.  

No livro "Assim falava Zaratustra", do alemão Nietzsche, uma passagem intrigante enfatiza: "Que o homem tenha medo da mulher quando a mulher odeia, porque o homem, no fundo da sua alma, é malvado. Mas a mulher, no fundo da sua, é perversa".

Penso que nós, mulheres - ou pelo menos boa parte de nós, com exclusão daquelas que se sentem ultrajadas ao admitir que odeiam, já odiaram ou ainda vão odiar e fazer algo sólido com esse sentimento - quando odiamos, canalizamos nossa intenção em um sentido claro e com tal força que a congelamos até que tenha condições de ser minuciosamente realizada.

Não discuto o acerto ou o desacerto dos propósitos de vingança, nem os admiro - e mesmo que admirasse, não confessaria aqui - mas o fato de a mulher ser mais requintadamente maldosa que o homem chama a atenção e desperta questionamentos.

O que faz com que refoguemos ofensas e dores no óleo perigoso da raiva paciente, aguardando o momento de ver o banquete servido, e, ainda que frio, nem por isso menos saboroso?

Qual é a profunda mágoa, o amargo gosto, o cheiro pútrido que, no entanto, serão infatigavelmente sentidos, revirados e revividos até que possam ser transformados em desamor concreto?

Ah, a mulher! Essa personagem tão meiga, tão bela, tão frágil e inofensiva é invejada pelo demônio, quando odeia.

Nós, mulheres, carregamos por muito tempo sentenças inverídicas a nosso respeito, toleramos tirania, injúria.

Fomos, por muito tempo, coagidas a dizer sim, quando queríamos dizer não.

Por tempo demais mulheres deram à luz, criaram os filhos e viram o homem receber os louros e a honrosa alcunha de provedor.

Tudo isso nos fez severamente conscientes da nossa força ¬- tanto de amar quanto de destruir.

Sofremos. Sofremos. Sofremos.

Suportamos. Suportamos. Suportamos.

Agora o azeite fervilha e, ainda assim, focadas, reduzimos a chama, esperando o exato instante de embeber nossas revoltas ali.

Sobre a justiça ou a injustiça de uma vingança?

Creio que ela seja sempre injusta.

Gratificante mesmo é assistir o girar do mundo cumprindo o seu inevitável papel.

E não tem nada que a mulher faça com mais prazer.



10 Outubro 2019 09:32:00
Autor: Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Finais não escolhidos são mantos que a vida joga sobre os nossos ombros. Mantos densos e esbraseados, nos sufocando em épocas de calor. Porque finais nem sempre significam libertações. Quando indesejados se tornam amarras a algo que não vive mais.  

Há também uma subcategoria deles: os finais pressentidos; porém esses, não instantâneos, vão nos machucando devagar, anunciando sua chegada. É um descaso aqui, um tanto faz ali, uma preguiça, uma incerteza, uma impossibilidade abstrata.

Sempre haverá alguém para perguntar: "O que aconteceu? Por que desistiu daquele relacionamento, daquele emprego, daquela cidade, daquele empreendimento? Não estava tudo bem?" Pois quem desiste é sempre você, mesmo que o relacionamento já tivesse terminado antes de um corajoso dizer chega; ainda que o emprego fosse só um instrumento de tortura há semanas, meses, anos, décadas; embora a cidade tivesse se transformado na exata contramão da sua felicidade; apesar de o empreendimento ter se revelado fantasia.

E então: "Não estava tudo bem?". Estava, claro. Estava tudo ótimo, você só não se sentia feliz. Mas não responde isso; afinal, ninguém dá muita importância à felicidade. É por esse motivo que eu às vezes acho que a superestimo e há outras em que penso que projeto para ela uma existência impossível. Por isso você não dá resposta e se esquiva, encabulado: "Pois é, pena".

Talvez não seja uma pena. Mas como explicar de onde nasce a infelicidade, uma vez que o principal motor das mais severas mudanças tende a ser essa devoradora do sentido da vida? Como explicar aos outros? Como explicar para si?

Nesse compasso, os finais vão sendo pressentidos, adivinhados. Você inicia uma procura alucinada por respostas: quando iniciou o processo de deterioração? Você busca, rebusca, quer saber, faz retrospectivas, reconstitui cenas, acha que encontra. Tenta costurar o rasgo na confiança, perdoar a ausência, desculpar a grosseria, justificar a sobrecarga, a lacuna no entusiasmo, imaginar para a porta trancada uma chave.

Com tempo, análise e observação (de si e do entorno), percebe que confiança rasgada é pano de chão, ausência reiterada é desinteresse, grosseria é maldade. Descobre que a sobrecarga não alivia naquela semana, nem na outra, nem no mês ou no ano seguinte; que carência de entusiasmo é um dos venenos mais perigosos e que da porta trancada desapareceu, irremediavelmente, a chave.

Mais difícil: a fase da aceitação. Quando vem. Acabou. Quem concorda com a vida? Quem nunca teve raiva dela? Quem entendeu, sábio e superior, os propósitos dos términos, sobretudo quando não enxerga um recomeço?

E se o recomeço não for detentor da potência necessária a uma reconstrução?

Como preencher a falta?



03 Outubro 2019 10:32:00


A essência do ser humano é tão pura que não se sustenta em uma sociedade mascarada.

Alguém vai rir. A essência do ser humano, pura? Penso que, com raríssimas exceções, a falsidade é adquirida e não inata, vamos sendo maquiados, adaptados, mas não nascemos com os valores suspeitos que se tornam a norma.

E com isso não quero defender que o homem nasça bom ou mau, mas ele tem, desde a origem, a própria natureza, que vai além do bem e do mal e independe de filiação ou regras.

