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11 Janeiro 2018 10:22:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) /


De todos os perversos sons, o que mais me intimida é o do tempo rugindo em meus ouvidos. Esse leão inexorável em geral é silencioso, mas se fico bem quieta posso ouvi-lo rugindo para mim; só que às vezes é pior. Às vezes, ele ruge dentro de mim.

E é esse mesmo tempo, faminto insaturável que busco, não sei exatamente por que razão, resgatar.

Ainda ontem meus pais recordavam, divertidos, sobre o dia em que feri o indicador na chama de uma vela. Queimei o dedo - feio, segundo eles - e nem lembro mais. Devia ter dois ou três anos e o pai me advertiu, dramatizou a cena de um dedo machucado, assoprou o hipotético ferimento em si mesmo e com um pouco mais de esforço teria criado uma segunda cabeça, tudo para afastar minha atenção da vela.

Sem sucesso. Não desisti. De acordo com o relato dele, meu olhar hoje perdido, na época concentrado e flamejante, brilhou ainda mais com a chama da vela. Eu a queria para mim. Queria aquela luz. Quem sabe pressentia que iria precisar dela nas escuridões que viriam me espreitar. Então, a despeito de toda a admoestação - verbal e teatral -, meti o dedinho de criança naquele fulgor alaranjado.

A consequência vocês devem saber: grande bolha e berreiro. Mas tristeza, tristeza mesmo, dessas que achatam as ideias e afogam o coração, duvido muito. Queimadurinha de nada. Fogo amigo. Luz que ainda busco.

Não tenciono com isso dizer que não fui teimosa, metida e até meio burra. Fui mesmo. Tudo isso e mais. Só que, se toda a teimosia, infantil arrogância e inocente burrice resultassem num dedo queimado e na fantasia de iluminação - interna e eterna -, eu faria novamente.

Na verdade, percebo que quero aquela vela de novo. Aquela chama de novo. Aquele berreiro de novo. Desde que a vela me traga delírios puros; a chama, esperança; e o berreiro, ah, o berreiro silêncio para o grito imorredouro das minhas aflições. Desde que tudo isso aquiete o rugido do tempo. E se o preço a pagar for o de um dedo lesado, tudo bem. Que seja assim: eu topo, vamos lá, a vida é isso. A vida é encarar danos menores enquanto ainda há oportunidade, antes que os maiores se sobreponham.

Minha vela de novo. Eu quero a minha vela de novo. Falo isso com presunção, é claro. Aquela não era a minha vela. Não tinha nenhuma marca customizada nem fora presente especial, nada disso. Foi apenas uma vela comum que a família usou para tentar brilhar quando faltou luz. Benditas sejam as velas - as materiais e as metafísicas - porque, se toda ausência de luz pudesse com elas se resolver, não haveria sórdida escuridão nesses becos ocos em que por vezes se transformam os nossos corações.

Queria resgatar o tempo. Para isso, poderia começar resgatando a vela, a chama de dulcificadas ilusões. Luz que alimenta. Brilho que cura. Poderia iniciar o resgate de todas as emoções que ele, o próprio tempo, sequestrou de mim. Resgatar o tempo que é o sequestrador de si mesmo.

Não creio que consiga tão cedo. Ao menos não antes que os terríveis gemidos do leão irrefreável me ensurdeçam. Com isso, com esse frágil acreditar, há quem diga que a minha falta de fé é perturbadora. Pode ser. Mas uma valente migalha de esperança ainda tenho para pedir duas coisas para a vida: minha vela de novo e que o tempo pare de rugir nos meus ouvidos.



04 Janeiro 2018 00:05:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação)


Você passa anos memorizando fórmulas matemáticas e leis da Física;

para um dia perceber que a vida não se explica de maneira exata, tampouco calculada.

Você gasta décadas em bancos de ensino, quilômetros de folhas escritas, milhões de caracteres e insanas milhares de provas para conseguir um diploma;

para um dia se dar conta de que a sabedoria nasce na simplicidade.

Você almeja popularidade, riqueza e influência;

para um dia compreender que os seus desejos se realizam, todos, simultaneamente, na estreiteza larga de um abraço.

Você se envaidece quando consegue afirmar algo com certeza incontestável;

para um dia entender que a verdade é uma miragem e que o território das dúvidas é o único confiável.

Você lamenta supostas derrotas e pensa ser inatingível por aparentes virtudes;

para um dia vislumbrar a beleza sutil do aperfeiçoamento esculpido na dor e a fragilidade de máscaras de giz.

Você trabalha vertiginosamente para alcançar faustuosa posição;

para um dia observar, fraco, apático e sozinho, um filme de cenas repetidas em preto e branco simbolizando o seu sucesso louvável... e vazio.

Você ri, sofre e vive;

para um dia perceber que riu menos do que precisava, sofreu mais do que deveria e viveu apenas quando:

 Não tentou tornar exatos os caminhos naturalmente incertos;

absorveu a plenitude da simplicidade;

valorizou a estreiteza larga de um abraço;

duvidou de certezas;

rememorou tropeços com lágrimas de saudade umedecendo um sorriso de dever cumprido;

agradeceu à maturidade por admitir a inconstância da trajetória.

E quando riu.

Riu até a barriga doer, os olhos lacrimejarem e você se sentir ridículo. Pois só quem admite a própria tolice aprende que passar por tolo é melhor do que ser infeliz.

Mas você também vive quando sofre.

Aquele sofrimento que amarga a boca e aperta o peito, faz verter angústia salgada e líquida dos olhos e embaça a vista também constrói o caráter, enrijece a vontade e costura o tecido do altruísmo.

 Porque se sabe, através de experiências edificadas no próprio coração, que a vida é um emaranhado de sonhos e desejos,

de pureza e dor,

de sorrisos e asperezas,

de carícias e decepções,

de beijos, abraços e indiferença.

De tudo e nada.

De apostas e riscos.

De aflições.

De regozijos.

E tudo isso, por quê?

E nada disso... por que não?

Porque sempre haverá uma pergunta e a falta de uma resposta.

Ou uma resposta enérgica e equivocada para uma pergunta séria e infundada.

Porque sempre haverá.

Sempre haverá um fim e um começo.

Uma verdade falsa e uma falsidade verdadeira.

Sempre haverá tudo.

Nunca haverá nada.

O Sempre e o Nunca se digladiando como por toda vida combateram, ou como jamais se enfrentaram.

Você ou Eu?

Sempre ou Nunca?

Sim ou Não?

E... por quê?



21 Dezembro 2017 08:46:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação)

Naquele momento ele não era o avô de ninguém. Tampouco o marido. Não era pai biológico ou filho, sequer tinha a liberdade de vestir outra cor, que não o vermelho. De barba falsa e tão branca e inocente quanto flocos de neve, um gorro meio torto sobre a cabeça idosa, ali estava o Papai Noel. Forçando a voz para parecer mais grave que o normal, o velhinho entretinha as crianças com balas e pirulitos, sorrisos e sonhos, canções e presentes.

Vi um carrinho de plástico, de formato simples, ser retirado da sacola que o personagem trazia sobre os ombros e entregue, com um sorriso, ao garoto miúdo que entrou no parque de diversões e foi postar-se à frente da cadeira enfeitada, na qual se acomodara o protagonista do Natal.

O menino observou atentamente as botas de lona preta que calçavam os pés de Noel. Em seguida, fitou com curiosidade o cinturão, também negro, que envolvia o estufado ventre. Mas foi no instante em que seus olhos se encontraram com os do ancião que disse com petulância:

- O que você faz?

Noel piscou, surpreso. Não respondeu. Em vez disso, deve ter se perguntado o mesmo que eu: onde estariam os pais do rapazinho?

- O que você faz? - tornou a inquirir o menino, a audácia pontuando cada palavra.

Condescendente, o personagem respondeu:

- Eu... dou presentes, distribuo doces. Aconselho crianças travessas... -a última frase veio acompanhada pelo dedo em riste de Noel, que o balançou diante do rosto cético do moleque.

- Eu quero saber o que faz de útil.

Foi um choque. Um ultraje. As crianças que esperavam na fila para tirar fotos com o velhinho começaram a choramingar: ele está ofendendo o Papai Noel? Não vai ganhar presente de Natal, vai, mãe? Os adultos investigaram, com os olhos, o paradeiro dos pais descuidados daquele garoto. Alguns velhos, que levavam os netos, sufocaram o riso, sendo calados por tapas discretos provenientes das mãos de suas esposas de cabelos azulados. Até as folhas das árvores que rodeavam o recanto do bom velhinho pareceram estacar. Paralisadas, mesmo diante do vento insistente.

- O que disse, meu filho?

- Não sou seu filho - respondeu o menino, de pronto. - Não sou nada seu. Quero saber o que faz de útil.

- Diga o presente que quer. Se for um bom menino, poderá recebê-lo.

A evasiva irritou a criança.

- Quero que pare de usar essas botas. E também esse coldre.

Pude notar que a taxatividade demonstrada na voz infantil assustou a muitos, enquanto outros sussurraram, impressionados. Várias crianças choraram com ímpeto, sendo levadas dali no colo dos pais.

- Isso não é um coldre. Não guardo nenhuma arma aqui. É apenas um cinto que mantém a barriga do Papai Noel sob controle.

- Enquanto você tenta manter a sua barriga falsa sob controle, a polícia utiliza o coldre como suporte para armas que silenciam bandidos. Usa botas para não fazer barulho em uma batida, ou para alcançar os locais de difícil acesso. Tenta manter o crime sob controle.

