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NAS MALHAS DO COTIDIANO
08 Novembro 2018 11:02:00


(Foto: Divulgação) /

Para aprender a sofismar,

A melhor forma é

Pelo mundo perambular.


O mundo te ensina muito,

O mundo te ensina sempre. 

O mundo te ensina a mentir 

E a se enganar

De repente. 


Antes do caráter, 

Sofismar.

Se ainda sobra disposição 

Para ser 

Decente?

Isso é outro assunto 

Que nem sequer deixa 

A pessoa 

Contente. 


Todos sofismamos, em algum momento.

Salvam-se aqueles que, 

Depois disso, 

Sentem dor de pensamento. 


Quem de consciência gorda se arrepende

Ainda tem algum valor 

E futuro crescente. 


Raciocínios capciosos 

Provocam dissabores. 

Mas desde os tempos de Sócrates 

Tinham seguidores.

Do poder adoradores, 

Aprendiam com os sofistas:

Um bando de desarvoradores.


Sofismar hoje é comum. 

Embora honesto sofismador 

Não sobre um. 


Sobre aprender meu avô já dizia:

O mundo te ensina muito,

O mundo te ensina sempre. 

O mundo te ensina a mentir 

E a se enganar

De repente. 


Leitores, este é mais um dos poemas do meu novo livro "Inútil inocência" que agora está sendo vendido também na BANCA CENTRAL, ao lado do supermercado Colorido. 


01 Novembro 2018 11:14:00


(FOTO: Divulgação)

O paradoxal ultrapassa o entendimento. O paradoxo, portanto, uma vez detectado e não compreendido, impõe a necessidade de ser sentido.  

Dia desses um amigo e eu filosofávamos a respeito dos paradoxos da vida. Falava ele, com sua natural verve de observador, a respeito da discrição aparente como incrível sinônimo de atrevimento mascarado:

- Sempre é assim. As mais quietas são as mais levadas.

- Levadas em que sentido? - indaguei, já me ouriçando para rebater.

- Levadas no sentido de contornarem qualquer obstáculo para alcançar seus objetivos.

Me mandou anotar, o sacana. Disse que a frase fora despejada de sua mente num raro lapso magistral. Não anotei. Primeiro, para desafiá-lo. Segundo, para autoafirmar a minha lapidada capacidade de memorização, e também porque absorvi instantaneamente a essência de sua sentença: a vida como paradoxo inevitável.

Se as mais quietas são as mais levadas, se a água mole pode furar a pedra dura, se confusão vira melodia, será que a impossibilidade dos amores pode ser atenuada com a possibilidade das loucuras?

É maluco cavar esse terreno. Mais: é perigoso. O terreno dos amores vomita incompreensões e angústias, quando revolvido. O terreno dos amores incomoda, como incomoda o invasor no cerne da ostra, mas só assim ela consegue produzir a pérola. O terreno dos amores, meus amigos, é o exemplo clássico (e sempre atual) do paradoxo.

Seria, então, nesse contexto, o terreno dos amores mais acessível às criaturas ousadas? Às "levadas", como tão bem nomeou o meu amigo? Seria o terreno dos amores constituído de solo frio e de árvores severas para os covardes? Seria, consequentemente, de uma terra mais macia e de plantas sorridentes para os fortes? Outro paradoxo. Não são os fracos que precisam de facilidades?

Ah, vida. Minha vida, nossa vida, esse ciclo incompreensível. Quanto mais fibra tem um homem, mais claras se tornam as coisas. Quanto mais tímido na direção da conquista, mais obscura e íngreme a estrada.

"É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre", diria uma canção. É preciso sondar o terreno dos amores, suas pedras e suas flores, suas depressões e planaltos, seus riachos e valos enlameados; identificar cada paradoxo e partir. Partir com o atrevimento dos levados e com a suavidade dos confiantes.


Nas malhas do cotidiano
24 Outubro 2018 18:08:00


(Foto: Divulgação) /

Ontem enlouqueci. 

Hoje já desenlouqueci. 

Minha vida mental é vária:

Tão inconstante 

Que chega a ser

Hilária. 


Ontem gritei, 

Chorei, 

Delirei; 

Até que cansei. 

Hoje sou uma moça assim:

Jeito de serafim. 


Ontem briguei com marmanjo, 

Da minha mãe destruí um arranjo; 

Nem liguei.

Fiz como sempre: açúcar esbanjo. 

Hoje, cara de anjo. 


Faço graça, mas para delírios busco a cura. 

Faço graça, mas instabilidade é mal que (ironicamente) dura. 

Faço graça, mas nem sempre é fácil lidar com a própria loucura. 

Faço graça, mas sarcasmo é poesia que perdura. 


Faço pilhéria aqui.

Faço motejo ali.

Mas a verdade,

A verdade

É que não sei 

Se realmente

Desenlouqueci.


Leitores! Este é mais um dos poemas do meu novo livro "Inútil inocência". O lançamento deste livro será no dia 26 de outubro (nesta sexta), das 19 às 21h, no SESC (localizado atrás da revendedora FORD). O evento é aberto ao público. Conto com vocês. 


NAS MALHAS DO COTIDIANO
18 Outubro 2018 11:09:00


(Foto: Divulgação)/

Vivo pelas mãos.

Minha alma é feita de saudades,

Memórias,

Ilusões,

Esperanças violáveis.

Pelas mãos redijo a minuta de um sonho maior,

De objetivos insanos.

Ainda assim,

Com tal exação,

Que até me parecem

Prováveis.

Tudo consubstanciado através das mãos.

Não.

Não me sinto desvalida.

Totalidade interage sinergicamente:

Mão,

Papel,

Letra,

Lágrima doída.

É com prazer recôndito

Que escrevo coisas

Por vezes

Ociosas.

Dizem que sou elegíaca.

Quem sabe seja.

Gosto da elegia.

Esconjuro as alegrias

Injuriosas.

Conheço textualmente cada dor

Derramada.

Cada desespero

Vazado.


É uma transfusão entre mim,

A Vida,

O Papel,

O Nada,

O Absurdo.

A tal sinergia

Desmascarada.

Aliamo-nos todos.

Será que apenas virtualmente?

