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NAS MALHAS DO COTIDIANO
20 Setembro 2018 08:59:00


(Foto: Divulgação) 

"A saudade escreveu e eu translado". A frase foi dita por um dos personagens do livro "Clara dos Anjos", do escritor Lima Barreto. Esse personagem atribuiu a autoria da frase a Camões, mas suspeito que a verdade nela contida pertença à humanidade. 

Há dias em que a saudade chega de mansinho e sussurra no ouvido da gente. É ela quem dita, a gente só transfere para o papel o que a razão suprema da melancolia quer proclamar. Há outros em que ela, feito megera selvagem, já vem de dentro, de dentro do peito, bem lá do fundo, rasgando carne e sentimentos, para poder emergir. 

Nos momentos de branda melancolia, de saudade sussurrada, a dor é mais tolerante, embora machuque também: fica batendo a intervalos cruelmente pouco espaçados, atormenta, fere os pensamentos e, quando resolve começar a sair, sobe à garganta; é então que tentamos engolir o nó que ali se forma. Incapazes disso, choramos. O choro é a saudade sangrenta convertida em líquido transparente, que vaza pelos olhos e alaga o rosto. 

Nos dias de saudade selvagem, seu rugido de fera indomesticável ensurdece, não sabemos o que se deforma mais: nossos tímpanos - afrontados pelo som da agonia -, ou nosso coração - esmagado nas mãos ferozes de um sentimento por muito tempo trancado. 

Os olhos, é claro, sofrem nos dois casos. Os olhos sempre sofrem: ora incendiados pelas lágrimas que em vão procuram conter, ora gemendo quando enfim as derramam. 

Naquele que escreve, por se entregar totalmente ao sentimento, tudo se dilacera: corpo, mente e coração. A saudade vem das vísceras e, ao chegar à garganta, é puro fel. O corpo enfraquece, a mente berra e o coração (mal suportando a si mesmo), influencia os dedos, que transladam as palavras dela: da dissimulada murmurante, da megera brutal; transladam para o papel o que a saudade quer. Mais: transferem para o papel o que a saudade ordena, em seu trono que a ninguém é dado insultar. 

Ninguém pode, antes: ninguém nem tente, insultar o trono da saudade. Ela, mesmo sozinha, sem trono e sem nada, é mais poderosa que nós, muito mais poderosa. E a saudade sussurrada, embora discreta e polida, tem tanta supremacia quanto aquela belicosa e animal. A saudade tudo pode; nós, pobres de nós; em face dela, nada podemos. Lutar contra a saudade é tão tolo quanto tentar debelar um furacão. Lutar contra a saudade é o mesmo que pensar que se pode controlar o brilho do sol ou a fúria de um temporal. A saudade é ainda mais independente que o curso da natureza, ainda mais pérfida que os desastres naturais. 

A saudade é soberana. É ela quem escreve. Eu? Miserável de mim: eu apenas translado.   


13 Setembro 2018 11:01:00


(Foto: Divulgação)/

Sempre na mesma hora. Sempre no mesmo lugar. Fixa o trânsito sem enxergá-lo, seus olhos indo e vindo, refletindo os carros, os pedestres, a luminosidade violenta do semáforo. O vermelho do ardor e do sangue. Do furor e da tragédia. Seus olhos vermelhos duplicando o vermelho da agitação. Seus olhos brancos reforçando o branco da rotina. O branco do vazio. Seus olhos brancos opacos da brancura cega de sua vida. 

Invenção minha, julgam? Não. Personagem dele mesmo. Personagem de algum eu extraviado; mártir visado, plebeu imaginado. Seus olhos, aqueles aos quais não canso de descrever, naquele instante fitavam duramente o movimento, a fumaça, a poeira, cada semblante distraído, cada refém de tantas noites, esvaído. 

Dei-lhe o nome de Olhos Famintos, lembrando de um filme a que assisti na infância. Olhos Famintos, como já disse, sempre na mesma hora, sempre no mesmo lugar, fixa o trânsito sem enxergá-lo e jamais me vê. Jamais me vê, tenho certeza, porque Olhos Famintos não tem interesse por curiosas feito esta que tão pobremente vos escreve. Olhos Famintos, assim como eu, examina os alheados. Olhos Famintos, portanto, não se familiariza com outros olhos semelhantes aos seus. 

Passo todas as manhãs em frente ao banco de praça que Olhos Famintos tombou para si. Nos dias em que o sol se mostra e a ardência das origens queima através dos raios, seus olhos ficam vermelhos. Naqueles em que só a nebulosidade macula o céu, o frio vigora e os distraídos são distraídos tristes, Olhos Famintos penetra o clima reinante e nele se instala, com olhos brancos. Não brancos como a lua, o leite ou as asas dos anjos. Nada astral, nada bíblico, nem nada angélico. O branco de Olhos é o da fome. Do oco. Todos os desvãos eternos eternamente retratados nele: na fome de Olhos. 

Considerando que não me enxerga, tomo para mim orgulho idêntico e também não falo com ele. Não o cumprimento. Finjo nem notá-lo. O problema é que, apesar de ser figura bastante comum, de Olhos emana uma aura de magia absurda, que percorre feito líquida febre as veias da cidade. Que destrói com fogo as entranhas dos desavisados. 

Não sei que enigma Olhos tanto sonda, mas suspeito que a fome ancestral que o devassa seja parecida com a minha: descobrir uma alma pura e através dela investigar a cura para as podridões do mundo, para os vícios espirituais do globo, para as maldades enraizadas de todas as demais almas. 

Não. Olhos Famintos, ao contrário do que o epíteto sinistro pode sugerir, não é monstro de filme. Olhos tem fome, sim. Mas uma fome nobre. 

Olhos Famintos quer transformar a engrenagem oxidada da vida. 

Olhos Famintos é um sonhador. 

Olhos Famintos, de certa forma, sou eu. 

Olhos Famintos, espero, também seja você. 




