Curitibanos,
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12 Julho 2018 14:05:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Não posso me deter. É olhar para um caleidoscópio e me pergunto se cada minúsculo pedaço colorido fosse uma dor transformada.  

O vermelho um coração esmagado, agora reabilitado.

O azul um olho cego de injustiça, agora esperançado.

O preto um líquido visguento de amargura, agora adoçado.

O amarelo um Brasil mais rico em honestidade, alado.

Girando e girando, iludindo olhares, confundindo retinas, pulsando e ardendo, sofrendo e gemendo, sorrindo e fazendo. Caleidoscópio.

Queria eu que minha vida toda, nossas vidas todas e todas as nossas misérias fossem esse caleidoscópio mágico no qual por vezes me encerro, quando a angústia é demasiada e os fantasmas se contorcem.

Queria eu que o vermelho do sangue martirizado um dia fosse tão brando que cessasse de vazar mágoas e derramasse somente alegrias.

Queria eu que o azul turbulento de um céu eternamente chuvoso se abrisse um tantinho, um pouquinho que fosse, no turquesa dos meus sonhos. Queria, aliás, que o amarelo da lembrança doída se convertesse em felicidade luminosa para me recordar de um tempo em que eu ainda tinha sonhos.

Queria que o preto, ah, o preto! Tão poderoso preto, tão soturno preto, voltasse a simbolizar somente o medo do escuro que eu sentia quando criança e fosse largando pela estrada - estrada marrom das lágrimas apodrecidas -, todo esse embargo que escraviza a garganta, todo esse sangue pisado no meio do peito, todo esse horror da mente que grita.

Queria pedir - contemplando o caleidoscópio e fingindo que pode me conceder desejos - que o branco e o preto se unissem, se juntassem também ao amarelo e ao vermelho, e mesmo ao marrom e ao azul e a todas as raças e credos e cores e traumas e dores, e a todas as alegrias e berros de aflição, e às loucuras várias e ao desamparo amanhecido, e aos corações em chamas; tudo se unisse em um caleidoscópio colorido pelas pinceladas furiosas do ódio, do amor, da tristeza e do terror.

Se unissem, nesse imaginário caleidoscópio construído pela mente atormentada de uma cronista, todos os choros contidos, os clamores trancados, as ofensas agudas, as mágoas incuráveis e o medo. Principalmente o medo se unisse a tudo. O medo de enlouquecer a tudo se unisse e convertesse esse irredutível aperto no peito em milhares de pedacinhos coloridos.

Pedacinhos coloridos de dor transformada.


05 Julho 2018 08:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) 

Ferimentos abertos nos mantêm cautelosos. Ferimentos abertos gemem. Ferimentos abertos sangram, ardem e impedem que outros sejam colocados no mesmo lugar. Enquanto a ferida estiver presente o motivo que a gerou também estará. Quanto mais tempo uma chaga persevera, mais tempo para consolidarmos o propósito de não reincidir em sua causa.  

Nossas fraquezas provocam ferimentos, a dor aumenta o efeito deles; o arrependimento, quanto mais amargo, mais eficaz; o remorso, quanto mais demorado, mais apto a nos transformar em sentinelas permanentes de nossos frágeis calcanhares.

Nem sempre é sábio destoar de axiomas, porém discordo daquele que diz que nos arrependemos mais do que não fizemos do que daquilo que fizemos. Para mim é a muleta dos insensatos; consolo único dos inconsequentes. Novas feridas são gestadas, diariamente, no útero bravio da atitude impensada, fecundado por um troglodita chamado impulso.

Feridas, muitas feridas, daquelas fundas, que machucam carne, expõem nervos e fazem verter o líquido vermelho da irracionalidade dificilmente se rasgam por abstenções. Feridas fundas se rasgam, sim, por ações tomadas no calor dos conceitos generalizados. Esses mesmos conceitos são incapazes da plena cicatrização. A plena cicatrização se efetua através de abstenções.

Abstenções, todavia, não deixam de ser atitudes calmas, estudadas, com minúcia calculadas: a água oxigenada para desinfetar, a pomada para cicatrizar e por fim ele, sempre ele, o curativo para evitar. O curativo em um ferimento é o símbolo máximo da abstenção: permita que o machucado respire, mas não admita que nada mais a ele se junte. Preserve-o.

Preserve-o ou vai demorar a fechar. Preserve-o ou pode infeccionar. Preserve-o ou nenhum cuidado vai bastar.

O curativo de nosso coração é a frieza, uma camada extra de gelo corta irresponsáveis excessos de calor. Julgados por sermos frios, muitas vezes nos sentimos culpados, mas ninguém nem imagina quantos metros de esparadrapo já aplicamos em nossos sangrentos corações. Olhando para nossos sorrisos forjados na necessidade de sobrevivência, ninguém desconfia o quão retalhado está nosso coração, o quanto ainda dói sempre que pulsa mais forte e esmigalha o filete protetor.

Para não ser acusada de contrariar em demasia o senso comum, me salvo a tempo do fogo eterno e levanto as mãos me redimindo, avisando que concordo com aquele ditado de que, quando existe um ferimento aberto, temos que redobrar os cuidados naquele local porque tudo converge para que seja ele o danificado por infortúnios.

No entanto, sendo inócuo colocarmos uma armadura diante do peito, ao menos não nos sintamos culpados por defender aquela camada gelada e salutar dentro de nós. Tudo isso para que, acautelados, não morramos esvaídos antes do tempo.



28 Junho 2018 09:41:00

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(Foto: Divulgação)/

Quem nunca parou para observar um louco descontrolado? Sim, porque loucos controlados somos nós: temos loucuras várias, iguais as dos loucos descontrolados; mas nós, que pensamos ter as rédeas de nossas emoções, somente por isso não somos chamados de malucos. 

Um anda cabisbaixo, vestindo roupas dos anos cinquenta, chapéu e debatendo animadamente consigo; quando passam por ele escancara os olhos e mexe no nariz. Outro, enquanto caminha, se balança todo e faz vibrar os músculos do rosto. Tem outro ainda que sempre está com frio, casacão até os joelhos, mesmo com o sol derretendo. Ri de tudo, ri escandalosamente, quando decide berra, assusta os transeuntes.

Tem a louca dos dentes pretos e dos vestidos coloridos. Essa, quando não se encontra ocupada demais cantando os homens e estalando a língua, promete ler a mão e modificar a sorte de qualquer um desde que receba R$ 20,00. Se for homem, 10. Se bonito, 5. Se for rico ela pede apenas para dar uma voltinha de carro.

Existe também o louco do "Oi". O louco do oi é aquele que instituiu como missão desestabilizar quem anda no mundo da lua. Eu, por exemplo, em diversas ocasiões já fui surpreendida por esse louco. Não tem nenhuma aparência de lunático, como o do chapéu ou o que se balança; pelo contrário, é um rapaz aprumado, mas quando esbarra em alguém que está distraído grita "oooi". Você dá um pulo, claro. Então sim, ele ri. Ri à beça. Parece que rir é a medalha dos loucos.

