Curitibanos,
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17 Maio 2018 11:44:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Tenho o olhar treinado para flagrar o desencanto nas criaturas. E os dias de chuva, as nebulosidades frias e os desesperos quentes aguçam esse olhar. Esse olhar que não treinei por gosto. Esse olhar que o tempo treinou por mim. Esse olhar que a melancolia repetida cultiva.  

Meus passos, sôfregos; minha mente, incendiada; meus olhos, celebrados alunos do tempo, premiados pupilos da melancolia. Queria voltar para casa, a tempestade caçoando do guarda-chuva, gotas glaciais em minhas costas, meu rosto, minhas mãos; enregelando a pele, ensopando os cabelos.

Então a vi. Silhueta jovem, mas o rosto. Ah, o rosto. O rosto era velho, fatigado. Demorava-se numa vida que não a amava. Tinha a cabeça encostada na janela da sacada do segundo andar de um condomínio. Presumi que em dias de sol bem poderia estar sem o vidro a separá-la do lado de lá. Em períodos de chuva, o isolamento, pingos escorrendo, negror antecipado, nem cinco da tarde e vejam que escuridão. Dentro dela...mais?

Muitos graus de miopia e a chuva em profusão me impediram de ver se chorava. Muita empatia e a emanação da aura escurecida me fizeram deduzir que sim, se não pelos olhos, pelo coração. Chorava pelo coração, gritava pela alma e esperneava quieta. Funções corporais deslocadas. Definições saturadas.

Não olhava para mim. Mirava o chão, talvez lastimando as poças, mas mais provavelmente em uma premonição. É de minha verve romântica afirmar que nada no mundo conseguiria deixá-la mais bela do que naquele momento: protegida da chuva por um vidro gelado, sujo das lágrimas do céu, cabeça indecisa entre seu casulo e o lado de lá da janela, por isso nela apoiada, por isso por ela escorada, pedindo ao chão para que eternamente se enlaçassem. Rogando casamento ao noivo de tantas noites.

Não, é lógico que não consegui enxergar o mais importante: os olhos dela. Não vi e o lamento dessa ignorância me fez imaginar. Eram pretos. Vermelhos. Marrons. Eram tristes, resignados, irradiações de melodias de sua alma. Sons. Eram pedintes. Mendigos do chão.

Secos ou úmidos, choravam.

Aqueles olhos, antes de mais nada, muito acima de qualquer desconhecimento acerca deles, eram noivos. Noivos do pó, do solo árido tão recentemente consolado. Noivos da escuridão que se aproximava. Noivos da noite.



10 Maio 2018 09:02:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação/Canção Nova)

Modernidade para a correria, para o exterior, para tudo aquilo que é leviano. Para a estrutura? Quero um colo antigo, olhar compreensivo, das minhas inquietações amigo.  

Um coque antiquado moldava seus cabelos completamente brancos. Lábios finos davam forma a um sorriso sempre indulgente, cândido, de quem passou por muitas mágoas e soube conviver com elas. Nunca descobri a cor exata de seus olhos, se verde-escuros ou cinzentos, mas hoje acho que poderiam mesmo ser tão comuns quanto os meus, de um castanho puro e, na época eu, criança, atribuía mistério àquelas íris brilhantes.

Bastante delgada, com os ossos da face salientes e os joelhos estreitos, dizia ser magra de ruim, referindo-se ao dito a respeito da incógnita de quem come muito e não engorda. Só que de ruim ela não tinha nada, era a figura esbelta da compreensão. Era o anjo que acariciava minhas dores em vez de lastimá-las.

Desde pequena, ansiosos questionamentos acerca de insondáveis condutas (humanas?) já pulsavam dentro de mim. Ela, em sua calma peculiar, respondia a tudo comparando o homem e a natureza.

Lembro que em uma ocasião, enquanto ela bordava um pinheiro em uma toalha de banho, perguntei-lhe, ingenuamente, por que pessoas más conseguiam tanta coisa, por que gente malvada tinha sucesso.

Respondeu minha avó do coração, sem tirar os olhos do bordado, que tudo aquilo que começa errado pode dar certo por um tempo, mas só por um tempo. Que nada do que inicie de modo desonesto vai prosperar. Como aquela planta do desenho: se a raiz estivesse podre, todo o resto também estaria; embora não aparentasse, de início, mas fabulosa queda seria o destino inevitável de uma árvore deteriorada.

"Não se deixe enganar por tudo aquilo que vê", aconselhava. "Nem por batalhas frágeis onde o mal parece estar na dianteira".

Não sei se entendia na época. Hoje acho que compreendo, mas continuo não sabendo se concordo. Quero crer, lógico. Mas quase sempre o ceticismo é mais forte, e até o pessimismo me vence.

Noutro dia, a criança curiosa que eu era quis saber (enquanto ela plantava uma muda de alface no quintal) como se comportaria para descobrir a vocação, se já deveria ficar alerta a inclinações. Ela sorriu com delicadeza, como era de seu feitio. Hoje percebo que além de luminosa sabedoria, aquele breve movimento de lábios demonstrava complacência para com a minha inelutável alma angustiada. Eu tinha sete anos e queria determinar minha vida toda, meus passos todos, naquele momento.

Ela perguntou de que precisava a verdura para crescer. Se necessitava de ansiedade para se fazer grande, bonita e saudável. Pensei um pouco e repliquei, confusa, que não; que só carecia ser regada de quando em quando e de condições climáticas favoráveis; o resto aconteceria, naturalmente, no tempo certo.

Aquela senhora, a personagem que invoco para atenuar dúvidas abrasivas, concordou lentamente, com um aceno da cabeça idosa, enquanto se levantava e batia as mãos uma na outra, para expulsar um pouco da terra agarrada a elas. "O que significa: plante-se em solo fértil (caminho correto), e deixe as coisas seguirem o seu natural curso".

Naquela tarde, quando o sol dava um tímido adeus, de início de inverno, e um raio fraco deixou mais resplandecentes aqueles olhos enigmáticos, pressenti, um tanto triunfante, um tanto incomodada que, pela primeira vez, ela ficaria sem resposta a uma indagação minha. Eu, a criança que naqueles tempos nada sabia. Eu, a mulher que hoje nada sabe.

"E qual seria o caminho correto?", questionei.

Sem nem um vestígio de surpresa, passou as mãos de terra pelos meus cabelos, em uma tentativa lúdica de me impregnar de natureza e lançou, apontando o indicador para o meu peito:

"A trilha que você deve seguir começa com o sim do seu coração".

Ainda hoje meu coração me prega peças. Ainda hoje, em inumeráveis circunstâncias, ele não é contundente. Mas quando fico bem quieta e finalmente ouço o seu sim, lembro dela. E o sorriso reverbera em mim. Só então sei que rumo tomar.

O sim do coração.



03 Maio 2018 10:12:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Imagem: Divulgação)

Perguntada sobre a origem das inspirações literárias, Willa Cather respondeu: "Claro que Nebraska é um armazém de material literário. Todos os lugares são armazéns de material literário. Se um artista autêntico nascesse no chiqueiro e ali fosse criado, ainda seria capaz de encontrar muita inspiração para sua obra. Só é preciso ter olhos para ver".   