Vivo e transplanto

Para o papel

Buscando,

Tolamente,

Alargar a órbita

Das minhas soluções

Insolucionáveis.

Censuráveis.

Acusam-me de ser absenteísta, sim.

Será que sou?

Parece-me tão invertidamente profundo.

Mas que seja dito a meu favor:

De vez em quando

Até sinto

Alguns laivos

Do

Mundo.



Leitores, esse é um dos poemas que está no meu novo livro "Inútil inocência", disponível através do site www.clubedeautores.com.br. 

Nas versões e-book e impressa. 


11 Outubro 2018 09:04:00


(Foto: Divulgação)

Não vamos ter da vida o que queremos, mas o que merecemos. Por vezes o que merecemos é melhor do que aquilo que queremos, mas queremos o que queremos e não o que merecemos. Surge então aquele que, para mim, é um dos sentimentos mais desanimadores: a frustração.

Frustração é você querer tanto, mas tanto alguma coisa, querer com uma força tão poderosa que, quando não consegue, desacredita; desacredita e desencanta. Desacredita e desencanta de tudo. A frustração não sabe ser relativa, ela se expande, estende suas garras e vai aniquilando, sem distinção, as nossas esperanças.

A frustração, de início, é uma emoção aguda, de raiva, de ódio, de vingança; depois amaina: vira apatia. Frustração é tempestade: quanto mais severa, menos persiste. Pois o que é intenso sempre se transforma, tudo que é intenso é grande demais para um coração só.

A paixão, por exemplo, quanto mais intensa, mais rápido se transforma, ou vira amor ou acaba. A dor, quando satura até as entranhas, ou mata ou termina. As lágrimas, quando abundantes, ou afogam ou falecem. É por isso que me consola entender: no momento em que o fogo da frustração efetivar seu delirante trabalho de incendiar os mais belos sentimentos, restará a mudança. A frustração, apesar de nos parecer pétrea, é argila dentro de nós. Argila com necessidade de ser modelada.

Eu, péssima escultora que sou; pior: sofrivelmente imatura em questões sentimentais, até hoje nunca soube (e não imagino se saberei) modelar a frustração. 


"A frustração não sabe ser relativa, ela se expande,

estende suas garras e vai aniquilando, sem distinção, as nossas esperanças"


Sinto essa argila crescendo dentro do meu peito, me corroendo e gritando para ser trabalhada. O que faço eu? Paraliso. Tapo os ouvidos para não escutar seus berros. Dou umas batidas no peito (não de coragem, mas de covardia, como uma ordem agressiva para que a frustração pare de me atazanar) e fico apática. Se não aconteceu o que eu queria, sou impaciente e incrédula para esperar e acreditar que vá acontecer o que mereço.

É como disse antes: nós, os frustrados, somos também desacreditados. Somos incrédulos. E penso que nos tornamos assim porque somente neutralizando sentimentos abrasadores sofreremos menos. Se você acredita e não acontece: frustração. Se você não acredita e não acontece: tudo bem. E segue a vida.

O problema da incredulidade, do estoicismo e do controle impecável dos sentimentos é que deixamos de ser humanos. Nos tornamos programados. Não somos mais espontâneos. Ser humano dói. Mas ser máquina é amargo. Ser máquina é o nada mais amargo da humanidade.

A incredulidade pode até evitar que a dor nos penetre, mas impede também o contágio da alegria. Não alimentar expectativas é a única forma de não se frustrar e a maneira mais segura de ser um eterno ninguém para si mesmo.

Precisamos querer, precisamos acreditar, precisamos lutar, precisamos cair, precisamos nos machucar. Tentar de novo, machucar de novo, acreditar, querer. E cair. E querer. E acreditar. Um ciclo de dor e de alegria. Alegria e dor.

Precisamos de ferimentos e glórias para garantir nossa condição humana. E quem sabe assim, algum dia, atingiremos o estágio em que as frustrações representarão menor número, porque aquilo que queremos e aquilo que merecemos serão a mesma coisa.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
04 Outubro 2018 10:47:00

É irônico como os momentos mais cruéis da vida são também os mais bizarros. Isso deve acontecer porque chega um dia em que percebemos que sofrer reiteradamente, sem trégua, se tornou tão patético que não é mais acreditável; aí se torna risível, de um riso amargo, mas ainda assim, um riso, uma vez que o choro superou todas as cotas que lhe seriam permitidas. 

Há vezes (e essas "vezes" podem não ser tão ocasionais quanto a palavra sugere. Podem ser "vezes" que se estendem por meses, anos, décadas) em que centenas de circunstâncias puxam a corda de um lado e você, sozinho, puxa do outro. E essas circunstâncias, além de serem muitas, são também pesos pesados em matéria de nos derrubar: fracasso, frustração, desilusão, desesperança, aflição, incompreensão, insegurança, medo. Cito apenas algumas, para não me tornar exaustiva, mas, lembrem-se: são centenas, talvez inumeráveis. 

Pois bem, parece triste, a princípio, não parece? Só que, na verdade, vai se tornando riso choroso se deparar com essa realidade, vai se tornando riso choroso para não se transformar em desespero profundo. 

Durante essa luta, você, a princípio, é aguerrido, determinado, está decidido a não soltar a corda, mesmo que suas mãos estejam cortadas, ainda que o sangue tenha lhe encharcado e tudo a seu redor. 

Depois você cai. Liberta a corda sem querer, simplesmente por não ter mais forças. Aí ouve a gargalhada desdenhosa do fracasso; a voz diabólica do medo falando ao seu ouvido "eu disse"; as mãos queimantes da aflição subindo pela sua garganta acima, até apertarem o cérebro. 

Então fica com raiva. Levanta. Dá um salto com um vigor que nem suspeitava que tivesse, e agarra a corda de novo. Esquece que os ferimentos das mãos podem infeccionar; esquece que, quanto mais tempo ficar puxando a corda, mais cicatrizes vão surgir; esquece que vários ligamentos foram rompidos, diante de tanto empenho sem solução. Esquece. Só lembra do desdém dos que puxam do lado de lá. E tem ódio deles. 