Como eu ia dizendo no começo e recordar esses loucos me fez enlouquecer o rumo do texto, a diferença entre nós (os "normais") e os loucos é que nós controlamos as nossas loucuras. Eles nem tentam. Freud diria que a maioria dos complexos emana de desejos reprimidos. Quando o superego começa a dominar monocraticamente nos tornamos perfeccionistas, paranoicos, reguladores; enfim, nos tornamos normais. Nos transformamos no protótipo requerido pela sociedade.

Se os loucos descontrolados perderam de vez o superego, se não dão ouvidos a ele ou, mais ainda, se conversam com Freud em sonhos (Freud adorava os sonhos para explicar as maluquices humanas), então é por isso que riem tanto. E deve ser por idêntico motivo que nós, os loucos controlados, transpirando superego, estamos cada vez mais carrancudos e infelizes. Nós, os loucos controlados, somos aqueles que medem bem as palavras, aquilatam emoções, estudam com minúcia cada ação, mas nossa mente é incapaz de dizer basta aos ansiolíticos e antidepressivos.

Cada espécie de louco tem a aprender com a outra espécie. Talvez, apenas talvez, fosse bom que os loucos descontrolados recobrassem um pouquinho do superego. Mas certamente nós, os loucos controlados, nos livraríamos de um tanto da nossa amarga loucura se a misturássemos com a doce loucura deles.

Tudo isso para que, um dia nós, todos nós, os loucos, sejamos felizes.



21 Junho 2018 14:21:00


(Foto: Divulgação) 

Introspectiva, nem um aceno me deu durante o tempo em que estive perto dela. Discreta, não analisava as outras pessoas. Meditativa, mordia um pedaço de qualquer coisa quando, em verdade, procurava digerir as próprias dores.  

Estabelecimento comum, pouca gente, pouco barulho. Me sentei à mesa ao lado da dela, quase encostada. Não pareceu me enxergar, perdida em algum beco de suas ausências. Figura apagada, mãos que tremulavam ao segurar a xícara. Tomou um gole do conteúdo e seus lábios se retesaram; se o gosto amargo era do café ou da vida, não sei dizer.

Um livro sobre a mesa. Marcador customizado onde seu primeiro nome aparecia em letras azuis. Isabelle.

Antes que alguém tente adivinhar se a conhece, aviso logo que a história não se passou em Curitibanos, tampouco recentemente. Isabelle (presumindo que aquele marcador de páginas fosse dela) procurava esconder os olhos com uma mecha dos cabelos ruivos. Só que desencanto e amargor não precisam dos olhos para se mostrar. Desencanto e amargor exalam, irradiam e envolvem. Desencanto e amargor são odores da alma que necessitam apenas de olfatos sensibilizados pelos mesmos motivos para serem captados.

Nos quatro ou cinco minutos que se seguiram o entorpecimento inicial de Isabelle se tornou inquietação, como tão bem poderão entender os ansiosos. Impaciente, não esperou que o garçom depositasse na mesa a segunda xícara de café, foi logo se antecipando, agarrando a porcelana da bandeja e derramando gotas negras sobre a toalha alva. Deixou que um naco de torta caísse no chão, na ânsia de colocar uma porção grande demais na boca. Então suspirou, largou garfo, xícara e desistiu.

Aquele algo ou alguém que perturbava Isabelle a convertia em uma montanha-russa de emoções. Da paralisação ao caos. Da solidão ao delírio atordoante de pertencimento. Da ansiedade à desistência completa. Isabelle e suas perdas. Isabelle e seus segredos.

Talvez o livro de poemas de Fernando Pessoa fosse via labiríntica de encontro. Talvez se reconhecesse naquelas páginas. Talvez os sentimentos tumultuados do poeta a confortassem ao notar que mais alguém, embora brilhante e aclamado, também teve dentro de si uma terrível solidão que nenhum prestígio no mundo foi capaz de sanar.

Em dado momento Isabelle deve ter detectado minha indisfarçada curiosidade, uma vez que senti a chama de seus olhos sobre os meus enquanto agarrava com fúria o volume, pegava a bolsa e se dirigia ao caixa, permitindo que ficasse sobre a mesa a comida quase intacta.

Cínica, não me intimidei e assisti àquele furacão abandonar o restaurante. Em sua zanga o marcador caíra diante da porta. Vislumbrei o retalho de papel e me dirigi até lá. Agachando-me, percebi que mais uma palavra estava ao lado do primeiro nome, antes oculta pelo livro.

Um sobrenome.

Se real ou por ela inventado na agonia de criar identidade, impossível descobrir.

Um sobrenome que, até hoje, depois de tantos anos daquele encontro, em mim ressoa.

Isabelle Pessoa.



14 Junho 2018 09:17:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) /


Tenho conhecidos a quem chamo "amigos de caminhada". Com isso não pretendo ser filosófica ou poética; são pessoas que, por acaso, costumam caminhar nos mesmos horários e pelas mesmas rotas que eu.  

Ontem, percorrendo a rua que com mais alguns quilômetros me conduziria ao fim da cidade, topei com ela.

Vigorosa, evitava olhar para os lados, fixando um ponto invisível para mim, e muito provavelmente para ela também. Séria, tesa, determinada.

Apertei o passo. Vou alcançar. Alcancei. Temos pernas igualmente longas. Determinações igualmente férreas. Me olhou de soslaio: eu que, atrevida, caminhava a centímetros dela, ao lado.

Mesma idade. Mesma estatura. Mesmos olhos.

- Vai para onde? - perguntei, ousada.

- Para onde possa me encontrar - devolveu sem hesitação, me surpreendendo.

- Sabe onde fica esse lugar? - perquiri, tentando sustentar o diálogo insano.

- Não sei. Talvez ele não exista. Mas tento me convencer todos os dias de que existe. Acho que fica no fim do mundo.

Estranho. A voz dela também era muito parecida com a minha. Aparentando ponderação, carregava um quase imperceptível toque de amargura.

Revelei, ofegante - pois ambas mantínhamos um ritmo acelerado, como se não estivéssemos conversando - que, assim como ela, buscava um lugar, só não sabia qual. Contei que meus pés doíam há meses, anos; quem sabe sempre doeram os meus pobres pés, de tanto andar, andar e andar sem direção, torcendo para que a trilha de luz, em algum momento, depois de tanto se esconder, aparecesse à minha frente.

Me falou que os seus estavam machucados, cheios de calos dentro dos tênis gastos. Que andava em círculos, porque não se arriscaria a percorrer ruas desertas. Que sentia medo, terror, de ter que parar e voltar cedo para casa onde - ela sabia - não encontraria a saída. Só retornava quando a exaustão a advertia com ferocidade, porque então iria dormir e não mais pensaria naquilo até o dia seguinte, quando voltaria a caminhar. Disse entender as pessoas que ficam perambulando, falando sozinhas, gritando, fitando o céu, o chão, o nada, tudo na angústia de encontrar. De se encontrarem. Confessou que não estava longe disso. Contou que a cada dia suas caminhadas (a princípio uma desculpa tola para cuidar da saúde) estavam ficando mais extensas, pois enquanto andava conseguia nutrir a ilusão de que encontraria. De que se encontraria. A ilusão - incentivada pela endorfina - de que seus pés em movimento seriam clamores ao éter, pedidos fervorosos de pertencer a algo.

- E se um dia você chegasse ao fim do mundo?

Encolheu os ombros, confusa.

- Se um dia chegasse e descobrisse que a saída não está lá?