06 Setembro 2018 10:16:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Mãe no ônibus, conversando pelo celular com o filho de 38 anos: 

- Não esquece que o Danoninho tá na geladeira, na segunda prateleira de cima pra baixo, ao lado do pote de feijão cozido... Sim, eu sei que essa é a terceira vez que falo, mas é só pra você não esquecer. Filho, se cobre bem essa noite, vai ser frio. A manta azul tá no guarda-roupa bege, na terceira prateleira de baixo pra cima. Hã? Sente calor à noite? Mas essa vai ser gelada, diz a previsão. Sabe se cuidar? Mais ou menos, né, Carlinhos? Abasteci o carro, mas não saia, fique em casa, cuidando do Nestor (cachorro da família). Não! Não abandone o Nestor como você é acostumado a me abandonar. Não xinga, sou tua mãe! Quando você tiver um filho, vai me entender... Mas... como eu sei que você não quer agora... aperta bem a ponta, senão entra ar e... O quê? Pra eu falar baixo? Eu falo baixo, você sabe (a mãe é de descendência italiana). Além do mais, são só 30 passageiros. Quanto ao meu futuro neto, esqueça aquela vigarista pra mãe dele. Conheci uma moça tão boazinha aqui no ônibus: ajuizada, prendada, sabe até fazer pão! (Dá uma leve batida no joelho da mulher ao lado, que sorri amarelo). Quê? Pra eu não me meter na tua vida? Eu só falei! (Chorando): Quando eu morrer você vai sentir falta, tá? Quando tua mãe estiver jogada num caixão, ah, Carlos Augusto, aí você vai se arrepender. Ou não. Ou é capaz de nem me velar, desalmado que é pra tua mãe. Só pra tua mãe, porque pra vigarista é todo cheio de amorzinho. Não grita, Carlos Augusto! Ainda sou tua mãe; mais respeito, moleque!

Pausa. Voz doce:

"Já acertei com o dono do restaurante ao lado de casa. Você vai almoçar lá. Hã? Não gosta da comida? Como assim? Filho meu não é enjoado. Vai comer lá, sim! Você precisa comer mais salada. Tá ficando fofinho, embora continue lindo. Quanto à janta... Eu sei. Sei que são só 2 dias. Um e meio, na verdade. Tá, tá, vou ser tolerante dessa vez, só pra não me chamar de controladora. Deixo você encomendar pizza. E como já imaginava que ia querer jantar pizza, deixei dinheiro em cima da geladeira, à esquerda, embaixo do Santo Antônio. Você tem? Eu sei que tem, mas é agrado de mãe, Carlinhos, aceita. (Ela desconhece a razão, mas a maioria dos passageiros sufoca o riso). Tenho que desligar, a partir daqui o sinal fica fraco. Te amo. Se cuida: Danoninho, coberta, carro, cachorro, pé na bunda da vigarista, apertar a ponta, almoço, janta... Repassou tudo? Anotou? Ah, esqueci de falar..."

Antes de o sinal cair, Carlinhos desliga. Indignada, ela suspira, olha desolada para a pretensa nora e fala:

- Desligou na minha cara. Não criei assim. Não sei por que, mas esse menino nunca cresce!



30 Agosto 2018 11:33:00


(Foto: Divulgação)/


Muito se discute acerca de o que é a verdade. Assim como todas as expressivas discussões, nunca se chega a uma conclusão. Penso que cada um tenha a sua verdade, construída de acordo com as suas crenças, experiências, medos, expectativas, observações e influência alheia - porque, infelizmente, muitas vezes edificamos as nossas verdades baseados na opinião dos outros. 

Nossos pensamentos, atitudes, projeções e fatos a que damos importância revelam a nossa verdade. E a nossa verdade somente deixa de o ser quando passa a não mais nos servir, não se encaixar aos novos valores e às remodelagens que de tempos em tempos - graças a uma palavra mágica chamada evolução - damos à existência. 

Só que nós, esses seres em constante modificação, não absorvemos os pensamentos remodelados assim, instantaneamente. Novos valores testam a nossa capacidade de resiliência. Novos valores gritam e esperneiam para que sejam fixados dentro de nós, porque novos valores, para nascerem, precisam antes assassinar a verdade antiga, sem o que não conquistarão o espaço deles. 

Quando uma verdade morre, morrem muitas outras, pois para estabelecer uma grande verdade indispensável se torna um amontoado de pequenas. Ao sustentarmos uma verdade, acreditamos automaticamente em tudo que a ela é correlato, já que cada ideia consagrada depende de outras centenas. É a mesma lógica de sustentabilidade que rege o universo interpessoal: necessitamos das pessoas não apenas para sobreviver, mas para algo muito maior: precisamos das pessoas para viver. 

Deve ser por isso que quando as circunstâncias, as mudanças forçadas ou as nossas próprias reflexões nos impulsionam a uma remodelagem interna, temos a sensação de que estamos morrendo e nascendo ao mesmo tempo: um ideal belo, cintilante e promissor nasce e já embrionário é assassino. Assassino do velho conceito. Mas essa é uma morte magnânima, tanto o assassino quanto o assassinado entendem e comungam da necessidade dos ciclos: objetivando o nascimento do novo, imperativa se torna a finitude do velho. 

Para que não existissem os dolorosos e impreteríveis ciclos, só mesmo se nos governasse uma verdade única. Afinal, já houve, em algum tempo - qualquer tempo - uma verdade única? Nunca houve. Embora tenham nos feito acreditar que nós - os rebeldes - desvirtuamos essa imaginária verdade. E se a "desvirtuamos" foi para que tivéssemos a liberdade (essa liberdade tão dura e essencial, tão difícil e doce, tão utópica e real) de arquitetar a nossa profunda, singela e sentida verdade. 

Porque aí, quando essa verdade também morrer, saberemos que somos capazes. Que somos capazes de construir tantas e tantas outras que se adéquem ao que somos, ou ao que estamos no momento. E não que sejamos capachos nas mãos do destino, aceitando a verdade que nos é atribuída pelo mundo. 

Um mundo que nem ao menos sabe quem somos, ou o que sentimos. 


23 Agosto 2018 10:39:00




(Foto: Divulgação)

 Nunca é sem alguma dor - por vezes muita dor - que reflito sobre os valores do mundo, ou, como diria Cecília Meireles, as ilusões do mundo. Que me perdoem os muito materialistas, que me desculpem os viciados em beleza frívola, entretanto eu acho as ilusões do mundo tão podres que pensar sobre elas já me causa repugnância. Com repugna ou sem, escrevo este texto não para que concordem comigo, mas para que pratiquem o que a literatura veio trazer ao universo: a arte de pensar.

 Os valores do mundo a cada dia me surpreendem mais pela falta de substância que alucina e pelo vazio que enreda. Quanto maior a ambição material de uma pessoa, mais adequada ao mundo ela estará. Quanto mais padronizada, melhor. Porque as noções de felicidade estão tão desconjuntadas que nem para respeitar um adágio ajuizado elas servem; pois, na verdade, o que a sociedade quer é que vão-se os dedos e fiquem os anéis.