Movido por esse ódio, prossegue. E prossegue mais. E passam dias, meses, anos, décadas. Você, sozinho, puxando daqui. Eles, em centenas, puxando de lá. Os pesos pesados contra você: o nada. O nada machucado, ainda por cima. O nada, que já era nada, acabado. 

Agora, depois de tanto tempo, depois de tantas feridas infeccionadas - e curadas não se sabe como e nem por quê -; depois de tanto cair, e levantar por orgulho; e cair de novo, e levantar por ódio; e cair novamente, e levantar não sabendo a razão, pois nenhum sentimento lhe resta; já não ouve a gargalhada desdenhosa do fracasso, a voz diabólica do medo e nem ao menos sente as mãos da aflição sobre você, porque, agora, não se importa mais com nada. Está insensível a tudo. Sabe que a guerra é perdida. E assim o foi desde o início. É então que olha para trás. 

Olha para trás e percebe que, segurando um pedacinho da corda (apenas o pedacinho que você deixou que Ele segurasse) está Deus. E Deus não faz esforço algum. Deus segura a corda com você, sorrindo. Você, pela sua falta de fé, só permitiu que Ele segurasse aquele mísero pedaço de corda.

Somente então você esquece de verdade. Mas não esquece mais de si mesmo. Esquece das centenas de execrações que agarram a corda do lado de lá, porque, eles sim, não são nada se comparados a quem está com você. 

Deus sorri mais uma vez, e você solta a corda. Solta a corda e sabe que vai voltar a puxá-la. Mas não agora. Agora você não aguenta. E, finalmente, admite que não aguenta. Solta a corda e, inesperadamente, é você quem olha com desprezo para o medo, a desesperança, a aflição e seus comparsas.   

Quando você solta, Deus, com um leve puxão, desmonta por inteiro todo o lixo do lado de lá. Tudo desmorona. Virá pó. Cinza. E só.

Você adormece. Adormece pelo sofrimento de tantos anos. Adormece pela exaustão. Mas adormece, sobretudo, pela tranquilidade tão nova de saber que não está sozinho. 

Antes de dormir completamente, contudo, ainda na vigília, escuta um suave murmurar nos seus ouvidos, ouvidos há tão pouco tempo torturados:

"A tua fé te salvou". 


NAS MALHAS DO COTIDIANO
27 Setembro 2018 11:11:00


(Foto: Divulgação)

Quando nada parece fazer sentido, sigo o conselho da Clarice Lispector e improviso um ato gratuito. Ato gratuito é aquele que, além de não custar, não trará (ao menos em uma primeira análise) nenhum benefício ou malefício. A gratuidade é tão absoluta que só improvisamos um ato desses quando sentimos que pouco temos a perder, quando passamos a duvidar de crenças antes irrefutáveis, quando percebemos que o nosso universo particular de certezas é, na verdade, um castelo de areia que desmorona um pouco a cada dia. 

Nos tempos de hoje, a ambição material faz tanto alarde que improvisar um ato gratuito afigura-se loucura, excentricidade; mais grave: capricho. Só que há momentos na vida em que não nos importamos mais com os rótulos que recebemos. Há momentos na vida em que ser apelidado de louco, excêntrico ou caprichoso é o único jeito para não ser nomeado infeliz. 

Antes louco do que infeliz. O problema é que, quase sempre, nos tornamos loucos porque já fomos muito infelizes. Para que não continuemos sendo é que considero válido improvisar o tal ato gratuito.

Assim, em um dia de incontornável tumulto emocional, saí, sem qualquer destino planejado ou itinerário previamente agendado. Simplesmente saí: de chinelos, cabelos assustados, olhando para baixo e chacoalhando as chaves de casa na mão, como se o tilintar pudesse despertar soluções em minha mente, como se o barulho de lar fosse persuadir meu coração a voltar a acreditar no que não acredita mais. 

No caminho encontro uma amiga. No caminho sempre existem amigos. Os amores desmanchados, quando temos sorte, desaparecem. Mas os amigos (que bom) sempre estão por aí. Os amigos são as inesperadas flores em nossas estradas pedregosas e incertas: quando achamos que nada de belo permanece, surge, milagrosamente, um amigo. 

A amiga a quem me refiro passeava com a filha, essa em um carrinho de bebê, vestida de maneira tão encantadora quanto o sol daquele dia; e o mesmo sol, que aos olhos de todos era maravilhoso, aos meus não foi capaz de suscitar grandes sentimentos, dado o meu invariável tempestuoso estado de ânimo.    

A amiga referiu-se, legitimamente orgulhosa, ao rápido crescimento de sua menina e à esperteza dela; falou ainda que planeja outro filho para daqui a três ou quatro anos; anseio que eu, ilhada em minha completa falta de instinto materno, não compreendi. 

Entretanto, contemplando aquela linda criança, fiz uma silenciosa prece para que ela, assim que crescesse um pouco, não cultivasse ilusões (pois o mundo certamente não as satisfaria); ou pensasse que a vida ira ser tão doce quanto o algodão cor-de-rosa que segurava (pois as pessoas certamente a amargariam). Que todas as crianças que hoje são contentes, quando adultos vão sofrer, alguém duvida?

Contudo, depois de caminhar por cinco ou seis minutos ao lado da amiga, ao voltar para minha habitual solidão, pude me rejubilar por, afinal, ter decidido improvisar um ato gratuito. Porque só desse modo fui impulsionada a sair, nem que fosse por instantes, do calabouço de desesperança que há muito me aprisiona e, triunfante, constatar: para algumas pessoas, ainda é possível ser feliz. 



NAS MALHAS DO COTIDIANO
20 Setembro 2018 08:59:00


(Foto: Divulgação) 

"A saudade escreveu e eu translado". A frase foi dita por um dos personagens do livro "Clara dos Anjos", do escritor Lima Barreto. Esse personagem atribuiu a autoria da frase a Camões, mas suspeito que a verdade nela contida pertença à humanidade. 

Há dias em que a saudade chega de mansinho e sussurra no ouvido da gente. É ela quem dita, a gente só transfere para o papel o que a razão suprema da melancolia quer proclamar. Há outros em que ela, feito megera selvagem, já vem de dentro, de dentro do peito, bem lá do fundo, rasgando carne e sentimentos, para poder emergir. 