Silêncio. Policiais que vigiavam o parque cochicharam entre si: futuro policial. Enérgico o suficiente, poderia ser delegado. Incrível. Brilhante.

- Usaram essas botas para entrar no barraco da favela em que eu morava e a arma do coldre para exterminar o traficante que feria o meu pai - os olhos do garoto encheram-se de lágrimas amarguradas. - Meu pai está no hospital, tentando se recuperar das facadas. Minha mãe eu não conheço, dizem que fugiu dias depois do meu nascimento.

Num repente, a compreensão atingiu e sensibilizou a todos, como se um volumoso cobertor de mágoas apequenasse ainda mais o menino.

O Papai Noel fungou, tentando conter a própria emoção. Então disse, comovido:

- Não pretendo me equiparar aos homens corajosos que salvaram você e a sua família. Quero, tão somente, trazer um pouco de alegria aos Natais. A minha arma é o amor, e se ele não salva, pode curar, sabe?

Agora o pranto era unânime e silencioso, inclusive o do bom velhinho que, fixando os olhos aflitos do pequeno, prosseguiu, em tom suave:

- O mundo é cruel. Aprendeu isso muito cedo. Quantos anos você tem? - o rapazinho, numa primeira manifestação infantil, mostrou sete dedos e baixou os olhos, quando então uma lágrima solitária escorreu-lhe pelo rosto. - Quer ser policial?

- Quero salvar a vida das pessoas de bem - a sentença saiu embargada, mas convicta.

- Vai conseguir - garantiu Noel.

Um jovem policial se aproximou e agachou-se, até ficar próximo à altura do garoto, que encarou-o maravilhado.

- Isso é um coldre, não é? - questionou o infante, apontando para a tira preta de couro pouco abaixo da cintura do militar.

- É.

Quando um brilho de reconhecimento iluminou o rosto infantil, o menino enxugou as lágrimas com vigor:

- Você!

O líder da operação que invadira a favela na semana anterior fez o tradicional gesto de reverência, com a lateral da mão tocando a têmpora e asseverou:

- Às suas ordens!

O garoto abraçou o policial; em seguida, estendeu o outro braço para enlaçar o Papai Noel.

Em segundos, crianças correram e se juntaram ao abraço. Outras, como uma mola, pularam do colo dos pais e fizeram o mesmo. Pais e mães contemplaram a cena e choraram, riram, sentiram-se felizes, e tristes, indignados com as desigualdades sociais, e contentes com a ousadia do moleque, angustiados por seus traumas, e aliviados pelo início da libertação deles.

Mais tarde fiquei sabendo que o Papai Noel era um delegado aposentado. E acredito que naquele momento, assim como eu, ele também compreendeu a verdadeira essência do Natal: a cura da alma.



14 Dezembro 2017 08:42:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) 

Queremos grana, férias, chiclete, panetone e agitação. Queremos status, sossego, diminuição de impostos e sol. Queremos gritos, sapatos, decoração de Natal e gás mais barato. Queremos que o governo pare de roubar, roupas de grife e dormir. Queremos um afago, um canto só nosso, bagunça e que nos deixem em paz.

No meio de tudo isso, o que queremos de verdade?

Queremos ternura, raiva, fraternidade, hipocrisia, verdade, dissimulação. Queremos dar a cara a tapa, mas nunca levar um tapa. Queremos que nos entendam, mas não entender ninguém. Queremos ser ouvidos, mas sem sermos ouvintes. Queremos falar, mas que os outros se calem. Queremos pra ontem, mas com paciência. Queremos um amor eterno, mas que termine logo para conhecermos o próximo e não queremos, aliás, ser o próximo de ninguém, queremos ser únicos.

No meio de tudo isso, o que queremos de verdade?

Queremos viajar... e ficar, queremos morrer hoje... e viver pra sempre, queremos casar... e permanecer solteiros. Queremos agilidade... e calma. Queremos fama... e anonimato. Queremos ter... e receber admiração exclusivamente pelo que somos e não pelo que temos. Queremos barulho... e silêncio. Queremos inovar... e quando saímos da rotina ficamos doidos.

No meio de tudo isso, confusos, perdidos, alucinados, sem saber o que queremos, fica difícil conseguir. Por não conseguir, nos tornamos pessoas frustradas, porque toda frustração emana de um desejo não realizado. Mas e quando os desejos são antagônicos? Como ser fitness e sedentário? Como ser tranquilo e levar uma vida estressante? Como sorrir abertamente e evitar marcas de expressão? Como pagar os impostos e sobrar dinheiro pra qualquer outra coisa? Como beber cerveja e não ter barriga? E a pergunta mais difícil de todas, que até mesmo Freud, aposto, penaria para responder: como ser feliz e agradar aos outros?

Desconfio que todos tenhamos desejos contraditórios, só que, em algum momento, precisamos resolver qual deles é mais importante, fazer uma hierarquia de desejos, e descartar os que nos distanciam de nossos genuínos ideais. O que são ideais? Alguém ainda sabe, será? Platão saberia. Inclusive, para ele, o verdadeiro mundo era o das ideias. Mas e nós? Século XXI, boa Filosofia enterrada e política corrompida em plena forma; sabemos, mesmo, quais são nossos mais puros ideais... aliás, acreditamos em ideais? Ou será que, como diria um amigo meu, achamos que não temos outra saída a não ser trabalhar para o governo?

Única forma de estabilidade: concurso público.

Única maneira de acabar com a baderna: Um governante radicalmente conservador.

Única atitude producente: estudar para concurso.

Coloque seus desejos na mala e nem espere para abri-la tão cedo; se conforme: eles vão mofar lá. As nossas vontades são várias, só que nós, no fundo, nem precisamos escolher entre elas. A realidade é que, no meio de tudo isso, não importa o que queremos de fato. Podemos nos poupar desse trabalho de autoconhecimento porque, hoje muito mais do que ontem, carregamos uma bandeira em nossas mentes. E nela não está gravado o risível decreto de ordem e progresso. Nela está esculpida uma única e indiscutível palavra: OBEDEÇA.



06 Dezembro 2017 23:03:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação)

Muitas pessoas costumam ler um livro ou ouvir música durante viagens longas. Eu aproveito a oportunidade para cultivar meu mais arraigado regozijo: observar a natureza. O lugar na janela é sagrado para mim. Passar pelas árvores sem prestar atenção nelas, estar diante do sol sem com ele comungar, não firmar com o céu um compromisso é como deixar que a minha própria vida caminhe sozinha, enquanto eu espero por um momento mais propício para acompanhá-la.

Logo que entrei no ônibus, caminhei até minha poltrona (ao lado da janela, claro) e comecei a analisar o panorama antes mesmo que começássemos a viagem. Penso que minha expressão contemplativa provoque inquietação nas pessoas, uma vez que o motorista, enquanto caminhava pelo corredor para verificar se todos os passageiros estavam bem acomodados, reproduziu a pergunta que ouço com frequência: por que está aborrecida?

Disse que não estava. Garanti que era só meu jeito, mesmo. Ele não acreditou, uma vez que, dois minutos depois, em uma última inspeção antes de partirmos, batendo com o indicador sobre uma orientação em vermelho, logo acima da minha janela, lançou em tom amigável, no que julgou que seria uma afirmação confortadora: não precisa ficar aborrecida, tem Wi-Fi aqui. Falou como se aquela fosse a solução para todos os meus problemas. E não apenas para os meus, mas para os do mundo todo.

Assenti, fingindo que a tal Wi-Fi começava a modificar meu suposto indesejável estado de ânimo. Ele, só então satisfeito, foi para trás do volante, conduzir meus sonhos, guiar minha imaginação.

Pegando a estrada, comecei a reconstituir a cena na mente, tendo os outros passageiros como protagonistas:

Ei, moça do dread no cabelo... perdeu o namorado? Não precisa ficar aborrecida. Tem Wi-Fi aqui.

Garoto que vai pra faculdade... reprovou em todas as matérias desse semestre? Não precisa ficar aborrecido. Tem Wi-Fi aqui.

A senhora está doente? Diabete em estágio avançado? Acha que vão ter que amputar a sua perna? Não precisa ficar aborrecida. Tem Wi-Fi aqui.

Rapaz com os olhos inchados... de chorar? Ah, morreu alguém da sua família? Não se aborrece, não. Tem Wi-Fi aqui.

Potestade Wi-Fi. O esplendor de estar conectado. A moça que perdeu o namorado poderia postar nas redes sociais sentenças de desilusão com o amor, ou de revolta com os homens. As que eu mais tenho visto são: "Decepção não mata, ensina a viver". "Pisa, mas quando eu levantar, corre".

O garoto reprovado aproveitaria a Wi-Fi para marcar no Facebook todos os colegas igualmente encrencados e escrever: "Quem passa direto é ônibus".

A senhora doente faria o check-in no hospital em que iria se consultar, antecipando que, nos comentários, todos perguntariam o que havia acontecido.

O rapaz que soube da morte de um ente querido atualizaria a foto do perfil, colocando uma de luto no lugar.

E assim, todos diriam para o mundo o que se passa em suas vidas, através de fotos, meias-palavras ou frases sugestivas. E assim tudo logo se resolveria. Porque a Wi-Fi resolve tudo.

Que as tragédias desabem sobre nós. Que o mundo acabe, ninguém se importa (afinal, já acabou tantas vezes). Mas que não nos falte a Wi-Fi. Vão-se os namorados, fica a Wi-Fi. Vai-se o conhecimento, fica a Wi-Fi. Vai-se a saúde, fica Wi-Fi, fica! Morrem as pessoas, sobrevive a Wi-Fi. Não me sentirei surpresa quando até mesmo os mais crentes trocarem Deus pela Wi-Fi. Afinal, é ela a nova religião do universo.