Crianças, moldáveis que são, recebem transformadoras influências. Mais tarde essas influências passam a fazer parte do seu modo de agir. Depois se desconhece a própria raiz.

Não é segredo que muitas terapias atuais almejam descobrir qual padrão foi plantado na criança, para somente em um segundo momento começarem a desvendar os bloqueios do adulto. Porque somos todos adultos civilizados que têm saudades da despretensão infantil.

Onde se perdeu a criança?

Li uma crônica do Ivan Angelo em que o escritor relata um caso de ingênua influência paterna. O garoto era encaminhado corintiano, pois assim o queria a escolha de seu pai. Depois de um semestre na nova escola, pediu se poderia torcer pelo São Paulo. O pai, desapontado, disse que, se fosse esse o caso, que arranjasse outra companhia nas arquibancadas, pois se recusava a estar no meio da torcida rival.

Quem arrisca o desfecho?

Sim, o menino desistiu do São Paulo. Continuou corintiano, porque assim desejava seu super-herói, aquele a quem devia respeito, amor e obediência. Aquele que, por todos esses motivos, sentia que precisava seguir os passos. Além disso, sem apoio, de que é capaz uma criança? Aliás, sem apoio, de que é capaz qualquer pessoa?

Somos as mesmas crianças. Perdidas. A criança se extraviou dentro de nós, e continua perambulando.

 Provável que esse pai não tenha pretendido decepar a busca da verdade de seu filho, fazendo prevalecer a sua, ao menos não conscientemente. Mas, no fundo, todos direcionamos nossas ações para que o nosso modo de pensar seja o vencedor, para nós e para os outros.

Entretanto, ao que tudo indica, esse garoto também foi persuadido pelos colegas para mudar a concepção anterior. Quem sabe? Após ser envolvido em tantos julgamentos, quem pode definir a genuína preferência do menino?

Me atrevo apenas a dizer que, sentindo-se livre e amparado, ele mesmo, com algum tempo, a descobriria.

Será que antes de equipá-lo, interior e exteriormente, para ser um torcedor direcionado, permitiram que assistisse aos jogos de variados times, sem nenhuma secreta indução?

A crônica a que me refiro foi escrita há mais de 10 anos. Hoje esse jovem talvez já se tenha desvencilhado da necessidade de cumprir o que esperam dele, ou talvez não. Talvez nunca se desvencilhe. Pode ser que ele tenha percebido que torcer pelo time rival, se não com o pai, com outros companheiros (pois sempre, independente de condições, teremos alguém que raciocine como nós), não seja tão ruim assim.

De outro modo, ele pode ter notado que gostava mais do time do pai. Não por velada ameaça, mas por predileção real.

Até onde a essência do menino, virgem, foi possuída por outras pessoas?

Em que momentos da vida ele pertenceu a si mesmo?

Em quais outros foi fantoche de vontades alheias?

E nós?



NAS MALHAS DO COTIDIANO
26 Setembro 2019 10:22:00
Autor: Natália Sartor


(Foto: Divulgação) /

A ponte não é o destino. Caminhando sobre ela, a criatura quer se deter, ficar, porque é reconfortante poder, a qualquer momento, voltar ou ir.

A ponte estremece, não é firme, vacila, andar por ali gera vertigem. Então fala, voz longínqua, pergunta aguilhoante: vais ou voltas?

O rio entoa cantos nefastos, quer tragar, deglutir. Gargalha, se alimenta de incertezas, engole paralisados.

Rio e ponte conversam:

R: Quebras-te logo.

P: Mais um pouco, aguardas.

R: Se nossa criatura se decide, se vai ou se volta, perco a minha presa.

P: É lei. Ela precisa ter o seu tempo. Se não escolher, aí sim.

Um ressoar de relógio. Demônio tiquetaqueando dentro da cabeça da criatura, fazendo tricô com seus miolos. Dando nós. Muitos nós.

A ponte balança. Tacitamente anuncia que logo vai se rachar. A criatura balança. Se for, não pode mais voltar. Se voltar, onde o trajeto para ir?

A ponte balança.

A criatura balança.

O rio gargalha.

R: Abres-te.

P: Permaneço ainda mais um pouco.

R: O cheiro de indecisão me alucina, quero me alimentar.

P: Esperas. O tempo dela ainda não se esgotou.

A ponte balança.

A criatura balança.

O rio gargalha.

É noite. Frio. O vento faz comunhão, aspira derrubar a criatura emagrecida pela angústia da dúvida.

A criatura respira. Fundo. Fundo. Mais fundo. Ardem seus pulmões. É frio.

A ponte balança. Estala.

A criatura se exaspera: tem duas opções, uma imposição:

1) Voltar,

2) Ir,

3) Ser devorada pela fome das águas.

Olha para trás, para frente, para baixo.

Suspira. Ardem seus pulmões. É frio. Esfrega os braços. A ponte se agita temerariamente. Crepita.

Se for, não pode voltar. Se voltar, ir não mais poderá.

Quer ir. Quer o novo, o frescor, o coração já disse sim. Caminha na direção da ida. Mas também quer voltar. Não se sente segura para ir, começar, recomeçar. É forte o suficiente para um recomeço? Nada sabe do novo, já o velho lhe é tão familiar, confortável. Dá meia-volta, percorre a direção do retorno. Embora desgastado, pode ser consertado... Mas um conserto é incapaz de trazer a mesma chama, o mesmo brilho. A chama e o brilho que o novo... Torna a dar meia-volta. Para no meio. Mais uma vez.

O rio exige.

A ponte concorda.

O vento auxilia.

Parte-se a ponte.

Um grito de agonia.