Nos momentos de branda melancolia, de saudade sussurrada, a dor é mais tolerante, embora machuque também: fica batendo a intervalos cruelmente pouco espaçados, atormenta, fere os pensamentos e, quando resolve começar a sair, sobe à garganta; é então que tentamos engolir o nó que ali se forma. Incapazes disso, choramos. O choro é a saudade sangrenta convertida em líquido transparente, que vaza pelos olhos e alaga o rosto. 

Nos dias de saudade selvagem, seu rugido de fera indomesticável ensurdece, não sabemos o que se deforma mais: nossos tímpanos - afrontados pelo som da agonia -, ou nosso coração - esmagado nas mãos ferozes de um sentimento por muito tempo trancado. 

Os olhos, é claro, sofrem nos dois casos. Os olhos sempre sofrem: ora incendiados pelas lágrimas que em vão procuram conter, ora gemendo quando enfim as derramam. 

Naquele que escreve, por se entregar totalmente ao sentimento, tudo se dilacera: corpo, mente e coração. A saudade vem das vísceras e, ao chegar à garganta, é puro fel. O corpo enfraquece, a mente berra e o coração (mal suportando a si mesmo), influencia os dedos, que transladam as palavras dela: da dissimulada murmurante, da megera brutal; transladam para o papel o que a saudade quer. Mais: transferem para o papel o que a saudade ordena, em seu trono que a ninguém é dado insultar. 

Ninguém pode, antes: ninguém nem tente, insultar o trono da saudade. Ela, mesmo sozinha, sem trono e sem nada, é mais poderosa que nós, muito mais poderosa. E a saudade sussurrada, embora discreta e polida, tem tanta supremacia quanto aquela belicosa e animal. A saudade tudo pode; nós, pobres de nós; em face dela, nada podemos. Lutar contra a saudade é tão tolo quanto tentar debelar um furacão. Lutar contra a saudade é o mesmo que pensar que se pode controlar o brilho do sol ou a fúria de um temporal. A saudade é ainda mais independente que o curso da natureza, ainda mais pérfida que os desastres naturais. 

A saudade é soberana. É ela quem escreve. Eu? Miserável de mim: eu apenas translado.   


13 Setembro 2018 11:01:00


(Foto: Divulgação)/

Sempre na mesma hora. Sempre no mesmo lugar. Fixa o trânsito sem enxergá-lo, seus olhos indo e vindo, refletindo os carros, os pedestres, a luminosidade violenta do semáforo. O vermelho do ardor e do sangue. Do furor e da tragédia. Seus olhos vermelhos duplicando o vermelho da agitação. Seus olhos brancos reforçando o branco da rotina. O branco do vazio. Seus olhos brancos opacos da brancura cega de sua vida. 

Invenção minha, julgam? Não. Personagem dele mesmo. Personagem de algum eu extraviado; mártir visado, plebeu imaginado. Seus olhos, aqueles aos quais não canso de descrever, naquele instante fitavam duramente o movimento, a fumaça, a poeira, cada semblante distraído, cada refém de tantas noites, esvaído. 

Dei-lhe o nome de Olhos Famintos, lembrando de um filme a que assisti na infância. Olhos Famintos, como já disse, sempre na mesma hora, sempre no mesmo lugar, fixa o trânsito sem enxergá-lo e jamais me vê. Jamais me vê, tenho certeza, porque Olhos Famintos não tem interesse por curiosas feito esta que tão pobremente vos escreve. Olhos Famintos, assim como eu, examina os alheados. Olhos Famintos, portanto, não se familiariza com outros olhos semelhantes aos seus. 

Passo todas as manhãs em frente ao banco de praça que Olhos Famintos tombou para si. Nos dias em que o sol se mostra e a ardência das origens queima através dos raios, seus olhos ficam vermelhos. Naqueles em que só a nebulosidade macula o céu, o frio vigora e os distraídos são distraídos tristes, Olhos Famintos penetra o clima reinante e nele se instala, com olhos brancos. Não brancos como a lua, o leite ou as asas dos anjos. Nada astral, nada bíblico, nem nada angélico. O branco de Olhos é o da fome. Do oco. Todos os desvãos eternos eternamente retratados nele: na fome de Olhos. 

Considerando que não me enxerga, tomo para mim orgulho idêntico e também não falo com ele. Não o cumprimento. Finjo nem notá-lo. O problema é que, apesar de ser figura bastante comum, de Olhos emana uma aura de magia absurda, que percorre feito líquida febre as veias da cidade. Que destrói com fogo as entranhas dos desavisados. 

Não sei que enigma Olhos tanto sonda, mas suspeito que a fome ancestral que o devassa seja parecida com a minha: descobrir uma alma pura e através dela investigar a cura para as podridões do mundo, para os vícios espirituais do globo, para as maldades enraizadas de todas as demais almas. 

Não. Olhos Famintos, ao contrário do que o epíteto sinistro pode sugerir, não é monstro de filme. Olhos tem fome, sim. Mas uma fome nobre. 

Olhos Famintos quer transformar a engrenagem oxidada da vida. 

Olhos Famintos é um sonhador. 

Olhos Famintos, de certa forma, sou eu. 

Olhos Famintos, espero, também seja você. 




06 Setembro 2018 10:16:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Mãe no ônibus, conversando pelo celular com o filho de 38 anos: 

- Não esquece que o Danoninho tá na geladeira, na segunda prateleira de cima pra baixo, ao lado do pote de feijão cozido... Sim, eu sei que essa é a terceira vez que falo, mas é só pra você não esquecer. Filho, se cobre bem essa noite, vai ser frio. A manta azul tá no guarda-roupa bege, na terceira prateleira de baixo pra cima. Hã? Sente calor à noite? Mas essa vai ser gelada, diz a previsão. Sabe se cuidar? Mais ou menos, né, Carlinhos? Abasteci o carro, mas não saia, fique em casa, cuidando do Nestor (cachorro da família). Não! Não abandone o Nestor como você é acostumado a me abandonar. Não xinga, sou tua mãe! Quando você tiver um filho, vai me entender... Mas... como eu sei que você não quer agora... aperta bem a ponta, senão entra ar e... O quê? Pra eu falar baixo? Eu falo baixo, você sabe (a mãe é de descendência italiana). Além do mais, são só 30 passageiros. Quanto ao meu futuro neto, esqueça aquela vigarista pra mãe dele. Conheci uma moça tão boazinha aqui no ônibus: ajuizada, prendada, sabe até fazer pão! (Dá uma leve batida no joelho da mulher ao lado, que sorri amarelo). Quê? Pra eu não me meter na tua vida? Eu só falei! (Chorando): Quando eu morrer você vai sentir falta, tá? Quando tua mãe estiver jogada num caixão, ah, Carlos Augusto, aí você vai se arrepender. Ou não. Ou é capaz de nem me velar, desalmado que é pra tua mãe. Só pra tua mãe, porque pra vigarista é todo cheio de amorzinho. Não grita, Carlos Augusto! Ainda sou tua mãe; mais respeito, moleque!