O filósofo Gilles Deleuze classificou o ser humano como uma máquina desejante. Presumo que hoje todos os nossos desejos estejam consubstanciados nela - a nossa musa, a nossa deusa, o nosso epicentro: Wi-Fi que estás no céu.

Wi-Fi nossa que estás no céu,

Santifiquemos o teu nome,

busquemos o teu reino,

sempre façamos a tua vontade,

enquanto estamos na Terra e também quando partirmos ao céu (mas mais provavelmente ao inferno),

A conexão nossa de cada dia nos dai hoje,

perdoai os nossos erros gramaticais,

assim como nós perdoamos aquele que nos marcou em uma foto comprometedora,

não nos deixei cair em desconexão,

mas livrai-nos do tédio de ter que olhar nos olhos dos outros...

Só no final, um pedido para Deus: que nunca nos falte Wi-Fi.  

... AMÉM!



29 Novembro 2017 23:08:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação)

Me intriga a expressão "chorou feito criança". Como se adultos não chorassem. Como se o privilégio da lástima vertida fosse apenas dos pequenos. O dito me inquieta porque talvez só as crianças possam livremente ter - ou admitir ter - sentimentos ou reações exacerbadas.

Crianças choram, geralmente, ao receberem um não dos pais. Os adultos derramam suas censuráveis lágrimas ao sofrerem com os repetidos nãos da vida. Alguns nãos proferidos pela vida cabem realmente só a ela, não há nada que possamos fazer - são irremediáveis, são a imponência, a prepotência, o poder misterioso que se agiganta e permanece, independente de nossa vontade.

Porém, outros tantos nãos já foram enfáticos sins que nós, por nossa negligência, omissão e descaso em relação aos sentimentos dos outros transformamos em amargos, intragáveis e indissociáveis nãos. Amargos pelas consequências: nem só as ações geram efeitos - as omissões também. Intragáveis pela culpa. Indissociáveis pelo arrependimento. Mas será mesmo que se pudéssemos retroceder no tempo faríamos de outra forma?

Nós mexemos, remodelamos e modificamos um belo sim, até deformá-lo. Até transformá-lo em indelével não. Então, feito crianças, culpamos outrem pela nossa palermice. Neste caso, imputamos culpa à vida, essa testa-de-ferro que nada tem com nossas reticências, nada tem com nossa preguiça de conquistar o que desejamos, nada tem com nossa incapacidade de sermos humildes.

Feito crianças, só admitimos que maltratamos o brinquedo depois que o vemos quebrado (e, por vezes, somos tão orgulhosos que nem assim admitimos). Adultos, esfacelamos sentimentos e depois lamentamos, porque permitimos que escorressem por entre nossos frouxos dedos algo valioso.

Há ainda os que se equiparam ainda mais às crianças e, de fato, encaram a todos como brinquedos, a tudo como brincadeira e nem lamentam tanto assim pela culpa: talvez esses nem consciência tenham, só vontade de brincar.

Para tentar entender o insucesso da causa (a omissão) e ensaiar uma tática para a compreensão do resultado (as lágrimas), conversei com um economista e um matemático. Um pouco de exatidão é como canja de galinha - não faz mal a ninguém. O entendido em economia me garantiu que mão aberta demais é sinônimo de falência. Me disse ainda que, embora sua profissão não esteja ligada ao lirismo, tem absoluta confiança de que as emoções guardam similaridade com essa comparação.

 O matemático foi lógico: "ajamos como adultos, enquanto é tempo. Para depois não chorarmos feito crianças".

Mas é claro que, para investigar profundamente o tema, precisei da literatura. Recorri ao infalível Rubem Alves, que certa vez questionou: "De que vale um homem ganhar o mundo todo se, para ganhá-lo, deixa a sua vida no presente escorrer por entre os dedos?".

Pensei a respeito enquanto assisti, reflexiva e solitária, ao pôr do sol.



23 Novembro 2017 07:00:00

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(Foto: Divulgação)

Elegemos prioridades, é fato. Sempre sufragamos prioridades. Em cada fase, as prioridades mudam. A própria humanidade muda de fases e, consequentemente, de prioridades.

Me contam a história remota de meus ancestrais. A prioridade deles era o equilíbrio; por isso procuravam estar sempre em contato com a natureza, ouvindo os sentimentos, aprimorando a intuição. Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é ganhar, ter, poder, nem que para isso precisemos anular o que somos; nossas vontades em uma camisa de força, nossos talentos desmaiados.

Ouço falar de pessoas que, em outros tempos, outra vida, outra realidade, plantavam pequenos momentos felizes a cada dia para, no futuro, colherem a plenitude. Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é aceitar os ideais que a sociedade planta em nós para, em um futuro decepcionante, colhermos a frustração.

É com alguma dor que escuto que antes, em épocas saudosas, a prioridade era a calma, a decisão firme porque calcada na serenidade, as relações humanas duradouras porque cultivadas com sanidade. Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é a ânsia, as coisas que ainda estamos fazendo (com pressa), precisávamos ter feito há uma semana (com muito mais pressa). Hoje nossas resoluções são influenciadas pelo relógio que tiquetaqueia insistentemente em nossos ouvidos, que irrita nosso cérebro, que faz milhares de toxinas produzidas pelo estresse serem jogadas em nós. Nosso corpo e nossa mente se nutrem de lixo todos os dias.

Antes, queriam viver: escolher alguém para estar ao lado (e realmente ESTAR AO LADO), acompanhar o crescimento dos filhos (e crescer junto), construir uma carreira que os fizesse sentir realizados como seres humanos (mesmo que não tivessem grandes possibilidades de enriquecer com isso). Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é viver quando der tempo. Se der tempo. Escolher alguém tão ou mais ambicioso, para nunca estarem juntos (ambos trabalhando o dia todo e, à noite, cada um montando a sua planilha em cômodos bem afastados da casa de três andares, para caírem mortos de exaustão às quatro da manhã, sobre o teclado do computador). Hoje a prioridade é não acompanhar o crescimento dos filhos, porque hoje a prioridade número um é não ter filhos. A prioridade número um é que a casa enorme fique mais enorme pela ausência de pessoas e ainda mais fria, pelo excesso de máquinas. Hei! Prioridade: ganhar muito, seja em que trabalho for - quem se interessa em ter satisfação na vida? O que é satisfação? Dá lucro? -, desde que remunere bem, o suficiente para pagar uma excelente terapia e ter um estoque dos mais avançados ansiolíticos do mercado. Porque hoje todo mundo é craque em saber sobre os melhores ansiolíticos, mas ninguém mais sabe o que é dormir oito horas por noite.

Oito horas? Hoje é louco quem dorme oito horas. Os mais equilibrados conseguem dormir seis de um sono fragmentado e turbulento. É anormal quem dorme oito horas tendo milhões de compromissos, a agenda cheia, o dia apertado, a cabeça a mil, o coração a zero. Normal, hoje, é ser anormal: não dormir (porque não há tempo), se alimentar de fast-food (porque não há tempo), não apreciar a natureza (você é maluca? Onde se arranja tempo pra isso?), não fazer exercícios físicos (aí você já está de brincadeira. Escolha: ou eu durmo, ou eu como, ou eu contemplo a natureza, ou eu me exercito. Mas tudo no mesmo dia?).

O projeto desta geração está dividido assim (porque hoje, para tudo, precisa-se fazer um projeto antes. Aquele mesmo que ninguém vai ler e você dará graças aos céus quando se livrar dele):

Objetivo geral: Fazer o que a sociedade manda.

Objetivos específicos: 1) Viver mal; 2) Morrer mal; 3) Ter o melhor jazigo do cemitério.

A única circunstância sábia desses nossos tempos é que o objetivo específico número 3 dificilmente se realizará, uma vez que devemos todos ser cremados.

Por isso, deixo aqui um pedido e um recado aos nossos descendentes. O pedido: comecem desde já a construir prioridades mais humanas. O recado: joguem as nossas cinzas fora, sem dó. Para que não reste nem o pó desta fase infeliz.



16 Novembro 2017 07:30:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação)

A pureza choca, sensibiliza, atormenta e às vezes até insulta. Contudo a pureza, vejam bem, é sempre solitária. Sim, a partir do momento em que qualquer outro termo a ela dê a mão, a essência está perdida, deflorada, amortalhada sob o mármore do luxo ou sob o tecido imundo da frivolidade. A pureza rejeita explicações e adjetivos que com ela queiram se juntar. A pureza é silenciosa, é a paz que só se exaspera quando sistematicamente afrontada.

Cálice de pureza e símbolo de proteção, uma menina de seus oito, nove anos sentara-se com o pai na mesa ao lado da minha e à frente de outra onde um jovem casal discutia e trocava acerbas recriminações.

O café não estava atulhado. Afora as nossas, outras duas ou três mesas ocupadas, e era só. Além das conversas sussurradas, apenas uma mosca insistente zumbia na janela. O pai da criança tinha os cotovelos apoiados no tampo da mesa e massageava a têmpora com o indicador e o médio. Os olhos fechados e a expressão desanimada incomodavam a criança que, angustiada, ocasionalmente acariciava o braço do pai.