O último ato da criatura



NAS MALHAS DO COTIDIANO
19 Setembro 2019 10:41:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) /

Descobrir não é tranquilizador. Sinto ter que, com a minha pena nada condescendente, esmigalhar utopias, mas descobrir tende a ser bastante doloroso.

Com fisionomias douradas e vozes suaves todos esperamos um dia ser capazes de dizer "eu me descobri". Mas os descobrimentos, no transcurso da vida, representam milhares de pequenas mortes, milhares de eus sepultados para que outros eus consigam surgir.

O momento do "eu me descobri" pode ser um estalo, mas um estalo que já estava se formando, há muito, nas nossas profundezas.

Descobrimos que não somos tão proativos, tão eficazes e nem tão carismáticos quanto gostaríamos de ser... Gostaríamos ou os pactos generalizados almejam isso de nós?

Descobrimos que, na verdade, pessoas que queríamos achar admiráveis achamos somente chatas, mesmo.

Descobrimos que estudar determinadas matérias, frequentar determinados cursos, aprender determinadas línguas é muito elegante e socialmente incentivado, mas, no fundo, bocejamos diante do que a sociedade deseja que nos entusiasmemos.

Mulheres descobrem que roupas caras e maquiagem não são requisitos indispensáveis para se sentirem bonitas e por vezes descobrem até mesmo que as odeiam.

Homens descobrem que não ambicionam ser nem médicos, nem advogados, nem empresários e... vejam: nem mesmo concursados!

Terror dos terrores: pessoas descobrem que não aspiram seguir os passos dos pais, nem os projetos dos pais. Horror de todos os horrores: milhões de indivíduos descobrem que não querem ser os próprios pais.

 Muitas criaturas descobrem que dinheiro não tem a importância que pensavam que tivesse. Descobre-se que a felicidade não vem daí. Que a felicidade pode nunca ser encontrada se procurada no lugar errado.

Casais descobrem que não se amam mais, ou que jamais se amaram, ou que fingiram que se amavam, ou que apenas se toleravam, ou que foram um lindo arranjo num pedestal trepidante.

Moços descobrem que se sentem velhos, velhos descobrem que possuem o espírito de moços. Irmãos descobrem que, além do inevitável laço consanguíneo, não têm nenhuma afinidade. Desconhecidos se descobrem irmãos. Namorados se descobrem estranhos. Estranhos se descobrem apaixonados.

Funcionário público se descobre músico. Advogada se descobre hippie. Conservador se descobre esquerdista. Escritor se descobre um revoltado de berço.

Descobrimentos são adagas perfurando as nossas emoções durante toda a longa travessia da existência. Retiradas, o sangue esguicha.

Que cada um encontre os próprios estancamentos.



12 Setembro 2019 11:34:00


(Imagem: Divulgação)/

Os monstros do caminho, como todo mal, têm a aparência do bem. Com uma facilidade impressionante para enganar, são excelentes atores, nascem charmosos e seguros de que abaterão muitas presas, apenas com a força da vontade.

Têm talento e moldam artisticamente seus próprios disfarces. São disfarces personificados. Constroem cenas. Vivem de cenas. Vivem da arte de iludir: regozijam-se através dela, por meio dela renascem, adquirem vigor nas veias e amam: amam se sentir amados pelas vítimas do caminho; amam saber que não as amam.

Fisionomia agradável, voz suave e sorriso dócil, deixam apenas uma parte deles os trair: as mãos. Nervosas, gesticulam muito, são o solo de unhas arruinadas. Mãos que deveriam construir o bem - que possuem tudo para construir o bem -, contentam-se em acariciar primeiro, apenas porque sabem que depois, logo depois, vão destruir. Destruir é o troféu dos monstros do caminho.

Por mais cautela, prudência e frieza que tenhamos, jamais escaparemos das colossais bestas que atravessam o nosso trajeto: são maiores, mais fortes e mais inteligentes do que nós. São superiores em técnica, experiência e dissimulação. São monstros, enfim.

Os monstros do caminho atiçam a líder de todas as feras. Não a da raiva ou a do ódio, inócuas e facilmente debeladas quando comparadas com a potência destrutiva da rainha: a fera da mágoa.

A fera da mágoa, garras de vidro, precisa permanecer presa, enjaulada em nossos corações, para que não aniquile tudo à sua frente. A fera da mágoa, olhos de fogo, necessita da cegueira imposta para que não nos incinere. A fera da mágoa, quando coloca um pedaço - um pedacinho de pé que seja -, para fora da jaula, faz com que sintamos seus miasmas venenosos. Miasmas que aferventam nosso sangue, até transformá-lo em agonia pura e viscosa.

A sanidade e a alma de um escritor dependem da domesticação das feras. Mas eu, fraca que sou, ainda não aprendi a interagir com a da mágoa.

Convivendo, sem diálogo, garanto a distância da morte autoprovocada. Num acordo mudo, trancafio a selvageria capaz de estraçalhar os farelos de esperança - os quais precisam ficar, para que eu possa sobreviver, seja de que maneira for.

Ao menos assim me afasto dos monstros do meu caminho e guardo só para mim a energia da maldade que, se liberta fosse, me tornaria um deles.



05 Setembro 2019 09:39:00


(Foto: Divulgação) 

Estávamos Luiz Ruffato, Luisa Geisler e eu no food truck, que haviam instalado próximo ao centro de eventos Alexandre Júlio, em Correia Pinto, local onde nossas predileções literárias se cruzaram.

Que a música ao vivo embalasse aquele fim de noite; que eu, destrambelhada, tropeçasse nas pedras do chão de terra batida, que Luiz e Luisa se alfinetassem carinhosamente, exteriorizando a amizade, que engordássemos setecentos gramas a cada mordida de churros, nenhuma surpresa, até que o músico interrompeu uma das canções para ler um recado da plateia:

- Fulana manda avisar para o Fulano que é sua dona.

