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23 Maio 2019 10:51:00


(Imagem:Divulgação) /

Esperava o amanhã, tinha planos para o amanhã. O seu amanhã não veio. A vida foi o ontem, o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Mesmo com poucas palavras, creio que vocês já sabem a quem me refiro. Colega de ofício, escreveu. Escreveu poemas, histórias, memórias. Escreveu, pesquisou, informou. Esperava o amanhã, só que o amanhã... O amanhã não veio.

O ano nem chegou à metade e já é o segundo amigo que se vai. Viveram o ontem, viveram o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Não é raro - é mesmo saudável - que pensemos no amanhã. Mas quando o amanhã se torna hoje e nos esquecemos de viver o agora para tão somente planejar o que pode nem chegar, talvez tenhamos a sensação de previdência, porém, se refletíssemos que o amanhã é ilusão, uma fantasia volúvel, provavelmente agiríamos com mais intensidade enquanto há tempo.

O amanhã impossível não significa apenas a morte. O amanhã impossível pode ser a mudança de trajeto, a diferente perspectiva, a pessoa, situação, alegria ou tristeza que te empurram para outra direção.

Todos planejamos a vida. Suprema ingenuidade com cara de sabedoria. A vida é maior. Porque a vida abriga em seu bojo a morte. E a morte é uma mal-educada que não pede licença, uma desajustada que nos arrasta com ela quando quer, não importa idade, interessa menos ainda se queremos ou estamos preparados. A morte, a morte, sim, reina.

Seja por acidente, doença ou outro subterfúgio que a morte encontre para realizar sua vontade, deixa como herança uma única sentença: haverá um amanhã que não vai chegar.

Se o meu amanhã impossível fosse mesmo amanhã, eu não estaria de bem com todo mundo, nem com o perdão nos lábios ou com a tolerância no coração. Há sentimentos de pouca beleza que encalacram e talvez não desencalacrem nem no momento fatal.

Sinto muito ser tão humana até ao projetar o meu amanhã impossível, mas a realidade é essa: não me tornarei imaculada apenas porque um dia vou morrer e as pessoas que vão ficar não se transformarão em anjos de candura, merecedoras da isenção de seus atos, apenas porque sentirão o cheiro da morte mais próximo delas.

Falo por mim. Mas sei que os amigos a quem me reporto estavam bem menos contaminados pela amargura e que, possivelmente, se foram muito mais leves do que eu iria. Entretanto, conhecendo-os tanto quanto essa curta vida permitiu que os conhecesse, também intuo: concordariam comigo - há certos defeitos humanos que nada suprime, muito menos a inexorável morte.

Um dos defeitos que a morte, além de não apagar reforça, é a nossa revolta com ela. Sinto falta, sim. Fico triste com a passagem deles, mas fico brava, também. Sei que não deveria, que cada um tem sua hora, que a vida é um sopro e blábláblá, mas eu não queria e ponto. Se a morte me ouviu? Não me deu a mínima.

Apesar de esperarem o amanhã, com o entusiasmo aos dois inerente, ambos, presenciando minhas crises de ansiedade, advertiam: "Viva o hoje", "Você se preocupa demais com o amanhã".

Tento seguir o conselho desses amigos, todavia, não sendo perfeita - sendo inclusive antípoda da perfeição -, nem sempre consigo e por isso peço que ao menos vocês, leitores, caso possam, pratiquem a essência dessas exortações e se perguntem, ao final de cada dia:

E se o amanhã não existir?

Aos amigos:

Sebastião Luiz Alves e Franciele Gasparini.



16 Maio 2019 10:58:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

O tema não é inédito nesta coluna. Mas por mais que se escreva sobre ele, creio que nunca serão abordadas todas as suas sinuosidades. A consciência. Os terrores da consciência. Os tormentos mentais inacreditáveis a que o ser humano se entrega para se purificar das próprias atitudes.  

Um caráter torto prejudica a sociedade, porém, antes disso, muito antes disso, envenena o indivíduo. O caráter torto é o maior inimigo da consciência. E ela, exatamente pela sua característica principal - a justiça -, volta cobrar.

Não se trata de conspiração do bem ou do mal, de energias misteriosas, de enigmas do universo. Tudo límpido - lei. Lei basilar: causa e efeito. Plantar e colher. Agir e receber a reação pertinente. Científico. Lógico.

Gravar em código, pra quê? O elementar já vem insculpido nela - rainha e salvadora, severa e certeira, julgadora soberana: a consciência.

Penso em uma engrenagem perfeita, com minúsculos mecanismos que a compõem e a fazem rodar - nossas atitudes. Máquina salvífica ou mortal. Cada erro quebra uma peça. E a vida caminha. E caminha. Mas a engrenagem é uma só. Chegará o momento em que, independente de perdão ou de condescendência, precisaremos da peça que quebramos. Ou consertamos ou nada mais gira. A vida encalha.

Nesse momento, o momento nevrálgico do acerto de contas, nem mesmo a mais sincera absolvição do ofendido - peça quebrada - será suficiente para que a engrenagem volte a funcionar. Então nós, investidos do papel mais vergonhoso de todos - o de ofensor - vamos remoer, repisar e recalcar a nossa ação leviana.

Estragamos o mecanismo ideal para o nosso crescimento. Esnobamos a nossa guia. Fechamos os ouvidos para a consciência. Destroçamos uma peça. E agora precisamos dela, inteira, para completar a jornada.

O círculo estava tão saudável! Girando tão bem! Uma peça, uma pecinha só. Uma ofensazinha, que tem de mais? Uma pessoa magoada, o mundo tem tantas.

Eu sei, sei que me consideram demasiadamente rígida. Que certas coisas devem ser relevadas. Que nem tudo é assim, tão a ferro e fogo. Porém, são as inúmeras observações e a coerência do universo que declaram, não eu: a peça rachada fará falta, na vida de qualquer pessoa. A engrenagem, uma hora ou outra, vai parar. O conserto será indispensável. Sem isso, onde a justiça? Nesse dia a ofensazinha esquecida, a humilhaçãozinha que está no fundo do baú irão se avolumar, serão fantasmas a nos torturar, serão vozes a gritar. E a engrenagem... a engrenagem não vai girar.



09 Maio 2019 10:23:00


(Foto: Divulgação)

Quanto mais tenta aparentar naturalidade, mais afetado se mostra. Aguarda na fila ao lado da minha, na Lotérica da Salomão. Os dedos de unhas roídas mexem no celular, mas acho que não há nada de interessante ali, pois logo os olhos dançam nervosos, percorrendo todo o ambiente, sem parar em nada ou em ninguém.

Guarda o aparelho do bolso, rói a unha do indicador esquerdo, respira de maneira barulhenta e superficial, olha para cima, para os lados, para mim, sem me enxergar; eu, todavia, vejo angústia nas íris pretas. Sorri mecanicamente para um senhor que, numa demonstração de amizade, lhe bate nas costas.

Sim, leitores, vocês me conhecem: como não sei o que se passa, vou deduzir. Só que até mesmo para cogitar precisamos de dados inquestionáveis. O único que consegui notar é que há aflição ali. Muita aflição. Aflição incapacitando a garganta, aflição saturando os olhos, aflição inquietando o respirar, o pensar, o esperar; aflição escorrendo dos dentes às unhas.

Dor? Perda? Remorso? Indecisão? Aposto no remorso. Mas não descarto os outros três sentimentos, porque da indecisão pode muito bem ter nascido uma atitude infeliz que levou à perda e à dor. Dor que se desdobrou em remorso.

A fila avança. A dele, a minha continua empacada. Não estou mais ao lado do homem. Vejo agora a parte de trás de uma cabeça grande para um tronco apequenado. Será que estou sendo filosófica ao supor que foram os passados equivocados daquele homem que se converteram em ideias densas, incomodativas, renitentes na cobrança? Uma consciência gorda é o que intuo logo acima do pescoço magro, de traqueia consumida pela culpa?