Como muitos neste momento estão fazendo, eu, quando li a declaração da escritora, por me divertir com a metáfora, comecei logo a me imaginar nascida e criada em um chiqueiro. Pode parecer cômico, a princípio, mas a verdade é que, na maioria das vezes, escritos surgem de sujeiras emocionais aglomeradas. Sujeiras revestidas de lirismo, mas em estado bruto apenas sujeiras: tristeza, desconsolo e solidão: o chiqueiro a que deve ter querido se referir Cather.

Possivelmente eu, nascida em um chiqueiro, faria jus à mencionada categoria de suína literata e escreveria no barro as minhas ideias. Ideias que, como agora, surgiriam da observação dos meus iguais, da vivência e também das ponderações advindas dos livros que, claro, o dono do chiqueiro faria a gentileza de providenciar para mim.

Mesmo nascendo em um chiqueiro podemos nos inspirar, como espirituosamente afirmou Cather. Imagino onde ficaria localizado o meu: nos fundos do terreno, bem longe de qualquer contumaz atividade humana. Percebo como de fato os porcos são criaturas solitárias e dispõem de tempo e espaço para pensar e criar. Talvez então Willa não tenha utilizado a metáfora à deriva, mas ao constatar que o homem preserva mais semelhanças com o porco do que admite.

Criados em chiqueiro, a proximidade do chão imundo, a alimentação de restos e até os sons fatalmente emitidos por nós nos tornariam mais conscientes de nossa genuína condição, da qual os humanos apenas tentam se fazer superiores mas, quando têm coragem de reconhecer seus destinos, notam um tanto escandalizados que todos baixaremos ao chão imundo, seremos os restos e - se tivermos sorte - minguados sons ressoarão por nós.

Nossos habitats, grandes ou pequenos, pouco ou muito povoados, ocupados por raças mais ou menos prestigiadas, são o que sempre foram e jamais deixarão de ser: chiqueiros. Fonte de inspiração para Cather, nivelador universal para mim. Quando a arrogância começar a enevoar nossas vistas, possamos lembrar de que seremos eternamente os representantes do nosso chiqueiro; pois, como finalizou a escritora, endossando o que alguém já disse há mais de dois mil anos "só é preciso ter olhos para ver".



26 Abril 2018 09:08:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Imagem: Divulgação)

Que sempre existam sacadas. Que um cronista jamais se divorcie da dele. Que seu circunspecto descaramento seja inteligente o bastante para examinar a todos sem ser notado.  

Da sacada vejo o garoto - mochila nas costas, tédio na cara, passo acelerado - rumo à universidade. Chamo de garoto, mas há poucos anos era eu indo para a faculdade, e me achava grande.

Da sacada contemplo a jovem mãe chegando com as crianças, o maior caminhando à frente, a menor correndo para alcançar. Dois enormes pacotes de salgadinho nas mãos da mãe. Sorrisos de antecipada satisfação nos olhos gulosos dos filhos. Felicidade garantida. Sódio e gordura umbilicalmente conectados à plenitude. Continue Deus abençoando a inocência.

Da sacada detecto a chegada do vizinho pilotando o carro novo. Assobia contente o afortunado. Pena (ou Providência) que nos acostumamos rápido às coisas e a alegria fugaz da mais recente aquisição em breve cederá espaço ao desconsolo resignado da impreterível rotina. Riquezas miseráveis exigindo seu quinhão.

Da sacada ouço um casal discutindo. De novo. É a terceira vez nessa semana. Em tempo algum a mãe do marido foi tão achincalhada ou a reputação da esposa tão questionada. Utensílio de vidro sendo quebrado. Limpa você, va ... lorosa companheira. Que um cronista possa servir de censor das palavras, quando preciso.

Da sacada é possível, ainda, ver o que não acontece, ouvir o que ninguém disse, sentir cheiro de história para contar, tocar o imponderável e atiçar o paladar com o sabor das mentiras legítimas.

Da sacada namoro o horizonte de rubi e nele projeto meus próprios moinhos de vento.

Da sacada me torno impermeável em face dos gemidos dos meus fantasmas.

Da sacada me resguardo dos aguilhoantes efeitos da solidão.

Da sacada cada brisa, cada gente, cada céu é um pretexto para lembrar que,

Da sacada,

Todo acontecimento é tema,

Todo balbuciar,

Fonema,

Todo brilho indistinto,

Poema.



19 Abril 2018 09:02:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

A mágoa é uma das consequências mais destruidoras de causas atrozes como a humilhação, a rejeição e, a pior de todas: a deliberada indiferença. A mágoa, antes de se tornar um sentimento, é um pensamento, uma ferida na mente, que depois mancha o coração. Porque, sim, a mágoa é uma ferida, uma mancha, uma dor, uma doença.  

Abençoados sejam os que nunca se sentiram magoados com ninguém. Superiores são vocês, espertos. Sagazes, pois se imunizam contra o erro e a ruindade alheia, não permitindo que lhes ofendam. Deixam que quem preparou a poção mortal a tome sozinho. Previnem-se do contágio.

Eu, fraca que sou, aproveito a ocasião para me tornar um pouco mais forte ao admitir uma grande fragilidade: me sinto magoada, sim. Como todos os magoados que se esforçam para melhorar, procuro perdoar. Se consigo? Nem sempre.

Na verdade, penso que aquele que causa sofrimento deva mesmo é se entender com a sua consciência, que é bem mais sábia do que eu; porém, temo que ainda mais intransigente.

Claro que eu acredito no poder do perdão, na supremacia dele e lógico que eu queria, sinceramente, seguir os passos de Cristo e pedir que Deus perdoe aqueles que não sabem o que fazem. O problema é que nem sempre acredito que os que magoam não sabem o que fazem. Então, meu pedido a Deus em relação a eles se torna menos nobre que o de Jesus; ainda assim, não é mau, apenas justo: "Pai, deixe que sua consciência o julgue. E que ela decrete se ele sabia ou não o que estava fazendo".

Não, não sou um primor de bondade. Inclusive, creio que justiça e bondade estejam frequentemente em dissonância. Entre ser boa e ser justa, prefiro a última opção.

Aqueles que nos magoam merecem a nossa isenção. Foram eles que criaram o problema. Eles que resolvam. Talvez esteja lavando as mãos - diferente de Pilatos que, quando o fez, sabia estar condenando um inocente; pois não podemos comparar a maldade de quem fere com a pureza de Jesus - mas certamente não darei os beijinhos falsos de Judas.

A consciência de muitos já está acusando neste momento, eu sei. Alguns até pararam a leitura para coçar a cabeça. Por que você foi fazer aquilo, hein? O que a pessoa te fez para ser tratada daquele jeito? Por que você não pode mais contar com ninguém? Magoou a todos os seus amigos de verdade e eles se afastaram? Ou será que você precisa mesmo ficar sozinho para bater um papo salutar com a megera... a tal da consciência? Ela vai te dar uns puxõezinhos de orelha, se o erro foi pequeno. Se foi mágoa brava, pode ser até que você peça para sumir, mas não esqueça: arrependimento não mata. Vai ter que viver e reparar.

Talvez nem seja apenas por autoconservação que nos distanciemos daqueles que nos magoam, mas para não estar perto para testemunhar o amargor do arrependimento deles.

Porque nós, os magoados bonzinhos, vendo-lhes o sofrimento, iríamos querer apaziguar de alguma forma. Só que ninguém se livra da própria consciência. Então seria inútil.