Foi instantâneo, todos no interior do carro móvel tiveram alguma reação. Risos, piadas sussurradas, revirar de olhos. Achei que não tinha ouvido direito, pensei ter sido miragem auditiva. Ou talvez o Fulano fosse um animal de estimação. A frase dançava, inverossímil na minha mente, quando Luiz soltou:

- Uai! Quem é que é dono de alguém?

Nessa única pergunta, três constatações me ocorreram: eu realmente tinha registrado o que imaginei ser impossível, Fulano não era gato nem cachorro, e Ruffato utilizou poucas palavras e seu sotaque mineiro para se referir a um tema complicadíssimo: liberdade.

Quem é que é dono de alguém?

Minha imaginação delineou celas com cadeados em forma de coração, algemas cor-de-rosa, camisas de força de pelúcia.

E a Fulana era tão dona que não pediu para avisar, ela mandou. Poderosa, sem dúvida. Sabendo dessa posse sobre si, como se sentiria o Fulano?

Em nenhum outro momento a cadência mineira tinha ficado tão marcada na fala do Luiz. Talvez por morar há muito tempo em São Paulo as maneiras de expressão foram se mesclando; porém, ao espargir a base para uma discussão universal, sem resposta e sem subterfúgios, ele voltou integralmente às raízes.

Um questionamento espontâneo que exprimiu profunda inquietude. Me perguntei qual seria a relação daquela instintiva prova das origens e a liberdade.

 Estaria a centelha do eu mais sublime indissociavelmente costurada à nossa basilar linhagem? Aquele eu que quer libertação, aquele eu que quer ser dono, se não do seu destino, ao menos de si, aquele eu com relativa autonomia, aquele eu que pretende ser alguém, não algo, não uma colônia. Estaria esse eu, completo, na origem?

O burburinho sobre a propriedade hominal logo se dissolveu. Acho que me convenci de que, tudo bem, Fulana era dona do Fulano, de um jeito tão público, anunciado de modo tão meigamente cabal que eu, quem sabe, pudesse me lembrar disso mais tarde sem padecer de náusea, desde que nunca acontecesse algo semelhante comigo: nem como proprietária nem como propriedade alheia.

De agora em diante, só sei que sempre quando refletir sobre liberdade, vou recordar a lança no estômago que foi essa indagação.

Também vou, igualmente, começar a procurar mais evidências nos princípios.



29 Agosto 2019 10:36:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Braços enlaçam o corpo, não com ternura: comprimem, ficam roxos exercendo a força do laço ao redor do ser.  

Um xis. Cruzados sobre o peito, tentáculos, asfixia de serpente faminta. Correntes acorrentando a si mesmas: a pior de todas as torturas. Quem pode libertar aquele que se encarcerou nos próprios pensamentos? O cárcere autoimposto é o mais duro antagonista: energiza-se sempre, cresce e adquire poder.

Não é apenas potente, é invencível enquanto não decide se superar. Os tentáculos corroem tudo, menos a si próprios: avolumam-se, agigantam-se, seu reinado esmigalha vidas. Vidas cinzas, vidas de cinzas, de vidas sobram cinzas.

Se vi tentáculos em alguém os invento? Vi e os invento. Vi em muitos e os invento em mim. Aflita, sinto-os em mim e meus olhos dançam tristes boleros ao enxergá-los nos outros. Outros quem? Aqueles que habitam o reinado dos tentáculos.

Acima das cobras de metal, uma mortalha: mumificados se tornam os moradores de tão fulminante monarquia. Para onde correr, se também as pernas são abraçadas pela onipresença dos tentáculos? Como se soltar, se também elas são cobertas pela mortalha?

A salvação é que dentro do sudário existe um ser humano vivo, embora angustiado e preso. E onde há vida, há perspectiva.

Vontade de se libertar: eis o primeiro passo.

Não se conformar com os tentáculos, odiá-los como se odeia um malfeitor: eis o segundo.

Amar-se a ponto de abrir os braços, mesmo sob a compressão do império: eis o terceiro.

Mas quebrar um eu cativo requer coragem porque, ainda assim, é quebrar um eu.

Resta a paz.

Resta o outro eu: aquele que fugiu do cativeiro.

Resta a liberdade.



22 Agosto 2019 10:02:00


(Foto: Divulgação) 

Poderiam ser namorados. Ele, loiro, barbado. Ela, ruiva, pequena. Ir ao cinema às quartas, viajar nas férias. Florianópolis ou Balneário Camboriú. Mais adiante, Paris ou Veneza.

Marcariam uma noite de sábado para que ela pudesse conhecer a futura sogra, uma tarde de domingo para apresentá-lo aos pais dela. 

Sairiam com os amigos em comum. Ouviriam risonhas alusões a sossego das baladas, dos solteiros.

Tomariam sorvete no verão. Ela, morango. Ele, chocolate. Trocariam quando ele estivesse na metade, ela ainda no início, distraída pelo bom humor do namorado.

No outono, colheriam folhas secas do chão e as guardariam numa caixa de madeira - na tampa, uma pintura: dois jovens de mãos dadas -, para lembrá-los do passeio ao crepúsculo, depois de um dia estressante.

Beberiam vinho em uma noite de inverno, não muito, precisariam evitar a ressaca do dia seguinte, quando iriam para Gramado.

Na primavera se abraçariam sob uma cerejeira florida e trocariam sorrisos quando uma pétala caísse, orvalhada, nos cabelos dela.