Há manchas de suor em suas costas. Camiseta vermelha. Todo o ciclo de angústia recomeça: a unha do indicador esquerdo não é deixada em paz, os suspiros saem com ruído, agora uma roliça gota de suor brota da nuca. Os sinais não são apenas de impaciência. Me desculpem a pretensão, mas detectar aflições trancafiadas é a minha especialidade. Talvez por farejá-las, mas mais provavelmente por serem reflexos de mim mesma.

Não, não apenas impaciência. Chega a vez dele. Fecho olhos e ouvidos a tudo o que não seja aquele homem. Preciso observar com atenção antes que se passe esse capital momento analítico.

Rápido em tirar a conta e o dinheiro do bolso. Ágil em contar as notas. Silencioso ao colocar os dois abaixo da abertura do vidro. Aflição trancafiada, não há dúvida. Rala conversa com a atendente. Sins e nãos objetivos. Evitando contato. Aflição trancafiada, não há dúvida.

Finalizado o atendimento, se volta para sair e me vê. Neste momento me vê, de fato. Minhas íris são mais claras que as dele, mas tão intensas quanto. Reconhece de imediato uma repetição sua ali. Reconhece outra aflição trancafiada, talvez não pelos mesmos motivos que ocasionaram a dele, quem sabe entreveja em mim uma aflição de mágoa. E quem sabe esteja correto.

Porém, que encara uma aflição trancafiada, disso parece convicto; pois ele, assim como eu, também deve precisar de uma certeza para que só então possa analisar.

Sai da Lotérica. Continua a cogitar. Hipóteses pululam em sua mente.

Como sei dessas particularidades?

Detectar aflições trancafiadas são as nossas

Especialidades.



02 Maio 2019 10:34:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Assistia, de longe, ao show. Não foi em Curitibanos, não foi agora, faz tempo. Um tempo imenso. Não ouvia a música. Era rock, banda conceituada, meu gosto musical. Mas eu não ouvia a música. Escutava apenas os ruídos internos que nunca me permitiram concentrar absolutamente em coisa alguma. Me ensurdecem, me embriagam, tenho milhões de vozes interiores que, entretanto, me conduzem a um silêncio inelutável.  

Ele estava lá. Muito mais perto do palco. Longe de mim, bem longe. Distante, inalcançável. Também sozinho, mãos nos bolsos. Quantos anos, mesmo? Além do tempo, quantas ideias, visões de mundo e inflexibilidades nos separavam?

De costas, os cabelos claros mudando de cor ao sabor das luzes vindas do palco. O azul cristalino do céu que fomos. O vermelho das nossas fúrias unidas. O branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida. O preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo. O preto do rock. O preto daquele dia.

Insensível à música, desconsiderou quando uma moça tocou seu ombro, fingindo ter esbarrado, mas na nítida intenção de encetar contato. Uma mulher sempre sabe da intenção de outra mulher; sobretudo quando essa outra mulher se aproxima de um passado irresolvido seu.

Só que ele permaneceu indiferente, apenas elevou o ombro requisitado, como se espantasse uma mosca. A mulher se afastou. Não foi propriamente alegria o que experimentei, mas um sentimento de alívio me inundou.

Eu não iria até ele, estava decidida. Ele não tinha me visto. Então, tudo certo. Porque o passado, quando indigesto, se reavivado não vai se contentar em ser desconforto administrável: vai queimar as entranhas.

Fechei os olhos por uns segundos, ou foram minutos? Ou horas? Ou vidas inteiras? A minha vida e a dele, no passado cruzadas, voltavam, conectadas, naquele fechar de olhos. Em meio ao esmagador barulho, ninguém deve ter reparado na minha abstenção. Se alguém olhasse veria uma mulher-menina, vestida de preto, os olhos lacrados, só isso. Mas eu, eu via um passado. Eu via dois passados. Entrelaçados.

Sucessivamente, por trás daquelas pálpebras tão inocentes, concebia o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida, o preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo.

Me senti obrigada a abrir os olhos quando alguém, num gesto semelhante àquele da moça, e certamente tão intencional quanto, tocou meu ombro.

Fui descolando os cílios, elevando-os, fazendo de meus olhos já pequenos apenas uma fresta, para enxergar que intromissão em forma de gente ousara me arrancar das memórias.

E lá estava ele. Ao meu lado.

Estava ao meu lado, como nunca esteve.

Sorriu.

Era ele... mesmo?

Os olhos pareciam mais vivos, livres das escuras incertezas de outras épocas.

Me fiz incapaz de corresponder ao sorriso, quem sabe em uma inconsciente forma de vingança. A infalível engrenagem do universo. Naquele momento, se apagaram o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída, o amarelo de uma serenidade nunca obtida. Restou apenas e tão somente o preto do fim.

O preto de um fim anunciado desde o começo.

O preto do rock.

O preto daquele dia.

Inclinou a cabeça, confuso diante da falta de receptividade. Constatei que era ele, sim. Constatei mais: constatei que a nossa história havia acabado.

Uma só cor restava:

O preto das dúvidas dele.

O preto das fulminantes ausências.

O preto de uma reciprocidade que, agora, era eu quem negava - a infalível engrenagem do universo.

O preto de um retorno impossível.

O preto do fim.



25 Abril 2019 11:45:00


(Foto: Divulgação) /

Tudo aquilo que marca é cicatriz inapagável, grande, na face. Mas aquilo que marca não representa apenas dano estético, afeta ainda o metabolismo. E o metabolismo das emoções não obedece a regras orgânicas. Indigestão emocional é doença crônica.

Sintomas: ansiedade, temor, arrependimento, incerteza, desânimo. Algo te corrói. Emoções não digeridas. Passados fortes, pesados. A saúde se recusa a espalhar-se democraticamente; pequenos pontos negros se multiplicam e se concentram, por vezes no coração, em outras no estômago ou nas costas. Peso enorme, diagnóstico certeiro: indigestão emocional.

O maior problema: para essa complicação não existe remédio. Aliás, ao tentar avaliar exteriormente a indigestão emocional, ela cresce. Deve ser por isso que não se chegou a uma cura e que talvez nunca se chegue.

Analisemos as causas... de onde surge o aperto no peito, sem precedentes de enfermidades cardíacas, sem sedentarismo, má alimentação ou hábitos insalubres que justifiquem?

De onde vêm os tremores, os suores frios e mesmo as terríveis e repetidas... indigestões?

Examinemo-nos organicamente e para aquilo que não haja explicação científica, partamos para esse assombroso e abrangente diagnóstico: indigestão emocional.

Que história dói dentro de você? O que significou um corte, doloroso e profundo? Ainda sangra? Quanto de sangue esse corte já fez fluir? O que pulsa, lateja, que bactéria é essa que exame nenhum mostra?

Seguindo o dossiê da doença, encontramos um trecho lá, bem visível, no meio do texto, em negrito: (...) o contato com memórias ou o simples vislumbre de tênues ligações com o motivo que ocasionou a enfermidade em pauta pode conduzir a tonturas, enjoos, esfriamento súbito das extremidades, excesso de transpiração. E não é gravidez, não, leitor! Ou, quem sabe, estejamos todos grávidos de preocupações.

No final da pesquisa sobre a mais assustadora doença de todos os tempos, um aviso:

Lembre-se, o que machuca intensamente e não sangra pra fora, sangra pra dentro.

Multidões de coágulos.

A quanto congelamento interno somos obrigados, para não expirarmos antes do tempo?

Nos tornamos secos, frios... seria por já termos sangrado demais?

Fortaleza e calor de onde?

Não há. Acabou. Morte interna para aquele que não consegue suavizar a indigestão emocional.

Para quem acha que estou exagerando, desenterre seus fantasmas e alvoroce seus demônios. Eles vão responder. Acredite neles e não numa pobre cronista que só sabe fazer cogitações.