Ela pensou por um momento, decerto avaliando pela primeira vez a mirabolante questão. Quando falou seus olhos continuaram perdidos no horizonte - que ela queria acreditar promissor - e a voz definhara, ensopada de apatia.

- Se eu chegasse, e não encontrasse a saída, ao menos teria o que fazer com o que restasse da minha vida: voltar ao início.

Apressou-se a se distanciar de mim, galgou metros rapidamente. Em menos de um minuto não mais a vi. Foi se encontrar. Eu? Eu nunca teria pernas tão longas.



07 Junho 2018 09:42:00

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(Foto: Divulgação) /


Natural e curativo lembrarmos do que nos fez feliz. Angustiante e poderoso recordarmos das feridas, principalmente quando ainda sangravam. Devemos nos demorar nas reminiscências dos sucessos? Precisamos lamentar a cicatriz?  

Faço muito dos dois, errada ou não. Admito, contudo, que me estendo mais nos horrores da alma, nos pavores do espírito e nos traumas da mente; talvez na intenção de evitá-los no futuro. Meu rosto tem uma trilha invisível das lágrimas que jamais secaram, dos terrores que retornaram, das perspectivas que estiolaram.

Querendo viver, nos equivocamos. Querendo vencer, nos agoniamos. Querendo saber, nos alienamos. Mas, sobretudo, muito além da vontade ou iniciativa, aprendemos. Aprender é remédio aplicado indistintamente. Injeção dolorida e obrigatória. A morte não é a única certeza da vida, ao lado dessa verdade, temos a de que aprenderemos.

Aprendemos que expectativas, quando não se cumprem, estrangulam algo dentro de nós. Por outro lado, ceticismos são incapazes de impulsionar.

Aprendemos que "Pra sempre" é o desfecho ideal para contos de fada e também o engano mais dilacerante para crédulos corações.

Aprendemos que uma dor imensa sempre pode ser superada por outra que julgamos insuportável, até que conhecemos outras monstruosas, e outras tantas corrosivas, e sobrevivemos a todas.

Aprendemos que idade é um número insignificante, que o distintivo da maturidade está nas atitudes.

Aprendemos que o caminho que nos parecia perfeito ontem pode não se descortinar assim amanhã. E que isso não é, necessariamente, volubilidade nossa, mas pode ser indício de crescimento.

Aprendemos que pessoas vão passar brevemente por nossas vidas com intensidade superior àquelas com quem convivemos por anos.

Aprendemos que mudar, mudar constantemente, nem sempre quer dizer que não somos firmes aos nossos propósitos. Pode até mesmo ser humildade, humildade de reconhecer que o que nos deixa tristes é fardo muito denso para carregar até o fim da vida.

Aprendemos que os "diferentes" e as "minorias", muitas vezes, são pessoas infinitamente melhores do que nós, porque modeladas pelo sofrimento de se sentirem sozinhas, porque ensinadas pela mão de fogo do isolamento.

Aprendemos que estar inseridos em nosso universo, naquilo que traz brilho ao semblante e entusiasmo à voz é privilégio que deposita alguma esperança em nossos fatigados espíritos.

Aprendemos que nada que achate nossa personalidade e nos faça sentir máquinas de sofrer é construtivo. Que nada que prometa exclusivamente bens materiais é confiável.

Aprendemos que entre bondade e burrice existe a distância de um milhão de quilômetros e que entre ser humilde e se humilhar a lonjura é ainda maior.

Aprendemos que há, sim, diferença entre sinceridade e dizer tudo o que pensa. E que nem tudo precisa ser partilhado. Temos nossos tesouros inacessíveis aos outros e nem por isso somos desonestos.

Aprendemos, finalmente, que não morremos somente quando param nossos órgãos. Morremos também (muito mais tragicamente) quando a nossa vida deixa de fazer sentido.



31 Maio 2018 08:49:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Brigas por motivos razoáveis, outras tantas injustificáveis. Brigas com desconhecidos, por causas, por falta de causas, por justiça. Brigas, quando muito irritados, até com objetos. Brigas entre pais e filhos, entre companheiros. Brigas. A mais difícil delas: briga com a própria alma.

Brigamos com nossa alma quando ela nos indica, através de sutis inclinações e desejos irracionais a decisão que a ela seria ideal. Nós negamos. Queremos mudar a sagrada imaterialidade, a potência imutável: nossa alma.

Brigamos com ela. Esmurramos adagas. Tentamos abrir portas de aço com chutes histéricos. Brigamos. Brigamos. Brigamos. Brigamos para distorcer a alma. Para moldá-la ao que a racionalidade quer. Aprendemos desde cedo que com questões de alma não se brinca, mas só muito tarde admitimos que é igualmente inútil brigar.

Quando se briga consigo não precisamos ser excepcionalmente inteligentes para saber o resultado desse jogo. A alma berra por um caminho. A mente se esganiça por outro. A alma resplandece por uma perspectiva. A mente fica sombria. A alma mostra, aponta, pede, clama, implora. A mente esconde o desejo, quebra o dedo apontado da alma, fecha os ouvidos a clamores e humilhações.

A alma quer a vida. A mente quer o mundo. A alma quer realização. A mente quer posição. A alma quer sorrir. A mente quer impressionar. A alma quer plenitude. A mente quer poder.

Não que qualquer das duas esteja com a absoluta razão. Cada uma tem razões inerentes e verossímeis. Mas quando elas se chocam, começamos a brigar. E elas sempre se chocam.

No tempo dos conflitos: entre governo e população, entre gerações, entre mentira e verdade, entre moral e hipocrisia, entre o que está na moda e o que se almeja de fato; ouso cogitar que o maior de todos é um choque bem mais delicado e muito menos visível: o choque entre o que queremos e o que querem de nós. O choque entre racionalidade influenciada e sentimento independente. O choque entre imaterialidade sussurrada e matéria gritante.

O conflito de uma era.

A briga do século.


24 Maio 2018 14:26:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Quem se arrisca a uma idade quando todas elas já se perderam na noite? Quem pode avaliar um coração quando cada um, a seu modo, se esconde em si mesmo? Quem julga saber quando todos os saberes encerram-se em ruínas pressentidas?

Aquela incerta idade daquele incerto ser para mim era isso: refém da noite. O coração oculto nos olhos também ocultos porque momentaneamente fechados para a vida era cave suprema, esconderijo de si mesmo. Por isso, nada julgava saber daquele homem atirado à praça, com saliva escorrendo pelo queixo e a barba de dias. Nada dele arriscava para não deslizar pelo fosso traiçoeiro das ruínas pressentidas.

Falando em fosso traiçoeiro, aliás, queria que nem eu, nem ele, nem você, nem qualquer de nós caísse nele. Nunca se sabe quando ou se poderemos nós, em algum tempo, sair do fundo.

Porque o sol ficou mais ardido ou porque me aproximei, não se pode entender ao certo, o homem abriu um olho, para logo em seguida fechá-lo, sem interesse pelo dia, pelo cachorro que farejava seu vômito ou pela intrusa que queria tudo dele saber sem nada sobre ele arriscar. O olho me pareceu transparente, sem vestígio de nada senão o nada. A córnea vazia de tudo, senão do vazio.