Pausa. Voz doce:

"Já acertei com o dono do restaurante ao lado de casa. Você vai almoçar lá. Hã? Não gosta da comida? Como assim? Filho meu não é enjoado. Vai comer lá, sim! Você precisa comer mais salada. Tá ficando fofinho, embora continue lindo. Quanto à janta... Eu sei. Sei que são só 2 dias. Um e meio, na verdade. Tá, tá, vou ser tolerante dessa vez, só pra não me chamar de controladora. Deixo você encomendar pizza. E como já imaginava que ia querer jantar pizza, deixei dinheiro em cima da geladeira, à esquerda, embaixo do Santo Antônio. Você tem? Eu sei que tem, mas é agrado de mãe, Carlinhos, aceita. (Ela desconhece a razão, mas a maioria dos passageiros sufoca o riso). Tenho que desligar, a partir daqui o sinal fica fraco. Te amo. Se cuida: Danoninho, coberta, carro, cachorro, pé na bunda da vigarista, apertar a ponta, almoço, janta... Repassou tudo? Anotou? Ah, esqueci de falar..."

Antes de o sinal cair, Carlinhos desliga. Indignada, ela suspira, olha desolada para a pretensa nora e fala:

- Desligou na minha cara. Não criei assim. Não sei por que, mas esse menino nunca cresce!



30 Agosto 2018 11:33:00


(Foto: Divulgação)/


Muito se discute acerca de o que é a verdade. Assim como todas as expressivas discussões, nunca se chega a uma conclusão. Penso que cada um tenha a sua verdade, construída de acordo com as suas crenças, experiências, medos, expectativas, observações e influência alheia - porque, infelizmente, muitas vezes edificamos as nossas verdades baseados na opinião dos outros. 

Nossos pensamentos, atitudes, projeções e fatos a que damos importância revelam a nossa verdade. E a nossa verdade somente deixa de o ser quando passa a não mais nos servir, não se encaixar aos novos valores e às remodelagens que de tempos em tempos - graças a uma palavra mágica chamada evolução - damos à existência. 

Só que nós, esses seres em constante modificação, não absorvemos os pensamentos remodelados assim, instantaneamente. Novos valores testam a nossa capacidade de resiliência. Novos valores gritam e esperneiam para que sejam fixados dentro de nós, porque novos valores, para nascerem, precisam antes assassinar a verdade antiga, sem o que não conquistarão o espaço deles. 

Quando uma verdade morre, morrem muitas outras, pois para estabelecer uma grande verdade indispensável se torna um amontoado de pequenas. Ao sustentarmos uma verdade, acreditamos automaticamente em tudo que a ela é correlato, já que cada ideia consagrada depende de outras centenas. É a mesma lógica de sustentabilidade que rege o universo interpessoal: necessitamos das pessoas não apenas para sobreviver, mas para algo muito maior: precisamos das pessoas para viver. 

Deve ser por isso que quando as circunstâncias, as mudanças forçadas ou as nossas próprias reflexões nos impulsionam a uma remodelagem interna, temos a sensação de que estamos morrendo e nascendo ao mesmo tempo: um ideal belo, cintilante e promissor nasce e já embrionário é assassino. Assassino do velho conceito. Mas essa é uma morte magnânima, tanto o assassino quanto o assassinado entendem e comungam da necessidade dos ciclos: objetivando o nascimento do novo, imperativa se torna a finitude do velho. 

Para que não existissem os dolorosos e impreteríveis ciclos, só mesmo se nos governasse uma verdade única. Afinal, já houve, em algum tempo - qualquer tempo - uma verdade única? Nunca houve. Embora tenham nos feito acreditar que nós - os rebeldes - desvirtuamos essa imaginária verdade. E se a "desvirtuamos" foi para que tivéssemos a liberdade (essa liberdade tão dura e essencial, tão difícil e doce, tão utópica e real) de arquitetar a nossa profunda, singela e sentida verdade. 

Porque aí, quando essa verdade também morrer, saberemos que somos capazes. Que somos capazes de construir tantas e tantas outras que se adéquem ao que somos, ou ao que estamos no momento. E não que sejamos capachos nas mãos do destino, aceitando a verdade que nos é atribuída pelo mundo. 

Um mundo que nem ao menos sabe quem somos, ou o que sentimos. 


23 Agosto 2018 10:39:00




(Foto: Divulgação)

 Nunca é sem alguma dor - por vezes muita dor - que reflito sobre os valores do mundo, ou, como diria Cecília Meireles, as ilusões do mundo. Que me perdoem os muito materialistas, que me desculpem os viciados em beleza frívola, entretanto eu acho as ilusões do mundo tão podres que pensar sobre elas já me causa repugnância. Com repugna ou sem, escrevo este texto não para que concordem comigo, mas para que pratiquem o que a literatura veio trazer ao universo: a arte de pensar.

 Os valores do mundo a cada dia me surpreendem mais pela falta de substância que alucina e pelo vazio que enreda. Quanto maior a ambição material de uma pessoa, mais adequada ao mundo ela estará. Quanto mais padronizada, melhor. Porque as noções de felicidade estão tão desconjuntadas que nem para respeitar um adágio ajuizado elas servem; pois, na verdade, o que a sociedade quer é que vão-se os dedos e fiquem os anéis.