Discutiriam na escolha de um filme. Para ela, romance ou drama. Para ele, ação ou terror. Acabariam optando por um documentário sobre abelhas africanas e não assistindo.

Brigariam por ciúmes. Aquele cara olhou demais para você, na festa, já tiveram alguma coisa? Por que você ainda é amigo no Facebook daquela ridícula da sua ex?

Tudo sempre resolvido com beijos e cócegas, desculpas e promessas.

A mãe dele seria intolerante com ela, mas o filho se tornaria o próprio pano quente entre a namorada e a mãe.

O pai dela perguntaria (vagamente) sobre o casamento. Ele responderia (vagamente) que poderiam pensar nisso, daqui uns 10 anos.

Ele e o pai dela conversariam acerca de política enquanto ela se arrumaria para sair com o quase-futuro noivo.

Durante o tempo em que ele veria futebol na tevê, ela ouviria dicas sobre compotas e bordados, da quase-futura sogra.

Ele correria de carro. Ela o advertiria a desacelerar. Ele não obedeceria.

Ela vestiria minissaia. Ele pediria que trocasse por calça. Ela não obedeceria.

Ela faria pipoca para saborearem juntos, admirando a chuva cair. Ele comeria mais da metade da bacia, tão logo ela levantasse para pegar a Coca-Cola.

Dormiriam abraçados.

Poderiam ser namorados. Mas estão a mais de meia hora sentados frente a frente na praça da Matriz, cada um paquerando apenas o próprio smartphone.

Desconfio que nunca saberão nem ao menos o nome um do outro.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
15 Agosto 2019 11:55:00
Autor: Por Natália Moraes


(Foto: Divulgação) 

Sangue quente, nos olhos, espumando pela boca. Quando a mágoa chegava-lhe ao coração, perfurando-o, o sangue entrava em ebulição: quente, manchava os olhos, efervescia.

Ele sofria. Sofria com a quentura de um sangue pisado, de um sentimento espicaçado. Sofria com o ardor descontrolado, à miséria emocional condenado.

Os anos passaram, a maturidade enfim chegou. Se bem que há de se cogitar se a mudança de pensamento veio da madureza ou do ódio por muito tempo cozinhando, refogando no óleo da impotência. Sabia que não iria se vingar com as próprias mãos: não queria sangue também nelas. Pensou que deveria deixar que o Universo resolvesse. Sentiu que o Impalpável Ente seria muito mais sábio (e cruel) do que ele.

Não, não foi a madureza que transfigurou o desejo, foi um ódio maior do que ele mesmo. Uma raiva que só poderia ser extinta quando confiada à astúcia de algo superior; mais sábio e mais (bem mais) feroz.

Assim o fez. Quando, serenamente, entregou ao Universo a causa da sua indignação, compreendeu a genuína potência de uma revolta fria.

Nada realizou para macular as mãos. Aos poucos, o sangue dos olhos tornou a lugares de direito e bombeou com alegria e constância.

Parte de seu coração congelou, esperando do Universo um sinal para que pudesse saborear a doçura da verdade. Foi assim que os sentimentos se reorganizaram, aguçando-se para a glória.

A revolta, mais e mais fria, por nada sofria. Sustentava apenas uma certeza e esta lhe bastava: o Universo saberia o que fazer.

Embalado por esta convicção, alma tranquila, paciência de Jó, assistiu, mãos limpas e olhos lúcidos:

O Universo apresentou o Espetáculo.

O Espetáculo que restituía cada pessoa e situação a seus devidos lugares.

E a perfeita ordem dessa coreografia era muito mais bela e pungente do que ele jamais teria sido capaz.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
08 Agosto 2019 10:03:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) 

A mulher era quieta, isolada, queixava-se de vazio interior, de falta de significado. Mas tinha tudo: beleza, dinheiro, status. Conclusão geral: frescura. Só que um dia foi encontrada inconsciente no chão do quarto, overdose de medicamentos. A frescura a matou.

O homem reclamava: raiva do frio, raiva do calor, raiva do passado, raiva do presente e projetava raiva para o futuro. Não nutria esperanças, não era carinhoso. Mas tinha tudo: esposa, filhos, emprego. Conclusão geral: frescura. Só que um dia deu um tiro na própria cabeça. A frescura o matou.

A moça vivia chorando, tinha crises nervosas, dificuldade em se adaptar aos estudos, medo de se relacionar, sentia que não era compreendida, nem aceita, nem amada por ninguém. Mas tinha tudo: saúde física, pais atenciosos, pretendentes. Conclusão geral: frescura. Só que um dia cortou os pulsos e se esvaiu. A frescura a matou.

O rapaz só sabia se defender atacando, se sentia ameaçado por todos, desconfiava de todos, era ácido nos comentários, um mau humor constante. Mas tinha tudo: teto, alimento, boas roupas, bom carro. Conclusão geral: frescura. Só que um dia acelerou ao máximo o bom carro e avançou bem sobre um bom precipício. Quem olhasse lá de cima para o cadáver destroçado, pensaria: a frescura o matou.

A menina não brincava com os colegas. No parquinho, ia para um canto, trazia os joelhos para junto do peito e chorava. Ao se olhar no espelho se achava feia, desengonçada. Não ria. Não interagia. Mas tinha tudo: uma linda casa, brinquedos, estudava em ótimo colégio. Conclusão geral: frescura. Só que um dia, enquanto passeava, soltou a mão da mãe e se atirou à frente de um carro, tão logo o sinal abriu. A frescura a matou.