No final, concedo o perdão. Meu desejo mais profundo é sempre o de conceder o perdão. Infelizmente, não é certo que sentimentos feridos acompanhem palavras de harmonia. Entretanto, àqueles que me magoaram, garanto: não é pela minha espada que serão machucados. Prefiro que minhas mãos continuem limpas (ao contrário do buraco cheio de lixo que vocês têm no lugar do coração). Meu perdão vocês têm. Agora acertem-se com suas consciências.



12 Abril 2018 10:21:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/

Para mim, a quantidade de livros lidos deve sempre superar a de textos escritos. Pelos motivos óbvios e universais, mas também pelos meus - idiossincráticos e pessoais.  

Ler para ter sustentáculo cultural. Ler para ter amparo gramatical. Ler para ter assunto e referencial. São os motivos óbvios e universais. Mas foi a razão que adotei a efetiva guia a esse mundo particular. O pretexto? Fugir. Fugir e refugir. Fugir e fugir de novo. E de novo. A quantidade de livros lidos deve superar a de textos escritos porque fugir dói bem menos do que se encontrar.

Batido, eu sei. Clichê dizer que leitura é refúgio. Só que o refúgio de que tantos falam deve ser, no fundo, um refugir. Um fugir sempre. Fugir de novo. E de novo.

Encontrar-se machuca. Encontrar-se sangra. Encontrar-se, por vezes, mortifica. Porque encontrar-se é olhar para si. Encontrar-se é admitir os fracassos, reviver o passado, se culpar, se repreender, se condenar, se redimir. Encontrar-se é dialogar com o presente: chorar, pensar, se desculpar, se remodelar. Encontrar-se é vislumbrar o futuro: se ansiar, se projetar, sonhar, sondar, odiar, amar. Encontrar-se é odiar amando. Encontrar-se é ter-se para si, se doando.

Me encontro quando escrevo. Aí, quando leio, me perco novamente. Fujo do que encontrei. Nunca gosto do que encontro. O que encontro não é o que programei. Entretanto, a viagem de ida e volta, de se perder e se encontrar, de fugir e se examinar vicia. Preciso fugir e refugir para me manter viva. Preciso encontrar para me justificar na vida.

Jornada massacrante é escrever. Tão massacrante quanto essencial. Caminho penoso e dolorido. Coração cansado e sofrido. Espírito lavado e absolvido.

Encontrar-se... Prazeroso? Longe disso. Encontrar-se: angustioso. Encontrar-se: sorriso na face? Nada. Encontrar-se: das ilusões desenlace.

Fugir encanta. Fugir alivia. Fugir: alma leve caminha. Fugir é necessidade básica. Tanto quanto encontrar-se. Fugir e refugir. Fugir: refúgio. Encontrar-se: calabouço. Liberdade e prisão. Vida e morte em um momento. Emanações doces do sofrimento.

Diante de todas as irracionais evaporações literárias que se desprendem dessa mente quando tento me encontrar, deduzam vocês: a quantidade de livros lidos deve superar a de textos escritos? Enquanto avaliam, me perdoem a deserção.

Por hoje vou sumir.

Já me encontrei que chegue.

Agora vou fugir.



05 Abril 2018 11:03:00


(Imagem: Divulgação) /


Dizem que o sofrimento ensina. Falam até que os grandes seres humanos só atingiram importância de caráter através do sofrimento. Ouço ainda que sofrer fortalece. Antes de sofrer, concordamos com tudo. Sim: sofrimento ensina, nos faz crescer e fortalece. Mas quando sofremos, e então sofremos de novo, voltamos a sofrer e penetramos um círculo de dor, para entrarmos em outro e em outros sucessivamente, é que passamos a desconfiar da missão salvífica do sofrer.  

Penso que o sofrimento não ensine: empurre-nos goela abaixo situações com as quais não sabemos lidar e das quais não temos como sair. Situações entaladas machucam, paralisam, enlouquecem. Situações entaladas são sofrimentos. Sofrimentos que não ensinam: ferem.

Muitos dos ditos grandes seres humanos iluminaram a humanidade e destruíram a si mesmos. Muitos dos grandes seres humanos mataram os próprios corpos. Outros assassinaram antes as almas. Sofrimento não molda caráter: aniquila vidas.

Talvez, entretanto, eu concorde que sofrer fortaleça. Fortalece a mágoa, fortalece o desânimo, fortalece a descrença. Sofrer fortalece a indignação, o senso de injustiça, o anseio de vingança, o ódio. E quando se odeia com todas as energias não há espaço para mais nada. A palavra não é força. A expressão correta seria que o sofrimento embrutece.

Sofrer demais nos deixa amargos, abatidos, desesperançados. Uma alma gemendo não é forte. Uma alma gemendo é doente.

Quem não sofre, julga. Quem não sofre, ou não sofreu o suficiente para lembrar, pensa que mau humor é birra, acha que tristeza é falta do que fazer, diz que isolamento é presunção. Quem sofre, sabe.

Quem sofre sabe que frustrações desmoronando são incapazes de gerar bom humor. Quem sofre sabe que tristeza arraigada debilita, estilhaça e mata; sabe que qualquer atividade do mundo, para uma alma cansada, a tornaria mais exausta, mais enferma. Quem sofre sabe que isolamento é armadura. Proteção contra mais sofrimento.

Covardia? Quem não sofre diz. Quem não sofre diz que é covarde o isolado. Mas quem não sofre jamais será a armadura de que precisa aquele que sofre. Quem não sofre tem respostas sempre certas. Quem não sofre deduz o remédio para curar aquele que sofre: idêntico ao que ele (que não sofre) toma.

Discordo, portanto, de todas essas teorias românticas de que o sofrimento ensine, embeleze caráter e fortaleça. Todavia, ele pelo menos nos transforma em pessoas mais humildes (nem que seja na marra), e solidárias (nem que seja por excesso de surras da vida). Quem sabe o quanto dói o sal em uma ferida exposta não joga na do outro; quem já sentiu perfurações de centenas de adagas construídas por mágoa, não o deseja para ninguém.

Quem sofre, mas quem sofre de verdade, não quer as intempéries nem para os inimigos. Quem sofre, se imaginar qualquer um (amigo ou inimigo) sofrendo igualmente, torce para que não se concretize na vida do outro a erosão interna que acontece dentro de si. Porque quem sofre, mas quem sofre de verdade, entende que somos todos feitos da mesma carne frágil, do mesmo sangue estigmatizado e do mesmo coração agonizante.



29 Março 2018 08:58:00
Autor: Natália Sartor de Moraes



Quando se mora em condomínio o que mais se escuta, em qualquer hora do dia ou da noite, é o barulho de portas sendo abertas e fechadas. Em condomínio fechar a porta significa entrar em casa, descansar, estar a sós para energizar e, no período seguinte, apto para iniciar tudo de novo. Na vida a porta fechada é mais dolorosa. Na vida a porta fechada é o não, a batida na cara, o fim brutal. Na vida a porta fechada é a sensação de lacre eterno.  

Em condomínio a porta aberta é o sair por aí. Às vezes sair com destino determinado, às vezes sem rumo. Mas sempre sair. Deixar por instantes, horas ou dias o aconchego em direção à busca. Na vida porta aberta pode indicar passagem larga (aquela condenada por Cristo), que nos exortava à procura do acesso estreito. Na vida a porta aberta com frequência apregoa facilidades, pseudoliberdade. Porta aberta: o sim presentemente instigante, futuramente decepcionante.