18 Abril 2019 09:48:00


(Imagem: Divulgação) /

Madrugadas frias sempre me despertaram questionamentos. Passou o dia. A companhia. A sensação de aconchego. Passou a claridade. O sol. Resta negror. Silêncio. De repente, escuto um uivo, um uivo lamentoso. Seria o da minha própria alma, que se perdeu e procura, através de alguma espécie patética de ruído, se encontrar?

Espero na rodoviária. Meu ônibus é o da uma da manhã. O dela chegou agora. Mochila nas costas, a mulher tem uma expressão de enfado. Não sono, tédio de existir. Aprendi muito cedo a distinguir apatia existencial de cansaço orgânico.

Eu parto. Ela volta para casa. Sou mais nova, mais baixa, menos elegante, porém, me identifico com a mulher. Nossos olhares se cruzam. Desvio o meu, me volto para a janela, dissimulando verificar se o transporte surgiu, mas eu sei que ainda vai demorar meia hora. Ela continua a me fitar, sinto. Parecida comigo, não há dúvida. Reservada até que lhe desafiem. Para alguém quieto, nada mais desesperador do que ser avaliado.

Agora precisa saber: o que é que a menina quer com ela? Penetrar o coração de suas mágoas? Analisar as paredes visguentas de suas amarguras? Julgar-lhe a profunda fadiga existencial? O que quer a menina? Será que a menina quer descobrir o que nem ela mesma sabe? Empertiga-se. Neste momento, é a mulher quem me desafia. Ergue o queixo, aperta os lábios pintados de vermelho. Parecida comigo, não há dúvida. O que quer, menina?

Paro de fingir distanciamento. Irreverente, encaro-a. Vai me processar por invasão de privacidade? Vai chamar a polícia, dizer que a estou deixando desconfortável em público? O que quer, mulher?

Nossos olhos estão em chamas. Dois pares se afrontando, no meio de dezenas de pessoas distraídas. Estaca à minha frente, inflando as narinas: o que quer, menina? Endireito as costas e trinco o maxilar: o que quer, mulher?

Ninguém percebe o duelo de olhares. Quem vai ser a primeira a cair? As espadas de nossas iras estarão suficientemente afiadas?

O que quer, menina? Não chega toda essa dor de existir? Preciso ainda de uma espiã para acentuar as minhas indefinições?

O que quer, mulher? Pensas, acaso, que também não padeço de misérias semelhantes?

A essa pergunta muda, ela se desarma. Enfim, reconhece em mim uma igual e não mais a julgadora de seus martírios. Solta os ombros, a mochila quase cai diante do inesperado gesto de vulnerabilidade. Suspira. Fecha os olhos. O duelo chegou ao fim.

Arquivem o processo. Os guardas podem baixar as armas.

Eu sou só uma menina.

Ela é só uma mulher.

Ninguém quer nada de ninguém.

Assim que volta a abrir os olhos, sou a primeira a estender a mão. Com a dela, aperta a minha.

No instante em que ouço o barulho do meu ônibus chegando, solto vagarosamente a mão trêmula e viro para sempre as costas

Àquele eu

Que se perdeu.



11 Abril 2019 13:23:00


(Foto: Divulgação) /

Vocês podem não acreditar. Não os culpo se duvidarem de mim, afinal, além de um cronista nem sempre falar a verdade, o cotidiano que tenho a lhes contar, hoje, não é tão cotidiano assim.

Aliás, nesses nossos tempos, é quase sobrenatural.

Achei um bilhete, na calçada da Maximino de Moraes. Um bilhete em que estava escrito, com letra pequena e tímida: "Meu amor, estive aqui".

Só isso. "Meu amor, estive aqui". Sem assinatura. Já é difícil haver amor. Agora... estar presente? Mais extraordinário ainda: deixar bilhete, escrito à mão, atestando o amor e a presença?

Eu sei, vocês duvidam, não é? Como disse, não os culpo, pois eu mesma só acredito porque estou com a carta olhando para mim, enquanto escrevo o que vocês reputam ser mentira.

Talvez devesse entregar a relíquia ao museu, mas decidi ser egoísta e emoldurar essa ternura. Não quero dividi-la com os outros. Vou colocá-la num quadro para que, quando me faltar fé na humanidade, eu recorde: alguém ama e alguém esteve.

"Meu amor, estive aqui".

Não sei se a caligrafia é de homem ou de mulher. Mas já amo esse ser que ama, simplesmente por saber que ele ama. E me entristeço quando penso em seu entristecimento ao constatar a perda desse fragmento de afeto.

Enfia a mão no bolso para dele retirar o escrito. Alegre, intui: vai oferecer palavras singelas e receber sentimentos puros. Cadê? Cadê a prova de que não foi corrompido pelas friezas contemporâneas? Cadê o suave derramamento de amorosa presença? Apesar de me compadecer, não devolvo. Não mesmo.

Iria pôr debaixo da porta do destinatário da carta? Quero pensar que sim. É bonito pensar que sim.

E tem a vantagem de estar escrito em papel de caderno, linhas azuis evidentes, um papelzinho pequeno, dobrado ao meio. Se fosse folha sulfite, despertaria antecipada repulsa: boleto.

Mas essa pessoa não quer cobrar nada, é fato. Essa pessoa quer apenas dizer para o seu amor: estive.

"Meu amor, estive aqui".

Me apeguei ao bilhete. Internalizei a essência e me sinto encantada.

Seu destino de estar, por contraste, nunca me fará esquecer o meu: eternamente partir.

A carta agora é minha. Sinto muito, remetente. Sinto muito, destinatário.

A carta é minha e não entrego. Nem sob ameaça.

"Meu amor, estive aqui".

Que o amor esteja.

E que saibamos apreciá-lo sempre que estiver.



04 Abril 2019 09:36:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Escuro. Frio. Caminho olhando para baixo. Baixo. Bem para baixo. Meus olhos perfurando a calçada e atingindo um subsolo imaginado: escuro, frio. Também na imaginação tropeço em meus próprios passos, almejando através deles retroceder. Retroceder para apagar mágoas. Retroceder para recuperar idades furtadas e esperanças raptadas. Retroceder.  

Não retrocedo, porém. Sigo. Em frente: o único sentido que nos permite a vida. Retroceder? Não mais. Nunca mais. Retroceder? A vida ri em meus ouvidos. Pobre menina-velha. Ricas-misérias afetivas. Sigo.

De repente, decido olhar para cima. Quem sabe o horizonte resguarde alegrias? Quem sabe se compadeça de meus passos nervosos e desgovernados e me conceda alguma paz?

Quem sabe, olhando para cima, eu veja uma nuvem de aflições - enorme e negra - sobre a minha cabeça, se dissipando, fluindo e sumindo, saindo de mim, abandonando a cativa que algemam?

Elevo o olhar. A perder, nada tenho. É noite. Escuro. Frio. Estou sozinha. A perder? Nada tenho. Olho. Não. Não há no horizonte uma nuvem negra. As aflições ainda estão aqui. Comigo. Em mim. Sinto-as apegadas.

No entanto, vejo uma figura indistinta, de braços abertos. Capturo seu sentimento de libertação. Experimento o cheiro de liberdade fresca, recém-conquistada. Não sei dizer se é homem ou mulher, criança ou velho.

É um ser humano liberto, permitindo que as angústias vazem pelos dedos abertos, pelo peito desoprimido, pela respiração solta. Um ser humano. Um ser humano livre.

Está acima de mim, como que sobre uma plataforma, enquanto eu, criatura desorientada, fito o solo, pretendendo o subsolo, com violenta obstinação.

Está acima de mim, como que sobre uma plataforma, braços abertos. Desobrigado até mesmo de ser classificado como homem ou mulher.

Está acima de mim, como que sobre uma plataforma, não vejo os olhos, mas detecto a alma: que flutua, que voa, que é leve, doce, rarefeita.

Está acima de mim, mente serena, evaporados pretéritos, sem necessidade de ter uma idade qualquer.

Está acima de mim.

Muito acima.

Figura indistinta.

Além das pobrezas recalcadas.

Sinta.

Muito acima.

Acima.

Além dos poemas aleatórios.

Rima.