 O peito cheio de medalhas... Mora alguém lá dentro? Não importa. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Os olhos quase tapados de tanta sombra colorida e toda sorte de máscaras para cílios... Brilham por algum motivo? Ninguém liga. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 A cabeça coroada de glória... Seus pensamentos são de paz? Isso é o de menos. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Pernas bonitas e saradas... Levam para um destino feliz? Não nos preocupemos com filosofia. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Emprego bom, paga muitíssimo bem... Se sente satisfeito nele? Realidade, poeta. Realidade! Se paga bem, o que mais questionar? Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Marido bonito e bem-sucedido... Como ele te trata? O que seu coração diz em relação a ele? Pegue o coração e enfie na lata do lixo, cronista! Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 E quanto à beleza da natureza? Aqueles afetuosos pedaços aromáticos de céu a que chamamos de flores: cravos, rosas, margaridas, violetas, jasmins, crisântemos e lírios... Vendem bem? Porque se for só pra cultivar, admirar e ser feliz por isso, de nada adianta. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Escultura? Se não for famosa, não tem valor. Pintura? É de renomado pintor? - Livro? Não conheço esse autor, então não deve ser bom, se não é conhecido, não pode escrever bem. Porque, como sabemos, é o sobrenome que esculpe, pinta ou escreve e não a pessoa. É o sobrenome que sangra, geme e chora e não a pessoa. É o sobrenome que é artista, e não, nunca, jamais, a pessoa.

 Aliás, querem prestar honras e lisonjas ao artista. Mas e se talvez ele, o artista, no fundo só quiser ser amado como ama? O problema é sempre o mesmo: vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Podem me chamar de rebelde; mas eu, bem ou mal, comando a minha vida, por isso rejeito essas pútridas ilusões e ainda prefiro os meus dedos, ainda que feridos, para que, além da luta, possam acariciar o ser humano que a isso se dispuser. Aquele que não se importe se esses dedos têm anéis ou não.



16 Agosto 2018 15:19:00




(Foto: Divulgação)

Leitores, a partir desta semana retornam as crônicas; mas tranquilizo os admiradores dos temas poéticos, pois estes continuam, embora sob roupagem de prosa, como nesta crônica:                                 

Alguém me disse que cresci. Sabe, eu não tinha percebido. Esse alguém também me disse que é normal não se dar conta: adultos são estúpidos mesmo. E essa, dentre tantas, foi a minha maior estupidez: não ter notado que cresci.

Cresci em todos os sentidos e ainda me é doloroso admitir. Ainda machuca aceitar. E o que mais fere, na verdade, é que agora que aceito que cresci, vou ter que deixar de andar com os meus sapatinhos. Sabe, eles são uns 3 números menores do que o meu pé. Deve ser por isso que algo (que eu não sabia precisar o quê) me angustiava tanto nessa difícil caminhada pela vida: meus pés estavam apertados. Há anos esmagados por sapatinhos pequenos demais.

Mas eles são tão bonitos, penso, enquanto os acaricio. Pretos com lacinho branco. Sapatos lindos. Para uma criança. Em mim não cabem mais. Ou sou eu que não caibo neles, apesar de já ter cabido.

Deixo no chão os sapatinhos e sento ao lado deles, descalça. Meus pés estão tão, tão feridos. Há tantas marcas de calos neles. Afora que estão meio encolhidos, acanhados por terem ficado tanto tempo sufocados em uma realidade que a eles não se adequava mais.

"Você cresceu", me disse ele. Com um estalo, essa advertência quase quebra de vez meu coração já cambiante. "Está grande demais para usar esse sapatinho. Você não cabe nisso aí. Aceite".

Me desesperei, claro: vou ter que andar descalça pelos pedregulhos que há tanto maculam minha inocência? Vou ter que chutar, descalça, os infindáveis muros das minhas resistências? Chorei. Tentando me trancafiar dentro do meu peito, me afligi, me torturei diante dessa crueldade fatal.

Sorrindo aquele sorriso tão tranquilizador, tão cândido, tão seu, ele me mostrou sapatos novos. No momento em que pediu para que eu os colocasse, era como se a sua voz fosse composta de toda a doçura que quando criança tanto me alegrava.

Calcei. Lentamente. Brandamente procurei por cadarços: não havia. Naqueles sapatos nada me prenderia. Insegura, dei um passo, depois outro, certa de que não seriam do meu tamanho. Mas eram. São. São sapatos exatamente do tamanho dos meus pés. E são bonitos, veja! Como são lindos. Incrivelmente mais belos do que aqueles que não me serviam e que eu insistia em calçar.

Fico um tempo admirando meus sapatos novos, pensando, idiotamente, que sempre haverá sapatos novos para pés cansados. Quando levanto os olhos, ele já se foi. Me trouxe os sapatos e voltou para casa, ouvi dizer que mora bem distante daqui, parece que em outro estado, mas sinto que talvez seja proveniente de outro universo.

A vida tem disso: encontros e despedidas. Mas agora, com meus sapatos novos, posso jogar fora aqueles outros que, apesar de terem me acompanhado por tanto tempo, agora não servem e preciso aceitar, eu sei. Não posso me diminuir para entrar neles e tampouco podem eles aumentar de tamanho. Acabou. Fim. Morte. Mudança. Transformação.

Por um segundo cogito guardá-los em uma sacola para dar a alguém que calce aquele número. Mas não vou fazer isso. Primeiro porque sou tão apegada que é capaz de mesmo tendo sapatos novos, queira voltar a usar os antigos, atualmente imprestáveis para mim. E segundo porque estão manchados de sangue. O sangue de todos os ferimentos que suportaram por anos. Os ferimentos que eu me impus, por encolher meus pés. Então vou jogar fora, queimar, não tem outro jeito. Assim não volto atrás de uma realidade que finou-se e só eu não percebi.

Sei que, lá fora, os obstáculos continuam tão ou mais cruéis. Mas agora tenho sapatos novos.



09 Agosto 2018 10:36:00


Foto: divulgação/


Queria vos falar de esperança.

De trauma que hoje descansa.

Queria vos falar de sorriso enorme.

De melancolia que hoje dorme.

Queria, ah, Minha Sina,

Como queria,

Vos falar que até o pesar desanima.