Outra coisa que se ouve muito: o tilintar de chaves. Já até sei, só de ouvir, quais vizinhos usam - e quais não usam - chaveiro. Há dias em que, ficando bem quieta, posso distinguir respirações estressadas e bufos de exaustão. Me sinto satisfeita quando detecto um assobio de felicidade (mas isso é raro).

A chave de cada porta só será capaz de destrancar aquele apartamento, abrirá apenas um universo. Uma chave na vida, liberando uma angústia que seja, automaticamente nos conduz a vários mundos de ouro resguardados pela serenidade. Tivéssemos a sorte de encontrar uma chave para a vida e talvez os bufos de inquietação diminuíssem. Tivéssemos a sorte de achar uma, uma chavezinha, e quem sabe as canções mais alastradas fossem a dos assobios de alegria.

Entretanto, amiúde morremos sem encontrar a chave. Pior: sem nem ao menos buscá-la. Culpa de quem? Do tempo. Coitado do tempo, tudo culpa dele (ou de sua falta). Procurar a chave? Hoje? Não dá tempo! Preciso correr, tenho que me apressar, vou perder a hora. Tempo, seu demônio. Diabo de ponteiros. Esse bandido se transforma - sem ter quem o defenda - no único responsável por nossa insatisfação.

Só que aí chega o dia em que lembranças se queimam, como a igreja de interior que pegou fogo na semana passada. Ciclos se fecham. Memórias enfraquecem. Gente morre. Então nos culpamos. Agora sim, culpamos quem merece: nós mesmos. Porque o tempo, diabo de ponteiros, por fim demonstra que não cometeu crime passível de júri. Nós somos os homicidas dolosos da nossa própria vida.

Pudesse eu escolher, pediria uma porta aberta e estreita, uma fechada à aflição, uma chave da vida em mãos humanas e um minuto de plenitude nos braços do tempo.



22 Março 2018 10:56:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Como é numerosa a quantidade de escritores a deixar diários. Romances em forma de diário; desassossegos que assumiram jeito de diário; outros diários que não foram escritos para conhecimento geral, mas assim aconteceu, porque ninguém respeita o desejo de um morto, sobretudo quando o morto teve talento, pois aí o infeliz indivíduo era do mundo e não dele mesmo.  

Interessa se o mundo nunca secou suas lágrimas? Interessa se, pelo contrário, o próprio mundo gerou a maioria delas? Não, não importa. Importa é que o morto era talentoso e abandonou escritos secretos que, afinal, foram triunfantemente descobertos e publicados.

Deve ser por isso que quem escreve em profusão tem a cautela de destruir aquilo que não quer ver publicado; porquanto aprendeu que mortos não têm vontade, salvo aquela expressa em testamento. Se bem que, ficando decidido que a humanidade pode prosperar com a divulgação do escrito, danem-se as razões do pobre coitado que escreveu e pediu para não ser exposto.

Fosse eu rabiscar alguma coisa em um diário, seria detonada pela crítica literária: não tenho nada de original para falar sobre a minha vida. Ela é o mesmo punhado de desgostos que tantos outros antes de mim já relataram. Ela é a mesma imensidão de perguntas sem respostas que muitos já levantaram. Ela é o diário inacabado que cansei de escrever.

Ainda assim, fosse eu escrever um diário, rasgaria cada página depois de finalizada, talvez por loucura, mas mais provavelmente para simbolizar o que acabou acontecendo com os meus sonhos.

Entre garranchos destroçados, penso que falaria a respeito das idealizações fracassadas da vida, acerca das inumeráveis rotas que me iludi antes de trilhar e depois voltei atrás, sem ter exatamente para onde retornar. Voltei por voltar. Voltei por saber que aquele caminho não me levaria a nada, embora o retorno tampouco fosse capaz de fazê-lo. Voltei e me perdi. Contudo, se continuasse, ficaria também perdida. Todas as escolhas, em vão. Decepção nasceu predeterminada. Me debati de teimosa. Repensei a trilha tão somente para dar trabalho aos neurônios que, assim como eu, cansaram cedo.

A cada trajeto percorrido, percorrem minha mente (em velocidade muito maior) questionamentos existenciais, os quais têm a mesmíssima importância da vontade de um morto. Todavia, incapaz de controlar as ebulições mentais e emocionais, enquanto analiso cada itinerário, me pergunto: para onde isto está me conduzindo? Me deixa mais feliz? A primeira indagação influi pouco: para qualquer lugar, a estrada sempre será repensada e, por fim, descartada: condição inalienável da insatisfação que trago dentro. Se a primeira vale pouco, a segunda vale nada: para que querer saber se me deixa mais feliz se nem ao menos desvendei o que é felicidade?

Inutilidades devidamente cedidas à lixeira, restam futilidades para descrever. Como futilidades não merecem ser descritas, ou quem sabe seja eu que não tenha nenhuma vocação para eternizá-las, sinto informar, mas não vai sobrar nada do meu diário.

Meu diário frustrou.

Retrato de minha vida,

Que errou.

Meu diário é folha branca e,

Assim como eu,

Desencantou.



15 Março 2018 09:22:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

A trigonometria é o ramo da Matemática que, além de estudar a relação entre os lados e os ângulos do triângulo também tem uma missão fundamental: estabelecer o elemento desconhecido com base nos já conhecidos.  

Avaliando a exatidão da matéria constato que o elemento desconhecido seja o principal problema a ser solucionado, tanto na Matemática quanto na vida. Só que, ao contrário dos resultados peremptórios da ciência, na vida nem sempre encontramos elementos conhecidos. Por vezes, na vida temos a clara impressão de que tudo é desconhecido, de que não temos X para somar a X e chegar a alguma conclusão.

Se dois X somados levam à solução, na vida dois X somados levam à confusão. Fator conhecido: nascemos e morremos. Fatores desconhecidos: tudo entre esse meio tempo. Ao passo que na Matemática um triângulo é composto de três lados, na vida três problemas podem engendrar mil consequências. Se na Matemática uma raiz quadrada é o número que, multiplicado por ele mesmo, revele o resultado pretendido, na vida uma confusão multiplicada por ela mesma origina ansiedade a qual, presumo, seja bem mais complicada que a raiz quadrada de qualquer número.

Com condescendência observo crianças endoidecidas, na suave ilusão de que a maior celeuma de suas vidas será a Matemática, no alegre engano de que decorar a tabuada é tarefa árdua, no desespero abençoado de que o Teorema de Pitágoras vai ser o responsável por fulminar-lhe os corações.

Queria eu voltar àqueles tempos, crer em angústias miúdas, me debater em águas incapazes de afogar. Queria eu quebrar a cabeça para encontrar o real valor de X e quanto será Y elevado à centésima potência. Queria eu voltar a acreditar que a tabela do 7 vai me matar e que, se ela não o fizer, a do 8 o fará, com sucesso. Queria eu praticar um milhão de vezes a fórmula de Bhaskara e todas as outras, desde que, em troca, a vida aceitasse ser um pouquinho mais branda, um tantinho menos cruel. Queria eu ter o coração arrasado por fórmulas e não por decepções.