O menino quebrava coisas, gritava sem motivo, batia, afrontava. Raivoso e revoltado sem motivos, afinal, tinha tudo: bola oficial, chuteiras, camiseta autografada da seleção, viajava com a família todos os anos para o exterior. Conclusão geral: frescura. Só que um dia esperou que os pais fossem trabalhar e, sozinho em casa, deixou o gás ligado, fechou as janelas e ficou em frente ao fogão. A frescura botou fogo na casa. E também o matou.

A velha perdeu o interesse pelas leituras, pelo tricô, pelas caminhadas. Insônia, ansiedade, apetite reduzido. Não conseguia encontrar prazer nas atividades que antes lhe entusiasmavam. Passava a maior parte do dia deitada, luzes apagadas, cortinas lacradas. Mas tinha tudo: excelente aposentadoria, filhos bem-sucedidos, netos inteligentes, nenhuma atrofia orgânica. Conclusão geral: frescura. Só que um dia resolveu deitar nos trilhos de um trem, em vez de na cama. A frescura desesperou o maquinista. E também a matou.

O velho era afetuoso, conversava, praticava atividades de voluntariado. Entretanto, no fundo não sentia felicidade, a vida lhe olhava de um jeito melancólico. Chorava embaixo do chuveiro e antes de dormir, depois que a mulher cochilava. Enfrentava fases em que tinha sono demais e outras em que não o tinha. Mas não lhe faltava nada: nem atenção, nem amor, nem amigos. Se, muito raramente, reclamava de dores emocionais, a conclusão geral era categórica: frescura. Só que um dia, descobrindo os mortais poderes de uma planta tóxica, fez um chá, bebendo-o pela primeira e última vez. A frescura o matou.

A frescura tem matado tanta gente. Nos relatórios da OMS, vejo todo tipo de doença, mas frescura nunca vi. Não é doença, nem assassinato, nem acidente e, mesmo assim, mata.

Nunca pensei que a frescura tivesse tanta potência.



01 Agosto 2019 10:04:00


(Foto: Divulgação)/

Uma espécie de bloco com um ímã atrás, fixado na porta da geladeira. Flores amarelas na borda, centro azul-claro. No topo, escrito: Não esquecer. Encontro com frequência essas agendas nas casas de meus amigos. 

Lembretes importantes: não esquecer de comprar carne, arroz, pasta de dente, café, açúcar.

Não esquecer de pegar remédio para gripe e vitamina (para evitar outra).

Não esquecer de levar a tevê ao conserto.

Não esquecer de comprar ração para o gato.

Não esquecer de pagar o boleto, que vence amanhã.

Não esquecer de trocar o óleo do carro.

Tolero o prático, mas não me alegro com ele. Podem me chamar de dramática e exagerada (já me acostumei), mas sinto que estou assistindo a minha vida se dissipar quando me envolvo demais com coisas meramente utilitárias.

Com profundo desgosto, percebo que o tempo está corroendo a si próprio e que se investe muita energia no perecível. O meu medo é que empreguemos todos os nossos esforços no útil e esqueçamos, nesse meio tempo, de viver.

A urgência grita, a felicidade pode ficar para depois, sempre pode. E o depois, às vezes, não chega. O ser humano subestima a felicidade. Nunca vi nesses lembretes frases semelhantes a "Não esquecer de assistir o sol se pôr". "Não esquecer de ler um poema". "Não esquecer de ligar para o amigo, só para saber como ele está". "Não esquecer de ouvir minha música predileta". "Não esquecer de analisar as minhas atitudes, refletir se estou me tornando uma pessoa melhor, ou apenas útil".

Acho, inclusive, a palavra útil uma das mais feias da língua portuguesa. Quando xingo alguém em pensamento, me sinto bem vingada ao desejar: tomara que tome um banho de utilidade, um dia inteiro de utilidade, um mês inteiro, uma vida inteira, seu útil!

Penso que uma existência desperdiçada é aquela voltada somente à utilidade. Que sensação deve ter a pessoa que sabe que os seus atos poderiam, com facilidade, ser substituídos pelos de um robô?

Mas flechada no coração é escutar coisas do tipo: "Faz uns 3 meses que não converso com meu melhor amigo, é que eu resolvia coisas importantes". "Estava adorando aquele livro, mas deixei pela metade, fiquei ocupado com coisas importantes". "Comecei um curso de música, desisti, tinha coisas mais importantes para fazer".

E é ocupação em cima de ocupação. Utilidade em cima de utilidade. Lindas vidas estamos vivendo. Somos úteis. Se somos felizes, isso é assunto para ponderar quando não estivermos solucionando coisas importantes. Pois o que importa, importa mesmo, é ser útil.

Foi pensando nessas questões nada úteis; afinal, filosofar não enche barriga de ninguém, como diria um sábio (bastante sábio, aliás), que comprei um desses quadros de lembretes para colocar aqui em casa. Na primeira página, transcrevi um fragmento de uma crônica da Cecília Meireles:

"Tudo se vai tornando árido, meramente utilitário. E Deus sabe se é só do imediato e do indispensável que vive o homem!".

Na segunda e última (vou desprezar todas as outras, enquanto não assimilar esses dois ensinamentos), em letra sentida, grafei:

Não esquecer de viver.



25 Julho 2019 09:40:00


(Foto: Divulgação) /

Anabelle entendia de tudo. Sabia tudo. Suprema esperteza. Delineou uma rota para si e nem a mais sábia força poderia persuadi-la a desertar de suas pretendidas verdades, porque Anabelle era rainha de si.

Sempre arrumada, cabelo preso, ai do fio que ousasse sair do prumo: extirpava-o na hora. Circunspecta, taciturna, o mármore personificado: ai do riso que se atrevesse a escapulir, trancava-o na garganta, porque Anabelle era rainha de si.