Com o passar do tempo alucina;

Alucinado fica

Sozinho;

Sem fazer de nosso espírito

Ninho.

Queria vos falar de realização infinita.

De amor que nunca se irrita.

Queria vos falar de sonhos vários,

De bem-estar que não obedece

A calendários.

Queria vos falar que a existência é bonita, sim.

Queria,

Inclusive,

Desafiar quem ousasse dizer

O contrário

De mim.

Queria enfim,

Toda essa inútil inocência

Assim.

Lamento, porém.

Tudo se degenerou.

Nada de belo

Se mantém.

Lastimo, todavia.

A prosaica ingenuidade

Se transvia.

Com a Terra desse jeito,

Valorizando defeito,

Se conformando a exteriores

Unicamente

De

Efeito;

Prefiro mais nada

Falar.

Este, sem titubear,

É um momento em que

Se deve

Exclusivamente

Calar.



06 Agosto 2018 14:56:00




  Leitores e amigos, o dia de hoje é muito especial para mim. Se bem que "muito especial" não exprime convenientemente a alegria que sinto ao lembrar que há 3 anos, no dia 6 de agosto de 2015 o Jornal "A Semana" online publicava a minha primeira crônica. Hoje são mais de 150 textos publicados na coluna Nas malhas do cotidiano, dois livros surgiram daí e aviso que já podem esperar pelo terceiro. Desses três anos agradeço a Deus por cada momento de inspiração e, também, por cada hora de transpiração. Porque foi muito trabalho, muito aperfeiçoamento, mas, acima de tudo muita, mas muita satisfação por ter a oportunidade de me dividir um pouquinho com vocês durante todas essas semanas.

  Escrever me insere na vida com um significado mais profundo, escrever me significa. Escrever, aliás, me ressignifica a cada dia, a cada texto concluído e principalmente a cada etapa da escrita: criação, revisão, lapidação, nas quais entrego meu coração para que ele pulse tão intensamente a ponto de me fazer ter a certeza de que escolhi o caminho certo. Ou, ao menos, o caminho certo para mim, pois nenhum outro, até hoje, me trouxe tanto brilho nos olhos e tanta realização.

  Saber que a Literatura quando refletida e, sobretudo, a Literatura quando sentida transforma mentalidades, atitudes e corações me motiva nos momentos de desilusão com a humanidade, nos instantes de desesperança em relação a tempos melhores; me impulsiona a prosseguir escrevendo; me estimula a continuar me dividindo; me fortalece para seguir acreditando. Porque tudo que eu quero é um mundo mais humano; através da escrita sei que planto uma semente em solo profícuo (a alma dos leitores) e, além disso, as palavras vão aos poucos se metamorfoseando em um elo de ouro que aproxima e apaixona pessoas. Obrigada Jornal "A Semana", pela oportunidade. Obrigada leitores, por energizarem esse elo.  

Natália Sartor de Moraes.



02 Agosto 2018 12:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Rimar é difícil.  

Tentar responder a perguntas?

Um vício.

Falo tentar porque responder,

Que é bom mesmo,

Não consigo.

É apenas deambulação

A esmo.

Quanta infelicidade suporta um homem

Antes de enlouquecer?

De todas as sinas,

Suportamos a mais atroz:

Viver.

Quantos homens o sofrimento já fez perderem a sanidade

E ninguém percebeu?

Seria destino esse morrer

Plebeu?

Infelizes são apenas os suicidas?

Não sei.

Mas me parece que há bem mais mistérios

Nessas pungentes idas.

E quando um coração metafísico não vê razão?

Seria, a partir de então,

Tudo,

Tudo

Em vão?

Algo dentro de mim grita:

Esqueça!

Pare de se perguntar

Antes que você

Perca da mente toda a

Defesa.

Só mais uma,

E depois,

Depois,

Dúvida desapareça!

Quantos pedidos de socorro

Ainda serão ignorados até que

A tristeza decida ser democrática

E a todos

Enlouqueça?



26 Julho 2018 12:39:00


Leitores, durante algumas semanas irei divulgar poemas através desta coluna, em atenção ao aprofundamento da temática lírica, às solicitações de leitores e ao estilo do meu próximo livro. Ressaltando que as crônicas devem voltar em breve. Espero que apreciem.





GENTE GRANDE

Primeira coisa que aprendi na vida adulta:

Gente grande não chora.

Gente grande namora,

Gente grande perde a hora,

Gente grande penhora.

Mas chorar?

Gente grande não chora.


Gente grande nos negócios se expande,

Gente grande garante,

Gente grande quer que o dia renda: ande.

Mas chorar?

Gente grande não chora.


Desconfio, pois,

De que todas as vezes em que chorei

Parti-me em dois:

Adulta insanavelmente expatriada,

Criança plenamente justificada.


No final,

Sou infante, então.

Bem que sempre suspeitei,

A vida de gente grande

É pequena demais

Para o meu coração.



19 Julho 2018 13:30:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Algumas coisas pela vida nos fazem crer, nem que seja por segundos, que tudo ainda pode ser mais leve. 

Algumas coisas pela vida confortam, nos fazendo acreditar que mesmo problemas insolucionáveis (e principalmente eles) nos ajudarão a crescer.

Algumas coisas pela vida, singelas coisas pela vida, as mesmas que suavemente umedecem nossos olhos, nos mostram que ela - a vida - é muito mais que a dor pela dor.

Algumas pessoas pela vida, com um olhar triste, mas ainda assim esperançoso, desmontam a mentira grosseira que é a nossa solidão.

Algumas pessoas pela vida, com um silêncio, compartilham conosco suas aflições mudas, deixando claro que nossos ouvidos surdos assim o ficaram por angústias parecidas.

Algumas pessoas pela vida, com um sorriso, ainda que hesitante, mesmo que temeroso de ser ressuscitado, querem nos dizer que é possível. Que alguma saída existe.

Alguns lugares pela vida: aqui, lá, perto, longe, com simplicidades puras, cores e enigmas, cerejeiras e pombos, pôr do sol e noite fresca anunciam, munidos do respeito cuidadoso da trilha da liberdade, que nem tudo precisa ser tão grave, nem tudo tão desesperador. Que aqui, lá, perto ou longe a veia da alegria, aquela que estourou dentro de nós e foi morar em outro canto, pede para ser remendada.