Bonito o desconhecido. Beleza de traços angulosos e corpo graúdo. Talvez boxeador do mundo, ou quem sabe boxeado pela vida. Vômito recente e rico dormitar em uma quarta à tarde. Bebendo desde ontem à noite? Olha aí, eu, cogitando, logo eu que sempre o faço e sempre juro, por minha alma, não mais tornar a fazê-lo. Será que é por isso que andas tão zangada, alma minha?

Espantei uma mosca que se arrastava por sua boca, ralhei com o cachorro que agora lambia-lhe as pálpebras. Ele nem aí. Dormindo o sono dos despreocupados. Cochilava ao sol com tanta placidez em razão da consciência leve? Ou talvez, tão leve ela fosse, que tivesse evaporado? Naquele momento suspeitei que não apenas as consciências limpas trazem sossego, mas não ter consciência, igualmente, nos faz dormentes criaturas.

Roncou. Assustado com o próprio ronco, deu dois tapas na orelha. Acordou-se com a dor. Sentou-se sobre o vômito. De puro álcool. Acenderam-se seus olhos, finalmente. Azuis, quem diria. Bem azuis.

Tão bonito quanto devastado.

Me olhou. Não porque meus olhos fossem tão belos quanto os dele - não são. Mas por um motivo óbvio, que entendi quando me fez a pergunta:

- Tem pinga?

Sorriu. Dentes grandes e brilhantes.

Tão bonito quanto devastado.

Apenas chacoalhei a cabeça. Levantou-se, cambiante.

- Quem tem será? - quis saber, desorientado.

Intentando despistar as ruínas pressentidas, me afastei, resmungando que de nada sabia.



17 Maio 2018 11:44:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Tenho o olhar treinado para flagrar o desencanto nas criaturas. E os dias de chuva, as nebulosidades frias e os desesperos quentes aguçam esse olhar. Esse olhar que não treinei por gosto. Esse olhar que o tempo treinou por mim. Esse olhar que a melancolia repetida cultiva.  

Meus passos, sôfregos; minha mente, incendiada; meus olhos, celebrados alunos do tempo, premiados pupilos da melancolia. Queria voltar para casa, a tempestade caçoando do guarda-chuva, gotas glaciais em minhas costas, meu rosto, minhas mãos; enregelando a pele, ensopando os cabelos.

Então a vi. Silhueta jovem, mas o rosto. Ah, o rosto. O rosto era velho, fatigado. Demorava-se numa vida que não a amava. Tinha a cabeça encostada na janela da sacada do segundo andar de um condomínio. Presumi que em dias de sol bem poderia estar sem o vidro a separá-la do lado de lá. Em períodos de chuva, o isolamento, pingos escorrendo, negror antecipado, nem cinco da tarde e vejam que escuridão. Dentro dela...mais?

Muitos graus de miopia e a chuva em profusão me impediram de ver se chorava. Muita empatia e a emanação da aura escurecida me fizeram deduzir que sim, se não pelos olhos, pelo coração. Chorava pelo coração, gritava pela alma e esperneava quieta. Funções corporais deslocadas. Definições saturadas.

Não olhava para mim. Mirava o chão, talvez lastimando as poças, mas mais provavelmente em uma premonição. É de minha verve romântica afirmar que nada no mundo conseguiria deixá-la mais bela do que naquele momento: protegida da chuva por um vidro gelado, sujo das lágrimas do céu, cabeça indecisa entre seu casulo e o lado de lá da janela, por isso nela apoiada, por isso por ela escorada, pedindo ao chão para que eternamente se enlaçassem. Rogando casamento ao noivo de tantas noites.

Não, é lógico que não consegui enxergar o mais importante: os olhos dela. Não vi e o lamento dessa ignorância me fez imaginar. Eram pretos. Vermelhos. Marrons. Eram tristes, resignados, irradiações de melodias de sua alma. Sons. Eram pedintes. Mendigos do chão.

Secos ou úmidos, choravam.

Aqueles olhos, antes de mais nada, muito acima de qualquer desconhecimento acerca deles, eram noivos. Noivos do pó, do solo árido tão recentemente consolado. Noivos da escuridão que se aproximava. Noivos da noite.



10 Maio 2018 09:02:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação/Canção Nova)

Modernidade para a correria, para o exterior, para tudo aquilo que é leviano. Para a estrutura? Quero um colo antigo, olhar compreensivo, das minhas inquietações amigo.  

Um coque antiquado moldava seus cabelos completamente brancos. Lábios finos davam forma a um sorriso sempre indulgente, cândido, de quem passou por muitas mágoas e soube conviver com elas. Nunca descobri a cor exata de seus olhos, se verde-escuros ou cinzentos, mas hoje acho que poderiam mesmo ser tão comuns quanto os meus, de um castanho puro e, na época eu, criança, atribuía mistério àquelas íris brilhantes.

Bastante delgada, com os ossos da face salientes e os joelhos estreitos, dizia ser magra de ruim, referindo-se ao dito a respeito da incógnita de quem come muito e não engorda. Só que de ruim ela não tinha nada, era a figura esbelta da compreensão. Era o anjo que acariciava minhas dores em vez de lastimá-las.

Desde pequena, ansiosos questionamentos acerca de insondáveis condutas (humanas?) já pulsavam dentro de mim. Ela, em sua calma peculiar, respondia a tudo comparando o homem e a natureza.

Lembro que em uma ocasião, enquanto ela bordava um pinheiro em uma toalha de banho, perguntei-lhe, ingenuamente, por que pessoas más conseguiam tanta coisa, por que gente malvada tinha sucesso.

Respondeu minha avó do coração, sem tirar os olhos do bordado, que tudo aquilo que começa errado pode dar certo por um tempo, mas só por um tempo. Que nada do que inicie de modo desonesto vai prosperar. Como aquela planta do desenho: se a raiz estivesse podre, todo o resto também estaria; embora não aparentasse, de início, mas fabulosa queda seria o destino inevitável de uma árvore deteriorada.

"Não se deixe enganar por tudo aquilo que vê", aconselhava. "Nem por batalhas frágeis onde o mal parece estar na dianteira".

Não sei se entendia na época. Hoje acho que compreendo, mas continuo não sabendo se concordo. Quero crer, lógico. Mas quase sempre o ceticismo é mais forte, e até o pessimismo me vence.

Noutro dia, a criança curiosa que eu era quis saber (enquanto ela plantava uma muda de alface no quintal) como se comportaria para descobrir a vocação, se já deveria ficar alerta a inclinações. Ela sorriu com delicadeza, como era de seu feitio. Hoje percebo que além de luminosa sabedoria, aquele breve movimento de lábios demonstrava complacência para com a minha inelutável alma angustiada. Eu tinha sete anos e queria determinar minha vida toda, meus passos todos, naquele momento.

Ela perguntou de que precisava a verdura para crescer. Se necessitava de ansiedade para se fazer grande, bonita e saudável. Pensei um pouco e repliquei, confusa, que não; que só carecia ser regada de quando em quando e de condições climáticas favoráveis; o resto aconteceria, naturalmente, no tempo certo.

Aquela senhora, a personagem que invoco para atenuar dúvidas abrasivas, concordou lentamente, com um aceno da cabeça idosa, enquanto se levantava e batia as mãos uma na outra, para expulsar um pouco da terra agarrada a elas. "O que significa: plante-se em solo fértil (caminho correto), e deixe as coisas seguirem o seu natural curso".