A Matemática pode até parecer difícil, mas com justa dedicação todos conseguimos atingir a nota mínima para passar de ano. Na vida nada se garante. Na vida, mesmo muita dedicação pode ser inócua. Na vida, o fato de termos que descobrir os elementos desconhecidos com base no também desconhecido por vezes estrangula nossas emoções e acinzenta a razão, porque, na vida, ao contrário da Matemática, não temos uma calculadora para nos salvar.



08 Março 2018 11:40:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Deduzimos significações sem saber a fundo no quê se basearam. Exemplo disso é o termo Heresia o qual, para mim, estava relacionado a pecado, desvio, afronta. Até ontem, quando descobri que a palavra vem do grego e significa escolha.  

A partir da construção da nomenclatura, todo aquele que escolhesse seguir ou criar ideias diversas da Ortodoxia (crença que se pretende a verdadeira), era considerado herege. O conhecimento realmente nos liberta, pois só hoje compreendo a razão da minha curiosidade acerca das personalidades consideradas hereges. Eram hereges porque escolheram.

 Escolheram acreditar de outro modo. Escolheram não seguir a manada. Escolheram agir diferente. Escolheram pensar: poderia ser que não existisse apenas uma vertente de conhecimento ou religião. Escolheram, enfim.

Talvez então eu não estivesse errada ao acreditar que Heresia quer dizer pecado. Afinal, até hoje, tantos séculos depois das massacrantes condenações dos hereges, ainda amargam as consequências aqueles que decidem simplesmente escolher. Aqueles que decidem escolher se sentem pecadores, se sentem repelindo uma trilha supostamente correta. Aqueles que decidem escolher picham com as suas atitudes dissidentes um emblema tão antigo quando reprimível: HEREGE.

Escolhem por quê? Não seria muito mais fácil endossar o que já está posto? Não seria melhor apoiar o partido estabelecido, a rede de televisão mais assistida, a conduta consagrada? Para que criar? Por que desviar? Por que se negar a ser robotizado pelos padrões?

Tantos hereges por aí. Artistas, por exemplo: hereges todos. Quem decide adotar um ritmo de vida próprio, sem se preocupar com o que as estatísticas e opiniões alheias pretendem evidenciar: herege. Experimente ser idealista ao invés de materialista: herege. Muito herege. Só que hoje a palavra Heresia, por ser expressão de outras épocas, perdeu a superioridade e foi transmutada para Teimosia. Continua rimando, pelo menos. E segue tão reprovável quanto.

A sociedade estabelece conceitos e esses, embora nem sempre adequados para a vida de todos, acabam se cristalizando como se o fossem. Espécie de Paralogismo: um raciocínio equivocado que, pela aceitação, se fixa. Nós devemos apoiá-lo sem questionamentos, rechaçando as dúvidas, pois são elas que conduzem à mudança através da escolha, através da Heresia.

Compreendo muito pouco sobre decisões acertadas, mas entre Heresia, Ortodoxia e Paralogismo, sempre vou escolher a verdade.



01 Março 2018 00:00:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


Está bastante doente. O avanço dos anos parece ter irrefragável culpa no progresso da enfermidade. Fui à sua casa dia desses e ela, com impressionante bom humor, referiu-se à última consulta médica: 

- A primeira coisa que o doutor me perguntou foi a idade. E para idade não tem remédio na farmácia.

De fato. Para idade inexiste remédio na farmácia. Ou em qualquer outro lugar. Só que a velhice, sozinha, é incapaz de trazer os tumores da alma. A velhice pode até ser prelúdio do fim de um corpo; de um coração, nem sempre. Um coração morre bem antes.

Um coração morre quando visitado por males para os quais também nunca se encontrará remédio.

Um coração morre sufocado por enquistamentos de desgosto. Um coração morre por ataques de bactérias resistentes, chamadas mágoas. Um coração morre por intoxicação de palavras silenciadas. Um coração morre por afogamento em lágrimas seguradas. Um coração morre de estrangulamento nas mãos da tristeza. Um coração morre de derrame: frustrações, quando derramadas repetidamente, matam um coração.

Todavia, um coração não fenece apenas por excessos, também expira por faltas. Morre um coração de indiferença, o chamado sopro. Doença grave essa, maquinada pelo isolamento. Morre um coração de apatia - o tanto faz ainda fará muito: assassinará um coração. Morre um coração de vazio. O nada é ácido que deforma um coração; depois o despedaça, vagarosamente, até que não sobre nem mais um pedacinho para doer. Morre um coração de saudade, de ausência mal-resolvida, de machucado ardente, de ferida incicatrizável.

Entretanto, às vezes, sintomas enfermiços demoram a matar um coração. Ele então sofre anos, décadas; frações de século amargando, doendo, gemendo e assim se suicidando, dia a dia. Porque um coração se suicida.

Se suicida um coração quando seus esforços são vãos,

Quando a esperança dele se esqueceu,

Quando o horizonte escureceu,

Quando a alegria desapareceu,

Quando a angústia chega

A passo traiçoeiro e anuncia,

Com hálito tétrico: sou eu.

Um coração adoece. Um coração morre. Um coração é assassinado. Um coração se mata. Um coração maltratado caminha a uma destruição bem mais pungente do que aquela a que conduz a idade.

Quando me levantei para sair, ela disse:

- Têm dias que a gente só quer alguém para conversar. Alguém que nos diga que se não está tudo bem, vai ficar.

"Vai ficar", pensei. Desde que a moléstia não esteja alojada no coração, sempre fica tudo bem, qualquer que seja o desfecho. Neste ou em outro mundo.

Se seu corpo logo for, torço para que não se quebre antes o coração.



22 Fevereiro 2018 00:06:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Sentença que todo adulto sabe prolatar, dirigindo-a sem remorsos a uma criança prestes a abandonar tal condição: é feio chorar.  

É feio chorar é lema. Slogan impreterível. Chorar incomoda quem está próximo, embora alivie aquele que chora. Mas alguém se importa com a vítima das próprias emoções?

Chorar enquanto pequeno até se tolera, mas depois de uma certa idade? Como assim, adultos têm sentimentos? Adultos têm SENTIMENTOS? É feio chorar se o motivo for esse palavrão.

Chorar por joelhos ralados, queixos cortados, quedas e arranhões, tudo bem, é legítimo. O corpo sente dor, afinal. A alma? Se sente, não deve admitir. Nunca. Entornar nossas recrimináveis lágrimas, sozinhos, já é inconfessável. Desmanchar-se em público, então? Ridículo.

Fato é que desmanchamos, padecemos, desmoronamos. Viramos bicho quando a dor interna é muita: uivamos, rangemos os dentes, gememos, arranhamos e, sim: damos patadas, literalmente.

Ninguém vai achar estranho uma menina explodir a garganta de tanto gritar e se lamentar por não ter ganhado a mais recente versão da Barbie de Natal. Ninguém vai repreender um menino por chegar em casa chutando a porta porque seu time de futebol da escola perdeu. Natural.

Angústia funda, contudo, deve ser ocultada. Para sofrer se encerre no quarto e ligue o som para ninguém ouvir suas lamúrias. Se as lágrimas escoarem em horário impróprio (o que significa: sempre que alguém estiver por perto), minta que estava cortando cebola. Todo mundo vai adorar fingir que acredita nessa desculpa tão antiga quanto o sofrimento. Você mente, eles fingem. E camuflados nos tornamos todos. Ótimo. Melhor que chorar, inclusive.