 O peito cheio de medalhas... Mora alguém lá dentro? Não importa. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Os olhos quase tapados de tanta sombra colorida e toda sorte de máscaras para cílios... Brilham por algum motivo? Ninguém liga. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 A cabeça coroada de glória... Seus pensamentos são de paz? Isso é o de menos. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Pernas bonitas e saradas... Levam para um destino feliz? Não nos preocupemos com filosofia. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Emprego bom, paga muitíssimo bem... Se sente satisfeito nele? Realidade, poeta. Realidade! Se paga bem, o que mais questionar? Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Marido bonito e bem-sucedido... Como ele te trata? O que seu coração diz em relação a ele? Pegue o coração e enfie na lata do lixo, cronista! Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 E quanto à beleza da natureza? Aqueles afetuosos pedaços aromáticos de céu a que chamamos de flores: cravos, rosas, margaridas, violetas, jasmins, crisântemos e lírios... Vendem bem? Porque se for só pra cultivar, admirar e ser feliz por isso, de nada adianta. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Escultura? Se não for famosa, não tem valor. Pintura? É de renomado pintor? - Livro? Não conheço esse autor, então não deve ser bom, se não é conhecido, não pode escrever bem. Porque, como sabemos, é o sobrenome que esculpe, pinta ou escreve e não a pessoa. É o sobrenome que sangra, geme e chora e não a pessoa. É o sobrenome que é artista, e não, nunca, jamais, a pessoa.

 Aliás, querem prestar honras e lisonjas ao artista. Mas e se talvez ele, o artista, no fundo só quiser ser amado como ama? O problema é sempre o mesmo: vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Podem me chamar de rebelde; mas eu, bem ou mal, comando a minha vida, por isso rejeito essas pútridas ilusões e ainda prefiro os meus dedos, ainda que feridos, para que, além da luta, possam acariciar o ser humano que a isso se dispuser. Aquele que não se importe se esses dedos têm anéis ou não.



16 Agosto 2018 15:19:00




(Foto: Divulgação)

Leitores, a partir desta semana retornam as crônicas; mas tranquilizo os admiradores dos temas poéticos, pois estes continuam, embora sob roupagem de prosa, como nesta crônica:                                 

Alguém me disse que cresci. Sabe, eu não tinha percebido. Esse alguém também me disse que é normal não se dar conta: adultos são estúpidos mesmo. E essa, dentre tantas, foi a minha maior estupidez: não ter notado que cresci.

Cresci em todos os sentidos e ainda me é doloroso admitir. Ainda machuca aceitar. E o que mais fere, na verdade, é que agora que aceito que cresci, vou ter que deixar de andar com os meus sapatinhos. Sabe, eles são uns 3 números menores do que o meu pé. Deve ser por isso que algo (que eu não sabia precisar o quê) me angustiava tanto nessa difícil caminhada pela vida: meus pés estavam apertados. Há anos esmagados por sapatinhos pequenos demais.

Mas eles são tão bonitos, penso, enquanto os acaricio. Pretos com lacinho branco. Sapatos lindos. Para uma criança. Em mim não cabem mais. Ou sou eu que não caibo neles, apesar de já ter cabido.

Deixo no chão os sapatinhos e sento ao lado deles, descalça. Meus pés estão tão, tão feridos. Há tantas marcas de calos neles. Afora que estão meio encolhidos, acanhados por terem ficado tanto tempo sufocados em uma realidade que a eles não se adequava mais.

"Você cresceu", me disse ele. Com um estalo, essa advertência quase quebra de vez meu coração já cambiante. "Está grande demais para usar esse sapatinho. Você não cabe nisso aí. Aceite".

Me desesperei, claro: vou ter que andar descalça pelos pedregulhos que há tanto maculam minha inocência? Vou ter que chutar, descalça, os infindáveis muros das minhas resistências? Chorei. Tentando me trancafiar dentro do meu peito, me afligi, me torturei diante dessa crueldade fatal.

Sorrindo aquele sorriso tão tranquilizador, tão cândido, tão seu, ele me mostrou sapatos novos. No momento em que pediu para que eu os colocasse, era como se a sua voz fosse composta de toda a doçura que quando criança tanto me alegrava.

Calcei. Lentamente. Brandamente procurei por cadarços: não havia. Naqueles sapatos nada me prenderia. Insegura, dei um passo, depois outro, certa de que não seriam do meu tamanho. Mas eram. São. São sapatos exatamente do tamanho dos meus pés. E são bonitos, veja! Como são lindos. Incrivelmente mais belos do que aqueles que não me serviam e que eu insistia em calçar.

Fico um tempo admirando meus sapatos novos, pensando, idiotamente, que sempre haverá sapatos novos para pés cansados. Quando levanto os olhos, ele já se foi. Me trouxe os sapatos e voltou para casa, ouvi dizer que mora bem distante daqui, parece que em outro estado, mas sinto que talvez seja proveniente de outro universo.

A vida tem disso: encontros e despedidas. Mas agora, com meus sapatos novos, posso jogar fora aqueles outros que, apesar de terem me acompanhado por tanto tempo, agora não servem e preciso aceitar, eu sei. Não posso me diminuir para entrar neles e tampouco podem eles aumentar de tamanho. Acabou. Fim. Morte. Mudança. Transformação.

Por um segundo cogito guardá-los em uma sacola para dar a alguém que calce aquele número. Mas não vou fazer isso. Primeiro porque sou tão apegada que é capaz de mesmo tendo sapatos novos, queira voltar a usar os antigos, atualmente imprestáveis para mim. E segundo porque estão manchados de sangue. O sangue de todos os ferimentos que suportaram por anos. Os ferimentos que eu me impus, por encolher meus pés. Então vou jogar fora, queimar, não tem outro jeito. Assim não volto atrás de uma realidade que finou-se e só eu não percebi.

Sei que, lá fora, os obstáculos continuam tão ou mais cruéis. Mas agora tenho sapatos novos.



09 Agosto 2018 10:36:00


Foto: divulgação/


Queria vos falar de esperança.

De trauma que hoje descansa.

Queria vos falar de sorriso enorme.

De melancolia que hoje dorme.

Queria, ah, Minha Sina,

Como queria,

Vos falar que até o pesar desanima.

Com o passar do tempo alucina;

Alucinado fica

Sozinho;

Sem fazer de nosso espírito

Ninho.

Queria vos falar de realização infinita.

De amor que nunca se irrita.

Queria vos falar de sonhos vários,

De bem-estar que não obedece

A calendários.

Queria vos falar que a existência é bonita, sim.