28 Março 2019 10:12:00


(Foto: Divulgação)/

Princípio da escrita: jamais comece um texto sem antes saber como ele vai terminar. Questão de coerência, de entrelaçamento de ideias, de cuidado para não se perder.  

A vida, voluntariosa, não segue esse princípio, claro. A vida, aliás, não segue princípio nenhum. A vida: animal indomável, fera machucada.

Tão descontrolada besta se envolve em inícios e em meios sem antes saber como será o seu fim. Os seus fins. Porque a vida tem inúmeros fins. Fins no começo, fins no meio. Dos fins iniciais e intermediários nada sabe. Que dirá dos fins finais?

A vida, animal indomável, fera machucada, besta radical - é também a mão que escreve. A mão que escreve e, depois, não pode mais retificar. A mão ensandecida que inicia cada história sem saber o final. Resultado: incoerência, elementos desencontrados, perdição.

Por que será que a vida refuta um padrão tão evidente?

Vai se escrevendo, e se escrevendo, porque, embora seja indomável, a vida é perfeitamente letrada. E se escreve. Se escreve de forma infatigável. À caneta. Despreza corretivo.

No fundo, a vida é uma escritora versátil, apesar de não saber seus finais. A vida escreve textos de suspense, de terror, de ação; romances, novelas, contos, poemas, frases soltas... e como gosta de um fluxo de consciência, a ordinária!

A vida escreve crônicas, cenas. Faz cenas. A vida é uma encenação frequente.

A vida é dramaturga, cineasta. Polícia e ladrão. Ódio e coração. A vida, com seus mil dedos, delineia enredos diariamente. Não se apaga, não se repete. Não pode treinar, para depois se apresentar ao público. Se apresenta ao público sem treinar. Não pode cortar as próprias cenas, visando construir outras, melhores. Se ficou bom, ótimo; do contrário, paciência.

A vida é vamos que vamos: agora, já. A vida é vamos que vamos e nunca voltamos. Não sei se a vida se orgulha de seus feitos ou os deplora. Na verdade, penso que deve haver um certo equilíbrio entre os sorrisos e as lágrimas da vida. Quando converso com ela, me diz que gostaria de sorrir mais. Mas sorrir de verdade, sem encenação.

Pode ser que, se conversássemos mais com a vida, ela, de fato, sorrisse mais. Porém, há momentos em que se encarcera no processo criativo e não permite que nós, pobres espectadores, questionemos o seu sistema taciturno.

Afinal, ela nos pertence ou nós pertencemos a ela?

E o que esperar de um criador que desconhece os seus próprios finais?

Escritora desconexa, a vida deixa palavras pela metade.

A vida encerra narrativas sem ponto final.

À vida

São irrelevantes

Seus próprios fin...



21 Março 2019 11:02:00


(Foto: Divulgação) /

Tenho a estranha e irrefutável impressão de que somente me projetando no futuro poderei compreender questões que atualmente me afligem.

Sendo assim...

Caminho por uma trilha arborizada. Túnica branca, cabelos brancos. Tenho 90 anos. Olho para trás. Apenas olho, pois algo me diz que não posso voltar. O caminho atrás de mim é longo. À frente, curto. Bem curto. 

Tenho 90 anos e não posso voltar. 

Estou tonta. Desorientada. É que eu dormi e estava jovem para fazer o que queria. E hoje acordei me sentindo velha demais para lutar com o ardor necessário. 

Enquanto caminho, pés descalços, percebo que as aflições alimentadas por décadas pararam de doer. Afinal, cheguei a encruzilhadas na vida em que tive que escolher quem sobreviveria: elas ou eu. 

Querendo viver em plenitude, procurei seguir o basilar preceito: amai-vos e instrui-vos. Me instruí. Observei que o maior desafio e, ao mesmo tempo, a mais sublime missão do ser humano na Terra consiste em combater a ignorância. Se amei? 

No chão, vejo meia dúzia de amores; que hoje, só hoje, noto que não se fizeram merecedores de ser chamados assim... Se ainda resta algum em mim? Não vou contar, embora... Não vou contar. 

O que sei - e sei sem qualquer dúvida - é que a solidão me ensinou mais do que os falsos amores e as multidões. 

Grama úmida. Dia frio. Me encolho. Vou deixando para trás, bem para trás, as ilusões em forma de amor. Só então reflito que a minha vida toda foi um imenso quebra-cabeça. Ouvi dizer que existem quebra-cabeças com mais de 40 mil peças. Então a vida é um quebra-cabeça de 80 mil peças. 

A vantagem do brinquedo é que há um desenho (na tampa da caixa) da figura a ser montada. Pode-se seguir a ilustração. Tem-se uma direção. A vida, nem isso. Vamos construindo às cegas, no chute, no palpite. 

Quando estamos perto de terminar de montar, descobrimos: a peça central - aquela que tínhamos certeza de que estava no lugar adequado, na verdade não está. 

Se fosse só isso, tudo bem, o problema é que, diante disso, precisamos desmontar tudo e recomeçar. Pois todas as outras peças, seguindo a estrada do equívoco, também estão no lugar errado. 

Deve ser por esse motivo que, quando a aparência de correção se mostra impecável, algo no nosso íntimo acusa que não é. Sabemos, no íntimo sabemos: não é. Falta uma peça, só não se tem ideia de onde. 

Me debati. Hoje, analisando essas centenárias árvores, essas árvores maiores e mais belas do que eu, entendo o quanto me debati. Relembro como o meu espírito se engalfinhou consigo, com seus próprios medos, complexos e desajustes. 

Seguindo a trilha, sempre acompanhada pelas árvores e pela sinfonia dos pássaros, entendo que a natureza é muito maior do que as frivolidades humanas. Maior e, portanto, mais majestosa. Imergindo em sua majestade, nos libertamos dos nossos problemas mesquinhos. 

Porque a vida, 

A vida mesmo, 

A vida é muito mais. 


14 Março 2019 13:31:00


(Divulgação) /

No sonho, eu era uma super-heroína. Uma super-heroína vestida de mulher-maravilha, porém, com os cabelos exuberantemente loiros. Olhos azul-escuros, corpo espetacular. De meu, apenas a altura. 

Essa super-heroína (no caso, eu), se chamava Madona e detinha uma chave. A chave era procurada pelo governo e ninguém no sonho teve a gentileza de me explicar por quê. 

Sei que a heroína corria de lá pra cá, de estado a estado, de fogo cruzado a fogo cruzado, escondendo a indigitada chave.  

Seria de um cofre, muitíssimo bem trancado, que armazenava a honestidade de grande parte dos políticos e, se alguém o abrisse, a honestidade, ágil, voltaria a habitá-los? Por isso o pavor do sumiço da chave? 

Para resguardá-la, a heroína foi conduzida a bizarras aventuras. Numa delas, invisível, dentro de um banco, precisava analisar os cheques. De novo, não teve uma abençoada voz etérea que me explicasse (ou melhor, à heroína) qual o propósito dessa espionagem. Suborno é em dinheiro vivo... desvios? Como ninguém explicou, não serei eu a cogitar; afinal, fui jogada no sonho para defender a chave, não o motivo. 

Depois, a heroína saiu do banco e foi direto para uma floresta, não se sabe como, se sabe apenas o porquê: para proteger a bendita chave. Agora, como eu disse, qual a razão, não se sabe, também. 

Na floresta, a heroína esqueceu que era Madona e se tornou Tarzan. Do nada, se dependurou em um cipó e, em segundos, estava do outro lado. Então, precisou cortar o cipó. Utilizou as unhas (Madona tinha superpoderes nelas). E essas minhas longas unhas que, enquanto mulher comum servem para quase nada, além da estética, serviram à super-heroína para cortar o cipó (que, àquela altura, era uma corda que a amarrava, também do nada). 

De repente, como em todo sonho de ação, chegou a hora do disfarce. A super-heroína virou uma menina de 17 anos. Surpresa das surpresas, era eu aos 17 anos! Não mais a mulher fascinante, mas essa criatura desajeitada que vos escreve todas as quintas-feiras, quase 10 anos mais jovem. 