Quando o pedido do casal de namorados chegou e eles dispensaram a garçonete com um agradecimento brusco, as censuras mútuas se acirraram. O rapaz, um louro espadaúdo aparentando vinte e poucos anos, acusava a namorada, uma moça graciosa de olhos assustados, de condutas reprováveis que não me cabe detalhar aqui, mas todas relacionadas a flertes esparsos. A jovem negava terminantemente as contravenções imputadas; primeiro com civilidade, porém, quando ele alteou a voz, ela o seguiu no mesmo compasso imaturo e, dois minutos depois, berravam.

Aos brados, ele declarou que, por muito tempo, havia acreditado nela. Me perguntei até onde acreditar não destrói. A jovem, na defensiva, garantiu que poderia continuar acreditando, que não deveria se submeter às próprias inseguranças ou à maldade dos outros. Isso me fez refletir até quando conseguimos nos abster à opressão do que é mais poderoso do que nós. O murro que o rapaz deu na mesa, espalhando todo o açúcar na toalha vermelha fez com que um apelo ingênuo, mas ainda assim enérgico saísse da boca da criança, vindo direto de seu peito aflito: Poderiam parar de brigar? Não percebem que meu pai está com dor de cabeça?

Silêncio. Não um silêncio, mas uma multidão deles. A mosca foi a primeira a silenciar, cerimoniosa. Eu continuei no meu costumeiro silêncio, largando com muita cautela a colher no pires. A garçonete parou a caneta no meio da anotação de um pedido. O pai arregalou os olhos, em um silêncio estupefato diante da ousadia da filha. O casal quedou-se igualmente silente, uma quietude de trevas, vergonha e exaustão. E a menina, a bela criança de tranças e desesperos, pureza e amor filial também calou, bebendo seu próprio silêncio de luz.

A preocupação da menina irmanou a todos. Todas as mesas foram instantaneamente ligadas por uma corrente de luminosidade e nossas vidas todas, nossas tragédias todas e todos os nossos ceticismos foram vinculados por aquele silêncio. Aqueles silêncios. Nossos silêncios dourados.

De repente, tudo o mais se tornou insignificante: o pedido interrompido, a mosca intrusa, a toalha suja de açúcar, a suposta traição, tudo. Até mesmo a dor de cabeça do pai. Tudo abriu espaço aos nossos silêncios dourados.

Não sei precisar por quanto tempo durou cada uma daquelas solidões silenciosas, cada um daqueles tormentos fervilhantes no meio de cada um daqueles corações compungidos. Mas foram minutos, ou horas, ou meses, ou, quem sabe, eu ainda esteja lá, naquele famigerado café, assistindo aquele mesmo famigerado tempo, que a tudo devora, consumir vorazmente a pureza da criança que, em breve, será um dos componentes de um namoro, uma das vozes de uma discussão, uma lança de descaso à dor alheia.

Por fim, quando as conversas voltaram a se fazer, em murmúrios, o casal, vexado, pagou a conta às pressas e saiu; o pai cochichou algo para a filha, que deu de ombros; a garçonete enxotou a mosca com um pano de louça e eu, melancólica, fiz uma pequena prece a esse tempo, esse mesmo que a tudo devora: arrase os sonhos desta criança, esfacele seus adocicados enganos, quebre os vínculos que a ligam ao ilusório. Faça isso, Tempo. Já que é o que faz de melhor. Faça. Mas deixe, em nome de algum miserável sopro de amor que ainda tem pela vida, deixe os nossos silêncios dourados.

                                                                                                         ***

Nossos silêncios dourados é a crônica que dá nome ao meu novo livro, que está à venda no site: www.clubedeautores.com.br. Ou podem fazer o pedido comigo, no inbox do Facebook.



26 Outubro 2017 09:45:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação)

Quem com ferro e fogo se fere, com fogo incendiará a si próprio e com ferro será marcado pela vida.

Sempre me acusam de ser radical demais. Nunca me defendi da acusação, porque admito que procede. Sou aquela que leva tudo a ferro e fogo. Mesmo quando me queimo, ainda quando a vida insere em mim suas marcas a ferro - querendo evidenciar que ela é a minha dona e eu apenas um animal destinado ao abate - eu não aprendo. Ou aprendo, só não consigo praticar.

Tenho dificuldades em me compreender: sou retardada mesmo, dessas que têm um sério déficit mental, emocional e social ou sou apenas uma ingênua que ainda acredita na correção impecável de atitudes? Quer me parecer que o retardo se alia à ingenuidade inata e resulta nisso que vos escreve: um comprovado caso perdido.

Não lamentem por mim: pena não vai me ajudar. Mas se você também é desses que leva tudo a ferro e fogo, agradeço por me acompanhar até aqui, porque eu sei que o perfeccionismo vai insistir para que continue até o final do texto, mesmo não sendo dos mais otimistas.

Acredita (ou já acreditou) no ditado de que será tratado conforme tratar as pessoas? A vida então te fere esculpindo um "B" enorme, no meio da sua testa: um "B" de bobo, "B" de babaca, "B" de Basta de ser Burro. Isso quando você já se queimou feio, queimadura de quarto grau na alma (porque, os sensatos que nos perdoem, mas nós, Burros, acreditamos que ela existe).

Acredita (ou já acreditou) que quanto mais correto você for, mais a vida lhe retribuirá? Está certo. Ela lhe retribuirá mesmo: com um "I" de Idiota, "I" de Imbecil", "I" de Injustificável Ilusão. Você será marcado com ferro, por ter afrontado com fogo a todas as circunstâncias injustas.

Acredita (ou já acreditou) que para alcançar seus ideais só existem três caminhos: 1) disciplina. 2) disciplina e 3) disciplina? Nesta fase a vida virá, tão boa quanto uma bruxa e tão amena quanto um rasgo na carne para gravar com ferro e fogo não uma letra, mas uma sentença inteira onde mais doer em você. A decisão inapelável dela será a seguinte: "Seja disciplinado, mas não se invalide em razão disso, nem me anule. Assinado: Vida. Pós-escrito: aprenda a viver". Alguém aí sabe como fazer isso?

Para quem não consegue se direcionar, só posso dar uma dica: observe os nossos atos. As atitudes dos Bobos, Imbecis e Disciplinados Além do Saudável. E faça exatamente o contrário.



19 Outubro 2017 06:54:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) 

Quantos livros você já leu? A quantos filmes assistiu? Documentários? Peças de teatro? Pois eu só posso te dizer que haverá capítulos (extensos) que você nunca vai dominar. Cenas (enormes), a que você nunca vai estar familiarizado. Trechos (árduos) a que nunca vai se acostumar. Encenações (dolorosas) a que nunca, nem que viva mais do que Matusalém, vai assimilar. Por não ter nome melhor, chamo de Surpresas.

Surpresa é quando a vida vem e te coloca trezentas toneladas de mármore nos ombros, exatamente quando você não tem mais forças. Aqui deixo categórica a minha discordância da máxima ilusória de que nunca transportamos fardos maiores do que aqueles que podemos carregar. Levamos, sim; por isso caímos, por isso morremos tantas vezes durante a vida. Levantamos por dois motivos: porque não há outra opção e porque esse fardo não é físico; as toneladas emocionais aparentam doer menos, e elas realmente doem menos, já que o sofrimento que impõem está muito além de qualquer dor mensurável.

Acredite, levantamos: mesmo com os ombros partidos, as costas fraturadas, os pés completamente mortos e a vida totalmente esvaída. Não diga que assim é impossível levantar porque, acredite: levantamos. Como? Surpresa. Mistério. Enigma. Senha.

Levantamos porque a vida, quando estamos caídos, vem a dois quilômetros de distância jogando pedras atrás de nós e nós sabemos que só temos alguns minutos para sair do chão: a vida é ágil, joga pedras depressa. Nunca ouviu falar disso? Ou fui eu que adaptei um pouco? Surpresa.

Quando a vida vai chegando pertinho, tão boazinha, ela, com suas pedrinhas, algo superior a você (entenda: algo superior a você e não você) te levanta e te diz siga. E então você segue. Como? Surpresa. Mas não pense que acabou. Você não vai deixar de sofrer só porque seus ombros estão quebrados, as costas partidas e os pés mortos, não. Quê? Achou que seria fácil?

Não esqueça: a vida ainda está atrás de você, agora caminhando mais rápido, sempre jogando pedras. Só que você não deve se desesperar, pois tem um companheiro. Não sólido, mas líquido e viscoso: o sangue escorrendo de seus pés mortos. Como pés mortos vertem sangue? Surpresa.

Acabou? Já se pode morrer completamente agora? Por favor? Não. Aliás, quanto mais quiser morrer, mais você vai viver. A morte não existe e é só por isso que tentar acabar com ela nunca é uma opção.

Tenho uma coisa para te contar: milhares de toneladas de mármore ainda vão machucar seus ombros, centenas de litros de sangue serão transfundidos de maneira incógnita para manchar seus pés e te fazer companhia e você jamais vai entender como costas fraturadas podem dar movimento ao teu corpo.

A vida e a dor sempre continuam. Essas duas irmãs gostam de demonstrar isso exatamente quando suas forças terminam.

Então sua única saída é continuar junto. Como? Surpresa.



12 Outubro 2017 11:29:15

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Por vezes, as praças são um bom lugar para se repousar as preocupações. Naquele dia em especial, com o céu de um azul sublime, sem uma nuvem sequer e o sol aquecendo sutilmente com seus raios iluminados, a minha inseparável companheira que tem nome e sobrenome - Confusão Mental, pareceu se render. A troca foi mais do que justa, pois, quando ela se foi, a brisa trouxe um anjo.  