Queria,

Inclusive,

Desafiar quem ousasse dizer

O contrário

De mim.

Queria enfim,

Toda essa inútil inocência

Assim.

Lamento, porém.

Tudo se degenerou.

Nada de belo

Se mantém.

Lastimo, todavia.

A prosaica ingenuidade

Se transvia.

Com a Terra desse jeito,

Valorizando defeito,

Se conformando a exteriores

Unicamente

De

Efeito;

Prefiro mais nada

Falar.

Este, sem titubear,

É um momento em que

Se deve

Exclusivamente

Calar.



06 Agosto 2018 14:56:00




  Leitores e amigos, o dia de hoje é muito especial para mim. Se bem que "muito especial" não exprime convenientemente a alegria que sinto ao lembrar que há 3 anos, no dia 6 de agosto de 2015 o Jornal "A Semana" online publicava a minha primeira crônica. Hoje são mais de 150 textos publicados na coluna Nas malhas do cotidiano, dois livros surgiram daí e aviso que já podem esperar pelo terceiro. Desses três anos agradeço a Deus por cada momento de inspiração e, também, por cada hora de transpiração. Porque foi muito trabalho, muito aperfeiçoamento, mas, acima de tudo muita, mas muita satisfação por ter a oportunidade de me dividir um pouquinho com vocês durante todas essas semanas.

  Escrever me insere na vida com um significado mais profundo, escrever me significa. Escrever, aliás, me ressignifica a cada dia, a cada texto concluído e principalmente a cada etapa da escrita: criação, revisão, lapidação, nas quais entrego meu coração para que ele pulse tão intensamente a ponto de me fazer ter a certeza de que escolhi o caminho certo. Ou, ao menos, o caminho certo para mim, pois nenhum outro, até hoje, me trouxe tanto brilho nos olhos e tanta realização.

  Saber que a Literatura quando refletida e, sobretudo, a Literatura quando sentida transforma mentalidades, atitudes e corações me motiva nos momentos de desilusão com a humanidade, nos instantes de desesperança em relação a tempos melhores; me impulsiona a prosseguir escrevendo; me estimula a continuar me dividindo; me fortalece para seguir acreditando. Porque tudo que eu quero é um mundo mais humano; através da escrita sei que planto uma semente em solo profícuo (a alma dos leitores) e, além disso, as palavras vão aos poucos se metamorfoseando em um elo de ouro que aproxima e apaixona pessoas. Obrigada Jornal "A Semana", pela oportunidade. Obrigada leitores, por energizarem esse elo.  

Natália Sartor de Moraes.



02 Agosto 2018 12:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Rimar é difícil.  

Tentar responder a perguntas?

Um vício.

Falo tentar porque responder,

Que é bom mesmo,

Não consigo.

É apenas deambulação

A esmo.

Quanta infelicidade suporta um homem

Antes de enlouquecer?

De todas as sinas,

Suportamos a mais atroz:

Viver.

Quantos homens o sofrimento já fez perderem a sanidade

E ninguém percebeu?

Seria destino esse morrer

Plebeu?

Infelizes são apenas os suicidas?

Não sei.

Mas me parece que há bem mais mistérios

Nessas pungentes idas.

E quando um coração metafísico não vê razão?

Seria, a partir de então,

Tudo,

Tudo

Em vão?

Algo dentro de mim grita:

Esqueça!

Pare de se perguntar

Antes que você

Perca da mente toda a

Defesa.

Só mais uma,

E depois,

Depois,

Dúvida desapareça!

Quantos pedidos de socorro

Ainda serão ignorados até que

A tristeza decida ser democrática

E a todos

Enlouqueça?



26 Julho 2018 12:39:00


Leitores, durante algumas semanas irei divulgar poemas através desta coluna, em atenção ao aprofundamento da temática lírica, às solicitações de leitores e ao estilo do meu próximo livro. Ressaltando que as crônicas devem voltar em breve. Espero que apreciem.





GENTE GRANDE

Primeira coisa que aprendi na vida adulta:

Gente grande não chora.

Gente grande namora,

Gente grande perde a hora,

Gente grande penhora.

Mas chorar?

Gente grande não chora.


Gente grande nos negócios se expande,

Gente grande garante,

Gente grande quer que o dia renda: ande.

Mas chorar?

Gente grande não chora.


Desconfio, pois,

De que todas as vezes em que chorei

Parti-me em dois:

Adulta insanavelmente expatriada,

Criança plenamente justificada.


No final,

Sou infante, então.

Bem que sempre suspeitei,

A vida de gente grande

É pequena demais

Para o meu coração.



19 Julho 2018 13:30:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Algumas coisas pela vida nos fazem crer, nem que seja por segundos, que tudo ainda pode ser mais leve. 

Algumas coisas pela vida confortam, nos fazendo acreditar que mesmo problemas insolucionáveis (e principalmente eles) nos ajudarão a crescer.

Algumas coisas pela vida, singelas coisas pela vida, as mesmas que suavemente umedecem nossos olhos, nos mostram que ela - a vida - é muito mais que a dor pela dor.

Algumas pessoas pela vida, com um olhar triste, mas ainda assim esperançoso, desmontam a mentira grosseira que é a nossa solidão.

Algumas pessoas pela vida, com um silêncio, compartilham conosco suas aflições mudas, deixando claro que nossos ouvidos surdos assim o ficaram por angústias parecidas.

Algumas pessoas pela vida, com um sorriso, ainda que hesitante, mesmo que temeroso de ser ressuscitado, querem nos dizer que é possível. Que alguma saída existe.

Alguns lugares pela vida: aqui, lá, perto, longe, com simplicidades puras, cores e enigmas, cerejeiras e pombos, pôr do sol e noite fresca anunciam, munidos do respeito cuidadoso da trilha da liberdade, que nem tudo precisa ser tão grave, nem tudo tão desesperador. Que aqui, lá, perto ou longe a veia da alegria, aquela que estourou dentro de nós e foi morar em outro canto, pede para ser remendada.

Alguns lugares pela vida, calmos e despretensiosos, iluminados e serenos, registram a paisagem ideal para nossas almas trevosas e bravias. E são esses lugares que, quase sem querer, sem ter a intenção, zombam de nossos excessos.

Alguns lugares pela vida - sem perfume perfumados, sem alimento energizantes, sem ninguém companheiros - balbuciam senhas para nossas inquietudes; senhas que poderíamos ouvir, não fosse o zumbido desorientador do mundo.