Represas não devem romper. Os outros são intimidadores diques, impedindo que desastres aconteçam. Porque hoje a catástrofe maior não está atrelada ao (des) governo, nem à (des) ordem, muito menos à (des) educação dos jovens.

O caos, de verdade, transparece nos olhos e umedece o rosto. O caos, de verdade, inicia no espírito suportando tribulações que não devem ser ditas, muito menos vertidas. O caos são as emoções gotejantes. O caos só tem uma característica bonita, se parece com o mar: líquido e salgado.

Sensibilidade, sinônimo de feiura.

Emoção, tão terrível quanto a candura.

Consternação? Mal que não se cura.

Chorar é muito feio. Um horror.

Ainda que seja assim:

Eu quero conviver com gente feia, por favor!



15 Fevereiro 2018 09:28:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Ilustração/Divulgação) /


Todos fazemos uma triagem emocional, de tempos em tempos. É um filtro que nos previne de continuar aglomerando lixo dentro de nós no futuro, e também um tipo curioso de peneira que deixa escorrer a sujeira entesourada.  

Nessa seleção natural (necessária para a sobrevivência da espécie) sempre haverá quem não queira jogar nada fora, quem considere tudo indispensável, aqueles que se acostumaram aos tropeços repetidos e não veem nenhum mal em prosseguir cometendo-os. Mudar, para eles, é subestimar a essência.

Para eles, higienizar a alma como saneador precedente para nutrir aspirações mais consentâneas à própria evolução, se torna trabalhoso demais. Então fica-se com a podridão, acostuma-se à podridão. Aqueles que são suficientemente hipócritas até se convencem de que existe um aroma floral na podridão, se esquecendo de que flores têm espinhos e de que, quando plantas secam, devem ser substituídas por outras, frescas.

 Há almas que vivem no outono. Há almas que rejeitam a floração na primavera. Há almas que não aproveitam o inverno das origens para construir um verão mais bonito, cheio de coloridas flores e novas verdades. Há almas que se agarram a certezas arcaicas. Almas da podridão. Almas ressecadas.

Não mudam porque é feio mudar. Nobre é permanecer o mesmo. Sempre o mesmo. Inteligente é renegar Darwin. Sábio é enraizar no íntimo o conformismo com as fraquezas de caráter. Ter personalidade significa dizer que é assim e não muda. Se não pelos outros, nem por si. Se não pela evolução da espécie, nem pelo progresso da mente e muito menos pela grandeza do coração. Que coração, que nada. Vá perambular sentimentos na esquina, cronista. Vá ser poeta de séculos passados, quando ainda confiavam no poder da transformação através de coisas belas, por meio de almas perfumadas.

A evolução regrediu?

Quem se recusa ao arrependimento dos erros argumenta que eles não foram em vão, pois tudo vale a pena desde que se converta em história para contar. E o que deveria servir para o reaproveitamento de experiências infelizes, em uma lapidada arquitetura tencionando constituir atitudes refletidas, vira pretexto para a paralisação evolutiva: sinônimo de ignorância.

Só que a ignorância custa caro. Quando algo nos custa caro é no mínimo sensato que reconsideremos se de fato vale a pena.

Meu parecer para a exitosa evolução das espécies?

Cultivar a mente.

Cultivar a alma.

Cultivar flores.

E não ignorância.



08 Fevereiro 2018 09:17:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


Tudo aquilo que na aparência encanta, afigura correção e em posterior análise capta-se o equívoco, nota-se a falsidade do objeto, o valor superestimado do objetivo: sofismas da vida.

Caminho hipoteticamente certo porque atraente, porque belo, porque afamado. Depois, a decepção, o sofisma desmascarado, argumentos especiosos não mais convencem: foi engano, e agora? Era tudo mentira: trajeto, expectativas, projeções e até o exterior começa a acusar máculas antes ocultas.

Mas já errou a direção, já se embrenhou na ilusão. Então é melhor seguir por uma estrada falsa ou não ter estrada para seguir?

Opções: 1) terminar de percorrer a trilha. Consequências: dor, arrependimento, culpa, amargura. 2) Ficar parado no meio do caminho. Consequências: angústia, tédio, vazio, ansiedade. Há quem diga que ainda se pode enxergar outro lugar, caminhar por outra fantasia. Eu lhe perguntaria como; quando o véu da frustração toldou a vista.

Acaba-se alimentando o sofisma. Deixa-se levar pela rua falsa e afronta-se a si mesmo. Mente-se para si. Porque para o mundo está bom. Para o mundo a estrada é boa. O mundo não quer saber como você se sente caminhando por ela. O mundo não se importa que você não mais ande, e sim se arraste. Para o mundo você está sendo sábio, e se para o mundo é assim, você continua, apesar de o seu interior estar gemendo, ainda que o coração se contorça em mágoa.

Você contra você... quem é?

Aí se arrasta. Mas se arrasta com elegância, porque, no pseudocaminho, sempre vai se deparar com aqueles que gostam de você pelo que você está e não pelo que você é.

E você vai se ausentando de você. Com o tempo, não mais sabe quem é. Tenta conversar com as pessoas, na vã esperança de que elas devolvam a essência que perdeu. A essência que a sarcástica rua te roubou. Mas elas não te devolvem. Elas te incentivam. Te incentivam a permanecer no erro. Porque elas só conhecem as vontades do mundo e não as suas.

Então se afasta também das pessoas. Chega o momento de se questionar: o que te distancia dos outros? Mais significativo: o que te distancia de você?

Vai para os livros. Usa o livro como oráculo. Abre em uma página aleatória, na sedenta intenção de encontrar a saída. Não encontra naquele dia. Nem no outro. No outro tampouco. Na semana seguinte também não. Nem no mês seguinte. Quando chega o novo ano, endoidecido, continua a utilizar livros como oráculos, mas nada.

No seu desgosto, sempre vai haver aquele da frase puída (mas que ele considera original): a resposta está dentro de você.

Só que dentro de você existe apenas confusão e descrença. Ansiedade e esgotamento. Dentro de você, o caos. Dentro de você, a falta de resposta.

As circunstâncias te empurram para quê? Amoldar-se ao mundo. Esquecer-se de si. Porque só então estará cumprindo o dever, ainda que isso lhe custe a felicidade.



01 Fevereiro 2018 08:56:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


Estranho como as situações mais triviais patenteiam verdades profundas. A vida tem das suas artificialidades propositais, diria um amigo.

Conjeturando acerca das artificialidades propositais, perlustrava a geladeira e o armário com o intento de descobrir algo que pudesse às sacolas de lixo se juntar. Na minha artificial e profunda busca, encontrei: uma caixinha de chá. Vazia. Uma caixa de leite. Vazia. Um pacote de suco. Vazio. Aliando as findadas uniformidades à lembrança de um prato quebrado, imaginei todos aqueles nadas berrando para mim que tudo acaba: o perecível e o pretensamente durável. O visível e o invisível. Assim, quero crer que se a alegria falece, a tristeza também decida um dia pegar o rumo da adversária, nem que seja só por inveja.

Tudo foi se amontoando. Quietudes se transformando em lixo. Fins transmutados. Vozes que faliram. O cheio consumido. O nada comprovado. Imortais senhas do jamais desvendado. A felicidade, egoísta, guardando só para ela seu segredo. A agonia, gregária, jubilosa por ser privilégio universal.