Naquela tarde, quando o sol dava um tímido adeus, de início de inverno, e um raio fraco deixou mais resplandecentes aqueles olhos enigmáticos, pressenti, um tanto triunfante, um tanto incomodada que, pela primeira vez, ela ficaria sem resposta a uma indagação minha. Eu, a criança que naqueles tempos nada sabia. Eu, a mulher que hoje nada sabe.

"E qual seria o caminho correto?", questionei.

Sem nem um vestígio de surpresa, passou as mãos de terra pelos meus cabelos, em uma tentativa lúdica de me impregnar de natureza e lançou, apontando o indicador para o meu peito:

"A trilha que você deve seguir começa com o sim do seu coração".

Ainda hoje meu coração me prega peças. Ainda hoje, em inumeráveis circunstâncias, ele não é contundente. Mas quando fico bem quieta e finalmente ouço o seu sim, lembro dela. E o sorriso reverbera em mim. Só então sei que rumo tomar.

O sim do coração.



03 Maio 2018 10:12:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Imagem: Divulgação)

Perguntada sobre a origem das inspirações literárias, Willa Cather respondeu: "Claro que Nebraska é um armazém de material literário. Todos os lugares são armazéns de material literário. Se um artista autêntico nascesse no chiqueiro e ali fosse criado, ainda seria capaz de encontrar muita inspiração para sua obra. Só é preciso ter olhos para ver".   

Como muitos neste momento estão fazendo, eu, quando li a declaração da escritora, por me divertir com a metáfora, comecei logo a me imaginar nascida e criada em um chiqueiro. Pode parecer cômico, a princípio, mas a verdade é que, na maioria das vezes, escritos surgem de sujeiras emocionais aglomeradas. Sujeiras revestidas de lirismo, mas em estado bruto apenas sujeiras: tristeza, desconsolo e solidão: o chiqueiro a que deve ter querido se referir Cather.

Possivelmente eu, nascida em um chiqueiro, faria jus à mencionada categoria de suína literata e escreveria no barro as minhas ideias. Ideias que, como agora, surgiriam da observação dos meus iguais, da vivência e também das ponderações advindas dos livros que, claro, o dono do chiqueiro faria a gentileza de providenciar para mim.

Mesmo nascendo em um chiqueiro podemos nos inspirar, como espirituosamente afirmou Cather. Imagino onde ficaria localizado o meu: nos fundos do terreno, bem longe de qualquer contumaz atividade humana. Percebo como de fato os porcos são criaturas solitárias e dispõem de tempo e espaço para pensar e criar. Talvez então Willa não tenha utilizado a metáfora à deriva, mas ao constatar que o homem preserva mais semelhanças com o porco do que admite.

Criados em chiqueiro, a proximidade do chão imundo, a alimentação de restos e até os sons fatalmente emitidos por nós nos tornariam mais conscientes de nossa genuína condição, da qual os humanos apenas tentam se fazer superiores mas, quando têm coragem de reconhecer seus destinos, notam um tanto escandalizados que todos baixaremos ao chão imundo, seremos os restos e - se tivermos sorte - minguados sons ressoarão por nós.

Nossos habitats, grandes ou pequenos, pouco ou muito povoados, ocupados por raças mais ou menos prestigiadas, são o que sempre foram e jamais deixarão de ser: chiqueiros. Fonte de inspiração para Cather, nivelador universal para mim. Quando a arrogância começar a enevoar nossas vistas, possamos lembrar de que seremos eternamente os representantes do nosso chiqueiro; pois, como finalizou a escritora, endossando o que alguém já disse há mais de dois mil anos "só é preciso ter olhos para ver".



26 Abril 2018 09:08:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Imagem: Divulgação)

Que sempre existam sacadas. Que um cronista jamais se divorcie da dele. Que seu circunspecto descaramento seja inteligente o bastante para examinar a todos sem ser notado.  

Da sacada vejo o garoto - mochila nas costas, tédio na cara, passo acelerado - rumo à universidade. Chamo de garoto, mas há poucos anos era eu indo para a faculdade, e me achava grande.

Da sacada contemplo a jovem mãe chegando com as crianças, o maior caminhando à frente, a menor correndo para alcançar. Dois enormes pacotes de salgadinho nas mãos da mãe. Sorrisos de antecipada satisfação nos olhos gulosos dos filhos. Felicidade garantida. Sódio e gordura umbilicalmente conectados à plenitude. Continue Deus abençoando a inocência.

Da sacada detecto a chegada do vizinho pilotando o carro novo. Assobia contente o afortunado. Pena (ou Providência) que nos acostumamos rápido às coisas e a alegria fugaz da mais recente aquisição em breve cederá espaço ao desconsolo resignado da impreterível rotina. Riquezas miseráveis exigindo seu quinhão.

Da sacada ouço um casal discutindo. De novo. É a terceira vez nessa semana. Em tempo algum a mãe do marido foi tão achincalhada ou a reputação da esposa tão questionada. Utensílio de vidro sendo quebrado. Limpa você, va ... lorosa companheira. Que um cronista possa servir de censor das palavras, quando preciso.

Da sacada é possível, ainda, ver o que não acontece, ouvir o que ninguém disse, sentir cheiro de história para contar, tocar o imponderável e atiçar o paladar com o sabor das mentiras legítimas.

Da sacada namoro o horizonte de rubi e nele projeto meus próprios moinhos de vento.

Da sacada me torno impermeável em face dos gemidos dos meus fantasmas.

Da sacada me resguardo dos aguilhoantes efeitos da solidão.

Da sacada cada brisa, cada gente, cada céu é um pretexto para lembrar que,

Da sacada,

Todo acontecimento é tema,

Todo balbuciar,

Fonema,

Todo brilho indistinto,

Poema.



19 Abril 2018 09:02:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

A mágoa é uma das consequências mais destruidoras de causas atrozes como a humilhação, a rejeição e, a pior de todas: a deliberada indiferença. A mágoa, antes de se tornar um sentimento, é um pensamento, uma ferida na mente, que depois mancha o coração. Porque, sim, a mágoa é uma ferida, uma mancha, uma dor, uma doença.  

Abençoados sejam os que nunca se sentiram magoados com ninguém. Superiores são vocês, espertos. Sagazes, pois se imunizam contra o erro e a ruindade alheia, não permitindo que lhes ofendam. Deixam que quem preparou a poção mortal a tome sozinho. Previnem-se do contágio.

Eu, fraca que sou, aproveito a ocasião para me tornar um pouco mais forte ao admitir uma grande fragilidade: me sinto magoada, sim. Como todos os magoados que se esforçam para melhorar, procuro perdoar. Se consigo? Nem sempre.

Na verdade, penso que aquele que causa sofrimento deva mesmo é se entender com a sua consciência, que é bem mais sábia do que eu; porém, temo que ainda mais intransigente.

Claro que eu acredito no poder do perdão, na supremacia dele e lógico que eu queria, sinceramente, seguir os passos de Cristo e pedir que Deus perdoe aqueles que não sabem o que fazem. O problema é que nem sempre acredito que os que magoam não sabem o que fazem. Então, meu pedido a Deus em relação a eles se torna menos nobre que o de Jesus; ainda assim, não é mau, apenas justo: "Pai, deixe que sua consciência o julgue. E que ela decrete se ele sabia ou não o que estava fazendo".