Algumas coisas, pessoas e lugares pela vida conosco dialogam, brandamente clamam, libertados de malícia ou de desejos funestos, que morramos um pouquinho. Um pouquinho para o mundo e vivamos mais para nós.


12 Julho 2018 14:05:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Não posso me deter. É olhar para um caleidoscópio e me pergunto se cada minúsculo pedaço colorido fosse uma dor transformada.  

O vermelho um coração esmagado, agora reabilitado.

O azul um olho cego de injustiça, agora esperançado.

O preto um líquido visguento de amargura, agora adoçado.

O amarelo um Brasil mais rico em honestidade, alado.

Girando e girando, iludindo olhares, confundindo retinas, pulsando e ardendo, sofrendo e gemendo, sorrindo e fazendo. Caleidoscópio.

Queria eu que minha vida toda, nossas vidas todas e todas as nossas misérias fossem esse caleidoscópio mágico no qual por vezes me encerro, quando a angústia é demasiada e os fantasmas se contorcem.

Queria eu que o vermelho do sangue martirizado um dia fosse tão brando que cessasse de vazar mágoas e derramasse somente alegrias.

Queria eu que o azul turbulento de um céu eternamente chuvoso se abrisse um tantinho, um pouquinho que fosse, no turquesa dos meus sonhos. Queria, aliás, que o amarelo da lembrança doída se convertesse em felicidade luminosa para me recordar de um tempo em que eu ainda tinha sonhos.

Queria que o preto, ah, o preto! Tão poderoso preto, tão soturno preto, voltasse a simbolizar somente o medo do escuro que eu sentia quando criança e fosse largando pela estrada - estrada marrom das lágrimas apodrecidas -, todo esse embargo que escraviza a garganta, todo esse sangue pisado no meio do peito, todo esse horror da mente que grita.

Queria pedir - contemplando o caleidoscópio e fingindo que pode me conceder desejos - que o branco e o preto se unissem, se juntassem também ao amarelo e ao vermelho, e mesmo ao marrom e ao azul e a todas as raças e credos e cores e traumas e dores, e a todas as alegrias e berros de aflição, e às loucuras várias e ao desamparo amanhecido, e aos corações em chamas; tudo se unisse em um caleidoscópio colorido pelas pinceladas furiosas do ódio, do amor, da tristeza e do terror.

Se unissem, nesse imaginário caleidoscópio construído pela mente atormentada de uma cronista, todos os choros contidos, os clamores trancados, as ofensas agudas, as mágoas incuráveis e o medo. Principalmente o medo se unisse a tudo. O medo de enlouquecer a tudo se unisse e convertesse esse irredutível aperto no peito em milhares de pedacinhos coloridos.

Pedacinhos coloridos de dor transformada.


05 Julho 2018 08:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) 

Ferimentos abertos nos mantêm cautelosos. Ferimentos abertos gemem. Ferimentos abertos sangram, ardem e impedem que outros sejam colocados no mesmo lugar. Enquanto a ferida estiver presente o motivo que a gerou também estará. Quanto mais tempo uma chaga persevera, mais tempo para consolidarmos o propósito de não reincidir em sua causa.  

Nossas fraquezas provocam ferimentos, a dor aumenta o efeito deles; o arrependimento, quanto mais amargo, mais eficaz; o remorso, quanto mais demorado, mais apto a nos transformar em sentinelas permanentes de nossos frágeis calcanhares.

Nem sempre é sábio destoar de axiomas, porém discordo daquele que diz que nos arrependemos mais do que não fizemos do que daquilo que fizemos. Para mim é a muleta dos insensatos; consolo único dos inconsequentes. Novas feridas são gestadas, diariamente, no útero bravio da atitude impensada, fecundado por um troglodita chamado impulso.

Feridas, muitas feridas, daquelas fundas, que machucam carne, expõem nervos e fazem verter o líquido vermelho da irracionalidade dificilmente se rasgam por abstenções. Feridas fundas se rasgam, sim, por ações tomadas no calor dos conceitos generalizados. Esses mesmos conceitos são incapazes da plena cicatrização. A plena cicatrização se efetua através de abstenções.

Abstenções, todavia, não deixam de ser atitudes calmas, estudadas, com minúcia calculadas: a água oxigenada para desinfetar, a pomada para cicatrizar e por fim ele, sempre ele, o curativo para evitar. O curativo em um ferimento é o símbolo máximo da abstenção: permita que o machucado respire, mas não admita que nada mais a ele se junte. Preserve-o.

Preserve-o ou vai demorar a fechar. Preserve-o ou pode infeccionar. Preserve-o ou nenhum cuidado vai bastar.

O curativo de nosso coração é a frieza, uma camada extra de gelo corta irresponsáveis excessos de calor. Julgados por sermos frios, muitas vezes nos sentimos culpados, mas ninguém nem imagina quantos metros de esparadrapo já aplicamos em nossos sangrentos corações. Olhando para nossos sorrisos forjados na necessidade de sobrevivência, ninguém desconfia o quão retalhado está nosso coração, o quanto ainda dói sempre que pulsa mais forte e esmigalha o filete protetor.

Para não ser acusada de contrariar em demasia o senso comum, me salvo a tempo do fogo eterno e levanto as mãos me redimindo, avisando que concordo com aquele ditado de que, quando existe um ferimento aberto, temos que redobrar os cuidados naquele local porque tudo converge para que seja ele o danificado por infortúnios.

No entanto, sendo inócuo colocarmos uma armadura diante do peito, ao menos não nos sintamos culpados por defender aquela camada gelada e salutar dentro de nós. Tudo isso para que, acautelados, não morramos esvaídos antes do tempo.



28 Junho 2018 09:41:00

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(Foto: Divulgação)/

Quem nunca parou para observar um louco descontrolado? Sim, porque loucos controlados somos nós: temos loucuras várias, iguais as dos loucos descontrolados; mas nós, que pensamos ter as rédeas de nossas emoções, somente por isso não somos chamados de malucos. 

Um anda cabisbaixo, vestindo roupas dos anos cinquenta, chapéu e debatendo animadamente consigo; quando passam por ele escancara os olhos e mexe no nariz. Outro, enquanto caminha, se balança todo e faz vibrar os músculos do rosto. Tem outro ainda que sempre está com frio, casacão até os joelhos, mesmo com o sol derretendo. Ri de tudo, ri escandalosamente, quando decide berra, assusta os transeuntes.