Alguns lugares pela vida, calmos e despretensiosos, iluminados e serenos, registram a paisagem ideal para nossas almas trevosas e bravias. E são esses lugares que, quase sem querer, sem ter a intenção, zombam de nossos excessos.

Alguns lugares pela vida - sem perfume perfumados, sem alimento energizantes, sem ninguém companheiros - balbuciam senhas para nossas inquietudes; senhas que poderíamos ouvir, não fosse o zumbido desorientador do mundo.

Algumas coisas, pessoas e lugares pela vida conosco dialogam, brandamente clamam, libertados de malícia ou de desejos funestos, que morramos um pouquinho. Um pouquinho para o mundo e vivamos mais para nós.


12 Julho 2018 14:05:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Não posso me deter. É olhar para um caleidoscópio e me pergunto se cada minúsculo pedaço colorido fosse uma dor transformada.  

O vermelho um coração esmagado, agora reabilitado.

O azul um olho cego de injustiça, agora esperançado.

O preto um líquido visguento de amargura, agora adoçado.

O amarelo um Brasil mais rico em honestidade, alado.

Girando e girando, iludindo olhares, confundindo retinas, pulsando e ardendo, sofrendo e gemendo, sorrindo e fazendo. Caleidoscópio.

Queria eu que minha vida toda, nossas vidas todas e todas as nossas misérias fossem esse caleidoscópio mágico no qual por vezes me encerro, quando a angústia é demasiada e os fantasmas se contorcem.

Queria eu que o vermelho do sangue martirizado um dia fosse tão brando que cessasse de vazar mágoas e derramasse somente alegrias.

Queria eu que o azul turbulento de um céu eternamente chuvoso se abrisse um tantinho, um pouquinho que fosse, no turquesa dos meus sonhos. Queria, aliás, que o amarelo da lembrança doída se convertesse em felicidade luminosa para me recordar de um tempo em que eu ainda tinha sonhos.

Queria que o preto, ah, o preto! Tão poderoso preto, tão soturno preto, voltasse a simbolizar somente o medo do escuro que eu sentia quando criança e fosse largando pela estrada - estrada marrom das lágrimas apodrecidas -, todo esse embargo que escraviza a garganta, todo esse sangue pisado no meio do peito, todo esse horror da mente que grita.

Queria pedir - contemplando o caleidoscópio e fingindo que pode me conceder desejos - que o branco e o preto se unissem, se juntassem também ao amarelo e ao vermelho, e mesmo ao marrom e ao azul e a todas as raças e credos e cores e traumas e dores, e a todas as alegrias e berros de aflição, e às loucuras várias e ao desamparo amanhecido, e aos corações em chamas; tudo se unisse em um caleidoscópio colorido pelas pinceladas furiosas do ódio, do amor, da tristeza e do terror.

Se unissem, nesse imaginário caleidoscópio construído pela mente atormentada de uma cronista, todos os choros contidos, os clamores trancados, as ofensas agudas, as mágoas incuráveis e o medo. Principalmente o medo se unisse a tudo. O medo de enlouquecer a tudo se unisse e convertesse esse irredutível aperto no peito em milhares de pedacinhos coloridos.

Pedacinhos coloridos de dor transformada.


05 Julho 2018 08:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação) 

Ferimentos abertos nos mantêm cautelosos. Ferimentos abertos gemem. Ferimentos abertos sangram, ardem e impedem que outros sejam colocados no mesmo lugar. Enquanto a ferida estiver presente o motivo que a gerou também estará. Quanto mais tempo uma chaga persevera, mais tempo para consolidarmos o propósito de não reincidir em sua causa.  

Nossas fraquezas provocam ferimentos, a dor aumenta o efeito deles; o arrependimento, quanto mais amargo, mais eficaz; o remorso, quanto mais demorado, mais apto a nos transformar em sentinelas permanentes de nossos frágeis calcanhares.

Nem sempre é sábio destoar de axiomas, porém discordo daquele que diz que nos arrependemos mais do que não fizemos do que daquilo que fizemos. Para mim é a muleta dos insensatos; consolo único dos inconsequentes. Novas feridas são gestadas, diariamente, no útero bravio da atitude impensada, fecundado por um troglodita chamado impulso.

Feridas, muitas feridas, daquelas fundas, que machucam carne, expõem nervos e fazem verter o líquido vermelho da irracionalidade dificilmente se rasgam por abstenções. Feridas fundas se rasgam, sim, por ações tomadas no calor dos conceitos generalizados. Esses mesmos conceitos são incapazes da plena cicatrização. A plena cicatrização se efetua através de abstenções.

Abstenções, todavia, não deixam de ser atitudes calmas, estudadas, com minúcia calculadas: a água oxigenada para desinfetar, a pomada para cicatrizar e por fim ele, sempre ele, o curativo para evitar. O curativo em um ferimento é o símbolo máximo da abstenção: permita que o machucado respire, mas não admita que nada mais a ele se junte. Preserve-o.

Preserve-o ou vai demorar a fechar. Preserve-o ou pode infeccionar. Preserve-o ou nenhum cuidado vai bastar.

O curativo de nosso coração é a frieza, uma camada extra de gelo corta irresponsáveis excessos de calor. Julgados por sermos frios, muitas vezes nos sentimos culpados, mas ninguém nem imagina quantos metros de esparadrapo já aplicamos em nossos sangrentos corações. Olhando para nossos sorrisos forjados na necessidade de sobrevivência, ninguém desconfia o quão retalhado está nosso coração, o quanto ainda dói sempre que pulsa mais forte e esmigalha o filete protetor.

Para não ser acusada de contrariar em demasia o senso comum, me salvo a tempo do fogo eterno e levanto as mãos me redimindo, avisando que concordo com aquele ditado de que, quando existe um ferimento aberto, temos que redobrar os cuidados naquele local porque tudo converge para que seja ele o danificado por infortúnios.

No entanto, sendo inócuo colocarmos uma armadura diante do peito, ao menos não nos sintamos culpados por defender aquela camada gelada e salutar dentro de nós. Tudo isso para que, acautelados, não morramos esvaídos antes do tempo.



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