Aportei na minha antiga casa, onde estavam dando uma festa (e isso é hora?). Além dos convidados, 3 militares. Eu, de casaco preto (no bolso, a chave), cabelos emaranhados. Da heroína preservava somente os olhos azuis (os quais evitei cruzar com os dos policiais).  

O Brasil do meu sonho tinha mais militares do que civis. Eram muitos, espalhados por toda a nação, pois nem sabiam onde a heroína (para eles, vilã) iria aparecer. Além do mais, não faziam ideia, óbvio, de que ela estaria tão disfarçada. 

Apesar da camuflagem, o risco de permanecer ali era imenso. Percebi que precisava me retirar. Discretamente, mostrei a chave à minha mãe. O Brasil todo sabia do desaparecimento. Ela entendeu, de imediato. Falou aos policiais que eu estava saindo para ir à escola (eu tinha 17 anos, lembrem). Eles acreditaram (era sonho, lembrem). Saí. Meu pai, sarcástico, ainda gritou para que eu fosse bem e voltasse logo. Minha mãe devia ter contado a verdade a ele, mas o danado sempre gostou de uma ceninha. 

No caminho, uma professora, dirigindo um Uno branco, me encontrou. Ofereceu carona. Levava duas crianças, no banco de trás. Aceitei o oferecimento. O trajeto até o próximo esconderijo seria longo e, até lá, corria o risco de ser revistada. Já tinha empregado o superpoder da invisibilidade uma vez, não poderia usá-lo novamente (droga de super-heroína). 

Ao entrar no carro, li nos olhos da professora que ela sabia sobre a chave. Aqueles olhos azuis crivados de superpoderes notaram, num instante. 

Ocorreu que, naquele momento, um dos policiais que estava na minha casa, sondando a festa, apareceu de moto, logo atrás de nós. Me viu (malditos vidros claros). Eu havia dito que iria sozinha para a escola. Achou suspeito, lógico. Nos seguiu. Pra ajudar, o Uno acusou a falta iminente de combustível. Paramos num posto. 

Tirei a chave do bolso. Pensei em entregá-la à professora, que tinha menos chances de passar por inspeção. Quando a estendi, contudo...

O que aconteceu, leitor? 

1- A chave caiu no chão e tivemos que procurá-la, sabendo que o policial estava a segundos de distância de nós? 

2- Uma das crianças gritou? 

3- O militar bateu no vidro? 

Não, leitor!

Eu dei uma de humana e, humanamente, 

ACORDEI!

Você acha que só você está decepcionado? 

Então imagine eu, que acordei sem superpoderes, com cabelos castanhos comuns, quase 10 anos mais velha do que quando no disfarce, corpo magrelo, olhos, além de marrons e não mais azuis, profundamente míopes.

E eu, leitor, não fiquei decepcionada? 

Fiquei ARRASADA!

Mas, como diante disso tinha muito trabalho a fazer, em vez de lamentar meu detestável regresso, passei uma hora rindo da desgraça e reconstituindo a história para contar a você.  


07 Março 2019 13:52:00


(Foto: Divulgação) /

Aos 18, ter a mente de 30. Aos 30, ter o corpo dos 18. Aos 20, ter a experiência de 40. Aos 40, ter o tempo dos 20. Aos 50, ter a paciência de 80. Aos 80, ter a vivacidade dos 50. 

Antes de ter filhos, viajar com os filhos. Depois de ter filhos, torcer para que eles encontrem amigos que vão viajar com eles. Antes de ter filhos, achar bonitinho um chorinho. Depois de ter filhos, chorar mais do que eles quando choram. Antes de ter filhos, o desejo de passar a maior parte do tempo com a prole. Depois de ter filhos, arranjar toda sorte de atividades extra-lar para os profissionais mirins. 

Solteiro: casar. Casado: voltar a ser solteiro. Divorciado: conhecer alguém. Namorando: conhecer outro alguém. 

Mulher magra: engordar. Mulher gorda: emagrecer. Mulher de cabelos lisos: enrolar. Mulher de cabelos enrolados: alisar. Mulher loira: ficar morena. Mulher morena: ficar loira.

Aventureiro: acomodar. Acomodado: aventurar. Agitado: aquietar. Quieto: agitar. 

Muito trabalho: diminuir o ritmo. Pouco trabalho: aumentar o ritmo. Estressado: Spa, contemplação, natureza. Calmo: adrenalina, badalação, metrópole. Metrópole: interior. Interior: metrópole. 

Pobre: ser rico. Rico: ser milionário. Milionário: ser bilionário. Bilionário: voltar a ser pobre, que era quando as coisas tinham graça. 

Decidido: duvidar. Indeciso: decidir. Filosófico: ser objetivo. Objetivo: ser filosófico.

Quem viaja: descansar. Quem não viaja: conhecer novos lugares. 

Pais de jovens que não param em casa: que eles fiquem em casa. Pais de jovens que ficam em casa: que eles saiam de casa; já que jovens com problemas (qualquer espécie de problemas) os têm por esses dois únicos motivos: ou porque são pouco caseiros (se o fossem mais, tudo se ajeitaria), ou porque são muito caseiros (se o fossem menos, tudo se ajeitaria). 

Jovens com pais diligentes: que não sejam controladores. Jovens com pais negligentes: que lhes deem atenção. Jovens com pais jovens: que não digam que pai e filho parecem irmãos. Jovens com pais velhos: que chamem seus pais de jovens.

Não tem lugar no cemitério: quero ser enterrado! O crematório está saturado de serviço: quero ser cremado!

Porque, no final, é mesmo assim: morremos tendo vivido nas idades erradas; com os corpos errados; inclinações erradas; tempo e espaço errados; ideias erradas; condições social, econômica e familiar erradas.  

Tudo é tão torto. 

Que talvez o que assassine seja sempre

E sempre

A vida-não vivida

Do morto! 

 


 


OPINIÃO
28 Fevereiro 2019 11:32:00


(Foto: Divulgação) 

Conversa amena, assuntos aleatórios, doces trivialidades: sorrisos, alegria, superficialidade. Temas demasiadamente pessoais, questões mal resolvidas, melindres: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Elogios (sinceros ou insinceros), raso cotidiano, regozijo (sincero ou insincero), contemporaneidade exacerbada: sorrisos, alegria, superficialidade. Críticas, aprofundamento de aflições, circunspecção, minuciosos relatórios do passado: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Erigimos fronteiras em nosso interior; frágeis fronteiras, embora o exército que treinemos esteja sempre pronto para nos defender. Esse exército - composto dos sentimentos mais duros e letais - veste a farda da disciplina e ostenta o patriotismo da nação em que se constitui cada um de nós. 

São esses sentimentos duros e letais - amor-próprio, orgulho, senso de justiça, anseio por liberdade, por realização -, que nos enrijecem e convocam os nossos exércitos, acionam as armaduras e impedem, rigorosamente, que outras pessoas (invasores) violem a fronteira que estabelecemos. 

Enquanto as investigações alheias sondarem o orvalho da grama de nossos campos pessoais haverá sorrisos, alegria, superficialidade. Natural, são nossos amigos, companheiros, não querem invadir território, medir forças. 

Caso as sondagens extrapolem secretas fronteiras, busquem estudar fraquezas, rachaduras, intentem estabelecer as suas regras na nossa nação - e, por conseguinte, dominar nossas mentalidades -, convocaremos o exército, quando então despontará o enrijecimento, maxilares de trincarão, armaduras serão ativadas e o inimigo compreenderá: o terreno está minado.  

Para nós, o alerta: são adversários da sanidade da nação, antagonistas, vieram para colonizar nossas emoções. 

Capacitamos o exército, escolhemos o melhor armamento, adquirimos munição. Passamos a vida protegendo nossas fronteiras. Ataques virão, é certo. Batalhas, guerras, conflitos, sangue, sentimentos vazados pelas feridas, calosos traumas renascidos, tudo pela audaciosa truculência da invasão da fronteira. 