Tem a louca dos dentes pretos e dos vestidos coloridos. Essa, quando não se encontra ocupada demais cantando os homens e estalando a língua, promete ler a mão e modificar a sorte de qualquer um desde que receba R$ 20,00. Se for homem, 10. Se bonito, 5. Se for rico ela pede apenas para dar uma voltinha de carro.

Existe também o louco do "Oi". O louco do oi é aquele que instituiu como missão desestabilizar quem anda no mundo da lua. Eu, por exemplo, em diversas ocasiões já fui surpreendida por esse louco. Não tem nenhuma aparência de lunático, como o do chapéu ou o que se balança; pelo contrário, é um rapaz aprumado, mas quando esbarra em alguém que está distraído grita "oooi". Você dá um pulo, claro. Então sim, ele ri. Ri à beça. Parece que rir é a medalha dos loucos.

Como eu ia dizendo no começo e recordar esses loucos me fez enlouquecer o rumo do texto, a diferença entre nós (os "normais") e os loucos é que nós controlamos as nossas loucuras. Eles nem tentam. Freud diria que a maioria dos complexos emana de desejos reprimidos. Quando o superego começa a dominar monocraticamente nos tornamos perfeccionistas, paranoicos, reguladores; enfim, nos tornamos normais. Nos transformamos no protótipo requerido pela sociedade.

Se os loucos descontrolados perderam de vez o superego, se não dão ouvidos a ele ou, mais ainda, se conversam com Freud em sonhos (Freud adorava os sonhos para explicar as maluquices humanas), então é por isso que riem tanto. E deve ser por idêntico motivo que nós, os loucos controlados, transpirando superego, estamos cada vez mais carrancudos e infelizes. Nós, os loucos controlados, somos aqueles que medem bem as palavras, aquilatam emoções, estudam com minúcia cada ação, mas nossa mente é incapaz de dizer basta aos ansiolíticos e antidepressivos.

Cada espécie de louco tem a aprender com a outra espécie. Talvez, apenas talvez, fosse bom que os loucos descontrolados recobrassem um pouquinho do superego. Mas certamente nós, os loucos controlados, nos livraríamos de um tanto da nossa amarga loucura se a misturássemos com a doce loucura deles.

Tudo isso para que, um dia nós, todos nós, os loucos, sejamos felizes.



21 Junho 2018 14:21:00


(Foto: Divulgação) 

Introspectiva, nem um aceno me deu durante o tempo em que estive perto dela. Discreta, não analisava as outras pessoas. Meditativa, mordia um pedaço de qualquer coisa quando, em verdade, procurava digerir as próprias dores.  

Estabelecimento comum, pouca gente, pouco barulho. Me sentei à mesa ao lado da dela, quase encostada. Não pareceu me enxergar, perdida em algum beco de suas ausências. Figura apagada, mãos que tremulavam ao segurar a xícara. Tomou um gole do conteúdo e seus lábios se retesaram; se o gosto amargo era do café ou da vida, não sei dizer.

Um livro sobre a mesa. Marcador customizado onde seu primeiro nome aparecia em letras azuis. Isabelle.

Antes que alguém tente adivinhar se a conhece, aviso logo que a história não se passou em Curitibanos, tampouco recentemente. Isabelle (presumindo que aquele marcador de páginas fosse dela) procurava esconder os olhos com uma mecha dos cabelos ruivos. Só que desencanto e amargor não precisam dos olhos para se mostrar. Desencanto e amargor exalam, irradiam e envolvem. Desencanto e amargor são odores da alma que necessitam apenas de olfatos sensibilizados pelos mesmos motivos para serem captados.

Nos quatro ou cinco minutos que se seguiram o entorpecimento inicial de Isabelle se tornou inquietação, como tão bem poderão entender os ansiosos. Impaciente, não esperou que o garçom depositasse na mesa a segunda xícara de café, foi logo se antecipando, agarrando a porcelana da bandeja e derramando gotas negras sobre a toalha alva. Deixou que um naco de torta caísse no chão, na ânsia de colocar uma porção grande demais na boca. Então suspirou, largou garfo, xícara e desistiu.

Aquele algo ou alguém que perturbava Isabelle a convertia em uma montanha-russa de emoções. Da paralisação ao caos. Da solidão ao delírio atordoante de pertencimento. Da ansiedade à desistência completa. Isabelle e suas perdas. Isabelle e seus segredos.

Talvez o livro de poemas de Fernando Pessoa fosse via labiríntica de encontro. Talvez se reconhecesse naquelas páginas. Talvez os sentimentos tumultuados do poeta a confortassem ao notar que mais alguém, embora brilhante e aclamado, também teve dentro de si uma terrível solidão que nenhum prestígio no mundo foi capaz de sanar.

Em dado momento Isabelle deve ter detectado minha indisfarçada curiosidade, uma vez que senti a chama de seus olhos sobre os meus enquanto agarrava com fúria o volume, pegava a bolsa e se dirigia ao caixa, permitindo que ficasse sobre a mesa a comida quase intacta.

Cínica, não me intimidei e assisti àquele furacão abandonar o restaurante. Em sua zanga o marcador caíra diante da porta. Vislumbrei o retalho de papel e me dirigi até lá. Agachando-me, percebi que mais uma palavra estava ao lado do primeiro nome, antes oculta pelo livro.

Um sobrenome.

Se real ou por ela inventado na agonia de criar identidade, impossível descobrir.

Um sobrenome que, até hoje, depois de tantos anos daquele encontro, em mim ressoa.

Isabelle Pessoa.



14 Junho 2018 09:17:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) /


Tenho conhecidos a quem chamo "amigos de caminhada". Com isso não pretendo ser filosófica ou poética; são pessoas que, por acaso, costumam caminhar nos mesmos horários e pelas mesmas rotas que eu.  

Ontem, percorrendo a rua que com mais alguns quilômetros me conduziria ao fim da cidade, topei com ela.

Vigorosa, evitava olhar para os lados, fixando um ponto invisível para mim, e muito provavelmente para ela também. Séria, tesa, determinada.

Apertei o passo. Vou alcançar. Alcancei. Temos pernas igualmente longas. Determinações igualmente férreas. Me olhou de soslaio: eu que, atrevida, caminhava a centímetros dela, ao lado.

Mesma idade. Mesma estatura. Mesmos olhos.

- Vai para onde? - perguntei, ousada.

- Para onde possa me encontrar - devolveu sem hesitação, me surpreendendo.

- Sabe onde fica esse lugar? - perquiri, tentando sustentar o diálogo insano.

- Não sei. Talvez ele não exista. Mas tento me convencer todos os dias de que existe. Acho que fica no fim do mundo.