Não, não sou um primor de bondade. Inclusive, creio que justiça e bondade estejam frequentemente em dissonância. Entre ser boa e ser justa, prefiro a última opção.

Aqueles que nos magoam merecem a nossa isenção. Foram eles que criaram o problema. Eles que resolvam. Talvez esteja lavando as mãos - diferente de Pilatos que, quando o fez, sabia estar condenando um inocente; pois não podemos comparar a maldade de quem fere com a pureza de Jesus - mas certamente não darei os beijinhos falsos de Judas.

A consciência de muitos já está acusando neste momento, eu sei. Alguns até pararam a leitura para coçar a cabeça. Por que você foi fazer aquilo, hein? O que a pessoa te fez para ser tratada daquele jeito? Por que você não pode mais contar com ninguém? Magoou a todos os seus amigos de verdade e eles se afastaram? Ou será que você precisa mesmo ficar sozinho para bater um papo salutar com a megera... a tal da consciência? Ela vai te dar uns puxõezinhos de orelha, se o erro foi pequeno. Se foi mágoa brava, pode ser até que você peça para sumir, mas não esqueça: arrependimento não mata. Vai ter que viver e reparar.

Talvez nem seja apenas por autoconservação que nos distanciemos daqueles que nos magoam, mas para não estar perto para testemunhar o amargor do arrependimento deles.

Porque nós, os magoados bonzinhos, vendo-lhes o sofrimento, iríamos querer apaziguar de alguma forma. Só que ninguém se livra da própria consciência. Então seria inútil.

No final, concedo o perdão. Meu desejo mais profundo é sempre o de conceder o perdão. Infelizmente, não é certo que sentimentos feridos acompanhem palavras de harmonia. Entretanto, àqueles que me magoaram, garanto: não é pela minha espada que serão machucados. Prefiro que minhas mãos continuem limpas (ao contrário do buraco cheio de lixo que vocês têm no lugar do coração). Meu perdão vocês têm. Agora acertem-se com suas consciências.



12 Abril 2018 10:21:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/

Para mim, a quantidade de livros lidos deve sempre superar a de textos escritos. Pelos motivos óbvios e universais, mas também pelos meus - idiossincráticos e pessoais.  

Ler para ter sustentáculo cultural. Ler para ter amparo gramatical. Ler para ter assunto e referencial. São os motivos óbvios e universais. Mas foi a razão que adotei a efetiva guia a esse mundo particular. O pretexto? Fugir. Fugir e refugir. Fugir e fugir de novo. E de novo. A quantidade de livros lidos deve superar a de textos escritos porque fugir dói bem menos do que se encontrar.

Batido, eu sei. Clichê dizer que leitura é refúgio. Só que o refúgio de que tantos falam deve ser, no fundo, um refugir. Um fugir sempre. Fugir de novo. E de novo.

Encontrar-se machuca. Encontrar-se sangra. Encontrar-se, por vezes, mortifica. Porque encontrar-se é olhar para si. Encontrar-se é admitir os fracassos, reviver o passado, se culpar, se repreender, se condenar, se redimir. Encontrar-se é dialogar com o presente: chorar, pensar, se desculpar, se remodelar. Encontrar-se é vislumbrar o futuro: se ansiar, se projetar, sonhar, sondar, odiar, amar. Encontrar-se é odiar amando. Encontrar-se é ter-se para si, se doando.

Me encontro quando escrevo. Aí, quando leio, me perco novamente. Fujo do que encontrei. Nunca gosto do que encontro. O que encontro não é o que programei. Entretanto, a viagem de ida e volta, de se perder e se encontrar, de fugir e se examinar vicia. Preciso fugir e refugir para me manter viva. Preciso encontrar para me justificar na vida.

Jornada massacrante é escrever. Tão massacrante quanto essencial. Caminho penoso e dolorido. Coração cansado e sofrido. Espírito lavado e absolvido.

Encontrar-se... Prazeroso? Longe disso. Encontrar-se: angustioso. Encontrar-se: sorriso na face? Nada. Encontrar-se: das ilusões desenlace.

Fugir encanta. Fugir alivia. Fugir: alma leve caminha. Fugir é necessidade básica. Tanto quanto encontrar-se. Fugir e refugir. Fugir: refúgio. Encontrar-se: calabouço. Liberdade e prisão. Vida e morte em um momento. Emanações doces do sofrimento.

Diante de todas as irracionais evaporações literárias que se desprendem dessa mente quando tento me encontrar, deduzam vocês: a quantidade de livros lidos deve superar a de textos escritos? Enquanto avaliam, me perdoem a deserção.

Por hoje vou sumir.

Já me encontrei que chegue.

Agora vou fugir.



05 Abril 2018 11:03:00


(Imagem: Divulgação) /


Dizem que o sofrimento ensina. Falam até que os grandes seres humanos só atingiram importância de caráter através do sofrimento. Ouço ainda que sofrer fortalece. Antes de sofrer, concordamos com tudo. Sim: sofrimento ensina, nos faz crescer e fortalece. Mas quando sofremos, e então sofremos de novo, voltamos a sofrer e penetramos um círculo de dor, para entrarmos em outro e em outros sucessivamente, é que passamos a desconfiar da missão salvífica do sofrer.  

Penso que o sofrimento não ensine: empurre-nos goela abaixo situações com as quais não sabemos lidar e das quais não temos como sair. Situações entaladas machucam, paralisam, enlouquecem. Situações entaladas são sofrimentos. Sofrimentos que não ensinam: ferem.

Muitos dos ditos grandes seres humanos iluminaram a humanidade e destruíram a si mesmos. Muitos dos grandes seres humanos mataram os próprios corpos. Outros assassinaram antes as almas. Sofrimento não molda caráter: aniquila vidas.

Talvez, entretanto, eu concorde que sofrer fortaleça. Fortalece a mágoa, fortalece o desânimo, fortalece a descrença. Sofrer fortalece a indignação, o senso de injustiça, o anseio de vingança, o ódio. E quando se odeia com todas as energias não há espaço para mais nada. A palavra não é força. A expressão correta seria que o sofrimento embrutece.

Sofrer demais nos deixa amargos, abatidos, desesperançados. Uma alma gemendo não é forte. Uma alma gemendo é doente.

Quem não sofre, julga. Quem não sofre, ou não sofreu o suficiente para lembrar, pensa que mau humor é birra, acha que tristeza é falta do que fazer, diz que isolamento é presunção. Quem sofre, sabe.

Quem sofre sabe que frustrações desmoronando são incapazes de gerar bom humor. Quem sofre sabe que tristeza arraigada debilita, estilhaça e mata; sabe que qualquer atividade do mundo, para uma alma cansada, a tornaria mais exausta, mais enferma. Quem sofre sabe que isolamento é armadura. Proteção contra mais sofrimento.

Covardia? Quem não sofre diz. Quem não sofre diz que é covarde o isolado. Mas quem não sofre jamais será a armadura de que precisa aquele que sofre. Quem não sofre tem respostas sempre certas. Quem não sofre deduz o remédio para curar aquele que sofre: idêntico ao que ele (que não sofre) toma.