Posso discordar da maioria das doutrinações que separam os homens entre amigos e inimigos, companheiros e adversários, bons e maus, mas endosso o pensamento de Nietzsche quando nele transparece a necessidade do enrijecimento e da dureza, em variadas fases e situações da vida. 

A benevolência degenerada consiste em permissão de rompimento da fronteira. A benevolência, quando erroneamente interpretada, nos transforma em carpetes para pés aproveitadores; e aí qualquer exército se arma e vai à luta. 



21 Fevereiro 2019 16:38:00


(Foto: Divulgação) 

Tanta gente! Durante a vida conhecemos tantas pessoas, almas conturbadas; espíritos extraviados; corpos, pela vaidade, desorientados. 

Conhecemos pessoas nobres, de uma nobreza que ultrapassa condição social, de uma nobreza que se purifica nas atitudes, na postura diante das adversidades, na posição assumida. 

Conhecemos, igualmente, pessoas que não assumem uma posição, aquelas que creem que podem fixar residência em cima do muro. 

Ocorre que o indeciso pesa sobre a parede trepidante que constrói sob si, pesa tanto que o muro se parte e o indeciso, esborrachado no chão, fraturado, vai ainda assim procurar outro muro onde possa se refugiar. O indeciso nunca se contenta em cair uma só vez. O indeciso não aprende com uma só queda. 

Conhecemos pessoas fortes, com a sinceridade de todo o seu caráter demonstrada no olhar. Pessoas que nos transpõem com os olhos. Pessoas tão verdadeiras que esquadrinham nossa alma, nossa mente, nossas indefinições e nossos temores, tudo, tudo com a ascendência de sua força. Essas pessoas são naturalmente mágicas, pois conseguem fazer com que não nos sintamos invadidos, mas sejamos gratos. Eternamente gratos por suas escavações emocionais. 

Conhecemos, também, pessoas fracas. Pessoas abaixo da linha da mediocridade. Pessoas que não sabem sustentar a palavra empenhada, a emoção demonstrada e o que é pior: desconhecem a importância de robustecer a própria personalidade, talvez porque não tenham nenhuma. Ou nenhuma digna de ser notabilizada. 

Conhecemos pessoas belas, lindas mesmo, transcendendo a beleza avaliada em um primeiro instante. Pessoas inteiras: que conseguem que seus sentimentos, suas palavras e suas atitudes estejam sempre em consonância, um refletido no outro. Pessoas que não são cópias de outras, mas ressonâncias de si em qualquer lugar, situação ou momento.  

Conhecemos (ah, e como conhecemos!) pessoas feias, horríveis de verdade, muito além da feiura facilmente percebida. Pessoas fragmentadas: sentem uma coisa, tentam pulverizar o sentimento, maquinando outra, e agem, ainda, de uma terceira forma. Um pedaço delas em cada parte, uma falsidade em cada canto. Pessoas-boneco, pessoas-fantoche, pessoas (por suas próprias mãos) divididas em milhões de pedaços, cada um agindo de um modo, nenhum deles prestando para o que quer que seja.  

Conhecemos pessoas cuja presença nos ilumina, nos embriaga com os mais deliciosos néctares, pessoas raras, pessoas brilhantes, pessoas que nos assustam (maravilhosamente) com a sua espontaneidade impoluta. Pessoas que rejuvenescem nossas almas por vezes envelhecidas. Pessoas-luz. 

Conhecemos, entretanto, pessoas-sombra, cuja presença nos atemoriza, sobretudo pelo cruel pesadelo de nos tornarmos iguais a elas: pessoas que mentem, que dissimulam, que poluem a própria consciência e o nosso coração com o lixo que entesouram através da obscuridade de suas ações. Pessoas contaminadas que querem nos infectar, pessoas arrasadas que ambicionam nos devastar, pessoas-nada que almejam nos diminuir.    

A vida, pródiga, nos agracia com infindáveis espécies de pessoas. Queira o bom-senso que saibamos identificar as pessoas-muro, para valorizar as pessoas-nobreza. 

Queira a sensibilidade que saibamos detectar as pessoas-fraqueza, para nos deixarmos influenciar pelas pessoas-potência.

 Queiram os nossos olhos espirituais que saibamos visualizar as pessoas-fragmento, para nos envolvermos com as pessoas-plenitude.

Queira a vontade de ser luz que saibamos intuir as pessoas-brilho, para que possamos, assim, e finalmente, lamentar pelas pessoas-escuridão, porém jamais nos transformarmos numa repetição delas.  


14 Fevereiro 2019 11:26:00


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Impossível lembrar o ano exato. E o que são números, quando a profundidade do ensinamento sobrepuja precisões matemáticas? Eu devia ter 5, 8, 15 ou 20 anos, não sei. Talvez 22... ou 23, ou quem sabe foi ano passado, ou esse mesmo. Enquanto o mundo não acaba, de que importa se me refiro às profecias de seu término ou aos seus ciclos e reinícios?

Tudo bem. Façam de conta que foi ontem. Ou hoje. Ou me imaginem adolescente, ou criança. Imaginem da forma que vossos sábios corações solicitarem: estarão no caminho acertado, caso assim procedam. 

Estava eu (hoje, ontem, há dez anos, há vinte) admirando um imenso campo verde. De um lado, árvores: de flores, de frutos, de verdades, de questionamentos, de folhas, de cores, de incógnitas e de respostas. Árvores, enfim: o que vem da terra e se orgulha de suas raízes sempre é símbolo de completude. 

De outro, apenas o campo: limpo, aparentemente virgem, mas nem por isso menos aromatizado de promessas. O homem ao meu lado, assim como eu, contemplava as flores das árvores, antegozava o sabor de seus frutos, pressentia respostas e ouvia o eco imorredouro daquelas incógnitas. 

Pisávamos no solo virgem para poder refletir sobre o fecundo. Éramos intermediários. Eu, criança, intermediária, não se sabe do quê. Eu, adolescente, intermediária, não se sabe do quê. Eu, adulta, intermediária, sabe-se ainda menos do quê. 

O homem, me vendo erguer o olhar para alcançar a copa das árvores, perguntou por que me dava àquele esforço, uma vez que, sob meus pés, havia beleza tão ou mais promissora. Ali, comigo. Ali, em mim. Ali, abraçando-me os pés.

Muda, olhei-o de um jeito desconfiado. À minha calada rabugice, ele sorriu e replicou, pacientemente: "plantei dezenas de árvores, aqui, onde estamos. Vão crescer, vão florescer, vão frutificar, vão inquietar com perguntas tácitas, vão dar respostas letais às frívolas ânsias da humanidade; mas, por enquanto, são apenas sementes. Nem por isso inexistem. Nem por isso esse solo é virgem. Não existe terra virgem. Não existe mente virgem. Existem sementes, invisíveis aos olhos da matéria; na minha crença, porém, são plantas feitas, maduras. Já se desenvolveram. Porque vão".  

Me deu no que matutar. Fiquei mais quieta ainda, mais pensativa ainda. O Pequeno Príncipe, naquele instante, veio soprar aos meus ouvidos que o essencial é invisível para os olhos. Corroborando a universal verdade aprendida pelo menino, o homem, exibindo uma expressão de tranquila sabedoria, desafiou:

"Ainda duvida do poder do invisível?".

Olhei para meus pés: abaixo deles, logo abaixo deles.

O invisível.

O invisível que, porém, se prepara para germinar. 

O esplêndido invisível. 

O agora-invisível. 

O futuro-notável. 

O triunfo que os olhos não podem ver, mas que o espírito adivinha. 

A esperança 

Em sua origem. 

Porque não há 

Terra virgem.    


07 Fevereiro 2019 14:48:00


(Foto: Divulgação) /

São os monólogos interiores que me conduzem ao tema de cada escrito. Quando confusa em relação à hierarquia de importância dos assuntos, recordo a resposta que recebi de um colega ao conversarmos acerca dos meandros da escrita. 