Longo salto, elegante saia, camisa social, cores sóbrias, sorriso sóbrio, olhar sóbrio. Perfeitas combinações.

Anabelle entendia de tudo, sabia tudo, desde que o mundo se mantivesse estritamente nos padrões por ela moldados, mas bastava que um pensamento fugisse do seu domínio para que se desequilibrasse dos saltos. Então Anabelle não era mais a suprema esperteza. Anabelle era, nesse caso, apenas o que sempre foi e nunca admitiu: uma simples mulher sem controle algum de qualquer situação.

Anabelle gostava de salas fechadas, pouca luz, cortinas carrancudas. Nada de natureza. Fique quieto, pássaro; pare de exalar seu perfume, flor. Foco. Foco. Anabelle era tão focada que nada via além de si.

Um só desígnio. Um só objetivo. A vida é desse jeito e acabou. Foco. Foco. Na realidade, Anabelle tinha era medo de se aventurar em outras paragens e gostar. Anabelle evitava a leoa que sabia dormitar dentro dela. Receio do animal selvagem. Preferia ignorar instintos e emoções, negar vontades. Foco. Foco. Porque Anabelle era bicho domesticado, rainha de si.

Anabelle zombava de quem pensasse diferente. Porque existe um único caminho para o sucesso, uma única definição de sucesso e era ela, claro, quem detinha esse caminho e essa definição. Guardava-os em suas mãos pálidas que nunca sentiram o sol.

Só que um dia Anabelle esbarrou em Ana. Assim, ao acaso, na calçada. Ana segurava livros e Anabelle, uma pasta: preta, sóbria, circunspecta, taciturna. O potente esbarrão quebrou o salto de Anabelle e só não rasgou a meia-calça porque, logo abaixo de seus joelhos, haviam aterrissado livros.

No chão, colérica, Anabelle levantou a cabeça e, somente então, viu Ana. E Ana, a despeito das calças largas, dos sapatos baixos, da camiseta puída e multicor, dos cabelos soltos, era muito parecida com a outra. Os traços do rosto, as dimensões do corpo, a cor dos olhos. Uma diferença, contudo, existia. O sorriso de Ana era entusiasmado e acolhedor; e ainda que não portasse adjetivos, Ana tinha um sorriso.

Ana sorriu enquanto estendia uma das mãos para levantar Anabelle.

Anabelle pigarreou, enrijeceu o semblante e tentou se erguer sem ajuda. Ana recolheu a mão, resignada e, resignada, se abaixou, começando a apanhar seus livros.

A ausência de exercício, entretanto, impediu que Anabelle saísse da posição a que a quebra do salto a relegara. Ana voltou a ofertar a mão, sem nenhum sinal de melindre.

Anabelle, finalmente aceitando o auxílio, observou aquela amizade castanha e sincera que eram os olhos de Ana: dançarina, poeta, musicista, caminhante. Leitora, imaginativa, versátil, sonhadora. Pintora, escultora, dramaturga, artista. Nômade, colorida, orientada em sua desorientação. Ana era tudo aquilo: aberta a possibilidades, pois Ana era muito mais do que rainha de si, Ana era uma simples mulher sem controle algum de qualquer situação.

Em pé, ainda segurando as mãos de Ana, Anabelle teve uma impetuosa vontade de abraçar aquela desconhecida tão bela, tão mais linda do que ela, tão mais autêntica, melhor.

Ana continuou sorrindo. Porque Ana, Ana tinha um sorriso.

Anabelle comprimiu os olhos e sentiu graúdas lágrimas fazerem um estrago na maquiagem cara. Não se importou: enlaçou Ana e, com delicadeza, apertou.

Ela não soube dizer quantos minutos, horas, dias, meses ou séculos durou aquela ternura.

Mas quando voltou a encarar o mundo, abrindo os olhos, diante do mutismo estarrecido dos passantes, percebeu que não havia livros espalhados, apenas a pasta, no chão, e o salto, fraturado.

 Percebeu mais: percebeu que seus amorosos braços estavam ao redor de si mesma.



18 Julho 2019 11:26:00


Nos amores da alma, me demoro; porque eles, embora não mais existam, embora talvez nunca se repitam, acontecem quando sonhados.  

Há dois mil anos alguém falou que onde estiver nosso tesouro, lá também estará o nosso coração. Shakespeare endossou, dizendo que somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos. Mesmo que eu realizasse um desejo por dia, uma vida seria pouco para tornar concreto tudo aquilo que quero. Por isso me transformei em escritora diletante e sonhadora profissional.

Minha alma, tão fechada ao escrutínio alheio, se abre quando sonho. Quanto suspiro aliviado na irrealidade tão real do sonhar. Quanto aperto afrouxado, quanta algema quebrada.

Aquelas bonecas, animo-as com a imaginação. Tenho-as novamente nas mãos, desfilo e danço com elas, faço chá, bolachas de argila. Sou menina de novo. De novo feliz.

Aquelas cartas trocadas. Duda e eu trocávamos cartas, quando crianças. Refaço minha letra comoventemente feia, relembro a dela, tão melhor. Me contava dos estudos, do balé; eu, dos livros, das histórias já então idealizadas.

Aquela preguiça da catequese, da escola, dos horários. Ressuscito aquela preguiça deliciosa quando comparada ao amortecimento espiritual que tantas vezes me arranca do sonhar.

Aquele apavorante filme de terror. A Gabriela escolheu. Todo mundo gostou, menos eu, enormemente sensível.

Aquela tarde chuvosa de sábado, assistindo a uma série.

Aquele sabor de infância no doce de leite do qual eu abusava.

Aquele amor impossibilitado pela distância física, está aqui, agora, pela proximidade emocional. Sorrio com seu sorriso. Me permito ser menina de novo, em seu abraço.