Estranho. A voz dela também era muito parecida com a minha. Aparentando ponderação, carregava um quase imperceptível toque de amargura.

Revelei, ofegante - pois ambas mantínhamos um ritmo acelerado, como se não estivéssemos conversando - que, assim como ela, buscava um lugar, só não sabia qual. Contei que meus pés doíam há meses, anos; quem sabe sempre doeram os meus pobres pés, de tanto andar, andar e andar sem direção, torcendo para que a trilha de luz, em algum momento, depois de tanto se esconder, aparecesse à minha frente.

Me falou que os seus estavam machucados, cheios de calos dentro dos tênis gastos. Que andava em círculos, porque não se arriscaria a percorrer ruas desertas. Que sentia medo, terror, de ter que parar e voltar cedo para casa onde - ela sabia - não encontraria a saída. Só retornava quando a exaustão a advertia com ferocidade, porque então iria dormir e não mais pensaria naquilo até o dia seguinte, quando voltaria a caminhar. Disse entender as pessoas que ficam perambulando, falando sozinhas, gritando, fitando o céu, o chão, o nada, tudo na angústia de encontrar. De se encontrarem. Confessou que não estava longe disso. Contou que a cada dia suas caminhadas (a princípio uma desculpa tola para cuidar da saúde) estavam ficando mais extensas, pois enquanto andava conseguia nutrir a ilusão de que encontraria. De que se encontraria. A ilusão - incentivada pela endorfina - de que seus pés em movimento seriam clamores ao éter, pedidos fervorosos de pertencer a algo.

- E se um dia você chegasse ao fim do mundo?

Encolheu os ombros, confusa.

- Se um dia chegasse e descobrisse que a saída não está lá?

Ela pensou por um momento, decerto avaliando pela primeira vez a mirabolante questão. Quando falou seus olhos continuaram perdidos no horizonte - que ela queria acreditar promissor - e a voz definhara, ensopada de apatia.

- Se eu chegasse, e não encontrasse a saída, ao menos teria o que fazer com o que restasse da minha vida: voltar ao início.

Apressou-se a se distanciar de mim, galgou metros rapidamente. Em menos de um minuto não mais a vi. Foi se encontrar. Eu? Eu nunca teria pernas tão longas.



07 Junho 2018 09:42:00

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(Foto: Divulgação) /


Natural e curativo lembrarmos do que nos fez feliz. Angustiante e poderoso recordarmos das feridas, principalmente quando ainda sangravam. Devemos nos demorar nas reminiscências dos sucessos? Precisamos lamentar a cicatriz?  

Faço muito dos dois, errada ou não. Admito, contudo, que me estendo mais nos horrores da alma, nos pavores do espírito e nos traumas da mente; talvez na intenção de evitá-los no futuro. Meu rosto tem uma trilha invisível das lágrimas que jamais secaram, dos terrores que retornaram, das perspectivas que estiolaram.

Querendo viver, nos equivocamos. Querendo vencer, nos agoniamos. Querendo saber, nos alienamos. Mas, sobretudo, muito além da vontade ou iniciativa, aprendemos. Aprender é remédio aplicado indistintamente. Injeção dolorida e obrigatória. A morte não é a única certeza da vida, ao lado dessa verdade, temos a de que aprenderemos.

Aprendemos que expectativas, quando não se cumprem, estrangulam algo dentro de nós. Por outro lado, ceticismos são incapazes de impulsionar.

Aprendemos que "Pra sempre" é o desfecho ideal para contos de fada e também o engano mais dilacerante para crédulos corações.

Aprendemos que uma dor imensa sempre pode ser superada por outra que julgamos insuportável, até que conhecemos outras monstruosas, e outras tantas corrosivas, e sobrevivemos a todas.

Aprendemos que idade é um número insignificante, que o distintivo da maturidade está nas atitudes.

Aprendemos que o caminho que nos parecia perfeito ontem pode não se descortinar assim amanhã. E que isso não é, necessariamente, volubilidade nossa, mas pode ser indício de crescimento.

Aprendemos que pessoas vão passar brevemente por nossas vidas com intensidade superior àquelas com quem convivemos por anos.

Aprendemos que mudar, mudar constantemente, nem sempre quer dizer que não somos firmes aos nossos propósitos. Pode até mesmo ser humildade, humildade de reconhecer que o que nos deixa tristes é fardo muito denso para carregar até o fim da vida.

Aprendemos que os "diferentes" e as "minorias", muitas vezes, são pessoas infinitamente melhores do que nós, porque modeladas pelo sofrimento de se sentirem sozinhas, porque ensinadas pela mão de fogo do isolamento.

Aprendemos que estar inseridos em nosso universo, naquilo que traz brilho ao semblante e entusiasmo à voz é privilégio que deposita alguma esperança em nossos fatigados espíritos.

Aprendemos que nada que achate nossa personalidade e nos faça sentir máquinas de sofrer é construtivo. Que nada que prometa exclusivamente bens materiais é confiável.

Aprendemos que entre bondade e burrice existe a distância de um milhão de quilômetros e que entre ser humilde e se humilhar a lonjura é ainda maior.

Aprendemos que há, sim, diferença entre sinceridade e dizer tudo o que pensa. E que nem tudo precisa ser partilhado. Temos nossos tesouros inacessíveis aos outros e nem por isso somos desonestos.

Aprendemos, finalmente, que não morremos somente quando param nossos órgãos. Morremos também (muito mais tragicamente) quando a nossa vida deixa de fazer sentido.



31 Maio 2018 08:49:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Brigas por motivos razoáveis, outras tantas injustificáveis. Brigas com desconhecidos, por causas, por falta de causas, por justiça. Brigas, quando muito irritados, até com objetos. Brigas entre pais e filhos, entre companheiros. Brigas. A mais difícil delas: briga com a própria alma.

Brigamos com nossa alma quando ela nos indica, através de sutis inclinações e desejos irracionais a decisão que a ela seria ideal. Nós negamos. Queremos mudar a sagrada imaterialidade, a potência imutável: nossa alma.

Brigamos com ela. Esmurramos adagas. Tentamos abrir portas de aço com chutes histéricos. Brigamos. Brigamos. Brigamos. Brigamos para distorcer a alma. Para moldá-la ao que a racionalidade quer. Aprendemos desde cedo que com questões de alma não se brinca, mas só muito tarde admitimos que é igualmente inútil brigar.