"Sobre o que devo escrever?" Questionei eu. 

Ele: "Depende. O que você quer eternizar?"

Naquele dia, percebi: a escrita busca informar, fazer refletir, desvendar; mas procura, acima de tudo, eternizar. 

Submersa em onda especialmente saudosa, revisei textos antigos e cataloguei os principais temas que venho tentando, inconscientemente, eternizar.

Passados-novos, presentes não-vividos, futuros incendiados por incertezas, anarquia de sentimentos, explosões mentais, mudanças involuntárias, resistências, temores. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

Amizades duradouras, enganos perenes, certezas decepadas, saudades entranhadas, alegrias fugazes, sorrisos vacilantes, abraços da frieza, beijos da amargura. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

No transcurso dos anos, armazenando sentimentos, reescrevendo momentos, revivendo desencantamentos, sustentando crenças e descrenças, reavivando semblantes, assassinando esquecimentos, reativando memórias, lembrei-me de fases, esqueci-me de idades, desconsiderei preconceitos, vivi através das palavras o eco de verdades. Vivi o que a realidade, por tantas vezes, me tirou. 

Plantei flores de palavras, árvores de palavras, colhi frutos de palavras. Pisei na grama orvalhada e acolhedora das palavras. 

Alentei-me por palavras. Dividi-me por palavras. Conquistei paraísos por intermédio das palavras. Descerrei infernos com o escudo das palavras. Eternizei? Eternizei-me? 

Morri-me afogada de palavras. Renasci-me porque as palavras fizeram em mim respiração boca a boca, pensamento a pensamento, orelha a dedos, sentimento a sentimento. Eternizei? Eternizei-me? 

Senti-me em razão das palavras. Pensei-me sob o pálio das palavras. Mediquei-me pela seringa das palavras. Gritei o silêncio das palavras. Chorei palavras: de meus olhos ainda escorre tinta. Eternizei? Eternizei-me? 

Utilizei a pontuação para repensar histórias (vírgulas, muitas vírgulas). Emendei parágrafos em narrativas que acreditei chegadas ao fim. Arranquei páginas; com vigor, risquei frases; adicionei outras (à margem). Escrevi bilhetes; rasurei. 

Permiti, silenciosa e resignadamente, que outras pessoas colocassem pontos finais, que pessoas saíssem de um roteiro no qual sentiam não se encaixar. Que sei eu do filme dos outros? Calo-me, então. De meu, apenas outro ponto final, ao lado. Com mais um, vira reticência. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

Eternizei? Eternizei-me? 

No trajeto da vida, aliás, quem eternizou-se em mim? Em quem me eternizei? Quem foi parágrafo que se apagou por si mesmo, fazendo questão que assim o fosse? 

Quem foi a frase destacada, o enredo inesquecível, a leitura incansável, o contentamento narrativo? 

Quem quis eternizar-se? 

Quem quis partir? 

Quem escreveu ao meu lado? 

Quem, ao contrário, só fez o esforço de rasgar a página?   

Hoje noto que, de fato, meu amigo estava correto. Somente o passar do tempo nos mostra o que é certo. Escrever é eternizar. Nessa ingrata tarefa, acabamos por eternizar quem nunca desejou se eternizar em nós; eternizamos fatos que, sem o gigantismo das palavras, seriam insignificantes; eternizamos amores transformados em ódios; eternizamos ódios que se transformam em amores. 

E depois não tem mais jeito: está tudo lá, eternizado. Finais serenos, eternizados. Finais dolorosos, eternizados. Finais que nunca deveriam ter sido inícios, eternizados. 

Eternizei.

Eternizei-me?  


31 Janeiro 2019 11:44:00


(Divulgação) /

O terceiro estágio de desenvolvimento da borboleta - de crisálida, no interior do casulo - representa um aprisionante imperativo. O corpo da futura borboleta se forma no casulo, portanto, este, apesar de necessária proteção é, concomitantemente, carcereiro temporário. 

A beleza, o frescor, o colorido, a delicadeza; tudo ali: dentro do casulo. Tudo ali: oculto pelo casulo. Tudo ali: preservado pelo casulo. Tudo guardado, meticulosamente mantido, até que esteja preparado para o mundo. Até que esteja seguro para expor sua fantástica unicidade. 

O casulo restringe, o casulo encarcera, o casulo é elemento de impositiva paciência. Entretanto, o casulo também cuida, barra invasores, parasitas. Substancializa armadura, escudo, parede. 

Diante de todas as paradoxais utilidades, o casulo existe para o momento cabal: o seu próprio rompimento. 

Somente com o rompimento nasce a borboleta. Antes disso: preparação. Antes disso: projeção. Antes disso: expectativa. Melodia aguardada, beleza idealizada. 

Na vida, rompemos o casulo quando abandonamos a casca dos padrões - os padrões nos protegem da crítica, mas são os belicosos carcereiros das nossas vontades. 

Rompemos o casulo quando temos a coragem de dizer "não" a tudo o que nos prende à rotina, ao temor da inovação, à covardia que leva a alma à inanição. 

Rompemos o casulo quando deixamos de fazer medrosas deduções e, destemidos, vivemos. Porque a altiva sabedoria de viver o que, de início, parece utopia, é na verdade sublime libertação; é provar para si mesmo que a vida real não precisa se limitar ao que é fácil, razoável, calculado. Que a vida real pode, sim, (e deve) ter o marcante aroma da emoção e o forte senso da verdade de um rompimento de casulo. 

Tenhamos a coragem. 

Acreditemos que o contentamento não é miragem. 

Rompamos os casulos 

Das nossas crisálidas. 

Não nos adaptemos a

Existências

Pálidas. 

 


24 Janeiro 2019 10:28:00

A crônica é de 2017, porém, resgato-a, hoje, porque a amiga a quem nela me referi é a Fran (Franciele Gasparini). Que bom que conseguimos, de fato, efetivar esse café, que bom que ele não esfriou. Se, diante disso, o leitor me permite dar o meu parecer é que jamais permita que as pessoas especiais vão embora sem que, antes, tenham a certeza do quanto significam para você. E "ir" não consiste apenas na morte. "Ir" representa, sobretudo, a consequência da omissão, da negligência, do descaso. O "tanto faz" conduz almas à morte, amores ao término, sentimentos ao fim. O "tanto faz" leva tudo o que é bonito a morrer em vida. A Fran deixou uma lição suprema: intensidade. Procuro seguir à risca, apesar de ter consciência de que nunca vou chegar ao seu grau de maestria. Resta o consolo de não ter sido rasa para com uma mulher tão intensa. 

(Foto: Divulgação) /

Pus um pouco de café solúvel na xícara, outro tanto de açúcar e despejei água quente. Nada muito elaborado, mas, ainda assim, meu café. Enquanto o vapor saía em ondas, efusivo e aromático, me sentei no sofá e peguei o livro que deixara ali, o amigo leal, o companheiro onipresente, o amor que não negligencia. 

Quando estou lendo, sou dessas que precisam ser despertadas, acordadas com um estalar de dedos ou outro barulho qualquer, retirada da viagem interior que sempre faço ao permitir que meus olhos vaguem pelas páginas e a mente destrinche o enigma, enquanto o espírito, irrequieto, se sente finalmente compreendido e amado em uma linha, uma palavra.

E então o salutar barulho veio: a campainha do apartamento ao lado me arrancou do universo literário em que o homem arrependido se dava conta, tarde demais, da mulher que deixara ir. Tive a vaga impressão de que esquecera alguma coisa. Foram necessários vários segundos para que eu lembrasse: o café!

Havia esfriado. Totalmente. Com um sorriso encabulado, me recordei da amiga a quem prometo um café, qualquer dia desses. Semana passada me disse, com aquele seu jeito espirituoso, tão característico: olha que esse café vai esfriar.  