A menina aparentava ter uns cinco, seis anos, usava um vestido de algodão com as cores do arco-íris, e chegava na praça de mãos dadas com a mãe. O brilho do sol se intensificou naquele momento. O astro resplandeceu. E o arco-íris em forma de criança ficou mais colorido e inocente. A garota soltou a mão da mãe quando chegou ao centro da praça, onde havia um canteiro de margaridas; se agachou, colheu uma das flores e colocou-a atrás da orelha. Leite e mel num recipiente de cristal.

O lugar podia até ser palco das margaridas, mas a fragrância no ar era dos jasmins que vinham da casa em frente; feito espumas brancas desviadas, agarravam-se bravamente à cerca de pedra: creme doce preso ao ufanismo de nossas resistências. Eu analisava esses valentes retalhos de cetim quando ouvi duas gargalhadas felizes: pelo que percebi, a menina contara para a mãe alguma história secreta, uma piada ingênua, não ouvi do que se tratava, mas, mesmo que escutasse, certamente não teria compreendido. Não sei falar a língua dos anjos.

Neste instante, um vendedor de picolés se posicionou bem na minha frente, eclipsando a graciosa paleta de cores que era aquela criança. "Vai querer um picolé? Tem de nata, chocolate, morango, tem até de..."

A propaganda do homem foi interrompida: "Mãe, olha! Um pedacinho do céu!" Levantei do banco, dei um passo para a direita, e vi o encantamento vestido de gente apontar um dedo gorducho na direção de uma borboleta. Dourada. Sei, eu sei que você vai dizer que borboletas douradas não existem ou que nunca viu uma. Mas, juro, aquela era tão dourada quanto um sonho de infância, tão fulgurante quanto uma esperança acalentada. Tão linda quanto o céu daquele dia.

A criança então estendeu o braço e, milagrosamente, a borboleta se postou no ombro dela e ali ficou, por vários minutos, uma eternidade, perpétuos instantes de ternura enquanto a menina ria, com seu riso de boneca real, seu riso de princesa encantada. Ria, enquanto a margarida atrás da orelha ganhava sentido diante do sorriso do sol. Ria, enquanto o arco-íris do peito se expandia. Ria, enquanto a mãe balançava a cabeça, em uma manifestação estupefata de admiração. Ria, enquanto os jasmins espargiam o sortilégio de suas maravilhas pelo ar. E ria, principalmente, porque estava com um pedacinho do céu nos ombros.

"Hei!" Uma impostação meio irritada me tirou do transe: "Vai querer o picolé, ou não?" Eu? Se eu vou querer creme batido, depois de ver leite e mel enfeitando os cachos de uma menina? Se vou querer corante artificial, depois de avistar as tintas do arco-íris no peito de um anjo? Se vou querer doçura postiça depois de ter um vislumbre do paraíso construindo as asas da criança?

Na verdade, eu queria a minha borboleta dourada, minha fatia de ilusão, minha caixinha secreta, onde guardaria meus desejos para que não continuassem a se esvair. Mas, naquele momento, me contentei em pedir: "Me vê um pedacinho do céu?".

                                        ***

Leitores, esta é uma das crônicas que está no meu novo livro NOSSOS SILÊNCIOS DOURADOS. O livro (de crônicas e poesia) está à venda através do site www.clubedeautores.com.br. Disponível nas versões Ebook e impresso.



05 Outubro 2017 00:07:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Cultura para uns, primorosa imaginação para outros e, ainda, asneira colossal na visão de um terceiro grupo, os mitos são valorados em infinitas gradações. Há quem os busque apenas a título de conhecimento. Existem aqueles que querem saber para debochar das ingênuas constatações advindas dos tempos antigos. Persiste também uma seita de lunáticos (na qual eu me incluo) que pretende refletir sobre os mitos ou para referendar-lhe as conclusões ou para delas discordar.

Me fascina, particularmente, a mitologia grega e toda a simbologia que dela emana. Mas talvez não seja apenas a criatividade dos povos antigos e as representações artísticas das figuras mitológicas que me encante; nem sempre a arte é a única razão que me move. Creio que nessa questão o que arrebata é a liberdade de interpretações, ninguém dizendo que eu tenho que entender de um determinado jeito, porque foi assim que quem idealizou o mito queria que eu entendesse; afinal, daqueles que conceberam essas alegorias nem o pó resta mais.

Conta-se que Penélope, esposa de Ulisses, esperou lealmente pelo retorno do marido da Guerra de Troia. Entretanto, como se passavam os anos e não havia notícia de Ulisses, o pai de Penélope sugeriu que ela se casasse novamente. Embora aceitasse a corte dos pretendentes para não frustrar o objetivo paterno, Penélope disse que só voltaria a se casar quando terminasse de tecer um sudário para Laerte (pai de Ulisses). Só que, durante o dia, à vista de todos, ela trabalhava no sudário; à noite, sozinha, o desmanchava.

O mito é tido como um dos maiores exemplos de fidelidade e de um amor que recusa condições; em suma: enxerga-se o seu lado romântico. Eu, todavia, tenho para mim que representa um retalho amargo de uma realidade igualmente amarga: precisamos criar artimanhas visando esconder os sentimentos puros, para que consigamos mantê-los assim, tão condenados que são. Astuta e celebrada seria Penélope caso se curvasse a um segundo casamento (de preferência com o mais poderoso dos pretendentes): pois é ridículo um amor eterno e desinteressado.

Outra história que me atrai é a de Perséfone: a linda filha de Zeus e Deméter (deusa da fecundidade, da agricultura e das estações). Hades, o deus que presidia o reino dos mortos, apaixonado por Perséfone, raptou-a para o mundo infernal. Deméter, furiosa com o sequestro - que na verdade de sequestro nada tinha, uma vez que Zeus concedeu a mão da filha a Hades, ainda que sem o consentimento de Deméter - recusou as funções de deusa. Com o passar do tempo, a Terra começou a secar e a ausência de flores e frutos foi o apogeu da decadência. Zeus determinou, então, que Hades devolvesse Perséfone à mãe. No entanto, ao que parece, Perséfone, deslumbrada pelo rei das sombras, decidiu morar naquele pedaço de inferno, mesmo. Acontece que a Terra não poderia continuar estéril, ao que Zeus ordenou que a bela ficasse seis meses com Hades e os outros seis com Deméter. Acreditava-se que os seis meses de natureza abundante eram aqueles em que Perséfone estava com a mãe.

Tudo muito lindo para explicar as estações do ano. Mas eu me interesso mais pela fatia estragada e não por aquela coberta de flores e frutos: para mim, o mito retrata como o inferno é a caricatura mais perfeita da paixão.

Acho bonito o tal do Eros também: o deus do amor para os gregos, que recebe o nome de Cupido para os romanos e de Desgraça Pouca é Bobagem para o resto do mundo. Mas não gosto do fato de ser representado por uma criança alada, evocando uma imagem de pureza. Se Eros é mesmo assim tão puro, por que sente a necessidade de flechar o coração das pessoas? Se o amor é tão limpo, por que precisa ser imposto por uma flecha? Contudo, pensando bem, é difícil acreditar que alguém seria inocente a ponto de se apaixonar por gosto.

Me desculpem as percepções completamente divorciadas do romantismo, mas é que o mito é assim como a realidade: cada um interpreta conforme suas próprias experiências.

                                            ***

Leitores, o meu segundo livro NOSSOS SILÊNCIOS DOURADOS (de crônicas e poesia) já está à venda através do site www.clubedeautores.com.br.

Disponível nas versões Ebook e impresso.



28 Setembro 2017 08:37:45
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Entre achados e perdidos, prefiro o que já se extraviou, o que ninguém mais lembra da existência. Tudo aquilo que parece um amontoado de inutilidades sempre acaba fazendo algum sentido para mim.

Ontem, revirando uma montanha de nadas, encontrei uma folha solta no meio de um caderno que eu tinha aos nove anos. A capa anunciava que a disciplina era Matemática. Apesar de eu sempre ter me dado muito bem com os números, penso que naquele dia, naquele remoto dia, decidi começar a fazer o que hoje é um hábito meu: divagar.

A folha solta trazia na primeira linha o título "Ter ou ser, eis a questão". Logo abaixo, eu iniciava uma teoria claudicante acerca das ilusões do ter e das nobres decepções do ser. Agora lembro vagamente de ter arrancado uma página aleatória do caderno e empreendido a missão de escrever sobre o que estava me perturbando, enquanto a professora enchia o quadro com operações de soma e de subtração.

Então descobri: sem querer, menti. Menti para mim mesma que, quando criança, não tinha preocupações. E menti ainda, inadvertidamente, para todos aqueles que me perguntaram com quantos anos comecei a escrever.

Até ontem, pensava que por uns doze anos, no mínimo, nada poderia me abalar. Pensava que era imune às reflexões doloridas e desesperançadas. Pensava que a severidade dos desassossegos principiara a tarefa de amargar as doces emoções bem depois dos nove anos. Mas descobri, sem querer, que também sem querer, menti.

Até ontem, costumava fixar o marco cronológico de treze anos para a fase embrionária das criações literárias. Detalhava: escrevia em agendas, tinha uma montanha delas, esgotei as folhas de todas, escrevia até as mãos cansarem e os olhos doerem. A verdade eu já disse: essas montanhas de agendas se transformaram em montanhas de nada. As mãos nunca descansaram e os olhos jamais pararam de doer. E é verdade, igualmente: descobri, sem querer, que para todos, também sem querer, menti. Foi antes dos treze, pessoal, me redimo agora: foi aos nove. Será que isso, hoje, faz alguma diferença?