Aquela amiga que partiu, foi morar em uma pátria metafísica, vem me visitar sempre que a lembrança dos seus conselhos suaviza algumas das minhas duras visões de mundo.

Aquele entardecer compartilhado, carinho na pele, refulgir de olhos. Eles estão aqui.

Quantos amores me povoam pelo gratuito ato de sonhar.

Palpita a saudade. Cartas da amiga, filmes com a prima, risadas com os pais - até as palmadas dos pais -, minhas bonecas, aquele garoto.

Ressuscito, revivo, reconstituo. A realidade morde e o sonho assopra.

Nada foi em vão, sei. Tudo permanece eterno aqui dentro. O tempo pode destruir muita coisa, menos as memórias que desejo vivas.

  Quantos amores me povoam pelo gratuito ato de sonhar!



11 Julho 2019 09:53:00

Leitores, nesta semana, um poema, inspirado na poesia "Caso do vestido", do Drummond

(Imagem: Divulgação) /

De angústia não morro mais.

Assassino da minha liberdade, ficou para trás.


Desde que teu pai se foi, filho meu,

Novo frescor veio ao peito.

Acabou-se o avesso-Romeu.


Teu pai era diabo bonito, menino.

Bonito diabo de olhos de mato, filho meu.

Me morria, me matava

E ressuscitava apenas a si próprio, filho meu.


Vê aquele vestido? Ganhei do belo capeta.

Vermelho como o sangue do teu irmão,

Que no parto padeceu, filho meu.

No parto morreu e me morri junto, filho meu.

Chorei aquele vermelho doído.


De consolo, a surra do teu pai, filho meu.

Daquelas mãos traiçoeiras vieram carícias e cicatrizes.

Ele tinha força, filho meu.

Tinha ódio e força, e eu... Eu tenho saudades.


Saudade do dia em que das mãos veio o vestido.

Saudade da manhã que em meus braços segurei o teu irmão

Que já nasceu abatido.

Tinha ódio e força teu pai, filho meu.

Sorria e me encantava.


Quando não bebia era todo brilho aqueles olhos de mato,

Era toda sol aquela boca de primavera.

Sorria e não maldizia, filho meu.

Sorria, ah, sorria.


Perdoe o orvalho que desce por meus olhos, filho meu.

Olhos que não são de mato, como eram os do teu pai,

Mas de dores e saudades, filho meu.

Eu tenho saudades.


Saudade do Belzebu, filho meu.

Saudade das mãos dele, filho meu.

Saudade do mato dos olhos, filho meu.


Saudade da alegria que antecedeu o parto, filho meu.

Saudade do bercinho azul do anjo que está com o Senhor, filho meu.

Saudade do anjinho.


Saudade dos sapatinhos.

Saudade dos pezinhos que já nasceram tão mortos.

Saudade do sangue perdido, filho meu.

Saudade do vestido.



04 Julho 2019 16:13:00


(Imagem: Divulgação) /

Uma cortina de veludo branco, luminosa. A milhões de quilômetros de distância, só pode ser vista com a imaginação. O ser dá o primeiro passo, confiante.

Na sua mente, sabe: o brilho da cortina o fará sorrir. Dá mais um passo, esperançoso.

A cortina estará suspensa sobre uma plataforma e receberá, continuamente, as luzes dos refletores: azul, verde, vermelho, roxo. O ser já consegue sentir: o poder representado pela cortina o fará palpitar. Caminha mais, alegre.

Para o ser, a cortina terá suporte de ouro e na barra pingentes de diamante. Anda ligeiro, sente cheiro de refinamento.

Brilham os olhos do ser; em seus ouvidos, uma rica canção.

O ser corre.

A cortina está próxima, ele não vê, mas sabe, sente; materializa vapores aromáticos ao redor do palco e da cortina. Vapores penetrando o branco. Vapores ricos.

O ser chora. Imenso contentamento pulsa na garganta. Tudo pulsa de um jeito delicioso: pés, pernas, ventre, braços, pescoço, nas costas um arrepio: vai alcançar.

Corre o ser e vislumbra a cortina, neste exato momento recebendo um jato de coloração amarelo-ouro.

A ganância do ser não o faz notar que seus pés estão machucados, que romperam-se ligamentos, que nesta corrida insana degeneraram-se fibras, verdades, sentimentos.

Corre o ser.

A cortina é potente, ele prevê. O que tem por trás dela o será ainda mais. Apressa-se para descerrar o enigma; subir as escadas envernizadas do palco e, num arrebatamento, descobrir o que há logo atrás do mistério luminoso que tão majestosamente domina seus pensamentos.

O ser agora é velho. Passou a vida correndo para alcançar a cortina. Mas não se arrepende: tem as narinas tomadas pelos vapores cheirosos, os pelos dos braços eriçados, que sensação, que glamour!

Aspira: aroma de riqueza, de luxo, ostentações várias.

Chega. Com as pernas trêmulas, para diante das escadas. Sobe. Um. Dois. Três degraus. Pisa no palco. Nem pode acreditar: está no palco. Arrasta os pés detonados com o intuito de se convencer: está no palco.

Suas mãos vacilam. Bem em frente à cortina, hesitam: terá forças para puxar? Terá equilíbrio suficiente para administrar a imensidão da felicidade que recairá, muito viva, sobre si?

Respira. Fecha os olhos. A Cortina, ser! Você está olhando para A Cortina, ser!

Ah, os vapores, tão perfumados.

Abre os olhos. Chora. Pulsa. Treme.

Estende as mãos de dedos pálidos e enrugados. Puxa.

Atônito, fixa o palco.

Não tem nada ali.



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