Discordo, portanto, de todas essas teorias românticas de que o sofrimento ensine, embeleze caráter e fortaleça. Todavia, ele pelo menos nos transforma em pessoas mais humildes (nem que seja na marra), e solidárias (nem que seja por excesso de surras da vida). Quem sabe o quanto dói o sal em uma ferida exposta não joga na do outro; quem já sentiu perfurações de centenas de adagas construídas por mágoa, não o deseja para ninguém.

Quem sofre, mas quem sofre de verdade, não quer as intempéries nem para os inimigos. Quem sofre, se imaginar qualquer um (amigo ou inimigo) sofrendo igualmente, torce para que não se concretize na vida do outro a erosão interna que acontece dentro de si. Porque quem sofre, mas quem sofre de verdade, entende que somos todos feitos da mesma carne frágil, do mesmo sangue estigmatizado e do mesmo coração agonizante.



29 Março 2018 08:58:00
Autor: Natália Sartor de Moraes



Quando se mora em condomínio o que mais se escuta, em qualquer hora do dia ou da noite, é o barulho de portas sendo abertas e fechadas. Em condomínio fechar a porta significa entrar em casa, descansar, estar a sós para energizar e, no período seguinte, apto para iniciar tudo de novo. Na vida a porta fechada é mais dolorosa. Na vida a porta fechada é o não, a batida na cara, o fim brutal. Na vida a porta fechada é a sensação de lacre eterno.  

Em condomínio a porta aberta é o sair por aí. Às vezes sair com destino determinado, às vezes sem rumo. Mas sempre sair. Deixar por instantes, horas ou dias o aconchego em direção à busca. Na vida porta aberta pode indicar passagem larga (aquela condenada por Cristo), que nos exortava à procura do acesso estreito. Na vida a porta aberta com frequência apregoa facilidades, pseudoliberdade. Porta aberta: o sim presentemente instigante, futuramente decepcionante.

Outra coisa que se ouve muito: o tilintar de chaves. Já até sei, só de ouvir, quais vizinhos usam - e quais não usam - chaveiro. Há dias em que, ficando bem quieta, posso distinguir respirações estressadas e bufos de exaustão. Me sinto satisfeita quando detecto um assobio de felicidade (mas isso é raro).

A chave de cada porta só será capaz de destrancar aquele apartamento, abrirá apenas um universo. Uma chave na vida, liberando uma angústia que seja, automaticamente nos conduz a vários mundos de ouro resguardados pela serenidade. Tivéssemos a sorte de encontrar uma chave para a vida e talvez os bufos de inquietação diminuíssem. Tivéssemos a sorte de achar uma, uma chavezinha, e quem sabe as canções mais alastradas fossem a dos assobios de alegria.

Entretanto, amiúde morremos sem encontrar a chave. Pior: sem nem ao menos buscá-la. Culpa de quem? Do tempo. Coitado do tempo, tudo culpa dele (ou de sua falta). Procurar a chave? Hoje? Não dá tempo! Preciso correr, tenho que me apressar, vou perder a hora. Tempo, seu demônio. Diabo de ponteiros. Esse bandido se transforma - sem ter quem o defenda - no único responsável por nossa insatisfação.

Só que aí chega o dia em que lembranças se queimam, como a igreja de interior que pegou fogo na semana passada. Ciclos se fecham. Memórias enfraquecem. Gente morre. Então nos culpamos. Agora sim, culpamos quem merece: nós mesmos. Porque o tempo, diabo de ponteiros, por fim demonstra que não cometeu crime passível de júri. Nós somos os homicidas dolosos da nossa própria vida.

Pudesse eu escolher, pediria uma porta aberta e estreita, uma fechada à aflição, uma chave da vida em mãos humanas e um minuto de plenitude nos braços do tempo.



22 Março 2018 10:56:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Como é numerosa a quantidade de escritores a deixar diários. Romances em forma de diário; desassossegos que assumiram jeito de diário; outros diários que não foram escritos para conhecimento geral, mas assim aconteceu, porque ninguém respeita o desejo de um morto, sobretudo quando o morto teve talento, pois aí o infeliz indivíduo era do mundo e não dele mesmo.  

Interessa se o mundo nunca secou suas lágrimas? Interessa se, pelo contrário, o próprio mundo gerou a maioria delas? Não, não importa. Importa é que o morto era talentoso e abandonou escritos secretos que, afinal, foram triunfantemente descobertos e publicados.

Deve ser por isso que quem escreve em profusão tem a cautela de destruir aquilo que não quer ver publicado; porquanto aprendeu que mortos não têm vontade, salvo aquela expressa em testamento. Se bem que, ficando decidido que a humanidade pode prosperar com a divulgação do escrito, danem-se as razões do pobre coitado que escreveu e pediu para não ser exposto.

Fosse eu rabiscar alguma coisa em um diário, seria detonada pela crítica literária: não tenho nada de original para falar sobre a minha vida. Ela é o mesmo punhado de desgostos que tantos outros antes de mim já relataram. Ela é a mesma imensidão de perguntas sem respostas que muitos já levantaram. Ela é o diário inacabado que cansei de escrever.

Ainda assim, fosse eu escrever um diário, rasgaria cada página depois de finalizada, talvez por loucura, mas mais provavelmente para simbolizar o que acabou acontecendo com os meus sonhos.

Entre garranchos destroçados, penso que falaria a respeito das idealizações fracassadas da vida, acerca das inumeráveis rotas que me iludi antes de trilhar e depois voltei atrás, sem ter exatamente para onde retornar. Voltei por voltar. Voltei por saber que aquele caminho não me levaria a nada, embora o retorno tampouco fosse capaz de fazê-lo. Voltei e me perdi. Contudo, se continuasse, ficaria também perdida. Todas as escolhas, em vão. Decepção nasceu predeterminada. Me debati de teimosa. Repensei a trilha tão somente para dar trabalho aos neurônios que, assim como eu, cansaram cedo.

A cada trajeto percorrido, percorrem minha mente (em velocidade muito maior) questionamentos existenciais, os quais têm a mesmíssima importância da vontade de um morto. Todavia, incapaz de controlar as ebulições mentais e emocionais, enquanto analiso cada itinerário, me pergunto: para onde isto está me conduzindo? Me deixa mais feliz? A primeira indagação influi pouco: para qualquer lugar, a estrada sempre será repensada e, por fim, descartada: condição inalienável da insatisfação que trago dentro. Se a primeira vale pouco, a segunda vale nada: para que querer saber se me deixa mais feliz se nem ao menos desvendei o que é felicidade?

Inutilidades devidamente cedidas à lixeira, restam futilidades para descrever. Como futilidades não merecem ser descritas, ou quem sabe seja eu que não tenha nenhuma vocação para eternizá-las, sinto informar, mas não vai sobrar nada do meu diário.

Meu diário frustrou.

Retrato de minha vida,

Que errou.

Meu diário é folha branca e,

Assim como eu,

Desencantou.



15 Março 2018 09:22:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

A trigonometria é o ramo da Matemática que, além de estudar a relação entre os lados e os ângulos do triângulo também tem uma missão fundamental: estabelecer o elemento desconhecido com base nos já conhecidos.  