Não sei se vocês também filosofam enquanto procuram por inutilidades para jogar fora. Se filosofam, vão entender o quanto uma fruta azeda me deprimiu. Sim, porque as frutas, assim como as pessoas, azedam quando são sistematicamente deixadas de lado.

Impossível contar (que bom que não tentamos) quantas vezes nos sentimos a caixa vazia, o pacote oco, a figuração do menoscabo virando refugo, o entulho microscópico se misturando a outros melancólicos rejeitos, a fruta que com amargura se permite apodrecer. Quando nos damos conta de que variados setores de convivência - sob o pretexto cínico de nos desbravar - nos sugaram, cada um a seu modo, um a um se fartaram, até que nos secaram, furtaram a nossa fé e, no final, deixaram um vácuo para (não) contar história.

Talvez não fosse por esta estrada nublada que o amigo quisesse que meus pensamentos trafegassem; mas hoje, e Deus permita que seja apenas hoje, tudo (inclusive as vitimadas artificialidades propositais) me levam a isso.

Perdão.

Assinado: Uma Caixa Vazia.



25 Janeiro 2018 10:16:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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(Foto: Divulgação)/


Tem em todo lugar: roda de amigos, reunião de família, confraternização, festa. Sobrevive também nos momentos de tédio compartilhado: o chato da foto.

O chato da foto é aquele que sempre leva sua indefectível maquinazinha para tirar centenas de fotinhos. Irritantezinho como ele só. Hora de comer: esperem antes de atacar, preciso tirar uma foto da mesa repleta. As pessoas estão conversando? Lá vai ele enfiando a máquina na cara de todo mundo (isso quando não pede para pararem de falar e fazer pose para a foto).

O chato da foto segue a exortação de Maquiavel: acha bem melhor ser temido do que amado. Porque o chato da foto é temido. Ah, como é temido. Quando ele chega, todo mundo já vai se esquivando. Mas quando é só chato, tudo bem, se releva, coitadinho dele, não tem mais o que fazer e vai azucrinar os outros, ok, pobrezinho, precisa estar sempre atulhando o Face de novidade, paciência. Só que quando o chato é chato e ainda por cima metido a engraçadinho, aí desanima de verdade.

O chato metido a engraçadinho sempre tem uma coletânea de clichês na ponta da língua, esperando para libertá-los, exatamente como liberta seus flashes medonhos: digam xis. Digam ma-çã. Sorriam para a foto, eu disse SORRIAM!. Parae, parae, uma fotinho, uma fotinho. Esse momento merece foto (só que, para ele, até brisas anais merecem foto). Sorriu? Uma foto. Chorou? Uma foto. Deu um soco no fotógrafo? Uma foto.

E é foto e mais foto. E dá-lhe foto. E é foto para lá e para cá. Foto de gente mastigando, de gente com o dente sujo de alface (aliás, "alface" é uma palavra que o chato engraçadinho pede que todos repitam na hora da foto em conjunto), de gente com a boca aberta (o chato adora flagrar as pessoas com a boca aberta e os olhos fechados). São fotos de olhos, de mãos, de pés... e como gosta de tirar foto do pé dos outros, nunca vi.

Quando se reúne o pessoal para a abominável foto do grupo (a maioria vai arrastada pelo chato da foto que, além de infernizar, também está pronto para agredir qualquer um que se recuse a participar do retrato por ele tão ansiado), o chato tem mil recomendações, que só podem ter sido cunhadas na conferência mundial dos chatos da foto, pois são sempre idênticas, em qualquer parte do globo: os mais baixos na frente, os mais altos atrás (sim, o chato comete muitas redundâncias). Você, mais para o lado! (o chato fala com empáfia, acha que manda. O chato sempre acha que manda). Você se abaixa. Hei, você lá do fundo, olha para mim. Você, aqui na frente, sorria, vai querer parecer triste na foto? Não faço questão de ficar triste na foto, mas bem que eu gostaria que o chato captasse a minha vontade de fuzilá-lo. Só que o chato é chato, o chato percebe apenas o que quer.

Não falo dos fotógrafos profissionais, aqueles que registram paisagens fabulosas, episódios históricos ou mesmo que constroem memórias quando contratados ou convidados para tal. Esses são artistas. Esses são dignos de admiração e lisonjas. Falo do chato mesmo: aquele que enche a paciência, que não tem nenhum talento especial, que porque quer ter álbuns e mais álbuns, obrigada todo o mundo a fazer parte do seu sonho egoísta.

O filósofo polonês Zygmunt Bauman criou o termo "modernidade líquida" para caracterizar as relações efêmeras e superficiais. Dialoga o tema em pauta com a perspicácia do pensador: porque a foto forçada é superfície. A foto forçada não é arte. A foto forçada não tem nenhuma elegância real. A foto forçada não dá gosto, assim como nada do que é forçado dá gosto. A foto forçada pelo chato é moderna, mas de uma modernidade líquida: sem substância, frívola. Vazia e podre.

Se falo do assunto com algum azedume é porque tenho raiva do chato. Tenho raiva, mas simultaneamente tenho pena. Essa compaixão pelo chato brota do fato de ele ser tapado o suficiente para não notar o quanto as pessoas o evitam, o quanto as pessoas, com o tempo, dele se distanciam; também porque não aproveita nada realmente, ele só se preocupa com ela, sua musa, sua deusa, sua dama, sua rainha: a foto.

Pudesse eu dizer uma única coisa ao chato da foto (sem que ele metesse uma câmera na minha cara), seria: muitos podem te adorar, mas eu te acho um mala.



18 Janeiro 2018 00:02:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Aprecio o silêncio interior; afinal, sempre gostamos do que é raro. A quietude da mente é inusual para mim, mas o silêncio dos sentimentos, esse, sim, é raro, raríssimo.  

A verdade é que não apenas aprecio, não apenas gosto, eu venero o silêncio, sou uma herege confessa no quesito idolatria a esse inelutável deus. Tenho um receio colossal de tudo que possa dele me afastar. E talvez somente o sono traga sossego completo (quando o subconsciente não me desafia através de sonhos e pesadelos).

Foi esse o principal motivo (o temor imbatível dos estrépitos emocionais) por que escrever não se demonstrava um ofício viável.

Explico: desde muito cedo a escrita despertou em mim - ou eu despertei para ela. O fato é que não foi chamado longínquo, vaga intuição; foi arrastamento, as palavras me pegaram à força: era escrever ou escrever. Escrevia, pois. Mas não era assim, uma rotina sã. Aos treze anos, acordava de madrugada para derramar no papel as ideias que efervesciam, isso quando elas me deixavam dormir.

Não quero parecer ingrata, mas já me revoltei, sim. Elas, as ideias, não tinham disciplina, eram crianças mimadas me pedindo atenção a todo o momento. E eu detesto falta de disciplina.

Minha relação com as palavras se tornou de afeição e fúria, insônia e estafa, sensação de estar no meu mundo e de perceber que o meu mundo era louco demais para mim. Se escritores não dormem, não quero ser escritora, pensava, ingênua que era. Hoje sei que não é o escritor que elege o ofício, é o ofício que o elege.

Portanto, Mario Vargas Llosa está com a razão quando afirma que um escritor não escolhe seus temas, são seus temas que o escolhem. Só que a questão toda não é assim tão simples; os temas são mais educados, às vezes pedem licença, mas o ato de saturar-se das letras se impõe: um escritor nunca deixa de escrever; ele pode até, por inúmeros motivos, jamais publicar uma linha de suas produções, jamais mostrar para alguém, jamais admitir que foi raptado pela escrita, mas parar definitivamente de esboçar seus desvarios, não.