Mas não é para falar sobre minha recente descoberta pouco lisonjeira que escrevo este texto, e sim para ponderar a respeito do tema que rabisquei naquela esquecida página dos meus desencantos.

Ter ou ser, eis a questão. Não creio que com aquela idade já tivesse ouvido falar da insanável problemática levantada por Parmênides e por Heráclito a propósito do ser e do não ser; nem que houvesse me inspirado na famosa tragédia de Shakespeare, ou que tivesse, com isso, claramente confundido a célebre proposição "Ser ou não ser, eis a questão". Mesmo porque, analisando o escrito, fica nítida a minha insatisfação e não a dúvida. Como todos os meus textos de estreia, este vinha carregado de revolta, embora eu tenha querido lhe dar um ar de filosófica conjectura através do título.

O poder deturpado, a ética corrompida, o materialismo que grita: o ter. As ambiguidades existenciais, o inconstante fingindo constância, a frouxidão de significados pelejando pela firmeza dos conceitos: o ser. A pretensa realização por meio do status: o ter. O doloroso constatar do vazio de estruturas em ruínas: o ser.

Escrevendo sobre isso, noto que estou bem mais melancólica do que na época. Experiência a mais ou esperança a menos? Verificação incontestável de que o ter vem superando o ser, ou a conclusão de que isto se tornou um fato e não mais uma questão?

Se eu tivesse uma borracha etérea, dessas concedidas pelo tempo, apagaria o título e, com a caneta das desilusões, dessas inesgotáveis em tinta, escreveria no lugar: o ser tragado pelo ter.

Se eu tivesse uma borracha etérea, dessas concedidas pelo tempo, apagaria todo o texto, mas não escreveria nada no espaço vazio, por dois motivos. O primeiro: o título exprimiria tudo, qualquer palavra além seria redundância. O segundo: o espaço vazio é tudo o que eu quero dizer.



21 Setembro 2017 08:53:01
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Estou lendo um livro sobre um assunto que muito me atrai: Filosofia. O capítulo que me capturou instantaneamente trata da inquietude que sempre seduziu a humanidade toda: a discussão sobre a existência de Deus.

Lembro de quando meu professor de Filosofia do Ensino Médio se esquivava todo ao perguntarmos a ele se acreditava ou não em Deus. Falava que sua opinião pouco importava; que fossemos nos inteirar sobre o que os irresgatáveis nomes da Filosofia haviam dito. Muito sábio. Aliás... sábio ou filosófico? Mas isso já é matéria para outra tese.

Bem, depois de tantos anos, me senti preparada para ir me inteirar, professor. E, assim como o senhor, prefiro destacar as conclusões oriundas de outras épocas. As principais: 1) Deus existe, e isso pode ser constatado através da razão. 2) Deus não existe, e isso pode ser constatado através da razão. 3) Se quiser acreditar em Deus, acredite pela sua fé, pois nada do que é racional explica o metafísico. 4) Deus morreu. 5) Esse Deus no qual muitos creem é egoísta: anula o homem. 6) O Universo é harmônico demais para que não seja regido por uma Inteligência Superior. 7) Deus é instrumento de domínio das classes dominantes em face das classes dominadas. 8) Aposte: é mais conveniente pensar que Deus existe ou que Ele não existe?

Confesso que dediquei horas na análise de cada uma dessas teorias. Louvo a visão de Platão, Aristóteles e Descartes. Quase compreendo Comte, Sartre e Heidegger. Saúdo a coerência de Hume e Kant. Entendo o ceticismo de Nietzsche. Já comunguei da revolta de Feuerbach. Bato palmas para a lógica de Espinosa e Pitágoras. Faço votos para que os debates sobre Deus e sociedade, solenizados por Marx e Engels, continuem sendo fecundos. Gosto da ideia de requintada aposta difundida por Pascal.

Logicamente, deixo de citar muitos filósofos importantíssimos aqui. Mas se o faço é para não sobrecarregar vocês, leitores, e não por falta de admiração. Só que, de todos esses argumentos, o que mais me chamou a atenção foi, sem dúvida, o do francês Henri Bergson. Em seu livro As duas fontes da moral e da religião, Bergson defende que, ao longo da história, homens e mulheres afirmaram (e afirmam) ter tido uma experiência direta com Deus. Nada explicaram acerca disso, apenas visualizaram imagens de marcante beleza poética e profundidade inexprimível. Acima de tudo, sentiram intensidades transcendentes a qualquer argumentação. Então, Bergson deduziu que, pelo fato de todos nós, em maior ou menor grau, já termos experimentado sensações sublimes e intangíveis, qualquer arguição que tenha o intuito de elucidá-las torna-se irrelevante.

A partir daí ficou claro (ao menos para mim): em questões transcendentes, a razão é insuficiente. Em questões transcendentes, para saber, basta sentir.

Para saber se somos amados, basta sentir. Para saber acerca de nossas vocações, basta sentir. Para saber sobre o tão afamado "caminho certo", diferente para cada um de nós, basta sentir. Para saber a respeito dos motivos das ausências irrefutáveis, basta sentir. Para saber por que rimos, choramos, odiamos, desprezamos, amamos? Basta sentir.

Muitas vezes, precisamos nos render: não há explicação para tudo. Noutras, é necessário admitir: as razões encontradas são inofensivas, anêmicas gotas de água diante da imensidão de um arquipélago.

Finalizando este texto, estou cônscia de que acabo de cometer um crime capital: harmonizei sentimentos e Filosofia. E só não receio o apedrejamento porque utilizo a ideia de Bergson como escudo. Mas se resgato a teoria, é porque a sustento: para saber, basta sentir.



14 Setembro 2017 08:40:22
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Meu pai ganhou um cachorro. O bichinho, apesar de miúdo, é bastante bravo; enfrenta os animais maiores, chega a debochar deles. Tem idade avançada, embora não aparente. Se importa pouco se ralhamos com ele para impedi-lo de entrar na cozinha. Diante de seus iguais, é valente. Em relação às censuras dos homens, indiferente. O que eu ignorava e descobri há alguns dias é que, por trás dessa galhardia toda e da impassibilidade frequente, o Péco tem um dom.

Não me refiro às habilidades relacionadas a treinamentos: ele não se finge de morto (ainda bem. Pra que antecipar o futuro?), nem dá a pata (isso, moleque, não seja submisso, mesmo que te digam que isso é ser educado), tampouco late compassadamente (ótimo. Evite que ordenem até a forma como o som sai da sua boca). A excentricidade dele independe de aprendizado porque, como falei, é um dom. O dom de chorar.

Ao me dizerem que o cachorro chorava, desconfiei. O pai gosta de pregar peças só para ficar rindo da minha cara depois. Então pedi que - presumindo que o bicho fosse tão sensível quanto apregoava -, me mostrasse logo, comprovasse de alguma forma as lágrimas molhando o rosto do animal.

Fiquei impressionada quando meu pai bateu na própria perna, convidando o cão a subir nela e, ao acariciar a cabeça do pequeno, este derramou duas lágrimas tristes e graúdas, que escorreram-lhe por ambos os olhos.

Perplexa, quis saber o motivo da exteriorização emocional tão pouco comum naquelas circunstâncias, naquela espécie. Fui informada de que, após a morte da antiga dona, sempre que é afagado, ele chora. Ficou então evidente para mim que chora por lembrar.

Por lembrar da dona. Por lembrar das ternuras que dela recebia. Por lembrar de uma vida que hoje mudou. Por lembrar de uma casa que deixou de ser a sua. E, quem sabe, por lembrar até mesmo de que a sua existência também não deve se prolongar por muito mais tempo. Acham que atribuo inteligência demais para um cachorro? Memória demais? Sentimentos demais? Pode ser que esteja exagerando, mas saber que ele tem a capacidade - a bonita capacidade - de chorar, para mim basta; é o suficiente constatar a sua sensibilidade, a suprema característica desvinculada do aprendizado, a melancólica beleza que nenhum treinamento pode trazer.

Pensando nele, concluo que nós, humanos, também choramos, na maioria das vezes, não pelo luto, não pelas frustrações, não pela solidão. Choramos, na verdade, por lembrar.

Choramos por lembrar de que a felicidade imaculada também já foi, um dia, nossa antiga dona e que, apesar de dona, nunca teve a intenção de nos prender; tanto que nos soltou, radiante, assim que nos tornamos adultos. Choramos por lembrar de que amores não são eternos, de que sorrisos não são permanentes e de que as ternuras, quando arrancadas, deixam um enorme vazio no lugar. Choramos por lembrar da vida que muda, dos silêncios que se instalam, das distâncias que se alargam, das palavras que, a cada dia mais, menos nos dizem. Choramos por lembrar de que a leveza já foi nosso quintal; a confiança nos outros, nossa sala de estar; a crença em um amanhã mais lúcido, o lugar que nos alimenta: nossa cozinha. Só que choramos por lembrar de que, hoje, se recusam a continuar sendo cômodos da nossa casa. Nossa morada é uma gigantesca despensa esvaziada: porque choramos por lembrar de que a pureza é uma espécie de existência ilusória, que se estende por pouco tempo.

Quando rimos? Rimos quando esquecemos de tudo isso. Rimos quando esquecemos de que estamos presos a padrões, convenções, enganosas distrações. Rimos quando esquecemos de que não somos eternos, nem nada o é. Rimos quando esquecemos de que gargalhadas ocas são incapazes de preencher silêncios cristalizados. Rimos quando esquecemos de que, em verdade, padecemos pela falta de uma casa emocional ou de um abrigo que nos proteja dos congelamentos que nos agridem: destruímos nossas paredes com o desamor. Rimos quando esquecemos de que tudo aquilo que nos faz rir é delírio. Engano. Estudada futilidade.