Avaliando a exatidão da matéria constato que o elemento desconhecido seja o principal problema a ser solucionado, tanto na Matemática quanto na vida. Só que, ao contrário dos resultados peremptórios da ciência, na vida nem sempre encontramos elementos conhecidos. Por vezes, na vida temos a clara impressão de que tudo é desconhecido, de que não temos X para somar a X e chegar a alguma conclusão.

Se dois X somados levam à solução, na vida dois X somados levam à confusão. Fator conhecido: nascemos e morremos. Fatores desconhecidos: tudo entre esse meio tempo. Ao passo que na Matemática um triângulo é composto de três lados, na vida três problemas podem engendrar mil consequências. Se na Matemática uma raiz quadrada é o número que, multiplicado por ele mesmo, revele o resultado pretendido, na vida uma confusão multiplicada por ela mesma origina ansiedade a qual, presumo, seja bem mais complicada que a raiz quadrada de qualquer número.

Com condescendência observo crianças endoidecidas, na suave ilusão de que a maior celeuma de suas vidas será a Matemática, no alegre engano de que decorar a tabuada é tarefa árdua, no desespero abençoado de que o Teorema de Pitágoras vai ser o responsável por fulminar-lhe os corações.

Queria eu voltar àqueles tempos, crer em angústias miúdas, me debater em águas incapazes de afogar. Queria eu quebrar a cabeça para encontrar o real valor de X e quanto será Y elevado à centésima potência. Queria eu voltar a acreditar que a tabela do 7 vai me matar e que, se ela não o fizer, a do 8 o fará, com sucesso. Queria eu praticar um milhão de vezes a fórmula de Bhaskara e todas as outras, desde que, em troca, a vida aceitasse ser um pouquinho mais branda, um tantinho menos cruel. Queria eu ter o coração arrasado por fórmulas e não por decepções.

A Matemática pode até parecer difícil, mas com justa dedicação todos conseguimos atingir a nota mínima para passar de ano. Na vida nada se garante. Na vida, mesmo muita dedicação pode ser inócua. Na vida, o fato de termos que descobrir os elementos desconhecidos com base no também desconhecido por vezes estrangula nossas emoções e acinzenta a razão, porque, na vida, ao contrário da Matemática, não temos uma calculadora para nos salvar.



08 Março 2018 11:40:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Deduzimos significações sem saber a fundo no quê se basearam. Exemplo disso é o termo Heresia o qual, para mim, estava relacionado a pecado, desvio, afronta. Até ontem, quando descobri que a palavra vem do grego e significa escolha.  

A partir da construção da nomenclatura, todo aquele que escolhesse seguir ou criar ideias diversas da Ortodoxia (crença que se pretende a verdadeira), era considerado herege. O conhecimento realmente nos liberta, pois só hoje compreendo a razão da minha curiosidade acerca das personalidades consideradas hereges. Eram hereges porque escolheram.

 Escolheram acreditar de outro modo. Escolheram não seguir a manada. Escolheram agir diferente. Escolheram pensar: poderia ser que não existisse apenas uma vertente de conhecimento ou religião. Escolheram, enfim.

Talvez então eu não estivesse errada ao acreditar que Heresia quer dizer pecado. Afinal, até hoje, tantos séculos depois das massacrantes condenações dos hereges, ainda amargam as consequências aqueles que decidem simplesmente escolher. Aqueles que decidem escolher se sentem pecadores, se sentem repelindo uma trilha supostamente correta. Aqueles que decidem escolher picham com as suas atitudes dissidentes um emblema tão antigo quando reprimível: HEREGE.

Escolhem por quê? Não seria muito mais fácil endossar o que já está posto? Não seria melhor apoiar o partido estabelecido, a rede de televisão mais assistida, a conduta consagrada? Para que criar? Por que desviar? Por que se negar a ser robotizado pelos padrões?

Tantos hereges por aí. Artistas, por exemplo: hereges todos. Quem decide adotar um ritmo de vida próprio, sem se preocupar com o que as estatísticas e opiniões alheias pretendem evidenciar: herege. Experimente ser idealista ao invés de materialista: herege. Muito herege. Só que hoje a palavra Heresia, por ser expressão de outras épocas, perdeu a superioridade e foi transmutada para Teimosia. Continua rimando, pelo menos. E segue tão reprovável quanto.

A sociedade estabelece conceitos e esses, embora nem sempre adequados para a vida de todos, acabam se cristalizando como se o fossem. Espécie de Paralogismo: um raciocínio equivocado que, pela aceitação, se fixa. Nós devemos apoiá-lo sem questionamentos, rechaçando as dúvidas, pois são elas que conduzem à mudança através da escolha, através da Heresia.

Compreendo muito pouco sobre decisões acertadas, mas entre Heresia, Ortodoxia e Paralogismo, sempre vou escolher a verdade.



01 Março 2018 00:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


Está bastante doente. O avanço dos anos parece ter irrefragável culpa no progresso da enfermidade. Fui à sua casa dia desses e ela, com impressionante bom humor, referiu-se à última consulta médica: 

- A primeira coisa que o doutor me perguntou foi a idade. E para idade não tem remédio na farmácia.

De fato. Para idade inexiste remédio na farmácia. Ou em qualquer outro lugar. Só que a velhice, sozinha, é incapaz de trazer os tumores da alma. A velhice pode até ser prelúdio do fim de um corpo; de um coração, nem sempre. Um coração morre bem antes.

Um coração morre quando visitado por males para os quais também nunca se encontrará remédio.

Um coração morre sufocado por enquistamentos de desgosto. Um coração morre por ataques de bactérias resistentes, chamadas mágoas. Um coração morre por intoxicação de palavras silenciadas. Um coração morre por afogamento em lágrimas seguradas. Um coração morre de estrangulamento nas mãos da tristeza. Um coração morre de derrame: frustrações, quando derramadas repetidamente, matam um coração.

Todavia, um coração não fenece apenas por excessos, também expira por faltas. Morre um coração de indiferença, o chamado sopro. Doença grave essa, maquinada pelo isolamento. Morre um coração de apatia - o tanto faz ainda fará muito: assassinará um coração. Morre um coração de vazio. O nada é ácido que deforma um coração; depois o despedaça, vagarosamente, até que não sobre nem mais um pedacinho para doer. Morre um coração de saudade, de ausência mal-resolvida, de machucado ardente, de ferida incicatrizável.

Entretanto, às vezes, sintomas enfermiços demoram a matar um coração. Ele então sofre anos, décadas; frações de século amargando, doendo, gemendo e assim se suicidando, dia a dia. Porque um coração se suicida.

Se suicida um coração quando seus esforços são vãos,

Quando a esperança dele se esqueceu,

Quando o horizonte escureceu,

Quando a alegria desapareceu,

Quando a angústia chega

A passo traiçoeiro e anuncia,

Com hálito tétrico: sou eu.

Um coração adoece. Um coração morre. Um coração é assassinado. Um coração se mata. Um coração maltratado caminha a uma destruição bem mais pungente do que aquela a que conduz a idade.

Quando me levantei para sair, ela disse:

- Têm dias que a gente só quer alguém para conversar. Alguém que nos diga que se não está tudo bem, vai ficar.

"Vai ficar", pensei. Desde que a moléstia não esteja alojada no coração, sempre fica tudo bem, qualquer que seja o desfecho. Neste ou em outro mundo.

Se seu corpo logo for, torço para que não se quebre antes o coração.



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