Ela é uma pessoa agradável de ter por perto, alegre, bondosa e otimista. Mas o fato é que sempre temos, ambas, muitos compromissos, muitas distâncias, muita pressa, muito trabalho. E tudo é muito, tudo é demasiado, tudo é em excesso. E o encontro para o café vai sendo transferido, adiado, prorrogado para um segundo tempo que pode nem chegar.

Na vida, deixamos que o café esfrie quando possuímos um ímpeto nobre, elevado, fulgurante; mas permitimos que se acalme, devagar, bem devagar, porque hoje não dá, de manhã não há tempo, à tarde é corrido, e à noite estamos cansados. No dia seguinte é gelado demais, no outro, fim de semana. Mês que vem é férias, a viagem já estava marcada. 

Deixamos que o café esfrie quando as flores de nossas esperanças estão pequenas, em botão, débeis, só que esquecemos de regá-las porque existem outras coisas para organizar antes, porque passamos por momentos complicados, porque não estamos preparados para viver o que pode ser apenas uma miragem. 

Deixamos que o café esfrie quando abdicamos do essencial e nos entregamos ao transitório. Ao entendermos que a essência é a única que nos preenche, queremos voltar a ela. Muitas vezes o café já está frio, como descobriu o homem arrependido do livro que eu lia antes de notar que o meu café também esfriava no balcão. 

O café frio é a escolha errada, o lamento tardio, as atitudes equivocadas por tanto tempo praticadas. O café frio é o ranço. O café frio pode ser também a consequência de um ato impensado, pode ser a palavra ofensiva, o descaso, a omissão. Nossa negligência é sempre fracasso anunciado, café frio. 

Com um suspiro, programei o micro-ondas para que desse um jeito na minha distração. Procurei remendar a displicência de uma maneira patética: requentando o café. 

Café requentado é ruim de beber, todo mundo sabe. De café requentado até o cheiro é péssimo e o aspecto, que não deveria modificar tanto, nos parece comoventemente sujo, decrépito, um riacho de lama. Ainda assim, tentamos consolar nossa omissão esquentando o bendito líquido negro que tantas vezes nos devolve a nós mesmos. 

Requentamos o café quando buscamos suturar nossa conduta leviana, como se as outras pessoas fossem roupas rasgadas. Requentamos o café quando constatamos que agimos com desleixo e procuramos consertar a situação, como consertaríamos um objeto velho e praticamente inútil. Requentamos o café quando damos justificativas tolas, desculpas infantis para comportamentos ainda mais estúpidos. Os remendos podem até ser de brocado, o conserto, bem-intencionado, a desculpa, cirurgicamente estudada, entretanto continuam todos tendo o gosto desagradável, o cheiro péssimo e o aspecto decrépito daquilo que são de verdade: café requentado. 

Naquele momento, decidi: não ia deixar que o café mais importante esfriasse: liguei para ela. Em poucos minutos, resolvemos. Finalmente vamos sair para tomar um café essa semana. Quente.

Quando o micro-ondas terminou seu trabalho bem-intencionado como um conserto, mas inútil feito um objeto velho eu me dirigi à pia, segurando a caneca já inclinada para me desfazer da água preta e adocicada que insultaria meu paladar. Porque para café requentado só existe um destino: ralo abaixo. 



17 Janeiro 2019 11:22:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Início de ano é tempo de construções. E que saibamos construir momentos vibrantes, intensos, verdadeiros. Que saibamos, além disso, desconstruir passados, sem o que serão impossíveis novas edificações dentro de nós.

Início de ano é tempo de sorrisos novos, para que adentremos o novo ano energizados pela certeza de oportunidades aproveitadas; ou, acaso não vividas por motivos exteriores à nossa vontade, que o sorriso ainda assim traga a marca da serenidade, da consciência imaculada.

Início de ano é tempo de fixar metas, engendrar planos, mas, acima de tudo, de agradecer se esses planos forem vencidos por eventos inesperados, que podem nos tornar muito mais felizes do que anteriores planejamentos.

Início de ano é tempo de descartar roupas velhas; e também ideias velhas. Porque é ainda mais insano continuar a viver uma ideia que não nos serve do que envergar uma roupa pequena. A roupa inadequada aperta o corpo. A ideia ultrapassada encolhe a alma.

Início de ano é tempo de atitudes. E de lucidez emocional para lidar com cada consequência delas advindas.

Início de ano é tempo, até mesmo, de radicalismos, talvez, desde que necessários para fulminar desgastes. Porque o desgaste é o começo de todas as enfermidades: materiais e imateriais. Desgaste é sinônimo de precipício. Pena que, às vezes, precisemos cair nele para perceber.

Início de ano é tempo, principalmente, de compreender que tudo no universo é energia. E que toda a energia emanada reverbera em algum lugar, algum coração, alguma mente. Que a energia supera a sensatez, mesmo porque, não há comparação entre a intensidade das duas.

Início de ano só não é tempo de perder amigos. Aliás, nunca é tempo de perder amigos. Quem sabe seja justamente por isso que, dentro de nós, eles jamais se apaguem, porque a mesma energia que supera a sensatez resiste também à morte.

A energia zomba das inquietações

Tuas.

A energia é tão autêntica quanto almas

Nuas.



10 Janeiro 2019 10:05:00


(Foto: Divulgação)

Tentamos sustentar o ingênuo diagnóstico de que o destino será constrangido a efetivar os nossos projetos. Projetamos o que nos parece melhor, consentâneo aos padrões, o que tem a aparência de tornar nossa vida mais fácil, mais confortável, mais feliz. 

Mas a felicidade, a felicidade mesmo, aquela que nos transforma em seres exultantes, realizados; aquela sensação forte, abrasadora, inestimável: esse sentimento bagunça nosso projeto. Esse sentimento bagunça tudo. 

Aí, vem a dúvida. A incerteza. Seguir o projeto ou seguir a felicidade? Ser honesto consigo ou com as projeções? Deve-se frustrar anteriores pactos emocionais para construir algo que, para que seja pleno, precisa, antes, de desconstruções? 

Projetamos, sonhamos, fantasiamos que seremos felizes de uma maneira, arbitrariamente escolhida. Então vem a felicidade. A felicidade de verdade. A força superior a você. A força que rejeita projetos. A força que basta por si mesma. 

Vem a felicidade, com seu jeito charmoso, envolvente, fatal. Vem a felicidade e ri do projeto. Vem a felicidade e faz baderna. Vem a felicidade e te faz vibrar. Vem a felicidade e finalmente te faz feliz. Vem a felicidade e zomba de frágeis razões. Vem a felicidade e detona o projeto, com um lento sorriso. Vem a felicidade e mostra quem é que tem o poder. 

Muitas vezes, negligenciamos a felicidade para viver o projeto. Procuramos nos convencer de que o que nos fará feliz será o planejado. Pois nunca aceitamos estar errados, queremos acertar sempre, sobre tudo. Mas a felicidade é rebelde, se emancipou dos planos. A felicidade chega e arrebata; acaso tentemos resistir a esse arrebatamento, estaremos lutando contra algo mais poderoso do que nós. 

Até onde vai essa luta? Até onde vale a pena? Até onde a felicidade suporta sistemáticas preterições; preterições em favor de algo muito menor do que ela? Afinal, o projeto sempre, independente de sua importância, de sua envergadura, de sua aparência de correção, sempre, SEMPRE será menor do que a felicidade. 

O projeto não nos completa. O projeto, quando alcançado, se mostra insuficiente, irracionalmente vazio, apesar de bonitinho, decorado com uma fitinha. E quem, ainda assim, se diminui para caber no projeto, sacrificando a felicidade (a felicidade jamais aceitaria rivais), esse macula a consciência e não consegue estabelecer algo verdadeiro dentro do coração, pois age contra seu próprio querer. 

Não é segredo que nada pode ser edificado sobre omissões de verdades e máculas de consciência. É desnecessário que venha a infelicidade e diga. Qualquer um sabe. 

Entretanto, a felicidade é um ente tão grande, tão luminoso, com asas tão potentes que, quando se sente menos relevante que o projeto, simplesmente voa. 

Voa e não volta.    

 


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