Eu, infelizmente, lembro bem mais do que esqueço. Mas agora deixei de me sentir tão sozinha por isso. Pois descobri que até os animais choram por lembrar.



07 Setembro 2017 00:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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"A maledicência não é tão mau costume como parece. Um espírito vadio ou vazio, ou ambas estas cousas acha nela útil emprego. E depois, a intenção de mostrar que outros não prestam para nada, se nem sempre é fundada, muita vez o é, e basta que o seja uma vez para justificar as outras". A reflexão pertence ao conselheiro Aires, personagem de Machado de Assis e, embora remonte ao final do século 19, a sentença calha impecavelmente aos dias atuais. Pelo fato de a própria alma do saudoso escritor - irônica e mordaz - satisfazer a minha, empresto-lhe as palavras. Mais: endossa-as.

O assunto é banal: fofoca. Seus sinônimos são inúmeros, todos podres como a prática em si: fuxico, mexerico, bisbilhotice, futrica, intriga, boato, maledicência, falatório. Eu, particularmente, acho que ainda não criaram nomenclatura melhor do que "intromissão"; porém, um fofoqueiro nunca reconhecerá que é intrometido, claro. Um fofoqueiro se autodenomina "crítico" e, sempre aferrado aos seus altos padrões morais, assegura: "estou apenas analisando a conduta lastimável do fulano, para não fazer igual". Ou: "vamos ponderar sobre os erros dele, para que nos sirvam de lição". Pois sim! Excelentes exemplos de imparcialidade que são os fofoqueiros para "analisar" ou "ponderar" sobre qualquer coisa.

Não sei vocês, mas eu conheço vários, talvez dezenas de fuxiqueiros. Se não lhes ocorre nenhum, arrisquem-se a conversar mais tempo com seus aparentes "amigos", com os colegas, com os conhecidos ou, até mesmo, com algum abelhudo da família. Os futriqueiros são aqueles que te deixam com receio até de olhá-los; pois, no momento em que os olhos de vocês se cruzarem, eles irão entender (ou querer entender) que você está dando confiança; consequentemente, virá um bombardeio de questionamentos (todos, sem exceção, indiscretos ou descorteses). Os principais: "Quanto pagou?" "Dá lucro?" "Quanto, exatamente?" "Quando, exatamente?" "Como não me disse isso antes?" "Pode sentar aqui ao meu lado para me contar?" (esse é clássico. E muito perigoso. Não caia nessa! O mexeriqueiro não vai te deixar levantar enquanto não sugar a última gota de tudo aquilo que você queria manter em segredo) "Por quê?" (o "por quê" do fofoqueiro é quase sempre arrastado; assim: por quêeeee?), como se a mente dele estivesse trabalhando vorazmente para arrancar mais informações enquanto ainda está nas primeiras perguntas.

Sim, primeiras perguntas, no plural, já que um fofoqueiro nunca quer saber uma coisa só. Ele precisa tomar conhecimento da sua vida toda, ao mesmo tempo. Deve ser por isso que, não raro, saímos de uma conversa com um fuxiqueiro completamente zonzos.

Foi pensando sobre o assunto que cheguei à seguinte conclusão: além de bisbilhoteiros, são também ladrões e, como se não bastasse, vampiros: roubam a nossa energia; vampirizam nossa força. Mas, conforme o conselheiro Aires, são espíritos vadios ou vazios. Suponho que tenham a mente vadia e a alma vazia, por isso a língua perambula por aí, bem maior e mais desenvolvida do que a vergonha na cara.

No fundo, apesar do desabafo, eu tenho é pena dos intrigueiros de plantão. Ou melhor: intrigueiros de profissão, de vocação, intrometidos em missão. Tenho pena, lamento por eles, porque seus falatórios e futricos têm apenas um genuíno propósito: encobrir a infelicidade deles.

Ah, sim, são muito infelizes aqueles que procuram garimpar as vidas alheias. Buscam dissecar, muito provavelmente, porque as suas são tão insípidas ou patéticas que preferem não se voltar a elas. Então, têm eles a brilhante iniciativa: cutucar a dos outros! Genial!

Ainda quanto ao referido conselheiro. Em uma das passagens do livro "Memorial de Aires", cogita elogiar os belos dentes de uma fuxiqueira, visando desviar-lhe as disposições tacanhas e paralisar, mesmo que por instantes, a língua incansável. Só que acaba por desistir da intenção, justificando: "A verdade, porém, é que o gosto de dizer mal não se perde com elogios recebidos, e daquela dama, por mais que eu lhe ache os dentes bonitos, não deixará de mos meter pelas costas, se for oportuno".

Diante da sagaz dedução, tenho para mim que não só eu faço eco às palavras de Aires, mas também ele às minhas, em uma peculiar cronologia às avessas. O conselheiro admirou os dentes da dama... por serem tão belos e fortes quanto os de um vampiro, quem sabe?


31 Agosto 2017 08:41:49
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Meus pais e eu fomos visitar uma amiga convalescente de problemas nos pulmões e intensa anemia. Tem 67 anos e fumou por, no mínimo, 40. Nos contou que passou por episódios de significativa fraqueza, falta de ar, tonturas e, em razão disso, resolveu consultar um médico. Este, por sua vez, analisando os exames, constatou a anemia em estágio arriscadamente evoluído e os pulmões bastante doentes.

Ainda relatando a experiência inédita de enfermidade (ela, que nunca teve mais do que um resfriado), confessou que o doutor censurou-a, dizendo que estava com peso de criança. De fato, havia perdido muitos quilos nos últimos meses, ao que explicou, embaraçada, que vinha trocando a comida pelo cigarro com cada vez mais frequência. Sempre teve o peso bem abaixo do ideal, a nossa amiga; porém os enraizados maus hábitos acabaram por ameaçar-lhe a resistência, causando pneumonia, bem como a insuficiente ingestão de nutrientes levou ao agravamento da anemia preexistente.

Em suma, o médico advertiu com veemência que, se não deixasse o cigarro, nem a mais fervorosa de todas as rezas, nem o cumprimento da mais árdua de todas as promessas, a manteria nessa vida. Ela gosta da vida, pelo jeito. Pois parou de fumar na semana seguinte.

Foi assim mesmo: em poucos dias decidiu que não ia mais fumar e não fumou mais. E ponto. Acabou. Já faz três meses que escorraçou o vício. Ganhou alguns quilos, curou-se da pneumonia, ensaia melhoras promissoras em relação à reposição de glóbulos vermelhos e afiançou: "Nunca mais quero nem sentir o cheiro do maldito". Porque agora é proibido falar em cigarro na sua casa. É só maldito.

Diante da resolução categórica, minha mãe quis saber se ela contou com o auxílio de um daqueles remédios para "enjoar" do cigarro. A resposta dela me surpreendeu:

- O remédio foi só capricho e saber que não pode.

Depois, seus netos chegaram, os assuntos mudaram; mas aquela expressão ficou girando na minha cabeça. Capricho-e-saber-que-não-pode. Ela falou assim, quase tudo emendado, como se fossem duas curas através de um remédio só, feito aqueles medicamentos que têm duplo efeito e, se não forem combinados, de nada adiantam. Saber que não pode, o antitérmico. Capricho, o analgésico.

Fiquei imaginando como esse remédio infalível, com duplo propósito, se aplica nas situações da vida, de maneira geral.

Penso que o capricho seja filho da perseverança, irmão do esforço e cúmplice da dedicação a uma meta que se acredita inquestionavelmente salutar e/ou severamente necessária. Por nutrir afeto umbilical com todas essas virtudes, o capricho não deve ser apenas uma verdade de instantes, como uma visita, mas uma atitude perene e inseparável de quem ambiciona qualquer conquista.

O saber que não pode é o tapa que damos na própria mão. A mordida na própria língua. O veredito negativo e cabal nos impedindo de virar a cabeça e olhar para o passado, torcer o pescoço e flertar com uma realidade que, por motivos de sobrevivência ou de dignidade, já não pode mais ser a nossa.

É preciso de muito capricho para vetar definitivamente tudo aquilo que não se pode mais.



24 Agosto 2017 09:06:42
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Me ocorreu que Demônio é apenas um pseudônimo usado pelo Coisa Ruim. Aliás, Coisa Ruim tampouco é o nome Dele. Nem Belzebu, Capeta, Diabo, Satanás, Lúcifer ou Tinhoso.

Parece que os mais íntimos o chamam de Demo ou Satã. Os preconceituosos, de Canhoto. Os ressentidos, de Chifrudo ou Cornudo. Os místicos, de Príncipe das Trevas, Anjo mau, Anjo decaído, Pai do mal. Os que não gostam dos animais, de Cão. Os religiosos, de Excomungado. Os devotos de São Jorge, de Dragão.

Como podem ver, busquei me inteirar sobre as peculiaridades nominais do Dito Cujo. Só para concluir que qualquer desses vocábulos é incapaz de definir o Maligno.

O verdadeiro nome do Demônio é Pressa.

Querem apostar como estou certa? Acompanhem meu raciocínio:

- Pai, me leva pro parque de diversões?

- Estou com Pressa. Preciso entregar esse relatório até amanhã. Vá com seu primo.

Quem destrói as relações familiares e faz com que nos sintamos rejeitados?

 O pai poderia dizer:

- Filho, estou com o Diabo. Vá com seu primo.

Daria na mesma, não daria?