Quando se briga consigo não precisamos ser excepcionalmente inteligentes para saber o resultado desse jogo. A alma berra por um caminho. A mente se esganiça por outro. A alma resplandece por uma perspectiva. A mente fica sombria. A alma mostra, aponta, pede, clama, implora. A mente esconde o desejo, quebra o dedo apontado da alma, fecha os ouvidos a clamores e humilhações.

A alma quer a vida. A mente quer o mundo. A alma quer realização. A mente quer posição. A alma quer sorrir. A mente quer impressionar. A alma quer plenitude. A mente quer poder.

Não que qualquer das duas esteja com a absoluta razão. Cada uma tem razões inerentes e verossímeis. Mas quando elas se chocam, começamos a brigar. E elas sempre se chocam.

No tempo dos conflitos: entre governo e população, entre gerações, entre mentira e verdade, entre moral e hipocrisia, entre o que está na moda e o que se almeja de fato; ouso cogitar que o maior de todos é um choque bem mais delicado e muito menos visível: o choque entre o que queremos e o que querem de nós. O choque entre racionalidade influenciada e sentimento independente. O choque entre imaterialidade sussurrada e matéria gritante.

O conflito de uma era.

A briga do século.


24 Maio 2018 14:26:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Quem se arrisca a uma idade quando todas elas já se perderam na noite? Quem pode avaliar um coração quando cada um, a seu modo, se esconde em si mesmo? Quem julga saber quando todos os saberes encerram-se em ruínas pressentidas?

Aquela incerta idade daquele incerto ser para mim era isso: refém da noite. O coração oculto nos olhos também ocultos porque momentaneamente fechados para a vida era cave suprema, esconderijo de si mesmo. Por isso, nada julgava saber daquele homem atirado à praça, com saliva escorrendo pelo queixo e a barba de dias. Nada dele arriscava para não deslizar pelo fosso traiçoeiro das ruínas pressentidas.

Falando em fosso traiçoeiro, aliás, queria que nem eu, nem ele, nem você, nem qualquer de nós caísse nele. Nunca se sabe quando ou se poderemos nós, em algum tempo, sair do fundo.

Porque o sol ficou mais ardido ou porque me aproximei, não se pode entender ao certo, o homem abriu um olho, para logo em seguida fechá-lo, sem interesse pelo dia, pelo cachorro que farejava seu vômito ou pela intrusa que queria tudo dele saber sem nada sobre ele arriscar. O olho me pareceu transparente, sem vestígio de nada senão o nada. A córnea vazia de tudo, senão do vazio.

Bonito o desconhecido. Beleza de traços angulosos e corpo graúdo. Talvez boxeador do mundo, ou quem sabe boxeado pela vida. Vômito recente e rico dormitar em uma quarta à tarde. Bebendo desde ontem à noite? Olha aí, eu, cogitando, logo eu que sempre o faço e sempre juro, por minha alma, não mais tornar a fazê-lo. Será que é por isso que andas tão zangada, alma minha?

Espantei uma mosca que se arrastava por sua boca, ralhei com o cachorro que agora lambia-lhe as pálpebras. Ele nem aí. Dormindo o sono dos despreocupados. Cochilava ao sol com tanta placidez em razão da consciência leve? Ou talvez, tão leve ela fosse, que tivesse evaporado? Naquele momento suspeitei que não apenas as consciências limpas trazem sossego, mas não ter consciência, igualmente, nos faz dormentes criaturas.

Roncou. Assustado com o próprio ronco, deu dois tapas na orelha. Acordou-se com a dor. Sentou-se sobre o vômito. De puro álcool. Acenderam-se seus olhos, finalmente. Azuis, quem diria. Bem azuis.

Tão bonito quanto devastado.

Me olhou. Não porque meus olhos fossem tão belos quanto os dele - não são. Mas por um motivo óbvio, que entendi quando me fez a pergunta:

- Tem pinga?

Sorriu. Dentes grandes e brilhantes.

Tão bonito quanto devastado.

Apenas chacoalhei a cabeça. Levantou-se, cambiante.

- Quem tem será? - quis saber, desorientado.

Intentando despistar as ruínas pressentidas, me afastei, resmungando que de nada sabia.



17 Maio 2018 11:44:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Tenho o olhar treinado para flagrar o desencanto nas criaturas. E os dias de chuva, as nebulosidades frias e os desesperos quentes aguçam esse olhar. Esse olhar que não treinei por gosto. Esse olhar que o tempo treinou por mim. Esse olhar que a melancolia repetida cultiva.  

Meus passos, sôfregos; minha mente, incendiada; meus olhos, celebrados alunos do tempo, premiados pupilos da melancolia. Queria voltar para casa, a tempestade caçoando do guarda-chuva, gotas glaciais em minhas costas, meu rosto, minhas mãos; enregelando a pele, ensopando os cabelos.

Então a vi. Silhueta jovem, mas o rosto. Ah, o rosto. O rosto era velho, fatigado. Demorava-se numa vida que não a amava. Tinha a cabeça encostada na janela da sacada do segundo andar de um condomínio. Presumi que em dias de sol bem poderia estar sem o vidro a separá-la do lado de lá. Em períodos de chuva, o isolamento, pingos escorrendo, negror antecipado, nem cinco da tarde e vejam que escuridão. Dentro dela...mais?

Muitos graus de miopia e a chuva em profusão me impediram de ver se chorava. Muita empatia e a emanação da aura escurecida me fizeram deduzir que sim, se não pelos olhos, pelo coração. Chorava pelo coração, gritava pela alma e esperneava quieta. Funções corporais deslocadas. Definições saturadas.

Não olhava para mim. Mirava o chão, talvez lastimando as poças, mas mais provavelmente em uma premonição. É de minha verve romântica afirmar que nada no mundo conseguiria deixá-la mais bela do que naquele momento: protegida da chuva por um vidro gelado, sujo das lágrimas do céu, cabeça indecisa entre seu casulo e o lado de lá da janela, por isso nela apoiada, por isso por ela escorada, pedindo ao chão para que eternamente se enlaçassem. Rogando casamento ao noivo de tantas noites.

Não, é lógico que não consegui enxergar o mais importante: os olhos dela. Não vi e o lamento dessa ignorância me fez imaginar. Eram pretos. Vermelhos. Marrons. Eram tristes, resignados, irradiações de melodias de sua alma. Sons. Eram pedintes. Mendigos do chão.

Secos ou úmidos, choravam.

Aqueles olhos, antes de mais nada, muito acima de qualquer desconhecimento acerca deles, eram noivos. Noivos do pó, do solo árido tão recentemente consolado. Noivos da escuridão que se aproximava. Noivos da noite.



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