Atualmente, sou uma sequestrada feliz. Continuo idolatrando o silêncio interno, mas me conformei com sua raridade a cada dia mais evidente. Já até consigo adiar as viagens emocionais, mas elas não aceitariam dilação indeterminada. Conversamos tão civilizadamente quanto as situações permitem e elas - as viagens - com frequência ainda exigem que eu leve papel e caneta para vivificar as incursões a que dão causa, me poupando quando acham que mereço.

Há meses, parece que meu grau de merecimento vem decrescendo com visibilidade espantosa. Quem sabe seja porque resolvi revelar o segredo de que escritores não dormem.



11 Janeiro 2018 10:22:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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De todos os perversos sons, o que mais me intimida é o do tempo rugindo em meus ouvidos. Esse leão inexorável em geral é silencioso, mas se fico bem quieta posso ouvi-lo rugindo para mim; só que às vezes é pior. Às vezes, ele ruge dentro de mim.

E é esse mesmo tempo, faminto insaturável que busco, não sei exatamente por que razão, resgatar.

Ainda ontem meus pais recordavam, divertidos, sobre o dia em que feri o indicador na chama de uma vela. Queimei o dedo - feio, segundo eles - e nem lembro mais. Devia ter dois ou três anos e o pai me advertiu, dramatizou a cena de um dedo machucado, assoprou o hipotético ferimento em si mesmo e com um pouco mais de esforço teria criado uma segunda cabeça, tudo para afastar minha atenção da vela.

Sem sucesso. Não desisti. De acordo com o relato dele, meu olhar hoje perdido, na época concentrado e flamejante, brilhou ainda mais com a chama da vela. Eu a queria para mim. Queria aquela luz. Quem sabe pressentia que iria precisar dela nas escuridões que viriam me espreitar. Então, a despeito de toda a admoestação - verbal e teatral -, meti o dedinho de criança naquele fulgor alaranjado.

A consequência vocês devem saber: grande bolha e berreiro. Mas tristeza, tristeza mesmo, dessas que achatam as ideias e afogam o coração, duvido muito. Queimadurinha de nada. Fogo amigo. Luz que ainda busco.

Não tenciono com isso dizer que não fui teimosa, metida e até meio burra. Fui mesmo. Tudo isso e mais. Só que, se toda a teimosia, infantil arrogância e inocente burrice resultassem num dedo queimado e na fantasia de iluminação - interna e eterna -, eu faria novamente.

Na verdade, percebo que quero aquela vela de novo. Aquela chama de novo. Aquele berreiro de novo. Desde que a vela me traga delírios puros; a chama, esperança; e o berreiro, ah, o berreiro silêncio para o grito imorredouro das minhas aflições. Desde que tudo isso aquiete o rugido do tempo. E se o preço a pagar for o de um dedo lesado, tudo bem. Que seja assim: eu topo, vamos lá, a vida é isso. A vida é encarar danos menores enquanto ainda há oportunidade, antes que os maiores se sobreponham.

Minha vela de novo. Eu quero a minha vela de novo. Falo isso com presunção, é claro. Aquela não era a minha vela. Não tinha nenhuma marca customizada nem fora presente especial, nada disso. Foi apenas uma vela comum que a família usou para tentar brilhar quando faltou luz. Benditas sejam as velas - as materiais e as metafísicas - porque, se toda ausência de luz pudesse com elas se resolver, não haveria sórdida escuridão nesses becos ocos em que por vezes se transformam os nossos corações.

Queria resgatar o tempo. Para isso, poderia começar resgatando a vela, a chama de dulcificadas ilusões. Luz que alimenta. Brilho que cura. Poderia iniciar o resgate de todas as emoções que ele, o próprio tempo, sequestrou de mim. Resgatar o tempo que é o sequestrador de si mesmo.

Não creio que consiga tão cedo. Ao menos não antes que os terríveis gemidos do leão irrefreável me ensurdeçam. Com isso, com esse frágil acreditar, há quem diga que a minha falta de fé é perturbadora. Pode ser. Mas uma valente migalha de esperança ainda tenho para pedir duas coisas para a vida: minha vela de novo e que o tempo pare de rugir nos meus ouvidos.



04 Janeiro 2018 00:05:00
Autor: Natália Sartor de Moraes

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Você passa anos memorizando fórmulas matemáticas e leis da Física;

para um dia perceber que a vida não se explica de maneira exata, tampouco calculada.

Você gasta décadas em bancos de ensino, quilômetros de folhas escritas, milhões de caracteres e insanas milhares de provas para conseguir um diploma;

para um dia se dar conta de que a sabedoria nasce na simplicidade.

Você almeja popularidade, riqueza e influência;

para um dia compreender que os seus desejos se realizam, todos, simultaneamente, na estreiteza larga de um abraço.

Você se envaidece quando consegue afirmar algo com certeza incontestável;

para um dia entender que a verdade é uma miragem e que o território das dúvidas é o único confiável.

Você lamenta supostas derrotas e pensa ser inatingível por aparentes virtudes;

para um dia vislumbrar a beleza sutil do aperfeiçoamento esculpido na dor e a fragilidade de máscaras de giz.

Você trabalha vertiginosamente para alcançar faustuosa posição;

para um dia observar, fraco, apático e sozinho, um filme de cenas repetidas em preto e branco simbolizando o seu sucesso louvável... e vazio.

Você ri, sofre e vive;

para um dia perceber que riu menos do que precisava, sofreu mais do que deveria e viveu apenas quando:

 Não tentou tornar exatos os caminhos naturalmente incertos;

absorveu a plenitude da simplicidade;

valorizou a estreiteza larga de um abraço;

duvidou de certezas;

rememorou tropeços com lágrimas de saudade umedecendo um sorriso de dever cumprido;

agradeceu à maturidade por admitir a inconstância da trajetória.

E quando riu.

Riu até a barriga doer, os olhos lacrimejarem e você se sentir ridículo. Pois só quem admite a própria tolice aprende que passar por tolo é melhor do que ser infeliz.

Mas você também vive quando sofre.

Aquele sofrimento que amarga a boca e aperta o peito, faz verter angústia salgada e líquida dos olhos e embaça a vista também constrói o caráter, enrijece a vontade e costura o tecido do altruísmo.

 Porque se sabe, através de experiências edificadas no próprio coração, que a vida é um emaranhado de sonhos e desejos,

de pureza e dor,

de sorrisos e asperezas,

de carícias e decepções,

de beijos, abraços e indiferença.

De tudo e nada.

De apostas e riscos.

De aflições.

De regozijos.

E tudo isso, por quê?

E nada disso... por que não?

Porque sempre haverá uma pergunta e a falta de uma resposta.

Ou uma resposta enérgica e equivocada para uma pergunta séria e infundada.

Porque sempre haverá.

Sempre haverá um fim e um começo.

Uma verdade falsa e uma falsidade verdadeira.

Sempre haverá tudo.

Nunca haverá nada.

O Sempre e o Nunca se digladiando como por toda vida combateram, ou como jamais se enfrentaram.

Você ou Eu?

Sempre ou Nunca?

Sim ou Não?

E... por quê?



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