Outro exemplo:

- Amiga, vamos sair para conversar hoje? Quem sabe tomar um café?

- Desculpe, tenho Pressa. Se eu não correr, não pego a academia aberta. Quero me livrar dos quilinhos extras.

Quem é que sepulta oportunidades de demonstrar carinho?

Ela deveria responder:

- Perdão. Mas o Príncipe das Trevas está gritando que se eu não perder 347 calorias no treino de hoje, vou me tornar a esposa dele, a Excomungada.

Só mais um, para não chatear; sei que vocês têm Pressa:

- Querido, nós bem que podíamos caminhar na pracinha, a noite está tão bonita.

- Sinto muito. Eu vivo Apressado, né? Mas é que hoje não vai dar, de novo. Aquele churrasco com os caras, lembra? Inclusive, já estou atrasado, fiquei preso até agora no trabalho. Fui.

Ela, provavelmente, nem retrucar vai, mas pode ser que se prepare para arranjar-lhe uns chifres tão vistosos quanto aqueles do Tinhoso.

Então eu, mais uma vez, pergunto: quem, aos poucos e diabolicamente, vai minando o afeto? Qual é o Misterioso Ente que faz com que até mesmo o respeito pareça ingenuidade?

Esse tal que vai para o churrasco com os caras, estaria mais correto se revelasse:

- É constrangedor admitir, mas eu sou um Endemoniado. Belzebu é meu padrinho, preciso sempre me adiantar para obedecer às ordens Dele. Desculpe.

Vejam que o Demônio atende por várias alcunhas; porém, o nome Dele mesmo, legítimo, registrado no mais confiável dos Cartórios do Inferno, é Pressa.

Eu prometi que aquele seria o último, mas aqui vai mais um. Tática de contador de histórias. O objetivo é tentar domar a Pressa.

Num velório:

- É apenas uma passadinha para dar uma olhada rápida no defunto. Estou com muita Pressa.

Quem arruína a vida e zomba da morte?

Seria mais honesto se dissesse:

- A visita é ligeira porque dói enxergar meu breve futuro, já que o Cão me persegue.

Ao Apressado do velório se deve alertar que não espere que na ocasião (breve) de seu passamento seus "amigos" ajam de maneira diferente.

Desgaste de vínculos basilares. Esquecimento da amizade. Menosprezo do afeto. Insulto ao derradeiro. Desprezo do fim. Impossibilidade de sublimes recomeços: pois é difícil amar àqueles que não têm tempo para nós.

Quem é responsável por tudo isso?

Aqui não me refiro à Gramática. Não interessa o gênero. Até porque, não quero que nenhum engraçadinho venha dizer que o verdadeiro Demônio é uma mulher!



17 Agosto 2017 08:44:03
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Jamais soube explicar ao certo o que me impele a escrever sobre determinado assunto ou por que há personagens reais que chamam mais ou menos a atenção. Aquela mulher, no entanto, me inspirou pelo fato de eu sempre encontrá-la (em horários alternados do dia), acompanhada pelo seu cachorro.

Parece bizarro, perseguição ou destino. Mas já faz mais de um mês que a vejo todos os dias. Sempre apática. Sempre segurando o cão pela guia. Nunca nos cumprimentamos. A alienação dela torna impossível qualquer aproximação.

Deve estar com mais de quarenta e cinco anos. É loira, esbelta e tem olhos claros. Sou capaz de jurar que ficaria muito bonita se sorrisse. O cachorro - cuja raça desconheço - é de porte mediano, pelagem castanha e temperamento contente.

Nas primeiras vezes em que os encontrei, tinha a impressão de que ela o levava para passear. Só que, depois de tantas semanas observando aquela dupla, concluí que quem a conduz ao passeio é ele.

Fisionomia abatida (quais dores a mortificam?). Olhar esgazeado (quantas tristezas viu? Que alegrias deixou de ver?). Passos de uma lentidão doída (que grande decepção a faz temer avançar?). Costas patologicamente curvadas (quanto peso carregam?). Tudo isso me leva a reconstituir a rotina da mulher e pensar no difícil impulso que, talvez, seja proporcionado apenas pelo cachorro.

De manhã, ela abre os olhos. O bicho pula na cama, massageia a barriga da dona com as patas grosseiras - mas ainda assim carinhosas -, abocanha a coberta e a retira do queixo dela, afastando-a até à metade do corpo preguiçoso da dona. Estimula-a a se levantar (embora ela não queira. Embora sinta que não há sentido).

A mulher então finalmente cede à insistência e se arrasta para o banheiro, torcendo a boca em um quase-sorriso quando, ao voltar para o quarto, encontra o animal com as alças de sua maleta de trabalho entre os dentes e com um olhar de incentivo para ela.

Ao retornar do que a triste senhora certamente considera aprisionante obrigação e estafa suprema, pronta para se deixar morrer silenciosamente no sofá, ele late, começa a se sacudir e a dar saltos insatisfeitos por ter ficado o dia todo dentro de casa. Docilmente ignorado, lambe o rosto pálido da mulher e arranha com delicadeza o dorso da mão largada sobre a almofada. À sua maneira, a convida para passear.

Durante o passeio, encontram a espiã. No caso, eu mesma. Não dão sequer um olá ou um latido à espiã que, por dever de ofício, agradece intimamente pela desconsideração. A espiã percebe que os eventuais puxões na guia que o cão dá são os únicos momentos em que um brilho tímido cintila nos olhos de topázio da mulher. Os trancos são rudimentares - porém eficazes - movimentos visando puxá-la junto para a vida, a qual ela parece prestes a abandonar.

 Muitos falam que os animais são nossos únicos e verdadeiros amigos. Outros são mais otimistas e dizem que não são os únicos, não obstante sejam os que mais nos protejam e se preocupem conosco. De minha parte, não atribuo exclusivamente à fauna o privilégio da sensibilidade. Tenho um cacto que me entende muito bem.

Seja como for, diante da gentileza do cachorro, acho que seria mesmo muito injusto caso ela procurasse por outro melhor amigo.



10 Agosto 2017 10:23:25
Autor: Natália Sartor de Moraes

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O sábado era de inverno, mas com sol e um vento ameno. Decidi então conhecer a sorveteria que abriu recentemente aqui no bairro. Lá chegando, me dirigi ao refrigerador de picolés - os quais sempre me seduziram muito mais do que os sorvetes. Diante da imensa variedade de sabores, fiquei indecisa, a princípio. Até que um de nome Mini Saia me chamou a atenção.

Estava escrito assim mesmo: Mini, em cima, seguido de uma menina de chiquinhas loiras e roupa colorida bem no meio do embrulho, e Saia, embaixo, desobedecendo à Reforma Ortográfica, mas nem por isso o picolé deveria ser menos saboroso, conforme desconfiei ao ler as letras miúdas relativas aos ingredientes e comprovei em seguida, ao experimentá-lo. Metade uva, metade limão.

Embora não goste muito de nada com uva, escolhi aquele por três motivos. O primeiro e mais importante: lembrou-me da minha infância. Tenho inúmeras e dolorosas saudades, mas a passagem implacável da infância - seu fim irresgatável - acabou se tornando a maior delas.

O segundo motivo é porque tenho a excêntrica impressão de que sabores diferentes, unidos por um doce, me proporcionam o privilégio de entrar em contato com verdades distintas ao mesmo tempo.

A terceira e singela justificativa foi apenas porque era colorido. Às vezes, um pouco de cor é tudo de que precisamos na vida.

Dali a pouco, entrou um casal com seus dois filhos: uma menina de colo e um garoto com seus oito, nove anos. Apesar de aquele creme exageradamente açucarado que é o sorvete não ser nada saudável, gosto de admirar famílias que se reúnem em uma sorveteria; sobretudo quando comparadas àquelas que ficam em casa, mas cada um fazendo a refeição no seu solitário canto.

Escolheram a mesa ao lado da minha e, tão logo se acomodaram, o menino começou a correr os dedos pelo smartphone. Os pais, detectando a atividade febril do moleque, se entreolharam, aborrecidos. O pai contraiu a mandíbula. A mãe suspirou. Resolveram silenciar até que os pedidos fossem feitos e os sorvetes chegassem. Quando vieram, no entanto, a mãe se impacientou, ajeitou a bebê no colo e, lançando um olhar astucioso para a enorme bola de cereja que o filho devorava com avidez (embora não largasse o bendito celular), disparou:

- Até na sorveteria, Arthur? Se não guardar essa porcaria agora, não vai poder repetir o sorvete. E, olha só: tá derretendo!

Diante da ameaça, Arthur deve ter pensado na irreparável perda que seria passar o fim de semana com apenas uma bola de sorvete, quando poderia saborear muitas outras. Então colocou imediatamente no bolso o indigitado aparelho e se apressou a lamber os graúdos pingos que já escorriam pela casquinha.

Não obstante a chantagem, parabenizei intimamente aquela mãe. Eu mesma, se fosse próxima do Arthur, acrescentaria que ele iria ter muito tempo para as tecnologias. Tempo e obrigação em relação a elas - isso se tivesse sorte, porque o mais comum seria que ficasse aprisionado aos eletrônicos. Vinculado de maneira inafastável e impreterível.

Além do mais, a infância em poucos anos evaporaria por sua própria conta e perversidade, ele não precisava acelerar o processo. Por fim, eu iria alertar, com a firme convicção e o resignado sofrimento de quem - infelizmente - não é mais uma criança:

Não deixe sua infância vazar sobre uma tela, Arthur.

Não deixe o sorvete derreter.



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